

Coleco "Livros de bolso 
 (vol. I)

Ana Karenna 

LEO TOLSTOI

Publicaes Europa-Amrica

Traduo de Joo Netto 
Capa: estdios P. E. A.


Direitos reservados por Publicaes Europa-Amrica, Lda.

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Editor: Francisco Lyon de Castro

PUBLICAES EUROPA-AMRICA, LDA.
Apartado 8
2726 MEM MARTINS CODEX


Edio n. " 40 702/2561
Execuo tcnica: Grfica Europa, Lda., Mira-Sintra - Mem Martins

LEO TOLSTOI

ANA KARENINA I

Publicaes Europa-Amrica 

LEO TOLSTOI 


Nota biogrfica

O conde Nicolaevich Tolstoi nasceu em 1828, na propriedade de sua famlia, pertencente  aristocracia rural. rfo muito cedo, foi educado por parentes e preceptores franceses.
Em 1844 matricula-se na Universidade de Caz, que era um centro social para os jovens aristocratas. A pouco se dedica ao estudo, passando o tempo em descuidada felicidade.
Depois de alguns anos de dissipao e prazer, passados em Moscovo alista-se como oficial numa unidade de artilharia. Nela integrado, percorre o pas.
A sua primeira narrativa, intitulada Infncia (1852), e publicada numa importante revista da poca.   Em 1857 demite-se do exrcito e viaja pelo estrangeiro.
Casa, em 1862, com Sofia Bers, uma jovem inteligente, filha dum mdico de Moscovo que lhe d treze filhos.
Estabelecido na grande propriedade familiar, dedica se  gesto das suas propriedades, mas dilacera o a situao deplorvel da classe camponesa e decide modificar a sua forma de viver, comendo e vestindo pobremente, enquanto distribui avultadas esmolas.
Na sequncia desta crise interior abandona a famlia deixando uma carta onde se confessa incapaz de levar uma existncia de grande senhor (da qual alis j abandonara a pose).
A viajem que empreendeu duraria apenas quatro dias, tendo como desfecho a morte do escritor no quarto do chefe da estao de Astapovo, onde foi acometido por congesto pulmonar. Era o dia 14/11/1910. O mundo foi abalado pela notcia da sua morte tendo se apercebido de imediato que perdera um dos grandes da inteligncia. 
Das numerosas obras do autor sobressaem Guerra e Paz (1864/66), Memrias de Um Louco (1874) Ana Karenina (1875/77) Confisso (1882) Sonata a Kreutzer 1889).
Ressaltam de todas as suas obras a anlise psicolgica, a densidade de sentimentos, a riqueza de caracteres, o inconfundvel estilo, que o colocam entre os grandes da literatura universal.


PRIMEIRA PARTE


CAPTULO I


Todas as famlias felizes se parecem, as infelizes no.
Havia grande confuso em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber das relaes do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe que no podiam continuar a viver juntos. Durava j h trs dias a situao, para tormento no s do casal mas tambm dos demais membros da famlia e da criadagem. Todos em casa se apercebiam de que j no havia razo alguma para manter aquele convvio, e que as pessoas que por acaso se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa no saa dos seus aposentos, havia trs dias que o marido no parava em casa; as crianas corriam de um lado para o outro, como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra colocao; na vspera, o cozinheiro abandonara a casa  hora do jantar; o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.
No terceiro dia aps a altercao, o prncipe Stepane Arkadievitch Oblonski - Stiva, como lhe chamavam os ntimos - acordou  hora do costume, ou seja, s oito da manh, no no quarto conjugal, mas no escritrio, deitado no div de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do div, como se quisesse adormecer de novo, e abraou se ao travesseiro, apertando o contra a face. De repente, porm, sentou se e abriu os olhos
"Como? Como era?", pensou, lembrando se do sonho que tivera "Como era aquilo? Ah, j sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, no, no era em Darmstadt; era na Amrica. Sim, no sonho Darmstadt ficava na Amrica. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal e as mesas cantavam // Mio Tessoro! Talvez no fosse // Mio Tesoro, mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres."
Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou se a cismar. "Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito mais coisas magnficas, mas no podia descrev-las nem por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava." Ao perceber um raio de luz que penetrava por um dos lados da cortina, retirou alegremente os ps do div, procurando com eles, no cho, as chinelas de couro dourado que a mulher lhe oferecera no ano anterior (presente de aniversrio) e, costume seu de h nove anos, sem se levantar estendeu o brao para o roupo, geralmente dependurado  cabeceira da cama. Ento lembrou-se subitamente do motivo por que no dormira no quarto conjugal; o sorriso desapareceu-lhe do rosto, e franziu as sobrancelhas.
- Ai, ai, ai! - queixou-se, ao lembrar-se do que sucedera. De novo se lhe representavam na memria todos os pormenores da altercao com a mulher, a posio insolvel em que se encontrava e as culpas que tinha, e isto era o que mais o atormentava.
"No! No me perdoar, no pode perdoar-me. E o pior  que sou o causador de tudo, embora no seja culpado. Essa a tragdia", pensava.
- Ai, ai, ai! repetia, desesperado, ao recordar os momentos mais dolorosos da discusso.
O momento mais desagradvel fora aquele em que, ao regressar do teatro, alegre e satisfeito, com uma bonita pra para a mulher, no a encontrou nem no salo nem no escritrio, coisa que o surpreendeu, mas no quarto de dormir, na mo o maldito bilhete que tudo lhe revelara.
Dolly, a mulher sempre diligente, cheia de preocupaes e to limitada, segundo pensava Oblonski, sentara-se com o bilhete na mo e olhava-o num misto de clera, horror e desalento.
- Que  isto? Que  isto? - perguntou-lhe, mostrando o bilhete.
Ao lembrar o ocorrido, o que mais lhe doa, como sempre acontece, no era tanto pelo facto em si, mas o modo como respondera  mulher.
Naquele momento sucedeu-lhe o que sucede a qualquer pessoa obrigada a confessar algo vergonhoso. No soube encontrar expresso adequada  situao. Em vez de ofender-se, negar, justificar-se, pedir perdo ou mesmo mostrar indiferena - qualquer coisa teria sido melhor, apareceu-lhe de sbito, na fisionomia, involuntariamente ("Reflexos cerebrais" pensou Stepane Arkadievitch, que era dado  fisiologia), o sorriso habitual, bondoso e estpido. No podia perdoar-se sorriso to absurdo. Diante desse sorriso, Dolly estremeceu, como se sentisse uma dor fsica, e, com o seu arrebatamento peculiar, rompeu numa torrente de palavras duras, acabando por sair, correndo, do quarto em que estava. Desde ento no mais quisera ver o marido.
"Aquele estpido sorriso  que teve a culpa de tudo. Mas que fazer ? Que fazer ?", perguntava-se Stepane Arkadievitch, sem encontrar resposta.
CAPTULO II
Oblonski era sincero consigo mesmo: no se sentia arrependido e no tinha remorso disso. Aquele homem bem parecido, de trinta e quatro
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anos, de temperamento amoroso, no podia, realmente, arrepender-se de no estar enamorado da mulher, um ano apenas mais nova do que ele, e me de sete filhos, dos quais cinco vivos e sos. A nica coisa que lamentava era no ter sabido esconder melhor os seus sentimentos. Mas compreendia a gravidade da situao e deplorava o que acontecera, tanto por Dolly e plos filhos como por ele prprio. Talvez tivesse conseguido ocultar melhor as suas faltas, se pudesse adivinhar que causariam tamanho efeito sobre Dolly. Nunca pensara claramente no problema, embora imaginasse, um tanto vagamente, j h algum tempo, que a mulher desconfiava da sua infidelidade, sem no entanto atribuir grande importncia ao facto. Era, inclusive, de opinio que a esposa, esgotada, envelhecida, sem beleza nem atributos, conquanto simples e boa me de famlia, devia ser condescendente por esprito de justia. Ora, acontecera exactamente o contrrio.
"Oh,  terrvel, terrvel!", exclamou Stepane Arkadievitch, sem descobrir uma soluo para o caso. "E que bem vivamos at a! Dolly sentia-se feliz e contente com os filhos, eu no a incomodava em coisa alguma, deixava-a inteiramente  vontade com as crianas e a casa. Evidentemente, no estava certo que "ela" fosse a preceptora dos nossos filhos. No estava certo!  grosseiro e vulgar fazer a corte  preceptora que nos educa os filhos. Mas, que mulher!" E recordou vivamente os astutos olhos pretos e o sorriso de Mademoiselle Roland.
"Enquanto esteve em nossa casa, no entanto, no houve nada, nada. E o pior  que ela j... Parece que tudo aconteceu de propsito! Ai!"
Resposta, s aquela, que a vida costuma dar a todas as questes complexas e insolveis: viver o dia a dia, isto , divertir-se. J no podia faz-lo atravs do sonho, pelo menos enquanto a noite no voltasse; j no podia tornar a ouvir a msica que as mulheres garrafinhas cantavam. S lhe restava distrair-se com o sonho da prpria vida.
"Veremos isso mais tarde", disse consigo mesmo Stepane Arkadievitch; e, levantando-se, enfiou o roupo cinzento forrado de seda azul e deu um n no cinto de bolas. Depois, respirando a plenos pulmes, encheu-os de ar, aproximando-se da janela com o habitual andar resoluto das suas pernas tortas, que com tanta ligeireza lhe transportavam a vigorosa figura, afastou a cortina e tocou a campainha. A chamada acudiu imediatamente o velho escudeiro Matvei, que lhe trazia a roupa, os sapatos e um telegrama. Atrs dele vinha o barbeiro com os respectivos apetrechos.
- Trouxeram os processos do tribunal ? - perguntou Stepane Arkadievitch, pegando no telegrama e sentando-se diante do espelho.
- Esto em cima da mesa - respondeu Matvei, mirando o amo com uma expresso entre interrogativa e solcita, e da a pouco acrescentou, com um sorriso malicioso: - Vieram umas pessoas da parte do cocheiro.
Stepane Arkadievitch no respondeu, limitando-se a encarar Matvei atravs do espelho; pelo olhar que trocaram percebia-se que se entendiam.
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O olhar de Stepane Arkadievitch parecia perguntar: "Para que me falas nisso? Porventura no sabes?"
Matvei enfiou as mos nos bolsos da jaqueta e avanou um p, fitando o amo em silncio, com um imperceptvel sorriso bondoso.
- Disse-lhes que voltassem no domingo e at l no incomodassem o senhor nem se preocupassem sem necessidade - articulou o criado, que, ao que parecia, preparara a frase.
Stepane Arkadievitch percebeu que Matvei quisera brincar e tambm que lhe prestassem ateno. Rasgando o telegrama, leu-o, corrigindo com sagacidade os diversos erros de palavras, e o seu rosto iluminou-se.
- Matvei, amanh chega a minha irm Ana Arkadievna - disse ele, detendo, por momentos, a gorda mo reluzente do barbeiro que lhe abria uma risca rosada nas longas suas frisadas.
- Graas a Deus - exclamou Matvei, dando a entender, com esta resposta, que compreendia to bem como o patro o significado daquela notcia, isto , que Ana Arkadievna, a irm querida de Stepane Arkadievitch, podia cooperar na reconciliao do casal. - Vem s ou com o marido ? - perguntou.
Stepane Arkadievitch, que no podia falar porque o barbeiro lhe escanhoava o lbio superior, ergueu um dedo. Matvei olhou para o espelho e moveu afirmativamente a cabea.
- Sozinha. Preparam-se-lhe os aposentos do andar de cima?
- Comunica a Daria Alexandrovna e prepara os aposentos que ela mandar.
- A Daria Alexandrovna ? - repetiu Matvei, como que hesitante.
- Sim. E pega no telegrama. Mostra-lho.
"Quer experimentar!", pensou Matvei, compreendendo. E limitou-se a dizer: - Muito bem.
Stepane Arkadievitch, lavado e penteado, comeou a vestir-se quando Matvei penetrou de novo no gabinete, em passo vagaroso, as botas rangendo um pouco, e o telegrama na mo. O barbeiro entretanto sara.
- Daria Alexandrovna manda-lhe dizer que se vai embora. Que o patro faa o que quiser, isto , o que quisermos - disse, rindo-se apenas com os olhos. E, enfiando as mos nos bolsos, inclinou a cabea para um lado, de olhos fitos no cho.
Stepane Arkadievitch conservou-se calado durante um momento. Depois aflorou-lhe ao belo rosto um sorriso bondoso e um tanto compassivo.
- Ento, Matvei ? - disse, movendo a cabea.
- No se preocupe, meu senhor; tudo se "arrumar" - respondeu o criado.
- Se "arrumar"?
- Sim, senhor.
- Achas? Quem est a? - perguntou Stepane Arkadievitch, ao ouvir o frufru de um vestido atrs da porta.
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- Sou eu - retrucou uma voz feminina, firme e agradvel. E o rosto marcado de bexigas de Matriona Filimonovna, a aia, assomou  entrada.
- Que h, Matriona ? - inquiriu Oblonski, aproximando-se da porta.
Apesar de Stepane Arkadievitch ser considerado culpado perante a mulher e ter conscincia disso, quase todos em casa, inclusive a aia, a melhor amiga da Daria Alexandrovna, estavam do lado dele.
- Que h? - repetiu com uma expresso triste.
- V pedir perdo  senhora outra vez. Talvez ela lhe perdoe. Sofre muito; faz d. Alm disso, tudo anda transtornado nesta casa.  preciso ter pena das crianas. Que havemos de fazer? Quem corre por gosto...
- No me receber...
- Seja como for, tente. Deus  misericordioso. Reze, meu senhor, pea a Deus.
- Est bem, vai-te embora - exclamou Stepane Arkadievitch, corando repentinamente. - Deixa ver a minha roupa - acrescentou, dirigindo-se a Matvei, enquanto despia o roupo, decidido.
Matvei j tinha na mo a camisa, aberta em forma de coleira, e soprava-lhe ciscos invisveis. Com manifesto prazer enfiou-a no bem cuidado corpo do patro.
CAPTULO III
J vestido, Stepane Arkadievitch perfumou-se, ajeitou os punhos da camisa e, num gesto habitual, guardou nos bolsos os cigarros, a carteira, os fsforos e o relgio de corrente dupla com berloques. Sacudiu o leno e, sentindo-se limpo, perfumado, so, fisicamente contente, apesar de tudo, dirigiu-se, balanando-se ligeiramente, ora num p ora no outro, para a sala de jantar, onde j o aguardavam o caf, as cartas e o expediente do tribunal.
Leu a correspondncia. Uma das cartas era muito desagradvel, escrevia-a o comerciante que se propunha comprar um bosque das propriedades de Dolly. Enquanto no se reconciliassem, impossvel falar em tal assunto. Nada mais desagradvel do que misturar interesses materiais no grave problema da reconciliao. Repugnava-lhe a ideia de que aquilo o compelisse a procurar um meio de fazer as pazes com a mulher.
Quando terminou a leitura das cartas, Stepane Arkadievitch pegou nos processos, folheou-os rapidamente, garatujou algumas notas com um lpis enorme e, pousando tudo de lado, comeou a tomar o caf, ao mesmo tempo que abria o jornal da manh, ainda hmido de tinta.
Stepane Arkadievitch era leitor de um jornal liberal, no extremista, antes da tendncia poltica a que pertencia a maioria. Embora, na -
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realidade, no lhe interessasse nem a cincia, nem a arte, nem a poltica, defendia firmemente as mesmas opinies da maioria e do jornal, s mudando de ideias quando todos o faziam, ou melhor, no mudava de ideias; estas  que se transformavam imperceptivelmente, por si mesmas.
Stepane Arkadievitch no escolhia as suas tendncias nem os seus pontos de vista; estes  que vinham at ele, tal como acontecia no que respeitava ao feitio do chapu e ao corte das roupas: usava o que estava na moda. Em virtude de pertencer a determinado crculo social e de necessitar de alguma actividade mental - coisa que geralmente se desenvolve na idade madura - era-lhe to imprescindvel possuir pontos de vista prprios como usar chapu.
A razo que o levava a preferir a tendncia liberal  conservadora,  qual pertenciam tambm muitas pessoas do seu nvel social, no era o facto de aquela tendncia lhe parecer a mais sensata, mas apenas por ser a que mais se ajustava  sua maneira de viver. O partido liberal era de opinio de que na Rssia nada ia bem e, com efeito, Stepane Arkadievitch tinha muitas dvidas e positivamente o dinheiro no lhe chegava para nada. Segundo ainda o mesmo partido, o casamento era uma instituio caduca, cumprindo reform-lo. Realmente, a vida familiar poucos prazeres proporcionava a Stepane Arkadievitch, obrigando-o a mentir e dissimular, o que contrariava a sua natureza. Por outro lado, o partido sustentava, ou melhor, dava a entender que a religio era um freio para a parte inculta do povo e Oblonski, que no podia assistir a qualquer cerimnia religiosa, por mais breve que fosse, sem se queixar dos ps, no conseguia entender o porqu de todas essas palavras terrveis e enfticas acerca do outro mundo, quando neste se podia viver to bem. Ao mesmo tempo, como gostava de gracejar, s vezes desconcertava as pessoas pacficas com o argumento de que, se algum se vangloriava da sua raa, no havia razo para se agarrar a Rurik e renegar o macaco, o primeiro ancestral. Eis, pois, como a tendncia liberal se transformara num hbito de Stepane Arkadievitch, que apreciava o seu jornal como apreciava o cigarro depois de comer, graas  ligeira neblina que lhe provocava na mente, leu o artigo de fundo, em que se dizia ser completamente intil, no nosso tempo, vociferar que o radicalismo ameaava devorar os elementos conservadores e que o Governo tinha obrigao de tomar medidas que esmagassem a hidra revolucionria; mas, pelo contrrio, "segundo a nossa opinio", dizia, "o perigo no reside na pretensa hidra revolucionria, mas na firmeza da tradio e no progresso reprimido", etc. Tambm leu outro artigo sobre economia, em que eram citados Bentham e Stuart Mill e se lanavam crticas ao Ministrio. Graas  sua peculiar agilidade mental, compreendeu o significado de todas as aluses: de onde vinham e contra quem, ou qual o motivo que as determinava, o que, como sempre, lhe proporcionava certo prazer. Mas naquele momento esse prazer era estragado pela lembrana dos conselhos de Matriona
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Filimonovna e pelo que estava acontecendo em sua casa. Depois leu outras notcias: pelo que se dizia, o conde Beist passara por Wiesbaden; j no havia cabelos brancos; estava  venda uma carruagem ligeira e uma pessoa jovem oferecia os seus servios. Nada disto, porm, lhe proporcionou a satisfao calma e irnica de outrora.
Quando acabou de ler o jornal e bebeu a segunda xcara de caf, acompanhada de um bolo de manteiga, Oblonski levantou-se, sacudiu as migalhas que lhe tinham cado no colete e, estofando o peito, sorriu jovialmente, no porque sentisse qualquer coisa de particularmente agradvel, mas apenas porque comera bem. Aquele alegre sorriso, contudo, recordou-lhe imediatamente o que se passara e Stepane Arka-dievitch absorveu-se em reflexes.
Atrs da porta ouviram-se duas vozes infantis (Stepane Arkadievitch reconheceu a voz de Gricha, o filho mais novo, e a de Titiana, a filha mais velha). Arrastavam qualquer coisa pelo cho que tinham deixado cair.
- J te disse que no se podem pr os passageiros no tecto. Anda, vai tir-los! - gritava a menina em ingls.
"Que desordem", pensou Stepane Arkadievitch. "As crianas correndo sozinhas pela casa." Aproximou-se da porta e chamou-as. Abandonando a caixa com que brincavam de carruagem, as crianas penetraram na sala de jantar.
Tatiana, a predilecta de Oblonski, entrou decidida, abraou-se ao pai e, rindo, dependurou-se-lhe ao pescoo, deliciada, como sempre, com o perfume das suas suas, to seu conhecido. Finalmente, deu-lhe um beijo no rosto, afogueado por causa da inclinao, e, radiante de ternura, desprendeu as mos, disposta a sair, correndo; Stepane Arkadievitch deteve-a, porm:
- A mezmha, como est? - perguntou, acariciando o pescoo macio da filha. - Ol! - acrescentou, sorrindo, para o pequeno que por sua vez lhe dava bom dia.
Stepane Arkadievitch reconhecia que gostava menos do filho, e embora sempre procurasse mostrar-se justo, o garoto dava por isso, no correspondendo ao frio sorriso do pai.
- A mezinha? J se levantou - respondeu a menina.   Stepane Arkadievitch suspirou. "Isto quer dizer que passou a noite acordada", pensou.
- Est bem disposta?
A menina sabia que os pais se tinham zangado, que a me no podia estar bem disposta e que Stepane Arkadievitch fingia ao fazer-lhe aquela pergunta to despreocupadamente, pois devia saber a verdade. E corou por ele. Oblonski compreendeu-o imediatamente, enrubescendo por sua vez.
- No sei. Mandou-nos para casa da avzinha com Miss Hull, em vez de irmos estudar.
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- Bom, ento vai, vai, minha Tantchurotchka. Ah, espera um instante! - acrescentou Stepane Arkadievitch, retendo a filha e acariciando-lhe a mozinha delicada.
Procurando em cima da prateleira do fogo uma caixinha de bombons, que ali deixara na vspera, deu dois  menina, escolhendo os de que ela mais gostava: um de chocolate e outro de creme.
-  para o Gricha? - perguntou ela, mostrando o de chocolate.
- Sim, sim - assentiu Stepane Arkadievitch. De novo acariciou um dos ombros da filha e, beijando-a no pescoo e na raiz dos cabelos, deixou-a partir.
- J est a a carruagem - disse Matvei, acrescentando: - H uma visita para o patro.
- Est a h muito tempo?
- H uma meia hora.
- Quantas vezes te disse que me deves anunciar imediatamente as visitas ?
- Ao menos, precisa de tomar sossegadamente o seu caf - replicou Matvei naquele tom entre amistoso e brusco, com o qual ningum conseguia zangar-se.
A visita, a esposa do segundo-tenente Kalinine, vinha solicitar algo impossvel e absurdo, mas Stepane Arkadievitch, como era seu costume, pediu-lhe que se sentasse, ouviu-a atentamente, sem a interromper, e, pormenorizadamente, explicou-lhe a quem se devia dirigir. Inclusive, escreveu um bilhete, rpido e desembaraado, na sua bela letra ntida, grande e espaada, a uma pessoa que a podia auxiliar. Quando se despediu da esposa do tenente, Oblonski pegou no chapu e deteve-se, procurando verificar se esquecia alguma coisa. Esquecia, apenas, o que queria esquecer: a mulher.
"Ah, sim!", baixou a cabea, e uma expresso triste lhe inundou a simptica fisionomia. "Vou ou no vou?", perguntou a si mesmo. Uma voz, no ntimo, dizia-lhe que no, que esse passo era falso, que e reconciliao era impossvel: como tornar-se ela de novo atraente, capaz de despertar amor e converter-se ele num velho, incapaz de amar? S falsidade e mentira resultaria dali, e a falsidade e a mentira repugnavam  sua natureza.
"No entanto, alguma vez ter de ser a primeira; isto no pode continuar assim", disse com os seus botes, procurando reanimar-se. Aprumou-se, tirou um cigarro, acendeu-o e, depois de soltar algumas baforadas, atirou-o para o cinzeiro de ncar. Em seguida, atravessando o salo a passos largos, abriu a porta do quarto de dormir.
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CAPTULO IV
Daria Alexandrovna, de roupo e as tranas, outrora abundantes e sedosas, apanhadas na nuca, o rosto magro e abatido, que fazia ressaltar ainda mais os seus enormes olhos assustados, cercada de uma srie de objectos, espalhados pelo quarto, encontrava-se diante de uma cmoda de cujas gavetas abertas ia retirando qualquer coisa. Ao ouvir os passos do marido, deteve-se e olhou para a porta, num grande esforo para demonstrar um ar de desprezo e severidade. Era evidente que receava tanto o marido como aquela entrevista. Naquele momento dispunha-se a fazer o que j tentara dez vezes em trs dias: juntar as suas coisas e as das crianas e levar tudo para casa da me, sem nada dizer ao marido. Desta vez, ainda, como das anteriores, ia dizendo, intimamente, que a situao no podia continuar como estava, que devia fazer alguma coisa, que tinha de castigar e humilhar o marido, vingar-se dele, retribuindo-lhe, em parte que fosse, o sofrimento que ele lhe causava. Embora continuasse a dizer que abandonaria Oblonski, sentia-se ser-lhe isso impossvel, pois no podia deixar de consider-lo seu marido e a verdade  que ainda gostava dele. E depois, se em sua prpria casa mal tinha tempo de cuidar dos cinco filhos, pior seria na casa de sua me. Com efeito, naqueles trs dias, o benjamim adoecera por causa do caldo estragado, e os outros mal haviam ceado na vspera. Dolly estava certa de que no podia partir; no entanto, enganando-se a si mesma, pusera-se a juntar as suas coisas.
Ao ver o marido, meteu as mos numa das gavetas da cmoda, como se procurasse qualquer coisa, e s se voltou quando ele j se encontrava a seu lado. No seu rosto, porm, que queria aparentar desprezo e severidade, apenas havia perturbao e sofrimento.
- Dolly! - exclamou Stepane Arkadievitch, em voz baixa e tranquila. Encolheu-se, afundando a cabea entre os ombros, afectando uma atitude submissa e dolorosa; no entanto, irradiava sade e boa disposio. Num relance, Dolly percorreu dos ps  cabea aquele corpo cheio de vigor, de vitalidade. "Sente-se feliz e satisfeito. E eu?", pensou. "Como detesto esta odiosa bonomia que todos estimam e louvam." Contraiu os lbios, e um msculo da face direita do seu plido rosto nervoso tremeu ligeiramente.
- Que pretende? - perguntou, numa voz alterada e grave, que nem ela prpria reconheceu.
- Dolly! - repetiu ele,  em voz trmula. - A Ana  chega hoje.
- Que tenho eu com isso? No posso receb-la! - exclamou ela.
- Mas, Dolly,  preciso...
- V-se embora, v-se, v-se embora! - gritou Daria Alexandrovna, como se os gritos que soltava fossem provocados por uma dor fsica.
Stepane Arkadievitch conseguira estar tranquilo enquanto pensara na mulher com a esperana de que tudo se "arrumaria", expresso de Matvei, e at pudera ler tranquilamente o jornal e tomar o caf. Mas agora, ao ver a fisionomia de Dolly, atormentada pelo sofrimento, ao ouvir-lhe o tom desesperado, resignado, sentiu que lhe faltavam as foras, que um n lhe apertava a garganta, e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas.
- Meu Deus, que fui eu fazer! Dolly! Pelo amor de Deus!... Se..  no pde prosseguir, afogado plos soluos.
Daria Alexandrovna fechou bruscamente as gavetas da cmoda e fitou o marido.
- Dolly, que te posso dizer?... S uma coisa: perdoa-me... Porventura nove anos de vida em comum no chegam para resgatar uns momentos, uns momentos...?
Daria Alexandrovna, de olhos baixos, ouvia o que ele dizia, como que suplicando-lhe que a convencesse de qualquer maneira.
- ...uns momentos de arrebatamento...-pronunciou Stepane Arkadievitch, disposto a sair.
Mas, ao ouvir semelhante palavra, os lbios de Dolly voltaram a crispar-se, e de novo lhe tremeu o msculo da face direita, como que contrado por uma dor fsica.
- V-se embora, v-se embora daqui! - gritou num tom de voz ainda mais lancinante. - E no me fale de seus arrebatamentos nem das suas canalhices. - Quis sair, mas cambaleou e teve de apoiar-se ao espaldar de uma cadeira. O rosto de Stepane Arkadievitch dilatou-se, intumesceram-se os lbios, os olhos encheram-se de lgrimas.
- Dolly! - disse, soluando. - Pelo amor de Deus, pensa nas crianas; elas no tm culpa. Sou culpado, castiga-me, diz-me como redimir a minha culpa. Que posso fazer? Estou disposto a tudo. Sou culpado; no h palavras que exprimam at que ponto sou culpado! Mas Dolly, perdoa-me!
Daria Alexandrovna sentou-se. Stepane Arkadievitch ouvia-lhe a respirao forte e pesada, e era indescritvel a compaixo que ela lhe inspirava. Por vrias vezes quis falar, mas no pde. Stepan	e Arkadievitch esperava.
- Lembras-te dos meninos apenas quando te divertes com eles. Eu, ao contrrio, sei agora que esto perdidos - disse ela. Pelo visto, era uma das frases que estivera repetindo durante aqueles trs dias.
Daria Alexandrovna dissera "tu", e Oblonski olhava-a agradecido, aproximando-se dela, para lhe pegar na mo; ela, porm, afastou-se com repulsa.
- Penso nas crianas e faria tudo para salv-las; mas no sei como, se levando-as comigo ou deixando-as junto de um pai depravado sim, junto de um pai depravado... Diga-me: acha possvel continuarmos a viver juntos
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depois... do que aconteceu? Acha possvel? Diga-me: acha que pode ser? - repetia, erguendo a voz. - Depois de o meu marido, o pai dos meus filhos, ter tido uma aventura amorosa com a preceptora das crianas... ?
- Mas, que fazer agora? Que fazer? -exclamou Stepane Arka-dievitch, com voz lastimosa, sem saber o que dizia, e baixando cada vez mais a cabea.
- O senhor  repugnante, repulsivo! - gritou ela, cada vez mais irritada. - As lgrimas que chora so de crocodilo. Jamais gostou de mim, no tem corao nem sentimento!  um infame, um homem repugnante, um estranho, isso mesmo: um homem completamente estranho para mim.
Daria Alexandrovna pronunciou com expresso de dor e de dio a palavra "estranho", que lhe parecia horrvel.
Stepane Arkadievitch olhou para a mulher, assustado e surpreendido com a revolta que se reflectia no seu rosto. No compreendia que a compaixo que lhe manifestava provocasse repulsa. Dolly via nele compaixo, mas no amor. "Odeia-me. No me perdoar", pensou ele.
-  horrvel, horrvel! - exclamou.
Naquele momento, no quarto contguo ouviu-se gritar uma das crianas, que naturalmente cara. Daria Alexandrovna apurou o ouvido e instantaneamente suavizou-se a sua fisionomia. Permaneceu alguns segundos como que procurando lembrar-se onde estava e o que devia fazer. Depois, levantou-se rapidamente e aproximou-se da porta.
"Mas se ela gosta assim de meu filho, do meu filho, como pode odiar-me?", pensou Oblonski, ao observar a mudana de expresso que se operara no rosto da mulher.
- Dolly, s uma palavra - disse, seguindo-a.
- Se me seguir, chamarei os criados e os meninos. Quero que todos fiquem sabendo que o senhor  um canalha! Ir-me-ei embora hoje; o senhor, se quiser, pode continuar a viver aqui com a sua amante!
Daria Alexandrovna saiu, batendo a porta com violncia. Stepane Arkadievitch suspirou e, enxugando o rosto, aproximou-se da porta em passos lentos. "Matvei diz que tudo se h-de arrumar, mas como? No vejo jeito. Oh, oh, que horror! E que maneira to reles de gritar!", dizia consigo mesmo, recordando-se das palavras "canalha" e "amante". Se calhar at as criadas ouviram. Foi tremendamente vulgar." Permaneceu imvel alguns instantes, enxugou os olhos, suspirou e, aprumando-se, saiu do quarto.
Era sexta-feira. O relojoeiro alemo dava corda ao relgio da sala de jantar. Stepane Arkadievitch recordou, sorrindo, a sua pilhria a propsito daquele relojoeiro calvo, to pontual; costumava dizer que "lhe tinham dado corda para toda a vida, a fim de que ele, por sua vez, a desse aos relgios". Oblonski apreciava muito os ditinhos chistosos. "Talvez se arrume! Essa palavra agrada-me: arrumar-se. Hei-de empreg-la", pensou.
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- Matvei1 - exclamou ele -Prepara os aposentos para Ana Arkadievna na saleta Mana que te ajude
- Muito bem, meu senhor
Stepane  Arkadievitch  enfiou  a pelica  e  saiu para  o  alpendre
- No janta em casa. perguntou-lhe Matvei, enquanto o acompanhava
- Isso depende. Toma l para as despesas, Achas que chega? - interrogou Oblonski, entregando-lhe dez rublos, que tirara da carteira.
- Chegue ou no chegue, terei de me remediar - replicou Matvei, fechando a portinhola da carruagem e voltando ao alpendre.
Entretanto Daria Alexandrovna, que consolara a criana e compreendera, pelo rudo da carruagem, que o mando sara, voltou ao quarto de dormir. Era o nico refgio das preocupaes domsticas que a assaltavam, mal chegava  porta No momento em que foi ao quarto dos pequenos, logo a inglesa e Matnona Filimonovna a assediaram com um sem nmero de perguntas urgentes, a que s ela podia responder "Que deviam vestir os meninos para irem passear? Deveriam beber leite? Seria preciso arranjar outro cozinheiro?"
- Por amor de Deus, deixem-me, deixem-me! - exclamou Daria Alexandrovna, e voltando para o quarto, sentou-se no mesmo lugar onde permanecera durante o dilogo com o marido
Contorcendo as mos esqulidas, de cujos dedos ossudos se desprendiam os anis, lembrou-se das palavras que tinham trocado
"Foi-se. Mas como ter ele acabado com ela? Ser possvel que continuem a encontrar-se? Porque no lhe perguntei' No, no podemos reconciliar nos Ainda que continussemos juntos sob o mesmo tecto, permaneceramos estranhos um ao outro Somos para sempre estranhos'", repetiu, repisando de maneira especial essa palavra que lhe ressoava horrorosa "E tu que tanto lhe quis' Como eu lhe queria' E por ventura no continuo a querer' No lhe quererei agora mais do que antes' E o mais terrvel  que "
Matnona Filimonovna interrompeu o curso dos seus pensamentos
- Quer a senhora que eu mande vir o meu irmo' Ao menos preparar o jantar e os meninos no ficaro sem comer at s seis horas, como ontem
- Est bem, vou dar as minhas ordens Foram comprar leite fresco' E Dana Alexandrovna mergulhou nas preocupaes quotidianas, afogando nelas, momentaneamente, os seus desgostos.
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CAPTULO V
Graas aos seus dons naturais, Stepane Arkadieviteh fizera bons estudos, mas, como era preguioso e travesso, sara do colgio entre os ltimos da sua classe No entanto, apesar da vida dissipada que levara, da baixa classificao que obtivera e de ser ainda muito jovem, ocupava o lugar, bem remunerado, de presidente de um tribunal de Moscovo Conseguira esse emprego graas ao marido de Ana, sua irm, Alexei Alexandrovitch Karenme, que desempenhava um dos mais altos cargos do Ministrio a que se subordinava o tribunal de que era funcionrio Mas se Karenme no lhe houvesse conseguido o cargo, Sva Oblonski t-lo-ia obtido, a esse ou a outro qualquer, com os seus mil rublos de remunerao- quantia de que precisava, dada a m situao dos seus bens pessoais e apesar da fortuna da mulher - graas a uma centena de protectores de que dispunha irmos ou irms, tias ou segundos nos
Metade da populao de Moscovo e de Sampetersburgo era constituda por parentes ou amigos de Stepane Arkadievitch Nascera entre pessoas que eram ou passaram a ser os poderosos deste mundo Uma tera parte dos velhos funcionrios fora das relaes do pai e tinha-o conhecido de cales, a outra tera parte tratava o por tu e os restantes, sob a forma de empregos pblicos, arrendamentos, concesses e coisas do mesmo estilo, seus amigos, no podiam deixar de mostrar interesse por ele Eis, pois, como no fora difcil a Oblonski obter um bom lugar A nica coisa de que precisou foi de no contrariar ningum, no ter inveja, no discutir nem ofender-se, atitudes de que a sua bondade mata sempre o afastara Ter-lhe-ia parecido simplesmente ridculo dizerem-lhe que no lograria um lugar com a remunerao que lhe era indispensvel, sobretudo por nada exigir de excepcional De facto, apenas queria o que os seus amigos da mesma idade haviam conseguido, persuadido como estava de ser to capaz quanto qualquer deles.
Todos gostavam de Stepane Arkadievitch, no s pelo seu feitio alegre e bondoso e pela sua indiscutvel probidade, mas tambm devido  sua arrogante e bela presena, dos seus olhos brilhantes, das suas negras sobrancelhas, dos seus cabelos e do seu rosto branco e rubonzvel, coisas que produziam impresso agradvel naqueles que o conheciam. "Ol, Stiva' Oblonski' Ei-lo'", costumavam exclamar, ao saud-lo, quase sempre sorrindo alegremente Ainda mesmo quando, depois de com ele conversarem, no sentiam nisso uma satisfao especial, no dia seguinte, ao voltarem a encontr-lo, acolhiam no sempre com igual regozijo Depois de haver desempenhado durante trs anos o cargo de presidente de um dos tribunais de Moscovo, Stepane Arkadievitch alcanara no s a amizade mas tambm a considerao dos colegas, dos subordinados, dos chefes e de todos os que com ele privavam As principais qualidades
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de Stepane Arkadievitch, as que lhe haviam granjeado esse respeito, consistiam, em primeiro lugar, numa extrema condescendncia para com todas as pessoas, condescendncia essa alicerada na conscincia dos seus prprios defeitos, em segundo lugar, no seu esprito liberal, no propriamente do liberalismo que ele extrara dos jornais, mas do que tinha no sangue e graas ao qual tratava todos no mesmo p de igualdade sem atender a posies ou a hierarquias, e em terceiro lugar - a sua qualidade mais importante, - na perfeita indiferena que mostrava pelo cargo ocupado, o que fazia com que nunca se entusiasmasse e por isso mesmo sem que nunca praticasse erros
Ao chegar  repartio, Stepane Arkadievitch, seguido a respeitvel distncia pelo contnuo que lhe levava a pasta, penetrou no seu gabinete para vestir o uniforme, e logo em seguida dirigiu se  sala de sesses Todos os funcionrios se levantaram, saudando o alegre e respeitosamente Como de costume, Stepane Arkadievitch apertou a mo de cada um e encaminhou se, pressuroso, para o seu lugar Conversou e pilhenou um pouco, justamente o tempo que a cortesia mandava, e ps se a trabalhar Ningum sabia melhor do que Stepane Arkadievitch encontrar os limites da liberdade, a simplicidade e a afabilidade necessrios para que o trabalho se tornasse agradvel O secretrio aproximou se de Oblonski com o expediente, jovial e respeitoso, como todos na sua presena, mantendo esse tom familiar que o prprio Oblonski introduzira nas suas funes
- Finalmente conseguimos as informaes da administrao provincial de Panz Aqui esto Se me permite .
- Chegaram por fim'' - exclamou Stepane Arkadievitch, pegando num dos papis -Bem, meus senhores  . E a sesso principiou
"Se eles soubessem que no h meia hora ainda o presidente do tribunal se sentia culpado como um garoto'", pensou Stepane Arka-dievitch, enquanto escutava a exposio, de cabea inclinada e grave expresso no rosto Os olhos sorriam lhe, o ouvido atento Teriam de trabalhar sem interrupo at s duas horas, altura em que haveria um intervalo para comer
Ainda no eram duas horas quando, de repente, se abriram as portas de vidro da sala de audincia e algum entrou Os membros do tribunal, sentados debaixo do retrato do czar e os que se sentavam por detrs do smbolo da Justia, voltaram se para a porta, contentes com a distraco, mas o oficial de justia,  entrada, imediatamente obrigou a sair quem entrara, fechando a porta atrs de si
Quando acabaram de ler o expediente, Stepane Arkadievitch ps-se de p, endireitou se e, rendendo tributo ao liberalismo da poca, acendeu um cigarro mesmo na sala do tribunal, encaminhando se depois para
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o seu gabinete  Os seus dois colegas, o velho funcionrio Nikitme e o jovem Gnmevitch, saram com ele
- Teremos tempo de acabar depois do almoo - disse Stepane Arkadievitch
- Com certeza' - corroborou Nikitme
- Esse Fomme deve ser um autntico maroto - observou Gnme vitch, referindo se a um dos implicados na causa que examinavam
Stepane Arkadievitch franziu o sobrolho ao ouvir as palavras de Gnmevitch, dando a entender que no convinha emitir juzos antecipados, {	e nada lhe respondeu ]                      - Quem entrou na sala' - inquiriu do oficial de justia
- Um senhor que perguntava por V  Ex* e que se introduziu na
	sala sem licena, apanhando me desprevenido   Disse lhe que quando
'	sassem os membros do tribunal
*	-Onde est ele'
j	-Naturalmente foi para a antecmara, primeiro andou s voltas por a  aquele - acrescentou, apontando para um homem corpulento, espadado, barba encaracolada, na cabea um gorro de pele de carneiro, que naquele momento subia apressadamente os gastos degraus da esca dana de pedra Um empregado magricela, que descia com uma pasta na mo, deteve se, olhou, como que censurando, as pernas do homem que subia as escadas e dirigiu a Oblonski um olhar interrogativo
Stepane Arkadievitch encontrava se no alto da escadaria e o seu bondoso rosto resplandecente, emergindo da gola bordada do uniforme, ao reconhecer o recm chegado, iluminou se mais ainda
- Ento eras tu1 Finalmente, Levine1 - exclamou com um sorriso amistoso e trocista, olhando Levine, que se aproximava -Como te dignaste vir buscar me a este "covil" ' Chegaste h muito' - perguntou E no contente com o aperto de mo do amigo, beijou-o
- Acabo de chegar, estava morto por te ver - respondeu Levine, numa expresso tmida, ao mesmo tempo que olhava  sua volta, inquieto e medroso
- Bom, vamos para o meu gabinete - disse Oblonski, que conhecia o amor prprio e a timidez irritvel do amigo
E, pegando-lhe pela mo, arrastou o consigo, como se o levasse pelo meio de grandes perigos
Stepane Arkadievitch tratava por "tu" quase todos os conhecidos: ancios de sessenta anos, rapazes de vinte, comerciantes, actores, ministros, ajudantes de campo do imperador, de maneira que muitas das pessoas a quem tuteava pertenciam a extremos opostos da escala social e muitos se surpreendiam ao descobrir, atravs de Oblonski, um trao somum entre si Tratava por tu todos os que bebiam champanhe, e bebia champanhe com todos E quando, na presena dos subordinados, se encontrava com alguns dos tus que envergonhavam, como costumava
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chamai a muitos deles, por brincadeira, conseguia tambm atenuar, com a sua habilidade inata, qualquer impresso desagradvel que porventura isto lhes pudesse causar. Levme no pertencia ao nmero dos tus que envergonhavam, mas, com a sua acuidade, Oblonski percebeu que o amigo pensava que talvez ele, Oblonski, no desejasse mostrar a intimidade que existia entre eles na presena dos seus subordinados, razo por que se dera pressa em lev-lo para o seu gabinete.
Levine tinha quase a mesma idade que Oblonski, e no s por ter bebido champanhe com ele o tratava por tu. Fora seu companheiro e amigo de adolescncia. Apesar da diferena de caracteres e de gostos, estimavam-se como amigos que conviveram desde a mocidade. Mas, como geralmente acontece entre pessoas que se dedicam a actividades diferentes, embora cada um deles apreciasse e aprovasse a profisso do outro, a verdade  que, no fundo da alma, a desprezavam. Afigurava-se, a cada um deles, que a sua prpria vida era a verdadeira, enquanto a do outro no passava de fico. Oblonski no podia reprimir um certo sorriso de troa quando via Levine. Inmeras vezes o vira chegar assim a Moscovo, vindo da aldeia, onde se dedicava a qualquer coisa que Stepane Arkadievitch nunca soubera bem o que fosse e, para ser exacto, nem lhe interessava. Levine chegava a Moscovo sempre numa grande excitao, inquieto, um tanto inibido e irritado com a sua prpria timidez, e a maior parte das vezes com um conceito novo e imprevisto sobre ai coisas. Stepane Arkadievitch troava disso, mas ao mesmo tempo gostava. Assim mesmo, Levine, no seu ntimo, desprezava o gnero de vida citadina que o amigo levava e at mesmo o cargo que ele desempenhava, na sua opinio absurdo, rindo-se de tudo isso. A nica diferena  que Oblonski, ao fazer o que os outros faziam, gracejava com segurana e benevolncia, ao passo que Levine o fazia pouco seguro e s vezes at irritado.
- H muito que estvamos  tua espera - disse Stepane Arkadievitch, ao penetrar no gabinete e largando o brao do amigo, como que dando-lhe a entender que o perigo passara. - Estou muito contente em ver-te. Ento como vai isso ? Quando chegaste ? - prosseguiu.
Levine calava-se, olhando as caras desconhecidas dos companheiros de Oblonski e sobretudo a mo do elegante Grimevitch, de longos dedos brancos e compridas unhas, plidas e recurvas, bem como os enormes brilhantes das abotoaduras da sua camisa. Dir-se-ia que aquelas mos o absorviam por completo, impedindo-o de pensar. Oblonski, observando isso, sorriu.
- Permitam que os apresente - disse. - Os meus amigos Filirx Ivanovitch Nikitine, Mikail Stanislavitch. - E dirigindo-se a Levine, acrescentou: - Constantino Dimitrievitch Levine, membro do zemstvo, homem original, ginasta, capaz de levantar cinco puds com uma s mo, fazendeiro, caador, meu amigo e irmo de Srgio Ivanovitch Kosnichev.
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- Muito prazer - articulou o ancio.
- Temos a honra de conhecer seu irmo Srgio Jvanovitch - disse Grimevitch, estendendo-lhe a delicada mo de grandes unhas.
-Escuta. Vamos almoar no Guarine. Ali conversaremos. Estou livre at s trs.
- No. Ainda tenho de ir a outro lugar - replicou Levine, depois de pensar um pouco.
- Bem,  ento podemos  jantar juntos.
- Jantar? Mas no se trata de nada importante. Quero apenas dizer-te duas palavras. Falaremos mais tarde  vontade.
- Pois diz-me agora essas duas palavras e conversaremos depois de jantar.
- Trata-se do seguinte... no , alis, nada de particular - disse Levine; e de sbito reflectiu-se no seu rosto uma viva irritao, provocada pelo esforo que fazia para vencer a timidez. - Que fazem os Tcher-batski? Continuam como dantes? - inquiriu.
Oblonski que soubera, tempos atrs, que Levine estava enamorado da sua cunhada, Kitty, sorriu imperceptivelmente e os olhos brilharam--Ihe alegres.
- Disseste-me duas palavras, mas eu no posso responder-te com outras duas, porque... Desculpa-me por um momento...
Entrava nesse momento o secretrio, com uns papis; com a familiaridade respeitosa e com a discreta conscincia que todos os secretrios tm da superioridade sobre os chefes no conhecimento dos assuntos que lhes dizem respeito, aproximou-se de Oblonski para lhe explicar uma dificuldade como se fizesse uma pergunta. Stepane Arkadievitch, sem o ouvir at ao fim, pousou uma das mos no brao do secretrio, num gesto carinhoso.
- Seja como for, como eu lhe disse - articulou, suavizando a advertncia com um sorriso. E aps uma breve explicao acerca de como interpretar o caso, repeliu de si os papis, acrescentando: - Faa assim, por favor, Zacarias Nikitine.
O secretrio afastou-se, confuso. Levine, que durante aquela consulta, se refizera completamente da perturbao que o possura, apoiava-se com ambas as mos s costas de uma cadeira e ouvia com uma ateno zombeteira.
- No compreendo, no, no compreendo! - exclamou.
- Que  que tu no compreendes? - perguntou-lhe Oblonski, sorrindo tambm e puxando por um cigarro. Esperava de Levine uma sada extravagante.
- No compreendo o que vocs fazem - replicou ele, encolhendo os ombros. - Como podes tomar estas coisas a srio ?
- Por qu?
- Porque... porque aqui no h que fazer.
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-  o que tu pensas; estamos cheios de trabalho.
- De papelada. Sim, realmente, sempre tiveste jeito para isso.
- Ento, achas que para outras coisas no sirvo?
- Talvez. De qualquer modo, porm, admiro a tua importncia e sinto-me orgulhoso de ter um amigo de tal categoria. Mas no respondeste  minha pergunta - acrescentou Levine, fitando-o nos olhos, num esforo desesperado.
- Bom, bom. Espera um pouco mais e vers como tu tambm hs-de l chegar. Apesar dos teus trs mil hectares de terra na provncia de Karazinski, desses msculos, dessa louania de menina de onze anos, tambm acabars por l chegar, como ns. Quanto ao que perguntavas, no h novidade, mas  pena que tenhas estado tanto tempo sem aparecer.
- Por qu? - interrompeu Levine, assustado.
- Por nada. Depois falaremos. E afinal, para que vieste?
- Disso tambm falaremos depois - respondeu Levine, de novo .corado at s orelhas.
- Sim, j percebi. Escuta: gostaria de te convidar para ires a nossa casa, mas minha mulher no est bem. Se queres ver os Tcherbatski, acho que devem ir hoje, das quatro s cinco, ao Jardim Zoolgico. Kitty vai patinar. Passa por l. Irei buscar-te para irmos jantar em qualquer parte.
- Perfeitamente. At logo, ento.
- Mas escuta. Bem te conheo, s muito capaz de te esqueceres ou de te ires embora para a aldeia - exclamou Stepane Arkadievitch, rindo.
- No, no, irei sem falta.
E s depois de sair do gabinete, Levine se apercebeu de que no se despedira dos amigos de Oblonski.
- Parece ser muito enrgico - opinou Grimevitch, depois de Levine ter sado.
- Sim, meu velho. Nasceu com boa estrela! - observou Stepane Arkadievitch, abanando a cabea. - Trs mil hectares em Karazinski, uma vida inteira diante dele e aquele vigor! Tem mais sorte do que ns.
- O senhor de que se queixa, Stepane Arkadievitch?
- Tudo vai mal - disse este, com um profundo suspiro.
CAPTULO VI
Quando Oblonski perguntou a Levine que tinha ele vindo fazer a Moscovo, este enrubesceu, coisa que o indisps consigo mesmo, pois no pudera responder-lhe, "para me declarar  tua cunhada", apesar de ter vindo exclusivamente para este fim. Os Levines e os Tcherbatski, antigas
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famlias nobres de Moscovo, sempre haviam mantido ntimas e cordiais relaes. Essa amizade ainda mais se consolidara durante o tempo de estudante de Levine, que se preparara para dar entrada na Universidade e nela fora admitido ao mesmo tempo que o jovem prncipe Tcherbatski, irmo de Dolly e de Kitty. Naquela poca, Levine costumava visitar muito amide os Tcherbatski e afeioara-se  casa. Por estranho que parea, Constantino Levine apegara-se precisamente  casa,  famlia e em especial ao elemento feminino dos Tcherbatski. No se lembrava da me e a nica irm que tinha era mais velha do que ele. Por isso mesmo fora em casa dos Tcherbatski que sentira pela primeira vez aquele ambiente de lar nobre, intelectual e distinto que no chegara a conhecer entre os seus por causa da prematura morte dos pais. Todos os membros daquela famlia, especialmente as mulheres, lhe apareciam como que envoltos num misterioso vu potico, e no s via neles defeito algum, como imaginava que por debaixo desse vu existissem os sentimentos mais elevados e todas as perfeies deste mundo. Levine no compreendia por que falavam aquelas senhoras hoje em francs e amanh em ingls; por que, a horas determinadas, e por turnos, tocavam piano, cujos sons ele ouvia l em cima no quarto do irmo, onde se reuniam para estudar; para que serviam aqueles professores de literatura francesa, de desenho, de msica, de dana; por que iam as trs irms a horas certas de carruagem, acompanhadas por Mademoiselle Linon,  Avenida de Tverskoi, embrulhadas nas suas pelicas - a de Dolly, comprida; a de Natlia, trs quartos, e a de Kitty, muito curta, de tal sorte que lhe deixava comple-tamente descobertas as pernas com as suas meias vermelhas - e para que haviam de passear pela Avenida Tverskoi, ainda por cima acompanhadas de um lacaio com um distintivo dourado no chapu. To-pouco compreendeu muitas outras coisas que sucediam naquele mundo misterioso, embora soubesse que tudo ali era magnfico e fosse precisamente essa atmosfera de mistrio que o cativava.
Durante os tempos de estudante estivera a ponto de apaixonar-se pela irm mais velha, Dolly, mas da a tempo casavam-na com Oblonski. Depois comeou a sentir-se atrado pela segunda, como se precisasse de estar sempre enamorado de uma das irms, sem poder dizer de qual delas gostava na verdade. Tambm Natlia se casou, na ocasio em que foi apresentada  sociedade, com o diplomata Lvov. Kitty ainda era muito criana quando Levine saiu da Universidade. O jovem Tcherbatski, que ingressara na marinha de guerra, morrera no mar Bltico, e as relaes dele com a famlia, por esse facto, tornaram-se menos frequentes, apesar da sua amizade com Oblonski. Porm, quando no princpio do Inverno daquele ano chegou a Moscovo, depois de um ano de isolamento na aldeia, compreendeu de qual das irms estava predestinado a gostar deveras. Aparentemente, nada mais simples do que pedir a mo da princesa Tcherbatskaia, uma vez que Levine era homem de boa famlia,
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mais rico do que pobre, e com trinta e dois anos de idade Era de crer que vissem logo nele um bom partido Mas Levme estava apaixonado e por isso Kitty lhe parecia uma criatura to perfeita em todos os sentidos, to para alm das coisas terrenas, quando ele, pelo contrrio, era um ser to baixo e mundalio, que no podia pensar sequer que ela e os outros o considerassem digno de aspirar  sua mo
Havia dois meses que estava em Moscovo, como num sonho, encontrando se quase todos os dias com Kitty nas reunies mundanas a que assistia para v Ia, quando decidiu, repentinamente, que no teria xito, e voltou para a aldeia
Julgava essa aspirao impossvel, certo de que, aos olhos dos pais de Kitty, no era nem um bom partido nem a pessoa indicada para to maravilhosa criatura Demais, convenceu se de que ela no podia ama Io Aos olhos dos pais de Kitty, Levme no tinha nem profisso determinada nem posio social Enquanto os seus camaradas de estudo j eram, um coronel e ajudante de campo, outro catedrtico, director de um banco e de uma companhia de caminhos de ferro um terceiro, e o ltimo presidente de um tribunal, isto , o prprio Oblonski, ele, pelo contrrio (sabia perfeitamente o efeito que isso produzia nas outras pessoas), era simplesmente proprietrio rural, dedicava se  criao de gado,  caa s perdizes e  construo Quer dizer era um homem sem aptides, que no chegara a ser coisa alguma, e que na opinio geral, fazia apenas o que fazem os que no servem para mais nada
A misteriosa e encantadora Kitty no podia gostar de um homem to feio como ele, que Levme assim se considerava, e sobretudo de um homem to simples, que no sobressaa em coisa alguma Por outro lado, as suas anteriores relaes com ela - as relaes de um homem com uma garota -, graas  amizade que mantivera com o irmo, apareciam lhe como mais um obstculo a esse amor Imaginava que se podia querer como amigo a um homem bom, como se considerada, embora feio, mas que seria preciso ser belo e sobretudo excepcional para despertar amor igual ao que ele sentia por Kitty
Ouvira dizer que as mulheres muitas \ezes se enamoravam de ho mens vulgares, mas no acreditava nisso, pois julgava os demais por si, e ele s se sentia capaz de amar uma mulher bonita, misteriosa e original
No entanto, aps dois meses sozinho na aldeia, convencera se de que o sentimento que dele se apossara nada tinha a ver com os amores que co nhecera na adolescncia, uma vez que lhe era impossvel sossegar e viver na ignorncia de Kitty vir a ser ou no sua mulher Tambm se persuadira de que a famlia nenhuma razo tinha para o repelir Partiu, pois, para Moscovo, no intuito de fazer o seu pedido e de se casar, na hiptese de um bom acolhimento Caso contrrio no podia imaginar quais as consequncias de uma resposta negativa
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CAPTULO VII
Levine chegou a Moscovo no comboio da manh e hospedou se em casa do irmo mais velho, Kosmchev Assim que mudou de roupa, entrou no gabinete do irmo disposto a expor lhe os motivos da sua viagem e a pedir lhe conselho Kosmchev, porm, no estava s Recebia, na ocasio, um professor de filosofia que viera de Karkov na inteno de esclarecer uma questo gra\e que entre ele surgira acerca de um muito importante problema de filosofia O professor sustentava uma luta encarniada com os materialistas e Srgio Kosmchev, que a acompanhava interessado, escrevera lhe expondo os prprios pontos de vista depois de ler o seu ltimo artigo Increpava o por fazer demasiadas concesses ao matenalis mo O professor apresentara se imediatamente em Moscovo para discutir o assunto Tratava se de uma questo actual Existe um limite entre os fenmenos psquicos e os fenmenos fisiolgicos? Se existe, onde est'
Srgio Ivanovitch acolheu o irmo com o sorriso afectuoso e frio com que costumava acolher a todos, e, depois de o apresentar ao professor, prosseguiu com este a conversa interrompida
O professor, um homenzinho de culos, de testa estreita, calara se por momentos para cumprimentar Levine, continuando em seguida o seu discurso sem lhe prestar a mnima ateno Levine sentou se,  espera de que o professor se fosse, mas no tardou a interessar se tambm pela discusso
J havia encontrado nas revistas artigos em que se falava do assunto em discusso, interessado que estava em ampliar os seus conhecimentos das cincias sociais Estudara cincias naturais, mas nunca estabelecera relao entre as concluses da cincia sobre as origens do homem, os reflexos, a biologia, a sociedade e as questes que ultimamente o preocupavam cada vez mais, isto , o sentido da vida e o significado da morte
Ao ouvir a discusso de Srgio Ivanovitch com o professor, reparou que eles relacionavam os problemas cientficos com os que diziam respeito  alma Vrias vezes abordaram tais questes, mas, ao chegarem ao ponto mais importante, na opinio de Levine, desviavam se imediatamente e voltavam a aprofundar, no domnio das subtis subdivises, as crticas, as citaes, as aluses, as referncias s opinies autorizadas, ficando ele sem perceber coisa alguma
- No posso concordar com Keiss - dizia Srgio Ivanovitch com a sua peculiar clareza, o seu rigor de expresso e elegante dico - em que o conceito que tenho do mundo exterior deriva das sensaes A ideia fundamental do ser no a recebo atravs das sensaes, pois no existe rgo nenhum especial para a sua transmisso
- Sim, mas Wurts, Knauts e Pnpasov responder-lhe ao que a cons-
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cincia que o senhor tem do ser deriva do conjunto de todas as sensaes. Wurts afirma mesmo que sem a sensao, a conscincia do ser no existe.
- Eu afirmo o contrrio - principiou Srgio Ivanovitch.
Neste momento, porm, Levine, pensando que eles se iam afastar do ponto capital uma vez mais, resolveu formular ao professor a seguinte pergunta:
- Por conseguinte, quando os meus sentidos se aniquilam e o meu corpo morre, no h mais existncia possvel?
O professor, despeitado e como que chocado por aquela interrupo, fitou o estranho interrogador, que mais parecia um rstico do que um filsofo, desviando em seguida os olhos para Srgio Ivanovitch, como a perguntar-lhe: "Valer esta pergunta uma resposta ?" Srgio Ivanovitch, no entanto, que estava longe de falar com a intransigncia e a persuaso com que falava o professor, e cujas ideias eram suficientemente desenvolvidas para poder responder a esta pergunta e compreender o ponto de vista simplista e natural com que ela fora feita, sorriu, dizendo:
- Ainda no podemos responder a essa pergunta...
- No temos dados - afirmou o professor, e prosseguiu com os seus argumentos. - No. Observo que, se, como afirma Pripasov, as sensaes se fundam nas impresses, devemos distinguir, de maneira rigorosa, estes dois conceitos.
Levine deixou de estar  escuta, e esperou que o professor se retirasse.
CAPTULO VIU
Quando o professor saiu, Srgio Ivanovitch dirigiu-se ao irmo:
- Gostei muito de ter ver. Vais demorar-te? Que tal a herdade?
Levine sabia que ao irmo no interessavam as terras e que por mera condescendncia se informava da herdade, por isso limitou-se a falar-lhe na venda do trigo e no dinheiro.
Teria querido falar-lhe na inteno que tinha de contrair casamento e pedir-lhe conselho, decidido como estava a casar-se, mas quando viu Srgio Ivanovitch e ouviu a sua conversa com o professor, quando atentou no tom involuntariamente protector com que ele se lhe dirigia a propsito da administrao da propriedade (no tinham feito partilhas das terras herdadas da me e Levine era quem as administrava), percebeu que no podia falar com o irmo acerca dos seus projectos, pois ele no os tomaria em considerao como desejaria Levine.
- E que tal o vosso zemstvo? - perguntou Srgio Ivanovitch, que mostrava grande interesse por esse organismo, atribuindo-lhe muita importncia.
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- Se queres que te diga, no sei...
- Como ?... Pois no eras membro da administrao ?
- No, j no sou; pedi a demisso, j deixei de assistir s reunies- replicou Levine.
-  pena! - lamentou Srgio Ivanovitch, de sobrecenho carregado. Para se justificar, Levine contou-lhe o que costumava suceder nas reunies de seu distrito.
-  sempre a mesma coisa! - interrompeu Srgio Ivanovitch.- Somos sempre assim, ns, russos! Talvez seja um bom trao do nosso temperamento sermos capazes de reconhecer os nossos defeitos. Mas exageramos, consolando-nos com a ironia que sempre temos na ponta da lngua. Apenas te direi que se concedessem direitos como os que concedem as nossas instituies do zemstvo a qualquer outro povo europeu, por exemplo, aos Alemes ou aos Ingleses, acabariam por obter a liberdade por meio deles. Ns, pelo contrrio, apenas sabemos zombar dessas coisas.
- Que havemos de fazer ? - disse Levine, como que a desculpar--se. - Foi a minha ltima prova. Dediquei-me a ela com toda a minha alma, mas no posso, no sou capaz.
- No  que no sejas capaz, encaras mal o assunto - replicou Srgio Ivanovitch.
- Talvez - respondeu Levine, desanimado.
- Sabes que o nosso irmo Nicolau est aqui outra vez ?
Nicolau, o irmo mais velho de Constantino Levine e gmeo de Srgio Ivanovitch, era um homem perdido. Dissipara grande parte da fortuna, tinha relaes com pessoas extravagantes e de m reputao e no falava com os irmos.
- Que dizes ? - exclamou Levine, horrorizado. - Como soubeste ?
- Prokofi viu-o na rua.
- Aqui em Moscovo? Onde mora? Sabes?
Levine levantou-se, como que disposto a sair imediatamente.
- Lamento ter-te dito - replicou Srgio Ivanovitch, abanando a cabea perante a agitao do irmo. - Mandei averiguar onde vive e remeti-lhe a letra de Trubine, que eu paguei. Eis o que ele me respondeu. - Srgio Ivanovitch estendeu ao irmo um papel que estava em cima da mesa, debaixo de um pesa-papis. Levine leu o bilhete, escrito com uma letra esquisita, que lhe era familiar:
Peco-lhes encarecidamente que me deixem em paz.  a nica coisa que exijo dos meus amveis irmos.
NICOLAU  LEVINE
Depois de ler o bilhete, Levine permaneceu diante do irmo com o papel entre os dedos, sem levantar a cabea. Na sua alma debatia-se
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o desejo de esquecer o irmo infeliz e a conscincia de que tal atitude no era correcta
-Pelo visto, pretende ofender me - prosseguiu Srgio Ivanovitch-, mas no o consegue Desejaria ajud-lo com toda a minha alma, sei, porm, que  impossvel
- Sim, sim - replicou Levine -Compreendo-te e aprecio o teu procedimento para com ele Mas eu irei procur-lo
- Pois vai, se queres, embora no te aconselhe a faz-lo No receio pelo que me diz respeito, no poder indispor se comigo Mas no o aconselho por ti Enfim, faz o que entenderes
- Talvez seja impossvel ajud-lo, mas sinto, principalmente neste momento (claro que se trata de outra coisa) que no possa ficar de braos cruzados
- A verdade  que no o compreendo - disse Srgio Ivanovitch - A nica coisa que compreendo  essa lio de humildade Principiei a considerar de outra maneira, com mais indulgncia, aquilo a que se costuma chamar infmia, desde que o nosso irmo Nicolau tomou este caminho Bem sabes o que ele fez
-  horrvel'  horrvel' - repetiu Levme
Quando o criado de Srgio Ivanovitch lhe deu o endereo de Nicolau, Levine estava disposto a procura Io imediatamente, mas, depois de reflectir alguns instantes, decidiu adiar para a noite essa visita Antes de mais nada, para tranquilidade de esprito, queria resolver o assunto que o trouxera a Moscovo De casa de Kosmchev dirigiu-se  repartio de Stepane Arkadievitch e depois de se informar acerca dos Tchebatskl, encaminhou se para o local onde aquele lhe dissera que podia encontrar Kitty
CAPTULO IX
s quatro da tarde, Levine, com o corao a latejar, apeou se de um carro de praa  porta do Jardim Zoolgico e dirigiu-se por uma das leas que levavam  pista cie patinagem, certo de ali encontrar Kitty, pois vira a carruagem dos Tcherbatski  entrada do parque.
Era um dia claro e frio Junto  porta havia filas de carruagens e de trens, de cocheiros e de polcias O pblico, bem vestido, com seus chapus que resplandeciam ao sol brilhante, agitava-se junto aos portes e pelas alamedas limpas de neve, no meio das casinhas de estilo russo com os seus adornos esculpidos As velhas e frondosas btulas do jardim, cujos ramos pendiam sob a neve, pareciam engalanadas de vestes novas e solenes
Levine caminhava pela lea de patinagem dizendo de si para consigo. "No devo emocionar-me, preciso de estar sereno. Que  isso' Cala-
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-te, tonto'", acrescentava, dirigindo-se ao seu prprio corao E quanto mais se esforava por tranquilizar-se, tanto mais emocionado se sentia Algum o cumprimentou, mas Levme nem sequer o reconheceu. Aproximou se dos relevos do gelo, de onde os trens se precipitavam, para voltarem a subir tirados por correntes, num grande rudo de ferros. No meio de todo aquele tumulto ouviam-se vozes alegres Andou mais uns passos, at encontrar a pista, e imediatamente no meio dos patinadores reconheceu Kitty.
A alegria e o temor que de repente lhe inundaram o corao revelaram-lhe imediatamente a presena dela. De facto, Kitty, no extremo oposto da pista de patinagem, falava com uma senhora
Nada a distinguia das pessoas que a rodeavam, quer na atitude, quer no traje Levme, no entanto, logo a reconheceu no meio da multido to distintamente como reconheceria uma rosa num ramo de urtigas Parecia tudo iluminar, dir-se ia um sorriso que tudo fizesse refulgir  sua volta. "Ousarei, realmente, descer at  pista e aproximar me dela?", pensou Levme O lugar onde estava Kitty parecia-lhe um santurio inacessvel e por momentos sentiu tanto medo que pensou em fugir Teve de fazer um grande esforo para se convencer de que Kitty, rodeada como estava por toda a espcie de gente, no podia achar estranho que tambm ele ali aparecesse Desceu at  pista, evitando olh-la de frente, como se ela fosse o Sol, mas, sol que era, tambm no precisava de olhar para v Ia
Era o dia e a hora em que todas as pessoas do mesmo nvel social se encontravam semanalmente ali na patinagem Havia excelentes patinadores, que exibiam as suas habilidades, e aprendizes que ensaiavam, atrs dos pequenos trens, os seus primeiros passos tmidos e vacilantes Jovens e velhos, todos se entregavam, por questo de higiene, ao mesmo exerccio Afigurava-se a Levme que todos eles eram seres eleitos dos deuses, s pelo facto de se encontrarem junto dela Perseguiam na, ultrapassavam na, interpelavam-na numa completa indiferena, divertindo se independentemente dela e como se a nica coisa que lhes importasse fosse a excelente pista e o tempo ptimo Nicolau Tcher-bastski, o primo de Kitty, de casaco curto, cala justa, e de patins, descansava num banco Ao ver Levme, gritou-lhe
- Ol, primeiro patinador da Rssia' Quando chegaste' O gelo est ptimo Cala os patins
- No os trouxe - replicou Levme, surpreendido com semelhante audcia e desenvoltura diante de Kitty, sem a perder de vista um s instante, embora no olhasse para ela Sentia que o sol se ia aproximando Kitty, que estava num dos extremos da pista, principiara a deslizar na sua direco, assustada, ao que parecia, colocando os pzmhos, calados com botas altas, em posio no muito firme sobre a superfcie do gelo Um rapazinho, vestido  maneira russa, gesticulando muito e todo inclinado para diante, procurava ultrapassa Ia Kitty patinava com pouca segurana
I B '(12 - i	33
Tirara as mos do regalo pendente do pescoo, como se se preparasse para cair, e olhando para Levine, que acabava de descobrir, sorria assustada Ao findar a volta, com um impulso do pzmho flexvel, deslizou at junto de Tcherbatskl, e, agarrando-se a ele, sorrindo, cumprimentou Levine com um aceno de cabea Ainda era mais encantadora do que ele imaginara Quando pensava em Kitty, Levine podia contempla Ia, de repente, toda inteira, e sobretudo quela sua encantadora cabecinha loura, to gra ciosamente pousada nos jovens e esbeltos ombros, com aquele seu ar de menina, cheia de candura e bondade O contraste entre a graa juvenil do rosto e a beleza feminina do busto davam lhe um encanto todo especial, que Levine muito apreciava Mas o que sempre o assombrava nela eram os olhos, tmidos, serenos e sinceros, e aquele sorriso que o transportava a um mundo de magia, em que se sentia enternecido e dulcificado como s raras vezes se lembrava de se ter sentido na primeira infncia
- J esta aqui h muito tempo' - perguntou Kitty, estendendo-lhe a mo -Obrigada - acrescentou, quando Levine apanhou o lencmho que lhe cara do regao
- Qu' No, h pouco Cheguei ontem, quer dizer hoje - respondeu ele, que no percebera logo a pergunta, em virtude da emoo que o assaltava -Pensava em ir a sua casa - prosseguiu, mas, ao lembrar se do motivo por que procurara Kitty, perturbou se, enrubescendo - No sabu que patinava Patina admiravelmente
Kitty fixou Levine com ateno, como se desejasse compreender o motivo do seu embarao
- O seu elogio  estimulante  tradicional, aqui, a sua fama de ser o melhor patinador - observou ela, enquanto com a mozinha enluvada de preto sacudia as agulhas de gelo do regalo
- Sim, houve tempo em que patinar me apaixonava Queria chegar  perfeio
- Parece que se apaixonava por tudo - observou Kitty, sorrindo - Gostaria muito de v Io patinar Calce os patins e vamos patinar juntos
"Patinar juntos1 Seria possvel'", pensava Levine com olhos cravados em Kitty
-  j - e foi calar os patins
- H muito tempo que no aparecia por aqui - observou o em pregado da pista de patinagem, enquanto lhe segurava o p para firmar o patim - Ningum patina como o senhor Est bem assim' - per guntou lhe, apeitando a correia
- Esta bem, esta bem, depressa, por favor - respondeu lhe Levine, reprimindo a custo o sorriso de felicidade que, a pesar seu, lhe transpa recia no semblante -"Isto  vida' Isto  a felicidade1", pensava "Disse pintos, vamos patinar juntos Digo lhe agora' Mas agora, justamente porque me sinto feliz,  que receio dizer lho, feliz como estou, cheio de esperana Mas  preciso  preciso1 Abaixo a timidez1"
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Levme ps se de" p, despiu o capote e, tomando impulso por cima do gelo crespo, logo ali junto ao pavilho surgiu na superfcie lisa da pista, deslizando sem esforo, como se acelerar, retardar ou dirigir a carreira, tudo dependesse da sua vontade Aproximou se de Kitty com timidez, mas o sorriso desta tranquilizou o de novo
Kitty deu lhe a mo e deslizaram juntos, acelerando a marcha Quanto mais depressa iam mais ele lhe apertava a mo
- Consigo aprenderia a patinar mais depressa, no sei por qu, mas sinto me segura na sua companhia - disse lhe ela
- Eu tambm me sinto seguro quando se apoia em mim - replicou Levme, corando, assustado com a prpria ousadia E, efecti vmente, mal pronunciou estas palavras, de repente, como se o Sol se escondesse atras das nuvens, o rosto de Kitty anuviou se e uma ruga se lhe desenhou na testa Levme sabia que esta alterao no rosto de Kitty correspondia a uma concentrao do pensamento
- Que tem' Est claro que no tenho o direito de fazer lhe esta pergunta - disse ele, precipitadamente
- Por qu' No, no tenho nada - respondeu Kitty, com uma expresso fria, acrescentando -J viu Mademoiselle Linon'
- No, ainda no
- Pois v lhe falar, aprecia o muito
"Que  isto' Ofende Ia ia' Meu Deus, ajuda me1", suspirou Levme, e dirigiu se, veloz, para o banco onde estava a velha francesa, toda caracis grisalhos, que o acolheu como a um velho amigo, mostrando lhe, ao sorrir, a dentadura postia
- Estamos crescendo - observou ela, enquanto mostrava Kitty com os olhos - e envelhecendo Tmy bear j  maior - continuou ela, rindo, recordando lhe que costumava chamar, s trs irms, os trs ursinhos, os ursmhos de um conto ingls - Lembra se de que costumava chama Ias assim'
Levme nem de longe se recordava do gracejo, mas a velha preceptora havia dez anos que lhe achava muita graa
- Bom, v, v patinar, no fique aqui No acha que a nossa Kitty j patina muito bem'
Quando Levme voltou, correndo, para junto de Kitty, no rosto dela j no havia severidade, e os seus- olhos olhavam sinceros e suaves como antes Todavia, Levme julgou notar lhe na afabilidade um tom especial de serenidade premeditada E sentiu se triste Depois de convers.ir com ele acerca da velha preceptora e das suas excentricidades, Kitty interrogou o sobre a sua vida
- Ser possvel que no se aborrea durante o Inverno na aldeia'
- No, no me aborreo, estou sempre muito ocupado - respondeu Levme, sentindo que ia acontecer o mesmo que no princpio do Inverno,
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pois ela, usando aquele seu tom tranquilo, obrigava-o a manter-se no mesmo diapaso, do qual Levine no seria capaz de livrar-se.
-Pensa ficar muito tempo em Moscovo? - perguntou Kitty.
- Ainda no sei - disse Levine, sem prestar ateno ao que dizia. Pensava que se se tornasse a deixar dominar por aquele seu modo sereno, amistoso, voltaria para, a aldeia sem nada decidir, e resolveu rebelar-se.
- Como no sabe?
- Pois no sei. Depende de si - disse, logo assustado com as palavras que pronunciara.
Kitty ou no ouviu ou no quis ouvir essas palavras. Fosse como fosse, pareceu tropear, bateu duas vezes com o pzinho no cho e afastou--se, rpida. Ao chegar junto de Mademoiselle Linon disse-lhe qualquer coisa e dirigiu-se ao pavilho onde as senhoras calavam e descalavam os patins.
"Meu Deus, que lhe fiz eu? Meu Deus, ajuda-me, ilumina-me!", clizia consigo mesmo Levine, como que rezando; e como se, ao mesmo tempo, sentisse necessidade de um exerccio violento, ps-se a deslizar sobre os patins, descrevendo crculos atrs de crculos.
Entretanto um dos jovens, o melhor patinador de entre os novos, saiu do caf, de cigarro na boca e os patins calados. Ganhando impulso, desceu ruidosamente a escada, saltando degrau a degrau, prosseguindo, depois, sobre o gelo, sem mudar sequer a posio livre das mos.
- Ah, um novo truque! - exclamou Levine, e imediatamente galgou os degraus, disposto a fazer o mesmo.
- Cuidado, veja l se se magoa.  preciso prtica - gritou-lhe Nicolau Tcherbatski.
Levine trepou at ao patamar, afastou-se para ganhar o maior impulso possvel e deixou-se deslizar, mantendo o equilbrio com a ajuda das mos. No ltimo degrau tropeou, mas, roando apenas de leve a superfcie do gelo, fez um movimento rpido, ergueu-se e, soltando uma gargalhada, precipitou-se na pista.
"Que rapaz agradvel", pensou Kitty, que naquele momento saa do pavilho com Mademoiselle Linon, seguindo Levine com os olhos e sorrindo, doce e carinhosamente, como se se tratasse de um irmo querido. "Teria eu procedido realmente mal? Dizem que isto  coque-tere! Sei que no  dele que eu gosto, mas nem por isso deixo de me sentir bem na sua companhia.  to simptico... Mas por que me teria ele dito aquilo?...", pensava ela.
Ao ver que Kitty se retirava, e que a me a aguardava na escada, Levine, muito afogueado por causa do exerccio violento que fizera, deteve-se, pensativo. E desembaraando-se dos patins foi no encalo das senhoras at ao porto do parque.
- Muito prazer em v-lo. Recebemos todas as quintas-feiras, como sempre - disse a princesa.
- Hoje, por conseguinte?
- Dar-nos- muito prazer a sua presena - replicou a princesa secamente.
Esta frieza no agradou a Kitty, que, sem poder reprimir o desejo de suaviz-la, se voltou para trs e num sorriso disse:
- At logo.
Naquele momento, Stepane Arkadievitch, de chapu  banda, rosto e olhos resplandecentes, entrava no parque com um ar alegre e triunfante. Ao aproximar-se, porm, da sogra, respondeu, com uma expresso triste e contrita,  pergunta que esta lhe fazia sobre a sade de Dolly. Depois de ter falado com ela em voz baixa e desanimado, travou Levine pelo brao.
- Ento, vamo-nos embora ? - exclamou. - Tenho pensado em ti todo este tempo, e estou muito contente, muito, que tenhas vindo - acrescentou, olhando-o nos olhos com uma expresso significativa.
- Sim, vamo-nos, vamo-nos - tornou-lhe Levine, sentindo-se feliz, no ouvido o cristal da voz que lhe dissera "at logo" e nos olhos o sorriso que a acompanhara.
- Aonde vamos? Ao Hotel de Inglaterra ou ao Ermitage?
- Para mim d no mesmo.
- Ento vamos ao de Inglaterra - disse Stepane Arkadievitch, escolhendo esse restaurante, porque, como era maior ali a sua dvida do que no Ermitage, lhe parecia pouco decente evit-lo. - Tens carro  tua espera? ptimo. Mandei o meu embora.
Durante o trajecto os dois amigos conservaram-se calados. Levine pensava no que poderia significar aquela mudana de expresso no rosto de Kitty, ora cheio de esperana, ora desesperado e convencido de que eram insensatas as suas iluses. No entanto, sentia-se outro, em nada se parecia com o homem que fora antes do sorriso de Kitty e do seu "at logo".
Por sua vez, Stepane Arkadievitch ia preparando a ementa do jantar.
- Gostas de robalo? - perguntou a Levine ao chegarem.
- Que dizes ? - inquiriu por sua vez Levine. - De robalo ? Gosto muitssimo.
CAPTULO X
Quando entraram no restaurante, Levine no pde deixar de observar em Oblonski uma expresso especial, como que uma alegria contida, que se notava tanto no rosto como em todo o seu ser. Stepane Arkadievitch tirou o sobretudo e de chapu  banda penetrou na sala de jantar, dando ordens aos solcitos criados que o rodeavam todos de fraque e guardanapo debaixo do brao. Cumprimentando para a direita e para. a esquerda os
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amigos que o acolhiam cheios de simpatia, como de costume, Oblonski aproximou-se do balco, onde bebeu um copo de vodka enquanto petiscava uns mariscos. Disse qualquer coisa  empregada francesa - toda pintada e enfeitada de fitas e rendas - que a fez rir a bom rir. Pelo seu lado, Levine no quis beber vodka, precisamente porque o incomodava aquela francesa, para ele uma mistura de cabelos postios, de poudre de rz e vinaigre de toilette. Como se se tivesse aproximado de um lugar pestilento, afastou-se dali precipitadamente. A sua alma transbordava de Kitty e diante de si s via os olhos dela irradiando ventura.
- Por aqui, se faz favor, Excelncia - disse um criado velho cujos enormes quadris no lhe deixavam ajustar as abas do fraque. - Faa favor, Excelncia - continuou, dirigindo-se tambm a Levine, em sinal de respeito por Oblonski.
Estendeu rapidamente uma toalha limpa numa mesinha redonda, j entoalhada, sobre a qual havia um candeeiro de bronze. E depois de aproximar da mesa as cadeiras forradas de veludo, quedou-se, o guardanapo numa das mos, a lista na outra, aguardando as ordens de Stepane Arkadievitch.
- Se Sua Excelncia prefere um gabinete reservado, ter um livre dentro de instantes. O prncipe Galitzine est ali com uma senhora, mas j vai sair. Temos ostras frescas.
- Ah! Ostras!
Stepane Arkadievitch ficou pensativo.
- Que achas ? E se alterssemos o plano, Levine ? - disse, apontando com o dedo a ementa. No seu rosto havia uma grande indeciso. - So boas as ostras ? Hem ?
- So de Flensburgo. Hoje, de Ostende, no h.
- Tanto faz que sejam de Flensburgo. Mas, esto frescas?
- Recebemo-las ontem.
- Ento principiamos pelas ostras e alteremos todo o plano. Hem?
- Para mim  a mesma coisa. Do que eu gosto  dos stchi e da kacha; mas aqui no h disso.
- Deseja Vossa Excelncia kacha  Ia russe? - perguntou o criado, inclinando-se para Levine, como uma aia se debrua para uma criana.
- No, realmente o que tu pedires estar bem. Patinei muito e tenho fome. E no penses - acrescentou, ao ver que Oblonski parecia descontente - que no vou apreciar a tua escolha. Comerei com muito prazer.
- Era o que faltava! Podes dizer o que quiseres, mas comer  um dos prazeres maiores da vida - exclamou Stepane Arkadievitch. - Bom, pois vais trazer-nos ostras, duas... Sero poucas: trs dzias. Sopa de verdura...
- Printanire - adiantou-se o criado. Mas, ao que parecia, Stepane Arkadievitch no desejava dar-lhe o prazer de dar nomes franceses aos pratos.
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- De legumes, sabes? A seguir robalo com um molho e depois... rosbife, bem passado, hem! E por fim frango e conservas.
O criado, ao lembrar-se que Stepane Arkadievitch tinha a mania de dar aos pratos nomes russos, no ousou interromp-lo mais. Uma vez escolhido o jantar, porm, deu-se ao prazer de repetir, malicioso, toda a ementa  francesa: "Soupe printanire, titrbot sauce Beumarchais, poulare  l'estragon, macdoine de frurts." E acto contnuo, como que movido por uma mola, retirou a ementa e apresentou a lista dos vinhos a Stepane Arkadievicth.
- Que vamos beber?
- O que quiseres, mas no muito.  Champaahe - disse Levine.
- Qu? Para comear? , talvez tenhas razo. Gostas do rtulo branco?
- Cachet Blanc - corrigiu o criado.
- Bom, traz desse para as ostras. Depois veremos.
- Muito bem. E que vinho de mesa deseja, Excelncia?
- Traz-nos Nuits. No, antes o clssico Chablts.
- Muito bem. E posso servir-lhe o seu queijo, Excelncia?
- Sim, parmeso. Ou preferes outro ?
- Tanto faz - respondeu Levine, sem poder conter o riso.
O criado afastou-se correndo, com as abas do fraque apertadas atrs, e da a cinco minutos voltava, voando, com uma bandeja de ostras abertas nas suas conchas de ncar, e uma garrafa entre os dedos.
Stepane Arkadievitch desdobrou o guardanapo engomado, meteu uma das pontas no colete, apoiou os braos e ps-se a comer as ostras.
- No esto nada mal - disse, enquanto ia arrancando, com uma faquinha de prata, das suas conchas nacaradas as ostras vivas, que devorava umas atrs das outras. - No esto nada mal - repetia, mirando, os olhos brilhantes, ora Levine, ora o criado.
Levine tambm comeu ostras, embora preferisse po branco com queijo. Estava pasmado com Oblonski. O prprio criado, que desarrolhara a garrafa e deitara o espumoso vinho nas taas de cristal, olhava para Oblonski com um sorriso de satisfao enquanto ajeitava o lao da gravata branca.
- No gostas muito de ostras ou ests preocupado? - perguntou Stepane Arkadievitch, virando a taa.
Oblonski desejava que Levine estivesse alegre. E efectivamente estava, mas sentia-se inibido. No seu estado de esprito incomodava-o aquele restaurante com os seus gabinetes reservados, em que se comia com mulheres, e aquela barafunda, bem como os bronzes, os espelhos, as luzes e os criados. Temia conturbar os belos sentimentos que tinha na alma.
- Eu ? Sim, estou preocupado e alm disso tudo isto me inibe - respondeu. - No podes calcular como este ambiente me parece estranho,
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a mim, um aldeo    um pouco como as unhas daquele senhor que eu vi na tua repartio
- Sim, reparei nisso, que as unhas do pobre Gnmevitch te mte ressaram muito - disse Oblonski, rindo
- Sim, que queres? Procura compreender me, pondo te no meu lugar, adopta o ponto de vista de um homem que vive na aldeia Ali procuramos ter as mos para trabalhar com comodidade, por isso cortamos as unhas rentes, e s vezes at arregaamos as mangas Aqui, pelo contrario, as pessoas deixam crescer as unhas o mais que podem e,  guisa de abotoa-duras, usam uma espcie de pires para nada poderem fazer com as mos
Stepane Arkadievitch sorriu jovialmente
- Isso quer dizer apenas que no precisam de trabalhar com as mos a cabea lhes basta
- Talvez Mas, de qualquer forma, acho esquisito, da mesma maneira que no posso deixar de estranhar estarmos aqui, tu e eu, a comer ostras para despertar o apetite, ficando  mesa tempo infinito, quando na aldeia tratamos de comer o mais rapidamente possvel para voltarmos s nossas ocupaes
- Claro Mas  nisso mesmo que consiste a civilizao fazer com que tudo se transforme em prazer - replicou Stepane Arkadievitch
- Pois bem, se  esse o objectrvo da civilizao prefiro ser selvagem
- J o s, meu caro  Todos os Levines o so
Levine suspirou Lembrou se de seu irmo Nicolau e, sentindo-se envergonhado e pesaroso, franziu as sobrancelhas Mas Oblonski ps-se a falar-lhe de uma coisa que logo o distraiu
- Vais esta noite a casa dos Tcherbatski"' - perguntou lhe com significativa expresso, enquanto afastava de si as rugosas conchas vazias, aproximando o queijo
- Irei sem falta Embora tenha a impresso de que a princesa me convidou de m vontade - replicou Levine
- Que ideia' Tolices' So as maneiras dela Eh, amigo, venha de l a sopa' So os seus modos de grande dama - disse Stepane Arka-dievitch -Eu tambm irei Mas antes tenho de ir ao ensaio do coro da condessa Bonina Ento, como  que tu no hs de ser um selvagem' Explica me, se fazes favor, por exemplo, o porqu do teu desaparecimento sbito de Moscovo Os Tcherbatski passavam a vida a perguntar por ti, como se eu soubesse S sei uma coisa que fazes sempre o contrrio de toda a gente
- Sim, tens razo, sou um selvagem - confirmou Levine, lenta mente e com emoo -Mas no por me ter ido embora daqui e sim por ter voltado Aqui estou outra vez
- Que feliz te sentes1 - interrompeu o Stepane Arkadievitch, fi tando-o nos olhos
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- Por qu'
- "Os cavalos fogosos conhecem-se pela marca e as pessoas apaixonadas pe'os olhos" - declarou Stepane Arkadievitch.-O futuro pertence te
- E tu j s tens o passado'
- J nada mais me resta seno digamos, o presente, e um presente onde nem tudo  cor de-rosa
- Que h contigo'
- As coisas no vo bem Mas no te quero falar de mim, tanto mais que no me  possvel entrar em todos os pormenores - disse Stepane Arkadievitch - Bom, para que vieste a Moscovo' Olha, tu, muda estes pratos - gritou para o criado
- No calculas' - replicou Levme, sem deixar de fitar Oblonski com os seus olhos profundos e luminosos
- Calculo, mas no me compete ser o primeiro a falar do assunto Por isto podes imaginar se adivinho ou no - disse Oblonski, olhando para Levme enquanto sorria subtilmente
- Pois bem, ento que achas' - perguntou Levme em voz trmula e percebendo que lhe estremeciam os msculos da face -Que achas'
Stepane Arkadievitch levou aos lbios, lentamente, um copo de Chablis, enquanto continuava a olhar para Levme
- Eu' Por mim, no desejaria outra coisa Era o melhor que poderia suceder' - replicou
- Mas no ests enganado3 Sabes do que estamos a falar' Achas que  possvel' - insistiu Levme, cravando os olhos no interlocutor
- Acho que sim   Por que no'
- Realmente, achas isso possvel' Diz me tudo o que pensas' E se me espera uma recusa' Estou quase convencido que sim
- Por qu' - perguntou Stepane Arkadievitch, sorrindo ante a inquietao de Levme
- Isso  o que me parece s vezes, e seria horrvel para mim e para ela
- Bom, em todo o caso, para ela no seria nada horrvel Qualquer jovem fica sempre lisonjeada quando a pedem em casamento
- Sim, mas ela no  como as outras
Stepane Arkadievitch sorriu Compreendia perfeitamente o estado de esprito de Levme, sabia que para ele as mulheres do mundo se dividiam em duas classes a primeira inclua todas, excepto Kitty, e essas tinham todas as fraquezas humanas, sendo absolutamente vulgares, na segunda s cabia ela, que no tinha fraqueza alguma e pairava muito acima de tudo o que era humano
- Espera, serve te de molho - disse, detendo a mo de Levme, que repelia a molheira
Levme obedeceu, mas no deixou Stepane Arkadievitch comer em pa2
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- No, espera, espera - disse ele - preciso que compreendas que isto para mim  questo de vida ou de morte Nunca falei com ningum a este respeito nem posso falar a ningum excepto contigo Como vs, somos diferentes em tudo temos gostos e pontos de vista diversos, mas sei que s meu amigo e que me compreendes, e por isso te aprecio muitssimo Mas, por amor de Deus, diz-me toda a verdade
- Digo-te o que penso-respondeu Stepane Arkadievitch, sorrindo- e ainda te direi mais minha mulher  uma pessoa extraordinria - Oblonski suspirou ao lembrar se do estado das suas relaes com Dolly, e aps um breve silncio continuou -Tem o dom de prever os acontecimentos Conhece as pessoas como se lhes lesse na alma Mas isto no  tudo Sabe o que vai acontecer, sobretudo tratando-se de casamentos Por exemplo, predisse que a Chakovskoi casaria com o Brenteln Ningum acreditava nisso, mas a verdade  que assim foi E est do teu lado
- Ento    '
- No s gosta de ti, como diz que Kitty h de ser, seja de que maneira for, tua mulher
Ao ouvir estas palavras, o rosto de Levine iluminou se num sorriso que se aproximava das lagrimas de ternura
- Foi isso que ela disse' - exclamou - Sempre achei a tua mulher encantadora Bom, basta, no falemos mais no caso - acrescentou, levantando se
- De acordo, mas senta te
Levine no podia continuar sentado Percorreu, duas ou trs vezes, num passo firme, o recanto onde se encontravam, piscando os olhos para disfarar as lagrimas
-  pieciso que compreendas-continuou ele, voltando a sentar se-, no se trata de um amor vulgar J estive enamorado vrias vezes, mas no era a mesma coisa O que me domina no  um sentimento meu, mas uma fora exterior Sa de Moscovo porque decidira que isso no podia ser, pela mesma razo de que a felicidade perfeita no existe na terra Mas lutei comigo mesmo e acabei por reconhecer que no podia viver sem ela  necessrio tomar uma resoluo
- Mas por que fugiste'
- Oh, espera1 Oh1 Se soubesses quantas ideias tenho dentro da cabea, as coisas que te queria perguntar' Escuta me Nem podes calcular o bem que me fizeste com as tuas palavras Sou to feliz que at me fiz uma pessoa ma Esqueo me de tudo Soube hoje que meu irmo Ni-colau est aqui em Moscovo E at dele me esqueci Afigura se me que at ele prprio  feliz Isto parece loucura Mas h uma coisa horrvel Tu, que s casado conheces esse sentimento O que  terrvel  que nos, homens maduros, j com passado no de amor, mas
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cheio de pecados, ousemos aproximar nos sem pejo de um ser puro e inocente     Isto  to repulsivo que no posso deixar de me sentir indigno
- Ora, tu no deves ter grandes crimes na conscincia
- E no entanto - replicou Levine -, quando analiso a minha vida, estremeo, amoldioo me e lamento me cheio de amargura Sim
- Que havemos de fazer' O mundo  assim - disse Stepane Ar-kadievitch
- S vejo um lenitivo, essa orao de que eu tanto gostava "Perdoa me, Senhor, no plos meus mentos, mas pela grandeza da Tua misericrdia" S assim ek me pode perdoar
CAPTULO XI
Levine esvaziou o copo, e ambos ficaram calados
- Tenho ainda mais alguma coisa a dizer te Conheces o Vronski'- inquiriu Stepane Arkadievitch
- No, no conheo Por que perguntas'
- Traz outra garrafa - disse Stepane Arkadievitch, dirigindo se ao criado, que enchia os copos e se punha a girar em torno da mesa nos momentos mais inoportunos - Digo te, porque  um dos teus rivais
- Quem  Vronski' - perguntou Levine, e no seu rosto, onde havia um entusiasmo pueril, surgiu, de repente, raiva e contrariedade
-  um dos filhos do conde Kinl Ivanovitch Vronski e um dos mais belos exemplares da juventude dourada de Sampetersburgo Conheci o em Tver, quando ali estive a servir Costumava ir l para o recrutamento  imensamente rico, bela figura e com boas relaes  ajudante de campo e alm disso rapaz muito simptico e bom moo Quando lidei com ele aqui pude verificar que tambm  culto e muito inteligente  um homem que h de ir longe
Levine franziu as sobrancelhas, conservando se calado
- Esteve aqui pouco tempo depois de te teres ido embora Segundo me parece, est enamoradssimo de Kitty, e deves compreender que a me
- Perdoa me, mas no entendo nada - replicou Levine, taciturno E imediatamente se lembrou do irmo Nicolau e se persuadiu de que era uma indignidade t Io esquecido
- Espera, espera - disse Stepane Arkadievitch, sorrindo e pegando -lhe na mo - Disse te o que sabia E repito te que na medida em que  possvel fazerem se previses num assunto to delicado e subtil como este, sou de opinio de que todas as vantagens so tuas
Levine recostou se no espaldar da cadeira  Estava plido
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- Mas aconselho-te a que decidas as coisas o mais depressa que puderes - prosseguiu Oblonski, enchendo o copo de Levine.
- No, obrigado, no posso beber mais - disse este, repelindo o copo.-Acabaria bbedo... Bom, e tu, como vais? - continuou, tentando, ao que parecia, desviar a conversa.
- S mais uma palavra: em todo o caso, repito, aconselho-te a que decidas o caso quanto antes. Mas acho melhor no falares hoje. Vai amanh pela manh pedir a mo dela, segundo todas as praxes e que Deus te abenoe...
- Por que no vens caar nas minhas terras? Aparece na Primavera- disse Levine.
Estava arrependidssimo agora de ter tratado aquele assunto com Stepane Arkadievitch. Aquele seu sentimento to ntimo fora maculado ao falarem desse oficial de Sampetersburgo, seu rival, e pelas conjecturas e conselhos de Oblonski.
Este sorriu, compreendendo o que se estava passando na alma de Levine:
- Mais tarde ou mais cedo, apareo por l - disse ele. - Sim, homem, as mulheres so a mola que tudo move neste mundo. Tambm a mim as coisas no correm bem. E tudo por culpa das mulheres. Fala-me com sinceridade, d-me um conselho - continuou, enquanto puxava de um cigarro e mantinha o copo suspenso na outra mo.
- De que se trata?
- Do seguinte. Suponhamos que estavas casado, que gostavas da tua mulher, mas outra te seduzia...
- Perdoa-me, no percebo absolutamente nada. Era como se eu, ao sair daqui satisfeito com o jantar, passasse por uma confeitaria e roubasse um doce.
Os olhos de Stepane Arkadievitch resplandeceram mais do que habitualmente.
- Por que no ? As vezes um doce cheira to bem que a gente no pode conter-se.
Himmlisch ist's, wenn ich bezwungen Meine irdische Begier; Aber doch wenn's nicht gelungen, Hatt' ich auch recht hbsch Plaisir!'
Ao dizer isto, Stepane Arkadievitch sorria, subtilmente. Levine tambm no pde reprimir o sorriso.
1 Digno do cu se sentia / quando os meus terrenos apetites dominava. Mas quando no o conseguia, / um inefvel prazer de mim se apoderava
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- Basta de gracejos - prosseguiu Oblonski. - Pensa numa mulher agradvel, tmida, afectuosa, s e pobre que tudo sacrificou por ti. Agora, que a coisa est consumada, poderei porventura abandon-la? Suponhamos que nos separssemos para no destruir a vida familiar. Mas como no compadecer-me dela, no ajud-la, no suavizar-lhe a sorte?
- Perdoa-me, j sabes que para mim as mulheres se dividem em duas classes.. Quer dizer, no. Mais exacto seria dizer que h mulheres e. . Nunca vi uma mulher decada com atractivo, nem verei, e as mulheres como aquela pintalgada do balco, a francesa, com as suas risadas, so para num pior do que a peste. Todas as mulheres decadas so iguais
- E a do Evangelho ?
- Oh! Cala-te! Cristo nunca teria pronunciado aquelas palavras se pudesse calcular o mau uso que viriam a fazer delas. So as nicas palavras do Evangelho que todos sabem de cor. Alm disso no estou a dizer o que penso, estou a dizer o que sinto. Repugnam-me as mulheres decadas. A ti metem-te medo as aranhas, e a mim essas misrias. Naturalmente nunca estudaste a vida das aranhas nem lhes conheces os costume: o mesmo acontece comigo.
- -te fcil falares assim. Fazes-me lembrar aquela personagem de Dickens que com a mo esquerda atirava por cima do ombro direito todos os assuntos difceis de resolver. A verdade, porm,  que negar um facto no  dar uma resposta. Dize-me: que fazer? Que fazer ? A tua mulher envelhece e tu ests cheio de vida. Num abrir e fechar de olhos ds-te conta de que no podes continuar a amar a tua mulher por maior respeito que sintas por ela. E  ento que aparece o amor. Ests perdido! Ests perdido! - concluiu Stepane Arkadievitch, pateticamente.
Levine sorriu com ironia.
- Ests perdido - prosseguiu Oblonski -, mas que fazer ?
- No roubes doces.
Stepane Arkadievitch soltou uma gargalhada.
-  moralista! Mas lembra-te disto: h duas mulheres - uma apenas se apoia no seu direito, que  esse amor que tu no lhe podes dar; ao contrrio, a outra tudo sacrifica sem te exigir nada. Que deves fazer? Como deves proceder?  um drama terrvel.
- Se queres que te d a minha opinio sincera sobre esse caso, dir-te-ei que no creio que se trate de um drama, e aqui tens porqu. Creio que o amor... essas duas classes de amor que, como te deves lembrar, Plato define no seu Banquete, constituem a pedra de toque dos homens. Uns s compreendem um destes amores; os demais, o outro. E os que s compreendem o amor no platnico, esses no tm o direito de falar de dramas. Com um amor dessa classe no pode existir nenhum drama. "Agradeo-lhe muito o prazer que me proporcionou, e adeus." Nisso consiste todo o drama. E no que diz respeito ao amor
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platnico, tambm esse no pode produzir dramas, porque nele tudo  puro e difano, porque
Naquele momento Levme lembrou se dos seus pecados e da luta interior que tinha mantido Inesperadamente acrescentou
- Afinal de contas, talvez tenhas razo  muito possvel Mas no sei, verdadeiramente no sei
- Vs, s um homem ntegro - volveu Stepane Arkadievitch - Esse  o teu defeito e a tua virtude Tens um carcter ntegro e queres que toda a vida se componha de manifestaes ntegras Mas a verdade  que isso no acontece Por isso desprezas a actividade social do Estado, pois queres que todo o esforo estivesse sempre directamente relaccionado com um fim, o que no  verdade Tambm gostarias que a actividade do homem tivesse um objectivo que o amor e a vida conjugal fossem uma e a mesma coisa Mas as coisas no se passam assim Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida se compe de luzes e de sombras
Levme suspirou e nada respondeu Pensava nos seus problemas e no prestava ateno a Oblonski E de sbito ambos sentiram que, con quanto fossem amigos, conquanto tivessem comido e bebido juntos, o que os devia ter unido ainda mais, cada um deles s pensava em si, sem no fundo preocupar se com o que dizia respeito ao outro No era a primeira vez que Oblonski experimentava, depois de comer, essa separao extrema em vez de uma aproximao, e sabia o que devia fazer em tais circunstncias.
- A conta' - gritou, e passou  sala contgua, onde se deparou com um ajudante de campo das suas relaes Puseram se ento a conversar a respeito de uma actriz e seu amante E logo se sentiu aliviado e descansado da conversa que tivera com Levine, que tinha a faculdade de o arrastar sempre para uma tenso mental e espiritual excessiva
Quando o criado apareceu com uma conta de vinte e seis rublos e uns tantos copeques, alm de um acrscimo pela vodka, Levine, que noutra oportunidade se teria horrorizado, bom aldeo que era, por ter gasto catorze rublos, no fez caso disso, e depois de pagar dirigiu se a casa para mudar de roupa, decidido a ir  recepo dos Tcherbatski, onde o seu futuro se decidiria
CAPTULO XII
A princesa Kitty Tcherbatski tinha dezoito anos Era o primeiro Inverno em que fazia vida de sociedade, e nela obtinha maior xito que as duas irms mais velhas e at mesmo mais do que esperava a prpria me No s os rapazes que frequentavam os bailes de Moscovo estavam todos enamorados de Kitty, como naquele mesmo Inverno j recebera
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duas propostas srias de casamento a de Levine, e, imediatamente aps a sua partida, a do conde Vronski
O aparecimento de Levine no princpio do Inverno, as suas frequentes visitas e o seu evidente amor por Kitty deram motivo a primeira conversa sria entre os pais sobre o futuro da filha e at haviam pr vocado algumas discusses O prncipe defendia Levine e dizia que no podia desejar nada melhor para Kitty A princesa, pelo contrario, com o caracterstico costume que as mulheres tm de desviar as questes, opinava que Kitty era muito jovem, que Levine no demonstrara intenes srias, que a pequena no se sentia inclinada para ele e outros argumentos deste gnero Mas no dizia o mais importante isto , que esperava um partido mais vantajoso para a filha, que no simpatizava com Levine e ainda por cima que no o entendia Quando Levine partiu de Moscovo repentinamente, a princesa ficou contentssima e disse ao ma rido com expresso de triunfo "Como vs, eu tinha razo " E quando apareceu Vronski, ainda mais alegre ficou, firmando se na opinio de que Kitty faria no s um bom casamento, mas um casamento esplndido
Para a princesa no podia haver comparao powivel entre Levine e Vronski No gostava das estranhas e violentas opinies de Levine, nem do seu acanhamento na sociedade, em parte motivado, assim o pensava, pelo orgulho, nem to pouco dessa vida selvagem da aldeia, s entre animais e camponeses E o que ainda mais lhe desagradava era o facto de Levine, enamorado da filha, ter lhe frequentado a casa durante ms e meio sem se explicar francamente sobre as suas intenes Desconheceria ele os costumes at esse ponto' Ou recearia, talvez, conceder--Ihes uma excessiva honra) E, de repente, aquela partida sem quaisquer explicaes "Ainda bem", pensou a princesa, "que  to pouco atraente que nem sequer virou a cabea da pequena1" Vronski, pelo contrrio, satisfazia todas as suas ambies era muito rico, inteligente, famoso e aguardava o uma brilhante carreira tanto no exrcito como na Corte No podia desejar nada melhor
Nos bailes, Vronski galanteava abertamente Kitty danava com ela e frequentava lhe a casa de tal maneira que ningum podia ter dvidas quanto  seriedade das suas intenes E no entanto a pobre me de Kitty passara todo o Inverno muito inquieta e preocupada
A princesa casara se trinta anos atrs e fora uma tia quem lhe preparara o casamento O noivo sobre quem se haviam antecipadamente tomado todas as informaes, chegara, conhecera a noiva e dera se a conhecer A casamenteira observou a boa impresso que cada um causara ao outro e disso inteirou ambas as partes A impresso fora boa Depois, e numa data prevista, procedeu se ao pedido, que foi aceito Tudo fora muito fcil e simples Foram muitos os receios que teve, muitos os pensamentos, muito o dinheiro que gastou e muitos os desgostos com o marido
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ao casar Daria e Natalia as duas filhas mais velhas Agora, ao apresentar a sociedade a mais nova voltaram os mesmos receios, voltaram as ms mas duvidas e as discusses com o mando eram ainda maiores Como todos os pais, o velho prncipe era muito escrupuloso a respeito da honra e da pureza das suas filhas Era exageradamente cioso delas, especialmente de Kitty a predilecta, e a cada momento armava cenas com a mulher, alegando que ela comprometia a pequena A princesa j estava acostumada com isso no que tocava as duas outras filhas, mas agora se apercebia de que a susceptibilidade do prncipe tinha fundamento nos ltimos tempos muita coisa mudara nas recepes sociais e os seus deveres de me eram agora mais difceis Verificava que as raparigas da idade de Kitty formavam grupos, assistiam a no sei que cursos, tratavam os homens com desenvoltura, saam sozinhas, muitas delas no faziam reverncias ao cumprimentarem e, coisa bem pior, estavam convencidas de que a escolha de mando incumbia a elas e no aos pais "Hoje em dia j no se casam as filhas como dantes", diziam e pensavam todas essas jovens e mesmo as pessoas de idade A princesa, contudo, no conseguia perceber como se casavam hoje em dia as raparigas O costume francs, de acordo com o qual eram os pais quem decidia do futuro dos filhos no s no era admitido, mas criticado O ingls, segundo o qual as mulheres deviam ser completamente livres, tambm seria repelido, impossvel que era na sociedade russa Considerava se ridculo o costume russo de arranjar os casamentos por intermdio de casamenteiras e todos se riam disso, inclusive a prpria princesa Mas ningum sabia como levar a cabo os casamentos Todas as pessoas com quem a princesa falava a este respeito lhe respondiam da mesma maneira "Nos nossos dias j  tempo de acabar com esses antigos costumes Quem se casa so os filhos, no os pais,  preciso deixarmos que sejam eles que se entendam uns com os outros" Era muito fcil falar assim para quem no tinha filhas, mas a princesa compreendia que Kitty podia apaixonar se, no seu trato com os homens, por algum que no tivesse inteno de casar com ela ou que no lhe conviesse E por mais que lhe dissessem que nos tempos que (.ornam s jovens se devia dar a oportunidade de preparar o seu prprio futuro, no podia cojjformar se, como to pouco se conformaria que houvesse uma poca em que o melhor brinquedo para as crianas de cinco anos fossem pistolas carregadas Eis que a princesa andava mais preocupada com Kitty do que outrora com qualquer das suas duas filhas mais velhas
Agora receava que Vronski se limitasse apenas a fazer a corte  filha Sabia que Kitty j estava enamorada dele, mas consolava a a ideia de que Vronski era homem srio Tambm sabia quo fcil era transformar a cabea de uma rapariga na sociedade livre dos tempos modernos e a pouca importncia que os homens atribuam a semelhantes faltas Na semana anterior Kitty contara  me a conversa que tivera com Vronskl
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durante uma mazurca Essa conversa tranquilizara em parte a princesa, mas no lograra serena Ia por completo Vronskl contara a Kitty que tanto ele como o irmo estavam to habituados a obedecer  me que nunca tomavam qualquer resoluo importante sem lhe pedir conselho "E agora aguardo com uma grande felicidade a chegada de minha me a Sampetersburgo", conclura
Kitty contara isto  me sem lhe atribuir importncia, mas a me interpretou essas palavras de outra maneira Sabia que Vronskl esperava a me de um momento para o outro e que ma regozijar se com a escolha do filho No entanto, parecia lhe estranho que, para no ofender a me, Vronskl no se decidisse a declarar se To grande, porm, era o seu desejo de que esse casamento viesse a realizar se, e sobretudo tamanho o seu desejo de recuperar a serenidade depois de todas aquelas apoquen taces, que confiava que Vronski o viesse a fazer Conquanto a afligisse muito a infelicidade da filha mais velha, disposta a separar se do marido, o certp  que a preocupao com o futuro de Kitty a absorvia por com pleto A chegada de Levine veio trazer lhe mais uma preocupao a princesa receava que a filha, que tempos antes mostrara simpatizar com ele, repelisse Vronskl, por um excesso de escrpulos e que, de maneira geral, o aparecimento desse pretendente atrapalhasse ou protelasse o assunto, to prximo de um desfecho
- Chegou h muito' - perguntou a princesa quando entraram em casa
- Hoje mesmo, mezinha
- Quero dizer te uma coisa - principiou a princesa, e Kitty adivinhou, pela sua expresso sria e animada, o que lhe ia dizer
- Por amor de Deus, me, por amor de Deus, no me fale nisso - replicou Kitty, num arrebatamento, voltando se rapidamente para a me -J sei, sei tudo muito bem
Os desejos de Kitty eram os mesmos da me, mas ofendiam na os motivos que inspiravam os desejos desta
- Apenas  te  quero  dizer  que  se deste esperanas  a algum
- Querida me, por amor de Deus1, no me diga nada  terrvel falar destas coisas
- Esta bem, np falarei, mas ouve o que te digo - teimou a princesa, vendo lagrimas nos olhos da filha - promete me no teres segredos para mim Assim fars, no  verdade'
- No, nunca, mezmha, no - replicou Kitty, corando e olhando a me nos olhos - Mas agora nada tenho que lhe dizer Eu eu Ainda que quisesse dizer lhe alguma coisa no sabia que, nem como No sei
"Com estes olhos no pode mentir", pensou a princesa, sorrindo, ao ver a emoo e a felicidade da filha Sorria ao pensar quo grandes e importantes se lhe afiguravam, a pobrezinha da Kitty, as emoes do seu corao
LB202-4
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CAPTULO XIII
Depois do jantar e at ao princpio da noite, Kitty conheceu as mesmas impresses que costuma experimentar um jovem soldado nas vsperas de uma batalha... O corao pulsava-lhe com violncia e no era capaz de concentrar o pensamento. Sentia que aquela noite, em que "eles" se encontrariam pela primeira vez, iria decidir do seu destino. Estava a v-los constantemente, ora os dois juntos, ora cada um de per si. Quando recordava o passado, era com prazer e ternura que evocava a sua intimidade com Levine. As recordaes de infncia, bem como a, amizade de Levine com o falecido irmo, nimbavam de um encanto especial e potico as suas relaes com ele. O amor que Levine lhe tinha, amor de que ela estava certa, inundava-a, enchendo-a de contentamento. Era-lhe agradvel lembrar-se de Levine. Pelo contrrio, ao pensar em Vronski uma espcie de mal-estar a assaltava, no obstante ser homem sossegado e extremamente mundano. Parecia que notava certa falsidade, no nele - era muito simples e simptico - mas nela prpria, enquanto que com Levine se sentia completamente sincera e tranquila. Todavia, se pensava no seu 'futuro com Vronski, o futuro aparecia-lhe brilhante e feliz, enquanto com Levine lhe surgia nebuloso.
Quando foi vestir-se e se mirou ao espelho, notou com alegria que estava num dos seus melhores dias, e que se encontrava no domnio pleno de todas as suas foras, coisa de que tanto precisava naquele momento. Nem a graa nem o sangue-frio lhe iriam faltar dentro de pouco. s sete e meia, quando desceu ao salo, o criado veio anunciar:
- Constantino Dimitrievitch Levine.
A princesa ainda estava nos seus aposentos e o prncipe tambm ainda no descera. "Meu Deus!", suspirou Kitty, e todo o sangue lhe afluiu ao corao. Ficou horrorizada ao ver-se to plida diante do espelho.
Agora compreendia claramente que Levine viera mais cedo s para se encontrar a ss com ela. E tudo lhe apareceu sob um aspecto distinto e novo. Naquele momento s percebeu que se tratava de saber com quem iria ser feliz e a quem amava, como se via na contingncia de ofender um homem que lhe era querido. Ofend-lo de maneira cruel... E por qu? Porque era simptico, porque lhe queria, porque estava enamorado dela. Mas no havia nada a fazer, era preciso, tinha de ser assim.
"Meu Deus!", pensou. "Ser possvel que tenha de lhe dizer eu mesma? Dizer-lhe que no gosto dele? Mas isso no  verdade. Que lhe direi ento ? Que gosto de outro ? No:  impossvel. Vou-me embora, vou-me embora."
E j se aproximava da porta quando ouviu os passos de Levine. "No; no seria leal. De que tenho medo? No fiz mal algum. Acontea o que acontecer, dir-lhe-ei a verdade. Alm disso, diante dele no
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me sinto embaraada. Ele a est", pensou, ao v-lo aparecer, tmido na sua fora, fixando nela um olhar ardente. Kitty fitou-o francamente face a face, e estendeu-lhe a mo.
- Acho que cheguei cedo de mais -disse Levine, relanceando os olhos ao salo vazio.
Ao certificar-se de que as suas esperanas se realizavam, que nada o impediria de fazer a sua declarao o seu rosto entristeceu-se.
- De maneira nenhuma - replicou Kitty, sentando-se junto  mesa.
- Era precisamente isso que eu queria, encontr-la s - principiou Levine, sem se sentar e sem fitar Kitty, para no perder a coragem.
- Minha me j vem a. Ontem ficou muito cansada. Ontem...
Kitty falava sem saber o que os seus lbios diziam e sem afastar de Levine os olhos suplicantes e acariciadores. Levine fitou-a. Kitty corou e calou-se.
- J lhe disse que no sei se irei ficar muito tempo aqui... que isso dependia de si...
Kitty baixava cada vez mais a cabea, sem saber que resposta dar ao que Levine lhe ia dizer.
- Que isso dependia de si -repetiu ele. -Queria dizer-lhe... Vim para que... que... seja minha mulher! - concluiu, sem saber bem o que dizia, mas dando conta de que o mais terrvel e o mais grave estava dito. Ento fixou nela os olhos.
Kitty continuava de cabea baixa; respirava com dificuldade. Uma alegria imensa lhe enchia o corao. Nunca pensara que a confisso daquele homem lhe causasse uma impresso to viva. Mas da a pouco lembrou-se de Vronski. Efgueu para Levine os olhos luminosos e sinceros e ao ver a angstia que se lhe pintava no rosto, replicou apressadamente:
- Isso no pode ser... perdoe-me.
Havia pouco, que prxima dele se sentia e que importante na sua vida! E agora, que longe e alheia se lhe tornara!
- No podia ser de outra maneira - disse Levine sem a fitar. Com uma reverncia, ia retirar-se.
CAPITULO XIV
Mas naquele momento entrava a princesa. No seu rosto transpareceu o horror que lhe causava v-los ali sozinhos e com aquelas transtornadas expresses. Levine inclinou-se diante dela sem dizer palavra. Kitty, calada, no ousava erguer os olhos. "Graas a Deus, disse-lhe que no", pensou a me, e no seu rosto transpareceu o sorriso habitual, o sorriso com
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que acolhia todas as visitas de qumta-feira. Depois de se sentar, principiou a fazer perguntas a Levine acerca da sua vida na aldeia. Levine sentou-se tambm, aguardando a chegada dos convidados, para poder retirar-se discretamente.
Da a cinco minutos chegava a condessa Nordston, amiga de Kitty, que se casara no ltimo Inverno
Era uma mulher delgada, amarelada, de brilhantes olhos negros, nervosa e enfermia Gostava muito de Kitty e o carinho que sentia por ela, como acontece quase sempre da parte das casadas para com as solteiras, manifestava se no desejo de casar a amiga de acordo com o seu prprio ideal de felicidade queria v-la casada com Vronski No simpatizava com Levine, a quem vira frequentemente no ltimo Inverno em casa dos Tcherbatski Quando perto dele, o que mais a divertia era ridiculariz-lo
- Gosto muito de o ver olhar-me do alto da sua superioridade, quando interrompe, convencido de que sou uma estpida, os seus belos discursos intelectuais ou quando condescende em dirigir-me a palavra. Condescende1 f esse mesmo o termo Adoro que me deteste1 - costumava dizer a condessa quando falava dele
Tinha razo De facto, Levine no a tolerava Desprezava nela precisamente aquilo de que ela mais se orgulhava e tinha como suas maiores virtudes o nervosismo o desdm requintado, a indiferena por tudo que considerava material e grosseiro
Havia-se estabelecido, pois, entre eles um gnero de relaes muito comum em sociedade estimando-se aparentemente, no fundo a tal ponto se desprezavam que no podiam sequer tomar se a srio um ao outro nem ofender-se reciprocamente
Lembrando-se de que Levine, no princpio do Inverno, comparara Moscovo a Babilnia, a condessa imediatamente abordou o assunto'
- Ah1 Constantmo Dimitnevitch' Ento voltou  nossa pervertida Babilnia1 - exclamou, estendendo-lhe a mo minscula e amarelada - Foi a Babilnia que se regenerou ou foi voc que se perverteu' - acrescentou com um sorriso irnico, enquanto relanceava um olhar a Kitty
- Muito me lisonjeia, condessa, que se recorde das minhas palavras - replicou Levine, que entretanto se refizera do choque, adoptando o tom irnico e hostil com que habitualmente se dirigia  condessa Nor dston -V-se que muito a impressionaram
- Evidentemente' Registo-as todas    Que tal, Kitty' Patinaste hoje'
E continuou tagarelando com Kitty
Ainda que lhe custasse partir naquele momento, Levine achou isso prefervel a ter de ficar toda a noite a ver Kitty, que de quando em quando olhava para ele, evitando encontrar-lhe os olhos Quis levantar-se, mas a princesa, ao ver que ele no falava, perguntou-lhe
- Conta ficar muito tempo em Moscovo' Creio que pertence ao zemstvo No deve poder demorar-se
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- No, j no fao parte do zemstvo, princesa Estarei aqui alguns dias.
"Tem qualquer coisa hoje", pensou a condessa, fitando-lhe o rosto concentrado e grave "No est disposto a grandes discursos Mas eu o provocarei Gosto de p-lo em ridculo diante de Kitty, e conseguilo-ei"
- Constantmo Dimitrievitch, faa o favor de me explicar, o senhor que entende disso, por que  que os camponeses da nossa aldeia de Kaluga gastaram em bebida tudo quanto tinham e agora no nos pagam Que quer isto dizer' Est sempre a defend-los
Naquele momento entrava uma senhora no salo, e Levine levantou-se.
- Perdoe me, condessa, mas nada entendo disso e no me  possvel responder-lhe - replicou, e dirigiu os olhos para o oficial que acompanhava a senhora recm-chegada
"Deve ser Vronski", pensou, e para certificar-se olhou para Kitty. Esta j tivera tempo de olhar para Vronski e agora fitava Levine E por aquele olhar, vendo que os olhos dela resplandeciam involuntariamente, Levine compreendeu, com a mesma certeza como se ela prpria lho tivesse dito, que Kitty amava aquele homem Mas que espcie de homem seria ele' H pessoas que ao defrontarem-se com um rival afortunado, seja qual for o terreno em que se encontrem, so incapazes de lhe descobrirem qualquer qualidade, outras h que, pelo contrrio, tratam de ver no rival as qualidades que lhe serviram para vencer, e tudo fazem para s lhes descobrir os mritos, apesar do sofrimento que isso lhes causa Levine pertencia a esta classe de pessoas Mas no lhe foi difcil apreender as qualidades e os atractivos de Vronski Imediatamente lhe saltaram  vista. Vronski era um homem moreno, no muito alto, de forte compleio, belo, e de fisionomia extremamente serena e grave Tudo na sua figura, desde os negros cabelos curtos e o rosto recm-barbeado at ao folgado uniforme novo, era simples e ao mesmo tempo vistoso Depois de deixar passar a senhora que entrara ao mesmo tempo que ele, Vronski apro-ximou-se primeiro da princesa e depois de Kitty
Ao acercar-se da jovem, os seus belos olhos brilharam de um modo especial e com um imperceptvel sorriso feliz e discreto de triunfador (assim se afigurou a Levine) Inclinando-se, respeitoso e circunspecto, diante dela, estendeu-lhe a mo, larga mas no muito grande
Depois de ter cumprimentado todos, sentou-se, sem olhar para Levine, que no o perdia de vista
- Permita que lhe apresente - disse a princesa apontando para Levine- Constantmo Dimitrievitch Levine  conde Alexei Kinlovitch Vronski
Vronski ergueu-se e fitando amistoso Levine apertou-lhe a mo.
- Creio que no Inverno passado, em certa ocasio, devemos ter jantado juntos; mas o senhor partiu repentinamente para a aldeia - disse Vronski, com um sorriso franco e simptico.
- Constantino Dimitrievitch despreza e odeia a cidade e os citadinos- interveio a condessa Nordston.
- Pelo que vejo, as minhas palavras produziram-lhe grande impresso, visto que as recorda to bem - observou Levine, mas, ao reparar que j dissera aquela mesma frase, corou.
Sorrindo, Vronski olhou para Levine e para a condessa.
- Vive sempre na aldeia? - perguntou Vronski.-Quer-me parecer que no Inverno  aborrecido.
- No, quando temos qualquer coisa em que nos ocuparmos; tambm nunca o homem se aborrece na sua prpria companhia - respondeu Levine bruscamente.
- Gosto da aldeia - disse Vronski, fingindo no ter dado pelo tom de Levine.
- Espero, conde, que no concordaria em passar o ano todo na aldeia - comentou a condessa Nordston.
- No sei; nunca vivi muito tempo no campo. Mas senti qualquer coisa de extraordinrio. Nunca tive tantas saudades da aldeia, da aldeia russa, com os seus lapti e os seus mujiques como no Inverno que passei em Nice com minha me - replicou Vronski, acrescentando: - Nice  muito aborrecida. E Npoles tambm. De Sorrento, gosto, mas para pouco tempo. Precisamente ali  que ns nos lembramos mais vivamente da Rssia, e sobretudo das suas aldeias...  como se...
Falava dirigindo-se tanto a Kitty como a Levine e o seu olhar afectuoso e sereno fixava-se alternadamente num e noutro. Parecia dizer a primeira coisa que lhe vinha  cabea.
Ao notar que a condessa Nordston queria falar, calou-se e ficou a ouvi-la atentamente.
A conversa no afrouxava um s momento. A princesa no precisava de lanar mo das peas de artilharia que reservava para o caso em que a conversa esmorecesse: o ensino das letras e das cincias e o servio militar obrigatrio. Tambm a condessa no teve oportunidade de troar de Levine.
Este muito desejaria intervir na conversa geral, mas no conseguia faz-lo; estava sempre a pensar: " agora que me vou embora", mas no se ia e continuava ali, como se esperasse alguma coisa.
A conversa versou depois sobre o tema das mesas que batem e dos espritos; a condessa Nordston, que acreditava em espiritismo, ps-se a narrar um facto sobrenatural a que assistira.
- Oh, condessa, por amor de Deus, leve-me a ver uma coisa dessas. Nunca vi nada d sobrenatural, apesar de fazer tudo para isso - disse Vronski, sorrindo.
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- Est bem, no sbado prximo. E voc, Constantino Dimitrievitch, acredita nestas coisas ? - perguntou ela a Levine.
- Por que pergunta ? J sabe o que lhe vou responder.
- Queria saber a sua opinio.
- Na minha opinio essas mesas que se mexem apenas demonstram que a nossa pretensa sociedade culta est to pouco desenvolvida como os nossos aldees - replicou Levine. - Enquanto eles acreditam em mau--olhado, em feitiarias e em aparies, ns, de nossa parte...
- Ento voc no acredita?
- No posso acreditar, condessa.
- Mas eu estou a dizer-lhe que vi com os meus prprios olhos.
- Tambm as camponesas sero capazes de dizer que viram fantasmas.
- Ento, na sua opinio, eu no falo a verdade -e a condessa p-se a rir, mas o seu riso no reflectia satisfao.
- No  isso, Macha, o Constantino Dimitrievitch quer apenas dizer que no pode acreditar em espiritismo - explicou Kitty, corando por Levine.
Este compreendeu e ia responder, ainda mais irritado, quando Vronski, com o seu sorriso franco e alegre, interveio na conversa, impedindo que ela tomasse um rumo desagradvel.
- No admite de modo algum essa possibilidade? - inquiriu.- Por qu? Admitimos a existncia da electricidade, que no conhecemos. Por que no poder haver uma fora nova, ainda que desconhecida para ns, que... ?
- Quando se descobriu a electricidade - interrompeu bruscamente Levine - apenas se comprovou o fenmeno, mas no a sua causa; ignorava-se de onde provinha e o que a produzia, e sculos decorreram antes que se lhe desse uma aplicao. Pelo contrrio, os espritas comearam por receber comunicaes, por meio de mesas de p de galo, de aparies de espritos, e depois atriburam isso a uma fora desconhecida.
Vronski, como sempre, ouviu atentamente Levine, interessado, ao que parecia, nas suas palavras.
- Sim: agora, porm, os espritas dizem: no sabemos de que fora se trata, mas a verdade  que essa fora existe e que actua sob estas e estas condies. Aos sbios compete descobrir em que consiste. No vejo por que no possa existir uma fora nova, porque...
- Porque na electricidade - interrompeu de novo Levine - sempre que o senhor esfregue um bocado de resina com um pedao de l se produzir certa reaco, enquanto no espiritismo isso no sucede com a mesma regularidade. Eis por que no pode ser um fenmeno natural.
Ao perceber que a conversa tomava um tom demasiado srio para o ambiente do salo, Vronski no respondeu e, procurando mudar de tema, sorriu, voltando-se para os outros.
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- Vamos ento fazer uma experincia, condessa - principiou por dizer. Levine, porm, teimou em completar o seu argumento.
- Na minha opinio,  um erro os espritas tentarem explicar os seus prodgios como uma fora desconhecida - continuou. - Falam de uma fora espiritual e querem submet-la a experincias materiais. - Todos estavam mortos por que Levine se calasse, e ele percebia-os.
- Pois eu acho que o senhor seria um mdium de primeira ordem.
s  vezes  parece  ficar  em   xtase - observou  a  condessa  Nordston.
Levine abriu a boca, quis dizer qualquer coisa, corou e no falou mais.
- Vamos, condessa, vamos demonstrar agora mesmo essa histria das mesas de p de galo-disse Vronski. - D licena, princesa?
Vronski ps-se de p, procurando com os olhos uma mesa de p de galo. Kitty sentia-se tanto mais penalizada quanto sabia ser ela a causa daquela mgoa. "Se me puder perdoar, perdoe-me", dizia o olhar de Kitty. "Sou to feliz!"
"Odeio-os a todos, tanto a voc como a mim mesmo", ripostou o olhar de Levine, que nesta altura pegara no chapu. Mas no era ainda dessa vez que poderia partir. No momento em que todos se iam instalar em torno da mesa de p de galo e Levine se dispunha a sair, entrava o velho prncipe, que, assim que cumprimentou as outras pessoas, se dirigiu a Levine.
- Qu ? - exclamou alegremente. - Est aqui ? Mas no sabia. Muito prazer em v-lo.
O velho prncipe dirigia-se a Levine tratando-o ora por tu ora por senhor. Abraou-o e ps-se a falar com ele sem reparar em Vronski, que se pusera de p e aguardava que o prncipe lhe dirigisse a palavra. Kitty compreendia que, depois do que acabava de acontecer, as atenes do pai para com Levine deviam ser dolorosas para este. E corou ao notar a frieza com que o pai respondera ao cumprimento de Vronski e a supresa com que este olhou para o prncipe, sem perceber por que podia ele estar mal disposto a seu respeito.
- Prncipe, consinta que Constantino Dimitrievitch se junte a ns
- disse a condessa Nordston. - Queremos fazer uma experincia.
- De que se trata ? De fazer girar mesas de p de galo ? Perdoem-
-me, minhas senhoras e meus senhores, mas acho muito mais divertido que brinquem antes s prendas - replicou o prncipe, fitando Vronski e adivinhando que fora dele a ideia. - Brincar s prendas tem algum sentido. Surpreendido, Vronski fitou o velho prncipe com os seus olhos graves e depois de um ligeiro sorriso ps-se a falar com a condessa Nordston acerca de um baile que se realizava na semana seguinte.
- Espero  que  no  falte - disse Vronski,   dirigindo-se  a Kitty.
No momento em que o velho prncipe se separara dele, Levine sara
sem ningum dar por isso, e a ltima impresso que reteve daquela
noite foi a impresso feliz e sorridente do rosto de Kitty respondendo  pergunta de Vronski sobre a baile.
CAPTULO XV
Ao findar o sero, Kitty contou  me a conversa com Levine. Apesar da pena que lhe inspirava, estava contente que ele lhe tivesse feito uma declarao. No tinha dvidas de que procedera como devia. Mas, uma vez deitada, demorou muito a adormecer. Uma impresso a perseguia sem cessar: o rosto de Levine, de sobrancelhas franzidas e olhos profundamente tristes e bondosos, olhando-os, ora a ela, ora a Vronski, enquanto ouvia o prncipe. Tanta pena teve dele que lhe vieram as lgrimas aos olhos. Logo, porm, pensou no homem a quem preferira. Lembrou vivamente o seu rosto srio e varonil; aquela nobre serenidade e benevolncia para com todos; evocou o amor que lhe dedicava aquele a quem queria, e sentindo de novo a alegria na alma, com um sorriso feliz, deixou-se cair sobre o travesseiro. "Que pena, que pena, mas que hei-de fazer ? A culpa no  minha", dizia a si mesma, embora uma voz interior lhe segredasse o contrrio. No sabia se estava arrependida de ter conquistado Levine ou se de o haver repelido. E o certo  que a felicidade que sentia era empanada pelas dvidas. "Meu Deus, perdoa-me! Meu Deus, perdoa-me!", foi repetindo intimamente, at que adormeceu.
Entretanto, l em baixo, no pequeno gabinete do prncipe, desenrolava-se uma dessas cenas que frequentemente se repetiam entre os pais, por causa daquela filha to querida.
- Que h ? Ainda perguntas ? - exclamou o prncipe, gesticulando, ao mesmo tempo que ajeitava o roupo de pett-gris. - Ainda perguntas ? Pois escuta. No tens nem amor-prprio nem dignidade. Comprometes, perdes a tua filha com essa mania baixa e estpida de impingi-la s pessoas.
- Mas, pelo amor de Deus! Que fiz eu? - replicou a princesa, a ponto de chorar.
Depois da conversa com a filha, a princesa, feliz e contente, viera, como de costume, dar a boa-noite ao marido, e embora no tencionasse falar-lhe na declarao de Levine nem na negativa de Kitty, disse-lhe que, segundo julgava, o assunto Vronski se poderia considerar resolvido, que se decidiria logo que a me dele chegasse. Ao ouvir estas palavras, o prncipe descontrolou-se, proferindo frases inconvenientes.
- Que fizeste? Em primeiro lugar, procuras atrair um noivo, e toda a gente em Moscovo ir falar nisso, alis com inteira razo. Se
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queres dar festas, convida toda a gente e no apenas determinados pretendentes. Convida todos esses peralvilhos (assim chamava o prncipe aos jovens de Moscovo), arranja um pianista e que dancem. No faas como hoje, que trouxeste para casa os pretendentes, e toca a tratar do casamento! Mete-me nojo tudo isto, conseguiste encher a cabea da pequena de ideias tolas. Levine  um homem mil vezes melhor. Esse peralvilho de Sampetersburgo  dos que se fabricam em srie. So todos iguais e nenhum presta para nada. Mesmo que fosse prncipe de sangue, a minha filha no precisa disso para nada.
- Mas que fiz eu?
- Que fizeste? - vociferou o prncipe, furioso.
- S sei que, se te der ouvidos, nunca casaremos a nossa filha. Nesse caso  melhor irmos para o campo.
- Realmente, acho melhor.
- Escuta. Porventura provoquei algum? O que h  o seguinte: esse rapaz, muito bom, enamorou-se de Kitty, e ela, pelo que sei...
- Isso  o que pensas! E se Kitty se apaixona de verdade e ele pensa tanto em casar como eu...! Oh! Que os meus olhos no vejam uma coisa dessas...! "Oh, o espiritismo! Oh! Nice! Oh! O baile!" - E o prncipe, imitando a mulher, fazia uma reverncia  medida que ia pronunciando cada palavra. - E se viermos a fazer a desgraa de Ka-tienka, se ela toma isto a srio?
- Mas por que supes uma coisa dessas?
- No suponho, tenho a certeza. Para isso ns, os pais, temos uma acuidade que vocs, as mulheres, no tm. Vejo, por um lado, um homem com intenes srias: Levine, e, pelo outro, esse pelintra que s pensa em divertir-se...
- L vens tu com as tuas manias...
- Lembrar-te-s do que estou a dizer quando for tarde de mais, como aconteceu com a Dacha.
- Bom, bom, no falemos mais nisto - interrompeu-o a princesa, lembrando-se da infelicidade de Dolly.
- De acordo, adeus!
Depois de terem trocado o beijo e o sinal-da-cruz do costume, os dois esposos separaram-se, ambos persuadidos de que cada um ficaria com a sua opinio. No entanto, a princesa, ainda h momentos firmemente convencida de que naquela noite se decidira do futuro de Kitty, sentia agora essa convico um tanto abalada pelas palavras do marido. E uma vez recolhida, o futuro surgia-lhe bem pouco seguro e, tal como Kitty, repetiu vrias vezes, mentalmente: "Senhor, tem piedade de mim! Senhor, tem piedade de mim!"
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CAPTULO XVI
Vronski no sabia o que era vida de famlia. Quando nova, a me, senhora da sociedade e mulher muito atraente, no s em vida do marido, mas principalmente depois de viva, tivera muitas aventuras, que eram do conhecimento de todos. Vronski, educado no Corpo de Pajens, mal conhecera o pai. Sara da escola muito novo e no tardou a levar a mesma vida de todos os ricos oficiais petersburgueses. Embora frequentasse, de quando em quando, a alta sociedade de Sampetersburgo, o certo  que os seus problemas sentimentais estavam fora desse meio.
Em Moscovo experimentara pela primeira vez, rompendo com a vida ostentosa que levava, o encanto de conviver com uma jovem da sociedade, delicada na sua candura, e que no tardara a enamorar-se dele. Nunca lhe passara pela cabea que pudesse haver qualquer mal nas suas relaes com Kitty. Frequentava-lhe a casa, e nos bailes danava de preferncia com ela. Falava com Kitty das coisas de que em geral se fala na sociedade: uma srie de tolices a que dava, instintivamente, um sentido especial que s e!?, podia entender. Embora nada lhe tivesse dito que no pudesse ser repetido diante de todos, percebia que Kitty dia a dia dependia mais dele e quanto mais o reconhecia mais agradvel isso se lhe tornava. O sentimento que ela lhe inspirava ia-se tornando cada vez mais delicado. Ignorava que a maneira como a tratava tinha um nome especfico: tentativa de seduo sem intenes matrimoniais, m aco corrente entre jovens arrogantes como ele. Dir-se-ia que era a primeira vez que descobria semelhante prazer, e tirava dele o melhor partido possvel.
Grande seria a sua surpresa se tivesse podido ouvir naquela noite a conversa travada entre os pais de Kitty, se lhe fosse dado situar-se no ponto de vista da famlia e inteirar-se de que a jovem seria desgraada se no casasse com ele. Como poderia ele considerar repreensvel uma coisa que to grande prazer lhe proporcionava e que to agradvel era, sobretudo para ela, Kitty? E ainda por cima ter de casar com ela!
Nunca encarara a perspectiva do casamento. No s no apreciava a vida familiar, como via qualquer coisa estranha, hostil, e sobretudo ridcula na famlia, principalmente no marido, de acordo como o ponto de vista do grupo de solteiros que frequentava. Mas o certo  que Vronski, embora no pudesse suspeitar da conversa havida entre os pais de Kitty, ao sair naquela noite de casa dela teve a impresso de que o lao espiritual que os unia se apertava mais, e a tal ponto que seria necessrio tomar uma deciso. Mas que deciso? E de que espcie?
"Precisamente o agradvel  que nenhum de ns tenha dito nada e que, no entanto, nos compreendamos um ao outro s com essa muda linguagem dos olhares; hoje disse-me mais claramente do que nunca que
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me ama. E f-lo de um modo to agradvel, to simples e sobretudo to confiado! At me deu a sensao de que sou uma pessoa melhor, mais pura. Dou-me conta de que tenho corao e que h em mim muitas coisas boas", pensava Vronski ao regressar de casa dos Tcherbatski. E, como sempre que deixava essa casa, experimentava uma agradvel sensao de pureza e de juventude, por um lado em virtude de no ter fumado durante toda a noite e pelo outro graas ao sentimento desconhecido, novo para ele, que lhe inspirava o enternecimento diante de Kitty e o amor que ela lhe tinha.
"Bom, que importncia tem isso? Nenhuma.  agradvel para mim e para ela tambm." Vronski ps-se a pensar onde acabar aquela noite. Mentalmente reviu os lugares aonde poderia ir. "Ao clube? Fazer uma partida de bsigue e tornar champanhe com Ignative? No, no vou. Ao Chtea ds Fleurs, com as suas canonetistas e os seus cancs... e tambm com Oblonski? No, estou cansado de todas essas coisas. E  precisamente por isso que tanto aprecio os Tcherbatski. Em casa deles sinto-me melhor pessoa. Vou para casa." Dirigiu-se directamente para o seu quarto do Dusseau, pediu a ceia e assim que se despiu e que deitou a cabea no travesseiro adormeceu pesadamente.
CAPTULO XVII
s 11 da manh do dia seguinte Vronski foi  estao esperar a, me, que vinha de Sampetersburgo, e a primeira pessoa com quem se encontrou na escada foi Oblonski, que aguardava a irm, que devia chegar no mesmo comboio.
- Seja bem aparecida Sua Alteza! A quem espera? - gritou-lhe Oblonski
- Minha me - respondeu Vronski, sorrindo, como todas as pessoas que se encontravam com Stepane Arkadievitch. E depois de lhe apertar a mo, subiram juntos para a gare. - Chega hoje de Sampetersburgo.
- Esperei-te ontem  noite at s 2. Aonde foste depois de sares de casa dos Tcherbatski?
- Para casa. Passei um sero to agradvel em casa deles que no me apeteceu ir a lugar algum - replicou Vronski.
- Conheo os cavalos fogosos pela marca e os jovens apaixonados plos olhos - declarou Stepane Arkadievitch, repetindo o que dissera a Levine. Vronski sorriu, como a dar a entender que o no negava, mas mudou logo de conversa.
- E a quem esperas tu? - perguntou.
- Eu ? A uma mulher muito bela - disse Oblonski.
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- Ol!
- Honni soit qui mal y pense!' Espero minha irm Ana.
- Ah! A Karenina! -observou Vronski.
- Tu conheces-la?
- Parece-me que sim, ou no... realmente no me recordo - replicou Vronski distrado, a quem o nome de Karenina evocava qualquer coisa de aborrecido e afectado.
- Mas com certeza conheces meu cunhado, o clebre Alexei Ale-xandrovitch. Toda a gente o conhece.
- Conheo-o de vista e de ouvir falar... Sei que  homem inteligente, sbio e um tanto sobrenatural... Mas, sabes, no  precisamente o meu gnero... Not in my Une2 - disse Vronski.
- Sim,  um homem notvel; um tanto conservador, mas boa pessoa, boa pessoa - observou Stepane Arkadievitch.
- Tanto melhor para ele - tornou Vronski, sorrindo. - Ah, ests aqui! - exclamou, dirigindo-se ao velho e espadado criado da me. - Segue-me.
Como todas as pessoas, Vronski tambm estava encantado com Oblonski, mas de h tempo que sentia no seu convvio um prazer muito especial: no seria ainda aproximar-se de Kitty?
- Ento est combinado - disse, alegremente, travando-o pelo brao. - Domingo oferecemos um jantar  diva?
- Sem falta. Eu tratarei da subscrio. A propsito, conheceste ontem o meu amigo Levine? - perguntou Stepane Arkadievitch.
- Claro! Mas foi-se embora muito cedo.
-  um bom rapaz, no  verdade? - continuou Oblonski.
- No sei porque todos os moscovitas,  excepo do que est a falar comigo, como  natural, tm certa rudeza no trato - observou, brincando. - Espinham-se  menor coisa e enfadam-se, como se nos quisessem dar uma lio.
-  verdade, ... - exclamou rindo, alegremente, Stepane Arkadievitch.
- O comboio demorar muito? - perguntou Vronski ao criado.
- J saiu da ltima estao - replicou este.
O movimento crescente na gare, as idas e vindas dos carregadores, o aparecimento dos polcias, a chegada das pessoas que vinham esperar os viajantes, tudo era indcio da aproximao do comboio. Fazia frio, e atravs da bruma viam-se operrios de pelicas curtas e botas de feltro que atravessavam as linhas. Ao longe ouviu-se o silvo de uma locomotiva e da a pouco distinguiu-se o rudo de uma massa pesada em movimento.
1   Maldito  seja  quem  mal pensar.   Lema   do   escudo  da   Ordem   da Jarreteira e das armas da Gr-Bretanha. 1 No  o meu tipo.
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- No! No! No apreciaste devidamente o meu amigo Levine - disse Stepane Arkadievitch, que muito desejava contar a Vronski as intenes de Levine a respeito de Kitty. -  um rapaz muito nervoso, que s vezes costuma ser desagradvel, mas outras  capaz de ser muito simptico. E um corao de ouro, uma natureza recta e honrada. Mas ontem tinha motivos especiais - prosseguiu, com um sorriso significativo, esquecendo por completo a sincera compaixo que Levine lhe inspkara na vspera e experimentando naquele momento o mesmo sentimento em relao a Vronski. - Sim, tinha motivos para se sentir ou muito feliz ou muito desgraado
Vronski deteve-se, perguntando sem rodeios:
- Que queres dizer? Porventura se teria declarado ontem  tua belle-soeur?...
- Talvez - replicou Stepane Arkadievitch. - Creio que sim. Se partiu cedo e estava mal disposto, no h dvida... H tempo j que anda apaixonado; tenho muita pena dele.
- Ah, sim?... Seja como for, acho que Kitty pode aspirar a um melhor partido - observou Vronski, e, dilatando o peito, seguiu em frente. - Alis, no o conheo... Deve ser, efectivamente, uma situao penosa.  por isso que a maioria dos homens prefere tratar com certas mulheres. Nessa'altura, quando uma pessoa no tem xito,  s por falta de dinheiro. Nos outros casos, os mritos pessoais  que esto em jogo. Olha, l vem o comboio.
Com efeito, a distncia, silvava a locomotiva. Transcorridos alguns minutos, a plataforma estremeceu e a locomotiva entrou na gare, lanando nuvens de fumo, que a atmosfera gelada fazia descer para a terra, passando, ruidosamente, diante das pessoas que se aglomeravam na gare, s quais o maquinista, todo agasalhado e coberto de gelo, acenava com a mo, enquanto a biela da roda central se movia lentamente. Subitamente a plataforma foi ainda mais violentamente sacudida. Atrs do tender, refreando a marcha pouco a pouco, surgiu o furgo, onde um co uivava, e, por fim, apareceram os vages dos passageiros, que antes de parar foram sacudidos por um movimento brusco.
O condutor fez soar o apito ainda com a composio em movimento, e saltou. Depois principiaram a desembarcar, um por um, os passageiros impacientes: um oficial da Guarda, muito hirto, que olhava  sua volta com uma expresso severa; um jovem comerciante, gil e sorridente, que carregava uma pasta; e, por fim, um campons com uma sacola ao ombro.
Vronski, que se conservava ao lado de Oblonski, ia observando os vages e os passageiros que desciam, esquecido da me. O que acabava de saber de Kitty emocionara-o; causava-lhe satisfao. Sem dar por isso, dilatara o trax enquanto os olhos lhe faiscavam. Sentia-se vitorioso.
- A condessa Vronski vem naquela carruagem - disse o condutor, aproximando-se dele.
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Estas palavras despertaram Vronski, obrigando-o a lembrar-se da me e da entrevista que da a pouco iria ter com ela. No fundo da sua alma no respeitava a me e, conquanto no desse por isso, tambm no a estimava verdadeiramente.
De acordo com a mentalidade do meio em que vivia e a educao que recebera, no podia imaginar outras relaes com ela alm das do respeito e da extrema obedincia, relaes que se tornavam tanto mais aparentes quanto menos a estimava e respeitava no seu ntimo.
CAPTULO XVIII
Vronski seguiu o condutor e subiu ao estribo do vago, detendo-se  entrada do compartimento para dar passagem a uma senhora que saa.
Com a sua velha experincia de homem de sociedade, bastou-lhe um olhar para compreender, pelo aspecto da desconhecida, que pertencia  alta-roda. Curvou-se e ia entrar no vago quando sentiu necessidade de voltar a olh-la, no atrado pela sua beleza, nem pela sua elegncia, nem pela singela graa que se desprendia de toda a sua pessoa, mas apenas porque a expresso do seu rosto encantador, quando passara junto dele, se mostrara especialmente suave e delicada. No momento em que se voltou, tambm ela olhara para trs. Os seus brilhantes olhos cinzentos, que pareciam escuros graas s espessas pestanas, detiveram-se nele, amistosos e atentos, como se o reconhecessem, e imediatamente se desviaram para a estao, como que procurando algum. Naquele rpido olhar, Vronski teve tempo de lhe observar a expresso de uma vivacidade contida, os olhos reluzentes e o sorriso quase imperceptvel dos lbios rubros. Parecia que algo excessivo lhe inundava o ser e, a pesar seu, transbordava ora do olhar luminoso, ora do sorriso. No obstante ter velado intencionalmente a luz dos olhos, ela transparecia atravs do leve sorriso.
Vronski penetrou no compartimento. A me, uma velhinha mirrada, de olhos negros e caracis na testa, apertou os olhos ao examinar o filho e um leve sorriso lhe aflorou aos lbios delgados. Levantou-se, passou uma maleta  criada grave, estendeu a mo magra ao filho, que a beijou, beijando-o ela, por sua vez.
- Recebeste o telegrama? Ests bem? Graas a Deus!
- Fez boa viagem ? - perguntou Vronski, sentando-se a seu lado. Involuntariamente ia ouvindo uma voz feminina que ressoava do outro lado da portinhola. Sabia que era a voz da senhora com quem se cruzara  entrada do comboio.
- No estou de acordo consigo - dizia essa voz.
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-  o ponto de vista petersburgus,  o ponto de vista feminino - respondia ela.
- Ento! Consinta que lhe beije a mo.
- Adeus, Ivan Petiovitch. Faa o favor de ver se o meu irmo est a e diga-lhe que venha ter comigo - disse a mesma senhora, junto '  portinhola, voltando ao compartimento.
- Encontrou o seu irmo ? - inquiriu a Vronskaia, dirigindo-se a ela. Naquele momento, Vronski compreendeu que devia tratar-se da Karenina.
- Seu irmo est a - disse-lhe ele, levantando-se. - Perdoe-me, no a tinha reconhecido; alis, to rpido foi o nosso encontro que  natural que no se lembre de mim.
- Oh, sim! T-lo-ia reconhecido, porque durante a viagem sua me e eu falmos muito a seu respeito - replicou Karenina, deixando, por fim, que o riso se lhe espalhasse no rosto. - Mas meu irmo  que no aparece.
- Vai cham-lo, Aliocha - disse a idosa condessa. Vronski desceu  plataforma e gritou:
- Oblonski, estamos aqui!
Ana Karenina, porm, no esperou pelo irmo; ao v-lo, saiu da carruagem com seu passo decidido e ligeiro. Quando chegou junto dele, num gesto que surpreendeu Vronski pela graa e firmeza, abraou Stepane Arkadievitch com o brao esquerdo, puxando-o a si e beijando-o efusivamente. Vronski, sem a perder de vista, olhava-a, sorrindo sem saber porqu. Ao lembrar-se de que sua me o esperava, voltou para a composio.
- No  uma pessoa muito agradvel ? - perguntou a condessa. - O marido veio instal-la a meu lado e isso deu-me muito prazer. Conversmos toda a viagem. Bom, e de ti dizem que... vous filez l parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux'.
- No sei a que te referes, maman - replicou Vronski friamente. - Bom, maman, vamos ?
Ana Karenina voltou ao vago para se  despedir  da condessa.
- Bem, condessa, encontrou o seu filho e eu encontrei meu irmo - disse alegremente. - Esgotei todo o meu repertrio, j no teria mais nada para lhe contar.
- No creio. Era capaz de dar a volta ao Mundo na sua companhia sem me aborrecer - replicou a condessa, pegando-lhe na mo. -  uma pessoa simptica com quem  agradvel conversarmos e at estarmos calados. No pense tanto no seu filho, peco-lhe:  bom separar-se dele de vez em quando.
... entregas-te ao amor platnico. Tanto melhor, querido, tanto melhor
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Ana Karenina permanecia imvel, muito direita, os olhos risonhos.
- Ana Arkadievna tem um filho de oito anos, de quem nunca se separou, e est saudosssima por ter sido obrigada a deix-lo em Sampe-tersburgo - explicou a condessa a Vronski.
- Sim, passmos a viagem toda a conversar: eu, de meu filho; e a condessa, do seu - disse Ana Karenina, e de novo um sorriso lhe iluminou o rosto, e esse sorriso destinava-se a ele.
- Isso deve t-la maado muito - disse Vronski, que 'devolvia a Ana Karenina a coquetterie que ela lhe lanara, como quem devolve uma bola. Mas, pelo visto, Ana no queria continuar a conversa nesse tom e dirigiu-se, desta vez;  idosa senhora:
- Estou-lhe muito agradecida. O dia de ontem passou sem que eu desse por isso. At  vista, condessa.
- Adeus, minha senhora - replicou a me de Vronski. - Permita que lhe beije o lindo rosto e que lhe diga, velha que sou, que me conquistou inteiramente.
Apesar do que havia de convencional nesta frase, Ana Karenina pareceu acreditar nela e sentir-se comovida. Corou, inclinou-se ligeiramente e aproximou o rosto dos lbios da velha condessa; depois soergueu-se e com o mesmo sorriso inquieto estendeu a mo a Vronski. Este apertou aquela pequenina mo, muito feliz, como se fosse uma coisa extraordinria poder corresponder quela presso firme e enrgica. Ana Karenina saiu em passos rpidos, numa ligeireza surpreendente, dadas as suas formas pronunciadas.
- Encantadora! - exclamou  a  condessa.
O filho era da mesma opinio. Seguiu-a com os olhos at lhe perder de vista a graciosa figura, e s ento o sorriso lhe desapareceu dos lbios. Atravs da portinhola viu-a aproximar-se do irmo, pr-lhe a mo no ombro e principiar a falar animadamente, sem dvida de qualquer coisa sem a menor relao com Vronski, o que se lhe afigurou desagradvel.
- Bom, maman, ests mesmo bem? - voltou a perguntar, dirigindo-se  me.
- Muito bem, maravilhosamente. Alexandre esteve muito simptico. E Maria est uma beleza.  uma mulher muito interessante.
E principiou a falar do que mais a interessava: o baptizado do neto - fora a Sampetersburgo para assistir a esse baptizado - e a especial ateno que o soberano dispensava ao seu filho mais velho.
- Ali est o Lavrenti, se queres podemos descer - disse Vronski, olhando pela janela.
O velho mordomo, que acompanhara a condessa na viagem, entrou no compartimento para dizer que tudo estava em ordem. A condessa levantou-se.
- Vamo-nos, agora h pouca gente - disse Vronski.
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A criada grave pegou na maleta e no cozinho, o mordomo e o carregador apanharam o resto da bagagem. Vronski deu o brao  me, mas quando desciam do comboio viram umas pessoas assustadas que passavam a correr. Atrs delas seguia o chefe da estao com o seu gorro de cor espaventosa. Devia ter acontecido alguma coisa imprevista. Os passageiros do comboio retomavam, correndo.
- Que foi?... Que aconteceu?... Onde... ? Atirou-se ?... Morreu?... - ouvia-se entre os que passavam.
Stepane Arkadievitch, de brao dado com a irm, voltava tambm. No rosto deles havia uma expresso assustada. Para evitarem a multido, pararam, muito aflitos, junto da portinhola do vago.
As duas senhoras subiram para a carruagem, enquanto Vronski e-Stepane Arkadievitch iam inteirar-se dos pormenores do desastre.
O agulheiro, ou porque estivesse bbedo, ou porque no ouvisse o comboio, de to enroupado que estava por causa do frio, fora apanhado pela composio que recuava.
Antes do regresso de Vronski e de Stepane Arkadievitch j as senhoras estavam ao corrente de tudo atravs do mordomo.
Stepane Arkadievitch vira o cadver mutilado. Oblonski estava visivelmente emocionado. Fazia caretas e por pouco no chorava.
- Ai, que horror! Se o tivesses visto, Ana! Que coisa horrvel! - dizia ele.
Vronski estava calado, mas havia gravidade no seu rosto, alis sereno.
- Ah, se o tivesse visto, condessa - exclamou Stepane Arkadievitch.- Est a a mulher dele... Que horror... Atirou-se para cima do cadver. Dizem que ele era o nico a ganhar para uma numerosa famlia. Que desgraa!
- No poderamos fazer alguma coisa por ela ? - murmurou Ana Karenina, emocionada.
Vronski relanceou-lhe uma olhar e acto contnuo saiu do vago.
- Volto j, maman - disse ele da portinhola.
Quando regressou, passados alguns minutos, Oblonski falava com a condessa de uma nova cantora, enquanto esta olhava impaciente para a portinhola, ansiosa pelo filho.
- Podemos partir - disse Vronski, entrando de novo no compartimento.
Desceram juntos. Vronski e a me seguiam adiante. Ana e o irmo atrs deles.  sada, o chefe da estao veio ao encontro de Vronski.
- O senhor entregou duzentos rublos ao meu ajudante. Faa o favor de dizer a quem se destinam?
-  viva - disse Vronski, encolhendo os ombros. - No sei por que faz essa pergunta!
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^-Deste-lhe dinheiro? -gritou Oblonski, e apertando o brao da irm, acrescentou: - Muito bem, muito bem! Que rapaz encantador, no  verdade? Meus parabns, condessa!
Oblonski e a irm detiveram-se  procura da criada. Quando chegaram  porta da estao j a carruagem dos Vronski partira. As pessoas que entravam ainda faziam comentrios sobre o sucedido.
- Uma morte horrvel - comentava um cavalheiro que passava junto deles. - Dizem que ficou dividido em dois.
- Pelo contrrio, a mim parece-me que foi a melhor deste mundo, repentinamente - dizia outro.
- No percebo por que no se tomam medidas de precauo... - observou um terceiro.
Ana Karenina subiu para a carruagem e Oblonski viu, assombrado, que lhe tremiam os lbios e que mal podia conter as lgrimas.
- Que tens, Ana? - perguntou-lhe, quando o veculo se ps em marcha.
-  mau pressgio - respondeu ela.
- Tolices! Chegaste,  o principal. Pus todas as minhas esperanas na tua viagem.
- Conheces Vronski  h muito tempo? - perguntou Ana.
- Sim, acho que acabar por casar com a Kitty, sabes?
--Realmente?...-comentou Ana em voz baixa. - Bem, agora falemos de ti. Recebi as tuas cartas e aqui me tens.
- Sim, todas as minhas esperanas esto em ti - acrescentou Stepane Arkadievitch.
- Conta-me  tudo.
E Stepane Arkadievitch ps-se a relatar o que acontecera. Ao chegar a casa, Oblonski ajudou a irm a descer, suspirou, apertou-lhe a mo e dirigiu-se ao tribunal.
CAPTULO XIX
Quando Ana entrou na salinha, Dolly dava lio de francs a um rapazinho, gorducho e louro como o pai. Enquanto ia lendo a lio, o pequeno tentava arrancar o boto do casaco j meio desprendido. Por vrias vezes a me o repreendera por isso, mas a mozinha gorda da criana voltava a agarrar o boto. Ento Dolly arrancou-o e guardou-o no bolso.
- Fica sossegado com as mos, Gricha - disse-lhe ela.
E continuou o trabalho em que estava absorvida. Era uma colcha que principiara havia muito e em que apenas trabalhava nos momentos
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difceis Trabalhava nervosamente, encolhendo e distendendo os dedos, contando e recontando as malhas Embora tivesse dito na vspera ao mando que pouco lhe importava a chegada da irm dele, o certo  que preparara tudo pira a receber e esperava a com impacincia
Por mais abatida e preocupada que estivesse com a sua dor, Dolly no podia esquecer se de que Ana, sua cunhada, era uma grande dama e esposa de uma das personalidades mais importantes de Sampetersburgo No ousaria, portanto, recebe Ia mal "Alm disso", dissera ela de si para consigo, "Ana no tem culpa de coisa alguma Sempre tenho ouvido falar bem dela, e no que me diz respeito sempre me deu provas de amizade e de carinho " Era certo que, segundo se recordava, a casa dos Karenine em Petersburgo no lhe produzira muito boa impresso havia qualquer coisa de falso na maneira de viver daquela famlia "Por que no haveria ela de a receber' Desde que se no lembre de me vir consolar1", pensava Dolly "Conheo muito bem essas exortaes, essas admoestaes, esses apelos  clemncia crist J ruminei tudo isso quanto basta para saber o que vale "
Todos aqueles dias estivera sozinha com os filhos No queria falar s ningum na sua infelicidade, embora se sentisse incapaz de abordar qualquer outro assunto Compreendia que com Ana se veria obrigada a romper o silncio e ora lhe sorria a perspectiva dessa confidncia ora, pelo contrario, a necessidade de revelar  irm do marido a humilhao por que passava, e o ter de lhe ouvir as banais consolaes, afiguravam -se lhe coisas intolerveis
Olhando a cada passo o relgio, ia contando os minutos,  espera de v Ia aparecer de um momento para o outro, mas, como tantas vezes acontece em casos semelhantes, to abstracta estava que no ouvira a cam painha Quando passos ligeiros e o frufru de um vestido junto  porta a fizeram levantar a cabea no seu rosto atormentado no se reflectiu alegria, mas surpresa Ergueu se para abraar a cunhada
- Como, pois j chegaste' - perguntou, beijando a
- Dolly' Que contente estou em tornar a ver te'
- E eu tambm - respondeu Dolly, sorrindo ligeiramente e pr curando averiguar, atravs da expresso da cunhada se ela estava ou no inteirada do sucedido
"Deve saber tudo", pensou, ao reparar na expresso compadecida de Ana E, procurando protelar quanto pudesse o momento da exph cao, continuou
- Vem da  Quero levar te ao teu quarto
- Este  o Gncha' Meu Deus, que crescido est1 No, permite que fique aqui - replicou Ana, e beijando a criana sem afastar os oihos da cunhada, corou
Tirou o xale e o chapu que se prendeu nos cabelos negros frisados, e que conseguiu desprender sacudindo a cabea
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- Ests radiante de felicidade e r>s sade' -disse Dolly quase com inveja
- Eu Sim - aquiesceu Ana - Meu Deus, Tnia' - s da idade do meu Senocha - acrescentou, dirigindo se  menina que entrava na sala correndo Pegou lhe nas mos e beijou a -Que criana encantadora' Quero v !os todos
Lembrava se no s do nome e da idade de todas as crianas, mas at do feitio de cada uma e das doenas que tinham tido Dolly sentiu se tocada por tanta solicitude
- Pois, sim vamos velas -disse ela - Vcia est a dormir,  uma pena
Depois de ver as crianas, sentaram se as duas no salo diante de duas xcaras de caf Ana estendeu a mo para a bandeja, mas logo a repeliu
- Dolly, Stepane falou me de tudo - disse ela Dolly olhou a friamente Esperava ouvir frases de fingida compaixo, mas Ana nada disse que se parecesse com isso
- Dolly, querida -principiou -No quero defende Io nem con solar te,  impossvel Deixa que te diga, apenas, que te lamento do fundo do corao'
Por detrs das espessas pestanas reluziam as lgrimas Sentia se mais prxima da cunhada, e tomou a mo dela na sua mo pequena e enr gica Dolly no a retirou, mas a sua expresso continuava a ser fria
-  intil tentares consolar me Depois do que aconteceu, tudo est irremediavelmente perdido
Mas assim que pronunciou estas palavras, a expresso do seu rosto suavizou se subitamente Ana levou aos lbios a mo delgada e seca da cunhada e beijou a
- Mas, enfim, Dolly, que pretendes fazer' Esta situao falsa no pode prolongar se No seria melhor pensarmos numa soluo qualquer'
- Tudo acabou - disse Dolty - E o mais terrvel, como vs,  que no posso deixa Io, estou amarrada pelas crianas Mas no posso conti nuar a viver com ele, v Io  uma tortura para mim
- Dolly, minha querida, o Stepane contou me tudo, mas eu gostaria que tu mo contasses por tua vez
Dolly olhou para ela com uma expresso interrogativa O carinho e a compaixo eram sinceros no rosto de Ana
- Est bem, mas terei de te contar tudo desde o princpio - disse, de sbito -Sabes como me casei Com a educao que a maman me deu, no era apenas inocente, era estpida Ignorava tudo Dizem que os mandos costumam abrir se com as mulheres sobre a sua vida passada, mas Stiva - corrigiu - Stepane Arkadievitch no me contou nada Talvez no acredites, at agora estava convencida de que tinha sido a nica mulher na sua vida E assim vivi oito anos Compreendes no s no
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me passava pela cabea que me fosse infiel, como at julgava isso impossvel, e, com estas ideias na cabea, podes imaginar o que foi para mim saber de um momento para o outro de todo esse horror, dessa vilania... Compreende-me. Estar inteiramente confiante na felicidade e de repente...
- continuou Dolly, reprimindo os soluos - receber uma carta... uma carta dele dirigida  amante,  preceptora dos seus filhos. No!  uma coisa horrvel! - Dolly puxou apressadamente o leno, escondeu o rosto com ele e depois de um silncio continuou: - Ainda posso admitir um momento de desvairamento, mas enamorar-se premeditadamente, enganar-me com malcia... e com quem?... E continuar a ser meu marido en-quando mantinha relaes com ela!... Isto  horrvel! No podes fazer ideia.
- Ests enganada, fao, fao ideia, querida Dolly - exclamou Ana, apertando-lhe a mo.
- Ainda se ao menos se desse conta do horror da minha situao!
- prosseguiu Dolly. - Mas no, continua feliz e satisfeito.
- Oh, no! - interrompeu-a Ana, pressurosa. - Faz pena olhar para ele: est cheio de remorsos, arrependidssimo.
- Achas que  capaz de sentir remorsos? - interrompeu Dolly, por sua vez, observando atentamente a expresso da cunhada.
- . Eu conheo-o. No pude olhar para ele sem compaixo. Ambas o conhecemos.  bom, mas altivo, e agora sente-se to humilhado... O que mais me impressiona - naquele momento Ana adivinhou o que mais poderia calar no esprito de  Dolly -  que o atormentam duas coisas: o que ele sofre por causa das crianas e quanto sofre por te ter ferido, a ti, a quem ele ama, sim, sim, a quem ele ama acima de tudo neste mundo - insistiu ela, com receio de que Dolly a desmentisse. - "No, no, ela nunca me perdoar", est sempre a dizer.
Dolly desviara os olhos da cunhada; meditava.
- Sim - disse ela, finalmente -, compreendo que a situao dele seja horrvel. O culpado deve sofrer mais do que o inocente, quando se reconhece a causa de todo o mal. Mas como hei-de eu perdoar-lhe e voltar a ser mulher dele depois das suas relaes com "ela" ? A vida em comum ser para mim agora um suplcio, precisamente porque no posso esquecer o amor que lhe tinha antes disto...
Os soluos abafaram-lhe as palavras. Mas, como de caso pensado, logo que se comovia, voltava de novo a falar do que a irritava.
- Sim, a verdade  que ela  nova e bonita. No compreendes, Ana, que a minha juventude e a minha beleza me foram arrebatadas?... E por quem ? Por ele e plos seus filhos. Tudo sacrifiquei por eles, e agora que j no presto para nada,  natural que ele prefira uma jovem, embora vulgar. Naturalmente divertiram-se  minha custa, ou pior ainda, esqueceram-se por completo de que eu existia. -Uma expresso de dio per-
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passou nos olhos de Dolly. - E que poder ele vir dizer-me agora, depois disto?... Como hei-de eu acreditar nele? Nunca. No, agora tudo acabou, tudo, tudo o que constitua a consolao, a recompensa dos trabalhos, dos sofrimentos... Sers capaz de acreditar? Estava dando a lio ao Gricha, o que antigamente para mim era uma alegria, e com que tormento o fao agora! Para que me esforo eu? Para que trabalho?  horrvel que tudo se haja modificado na minha alma: em vez de amor e de ternura, ia no tenho dentro de mim seno dio, sim,  dio que eu sinto. Era capaz de mat-lo...
- Dolly, querida, compreendo perfeitamente, mas no te atormentes. Sentes-te to ofendida e ests to excitada que no s capaz de ver as coisas como elas realmente so.
Dolly serenou, e ambas ficaram caladas.
- Que hei-de fazer, Ana? Pensa e ajuda-me. J examinei tudo e no me ocorre nada.
Para Ana afigurava-se-lhe difcil encontrar uma soluo, mas cada palavra, cada olhar da cunhada achavam eco no seu corao.
- Uma coisa te posso dizer: sou irm dele e conheo-lhe o carcter e a capacidade que tem de tudo esquecer - levou a mo  cabea -, essa capacidade de se deixar seduzir completamente, mas, ao mesmo tempo, de cair em si e de se arrepender. Agora no compreende, no concebe que tenha sido capaz de proceder dessa maneira.
- Oh, no!-interrompcu-a Dolly.-Compreende-o, sempre o compreendeu perfeitamente. Alis, pareces esquecer-te de mim, pois, ainda que assim fosse da parte dele, nem por isso eu sofreria menos.
- Ouve. Confesso-te que quando ele me falou eu no compreendi todo o horror da situao. S via que ele me fazia pena, e  desordem do vosso lar. Foi dele que tive pena, mas agora, ao falar contigo, como mulher que sou, vejo as coisas de outra maneira: vejo o teu sofrimento e no sei dizer-te quanto te lastimo. Mas Dolly, minha querida, embora compreenda plenamente as tuas dores, uma coisa ignoro: at que ponto, no fundo do teu corao, ainda lhe queres. S tu poders saber se esse amor ainda chega para lhe poderes perdoar. Se ainda lhe queres o suficiente, perdoa-lhe.
- No - ia dizer Dolly, mas Ana interrompeu-a, dando-lhe outro beijo na mo.
- Conheo o mundo melhor do que tu - disse ela. - Sei como os homens do tipo do Stiva encaram estas coisas. Dizes que eles teriam falado de ti. Nada disso. Os homens assim cometem infidelidades,  certo, mas o lar e a mulher so sagrados para eles. Desprezam as outras mulheres, que no representam de maneira alguma um perigo para a famlia. Eu no posso compreender, mas  assim mesmo.
- Sim, mas ele beijou-a...
- Dolly, escuta, minha querida. Vi o Stiva quando estava enamorado de ti. Lembro-me da poca em que vinha a minha casa, e chorava ao
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falar de ti, to elevada e poeticamente te considerava, e sei que quanto mais tem vivido contigo tanto mais te respeita. Costumvamos rir-nos dele, porque estava sempre a dizer: "A Dolly  uma mulher excepcional." Sempre foste e sempre continuars a ser para ele uma divindade; ora, no capricho que ele teve agora o corao nunca entrou.
- Mas se volta a fazer o mesmo?
- Isso parece-me impossvel.
- E tu, no meu lugar, perdoarias?
- No sei, no me  possvel julgar... -e, depois de pensar um momento, depois de sopesar mentalmente a situao, acrescentou: - Sim, seria capaz de o fazer! No voltaria a ser a mesma, mas perdoar-lhe-ia... e perdoar-lhe-ia como se nada se tivesse passado, absolutamente nada.
-- Claro, pois de outro modo no seria perdoar - interrompeu-a Dolly, com vivacidade, como se dissesse qualquer coisa em que j pensara mais de uma vez. - Sim, quando se perdoa, tem de perdoar-se de maneira completa, absoluta... Anda, vamos, quero acompanhar-te ao teu quarto - acrescentou, pondo-se de p e logo em seguida abraando-a. - Minha querida, que bem fizeste em teres vindo. Sinto-me aliviada, muito aliviada.
CAPTULO XX
Ana no saiu de casa naquele dia, quer dizer, de casa dos Oblonski, e no recebeu ningum, nenhuma das pessoas que, prevenidas da sua chegada, a vieram visitar. Passou toda a manh com Dolly e com as crianas. Entretanto mandara recado ao irmo, pedindo-lhe que viesse sem falta a casa. "Vem", dizia-lhe ela; "a misericrdia de Deus  infinita!"
Oblonski jantou, pois, em casa; mantiveram uma conversa geral e a mulher tratou-o por tu, coisa que no fazia desde o que acontecera. As relaes entre os dois permaneciam tensas, mas j no se falava em separao e Stepane Arkadievitch vislumbrava a possibilidade de chegarem a um acordo e reconciliarem-se.
Logo que acabaram de jantar, apareceu Kitty. Mal conhecia Ana Karenina e no sabia como a iria receber essa grande dama petersbur-guesa, que todos elogiavam tanto. Mas no tardou a tranquilizar-se, pois sentiu que a sua beleza e a sua juventude agradavam a Ana, de quem, de resto, ela prpria desde logo se encantou, como acontece s vezes s jovens que ficam como que fascinadas pelas mulheres casadas mais velhas do que elas. Ana no parecia uma senhora da sociedade nem a me de um filho de oito anos, mas uma garota de vinte anos, a julgar pela flexibilidade dos seus gestos, a frescura e a vivacidade da expresso, que ora
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lhe transparecia nos lbios ora nos olhos, agora sria e logo triste, coisa que muito surpreendeu Kitty. Foi precisamente esta particularidade que a seduziu: para alm da simplicidade e da franqueza de Ana, adivinhava todo um mundo de poesia, misterioso, complexo, que se lhe afigurava inacessvel. Depois do jantar, quando Dolly se retirou para os seus aposentos, Ana levantou-se e aproximou-se do irmo, que acendia um cigarro.
- Stiva - disse-lhe ela, persignando-se, ao mesmo tempo que lhe indicava com os olhos a porta da sala-, vai e que Deus'te ajude!
Oblonski compreendera e" jogando fora o cigarro desapareceu, enquanto Ana voltava para junto das crianas. Em virtude da afeio que viam a me testemunhar-lhe ou apenas porque ela os conquistara de uma s vez, os dois mais velhos, e depois os mais novos, imitando-os, j antes do jantar se tinham agarrado s saias daquela nova tia e no queriam por nada deste mundo abandon-la. Entre eles estabelecera-se uma espcie de jogo que consistia em se sentarem o mais perto possvel dela, em tocar-lhe, em pegar-lhe na minscula mo, dar-lhe beijos e brincar com o anel que ela trazia, ou pelo menos em se roarem na sua saia.
- Bom, vamos outra vez para os nossos lugares, como estvamos h pouco - disse Ana Arkadievna, instalando-se no seu cantinho.
Gricha voltou a passar a cabea por debaixo do brao de Ana, aninhando-se no vestido de seda, orgulhoso e radiante de felicidade.
- Quando  o prximo baile? - perguntou Ana a Kitty.
- Na semana que vem. Vai ser magnfico. Um desses bailes em que as pessoas esto sempre alegres.
- H realmente bailes em que estejamos sempre alegres ? - perguntou Ana com uma ligeira ironia.
- Embora parea estranho, a verdade  que h. Em casa dos Bo-brietchev estamos sempre alegres e em casa dos Nikitine tambm. Em compensao, na dos Mechkov estamos sempre aborrecidos. Nunca reparou nisso?
- No, querida. Para mim j no existem desses bailes em que estamos sempre divertidas - disse Ana, e Kitty viu que lhe transparecia nos olhos esse mundo singular que nunca lhe fora revelado. - Para mim, h bailes menos penosos e menos aborrecidos...
- Como pode a senhora aborrecer-se num baile?
- Por que no havia "eu" de me aborrecer num baile ? - perguntou Ana.
Kitty percebeu que Ana sabia a resposta que ela lhe iria dar.
- Porque  a mais bela de todas.
Ana corou, coisa que lhe acontecia frequentemente, e disse:
- Em primeiro lugar, no  verdade. E ainda que o fosse, de que me serviria?
- Assistir a esse baile? - perguntou Kitty.
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_ Qeio que no terei outro remdio seno assistir. Toma, apanha-o- disse a Tnia, que procurava tirar-lhe o anel, que lhe deslizava com facilidade pelo dedo branco e afilado.
_ Gostaria muito que fosse. Seria to bom v-la no baile!
_ Se me vir obrigada a ir, ao menos consolar-me- a ideia de que lhe darei com isso satisfao... Gricha, no me puxes pelo cabelo, que j estou bastante despenteada - protestou, ajeitando um cacho de cabelos com que o pequeno se entretinha.
- Estou a v-la no baile vestida de lils.
_ Por que h-de ser de lils ? - perguntou Ana, sorrindo. - Vamos, meninos, no esto a ouvir Miss Hull cham-los para o ch? _ acrescentou, repelindo as crianas, que se dirigiam  sala de jantar. - J sei por que quer que eu v ao baile. Espera muito dessa noite e deseja que todos tomem parte no seu triunfo.
-  verdade. Como sabe?
- Oh! Feliz idade a sua! Conheo-a, recordo muito bem essa neblina azul que faz lembrar a das montanhas suas, essa bruma que tudo envolve, na poca ditosa em que a infncia est prestes a acabar, quando esse grande crculo divertido e feliz se converte num caminho cada vez mais estreito, num desfiladeiro ao mesmo tempo alegre e angustioso, embora parea difano  encantador... Quem no passou por isso?
Kitty sorria, calada. "Como teria ela vivido esse tempo? Gostaria tanto de saber!", pensou, recordando a figura pouco potica de Alexei Alexandrovitch, o marido de Ana.
- Sei alguma coisa a seu respeito. O Stiva contou-me. Felicito-a. Acho Vronski um rapaz muito agradvel, encontrei-o na estao - prosseguiu Ana.
- Ah! Esteve na estao? - perguntou Kitty, corando. - E que lhe disse o Stiva?
- Contou-me tudo. Da minha parte, teria muita satisfao... Fiz a viagem com a me de Vronski, que me falou dele todo o tempo;  o seu filho predilecto. Bem sei que as mes so parciais, no entanto...
- E que lhe contou ?
- Oh! Muitas coisas. E embora eu saiba que  o seu filho predilecto, v-se bem que  um cavalheiro. Contou-pie, por exemplo, que Vronski quis ceder todos os seus bens ao irmo e que criana ainda fez uma proeza extraordinria: salvou uma mulher de morrer afogada. Numa palavra:  um heri - disse Ana, sorrindo.
E lembrou-se dos duzentos rublos que Vronski dera ao empregado da estao. Disso, porm, no falou a Kitty. Lembrava-se dessa circunstncia com um certo mal-estar, pois sentira nesse acto qualquer coisa que se relacionava com ela, algo que fora melhor no ter acontecido.
- Pediu-me muito que a fosse visitar, e terei grande satisfao em tornar a ver essa velhinha. Irei a casa dela amanh. Graas a Deus,
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Stiva est-se demorando muito com Dolly no gabinete - acrescentou Ana, mudando de assunto e pondo-se de p, contrariada por qualquer motivo, segundo pareceu a Kitty.
- Eu primeiro! No, eu!-gritavam os pequenos, que tinham acabado de tomar o ch e corriam ao encontro de Ana.
- Todos ao mesmo tempo - exclamou ela. E rindo, correu para eles, abraando o bando de crianas buliosas que chilreavam entusiasmadas.
CAPTULO XXI
Depois do ch das crianas, foi servido o ch dos adultos. Dolly saiu sozinha do quarto de dormir, pois Stepane Arkadievitch devia ter sado por outra porta
- Tenho receio de que sintas frio no quarto l de cima - observou Dolly, dirigindo-se  cunhada. - Vou-te instalar l em baixo e assim ficaremos mais perto
- No te preocupes comigo - replicou Ana, fitando Dolly, procurando descobrir se a reconciliao era um facto.
- Aqui ters melhor luz.
- Garanto-te que durmo como uma pedra seja onde for.
- De que se trata? - perguntou Stepane Arkadievitch, que sara do escritrio e se dirigia  mulher.
Ana e Kitty compreenderam imediatamente pelo tom da voz dele que se tinham reconciliado.
- Queria instalar Ana aqui em baixo, mas  preciso pr umas cortinas. Ningum ser capaz de faz-lo, e terei eu mesma de p-las - replicou Dolly.
"S Deus sabe se se teriam reconciliado de todo", pensou Ana, ao ouvir o tom frio e severo da voz da cunhada.
- Bom, no vale a pena complicar as coisas, Dolly! - volveu Stepane Arkadievitch. - Mas,  se quiseres,  eu me encarregarei de tudo. "Sim, devem ter-se reconciliado", reconsiderou Ana.
- Sim, j sei. Mandars o Matvei fazer coisas impossveis. E depois ir-te-s embora, deixando que ele faa tudo ao contrrio - replicou Dolly.
E o costumeiro sorriso irnico franziu-lhe as comissuras dos lbios.
"Graas a Deus, a reconciliao  completa, completa", voltou Ana a pensar. E contente por ter concorrido para isso, aproximou-se de Dolly e beijou-a.
- Ora, ora! Por que nos tens em to pequena conta, a mim e ao Matvei ? - perguntou Stepane Arkadievitch com um imperceptvel sorriso.
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Dujante toda a tarde, Dolly conservou se ligeiramente irnica para com o mando e este mostrou-se contente e alegre, mas no tanto que desse a entender que, uma vez perdoado, se esquecera por completo da sua culpa s nove e meia o sero familiar, particularmente alegre e agradvel,  mesa do ch dos Oblonski, foi interrompido por um acontecimento dos mais vulgares, o qual, no entanto, sem qualquer motivo, a todos pareceu surpreendente Falavam de amigos comuns de Sampetersburgo quando, de sbito, Ana se levantou
- Vou mostrar-lhes a fotografia do meu Senocha - disse ela com um sorriso de orgulho maternal -Tenho-a comigo no meu lbum
Por volta das dez horas da noite  que ela habitualmente costumava despedir se do filho Muitas vezes, mesmo, antes de sair para um baile, era ela quem o deitava por suas prprias mos Eis por que, quando essa hora se aproximava, sempre se sentia triste quando estava longe dele Fosse qual fosse o assunto de que se falasse, tinha sempre de pensar no garotmho de cabehnho encaracolado Assim, um grande desejo a assaltou de falar nele e de lhe contemplar o retrato E aproveitando o primeiro pretexto, saiu da sala no seu passo ligeiro e decidido A escadinha que conduzia ao seu quarto dava para um patamar da escadaria principal muito aquecida No momento em que Ana deixava o salo, retinia a campainha do vestbulo
- Quem ser' - perguntou Dolly
-  cedo ainda para me virem buscar, mas, para uma visita, j  tarde - observou Kitty
- Naturalmente so alguns documentos para mim - interveio Ste pane Arkadievitch
Quando Ana atravessava o patamar da escadaria, subia o criado para anunciar a pessoa recm chegada, nessa altura sob a luz do candelabro, em baixo, no trio Ana olhou para o fundo das escadas e logo reconheceu Vronski, ao mesmo tempo que um estranho sentimento de alegria e receio lhe agitava o corao Vronski, de capote, procurava qualquer coisa no bolso No momento em que Ana atingia o centro do patamar, ergueu os olhos e ao v-la o seu rosto reflectiu confuso e receio Ana desapareceu, com um ligeiro aceno de cabea, e da a pouco ouvia se a sonora voz de Stepane Arkadievitch, que convidava Vronski a subir, e a deste, baixa, suave e serena, que recusava
Quando Ana voltou com o lbum, Vronski j no estava e Stepane Arkadievitch contava que o amigo, de passagem, quisera informar-se acerca de um jantar em organizao para homenagear uma celebridade que vinha de fora
- No quis subir por nada deste mundo1 Que original1 - acrescentou
Kitty corara Julgava s ela compreender a razo por que Vronski ali aparecera, e porque se recusara a subir "Naturalmente foi a minha
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casa  e,   como  eu  no  estivesse,  pen^u,   talvez,   encontrar-me  aqui Mas no quis entrar por ser tarde e pela presena de Ana "
Todos se entreolharam sem dizer palavra e em seguida puseram-se a folhear o lbum de Ana No havia nada de particular nem de estranho no facto de algum visitar um amigo s nove e meia de noite para colher um informe sobre um banquete que se estava a organizar e no ter querido subir, mas a verdade  que a todos surpreendeu E a pessoa mais supreendida fora Ana, que achara aquilo uma impertinncia.
CAPTULO XXII
O baile principiara havia pouco quando Kitty e a me apareceram na escadaria iluminada, cheia de flores, ao longo da qual se postavam os criados de libr vermelha e cabeleira empoada Do patamar decorado com arbustos onde, diante de um espelho, elas ajeitavam o penteado, ouvia se um zunzum, semelhante ao de uma colmeia, e os sons melodiosos dos violinos da orquestra comeando a primeira valsa Um senhor pequenino e idoso, que alisava os escassos fios de cabelos brancos diante de outro espelho, recendendo a perfume, afastou-se para as deixar subir os ltimos degraus, exttico diante da beleza de Kitty, a quem no conhecia Um desses jovens imberbes, de colete muito decotado, a quem o velho prncipe Tcherbatski chamava "peralvilhos", cumprimentou-as, de passagem, enquanto compunha a gravata branca Mas logo voltou atrs para pedir a Kitty que lhe concedesse a primeira quadrilha Como j estava comprometida com Vronski, concedeu-lhe a segunda dana Um militar, que abotoava as luvas junto  porta do salo, afastou-se para deixar passar Kitty e, retorcendo o bigode, pareceu fascinado diante daquela apario toda vestida de rosa
Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem custado muitos esforos, o certo  que Kitty entrava agora no salo de baile to natural e simples, no seu complicado vestido de tule sobre um forro cor-de rosa, como se todas aquelas rosinhas e rendas, todos aqueles enfeites no lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto de ateno Dir-se ia ter nascido assim mesmo, j com aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas folhas
Quando a princesa me, antes de entrar no salo de baile, quis arranjar o cinto da filha, que se engelhara, Kitty afastara-a, relutante, pois sentia que tudo lhe assentava bem e caa com graa, que nada era preciso corrigir.
Realmente, estava num dos seus dias felizes: o vestido no a comprimia, assentava-lhe perfeitamente, nenhum dos adornos se amarrotara
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ou descosera, os sapatos cor-de-rosa, de salto alto, no apertavam, antes pareciam acariciar-lhe os pzmhos, os bands postios, que lhe enchumaavam os cabelos louros, no lhe pesavam na cabea grcil, as luvas de canho alto, sem uma ruga, moldavam-lhe o antebrao, apertados os seus trs botes, sem se esgarar, e a fitinha de veludo, de que pendia o medalho, cingia-lhe o pescoo com uma graa sem par. De facto, aquela fita era um encanto, e Kitty, que diante do espelho do quarto j pudera verificar que lhe ficava muitssimo bem, sorriu-lhe de novo ao rev-la num dos espelhos da sala de baile Podia ter algum receio quanto ao resto da toilette, mas quanto quele veludo, no, no tinha nada a dizer Os ombros e os braos nus davam-lhe a sensao de uma frialdade marmrea, sensao de que particularmente gostava Os olhos brilhavam-lhe e a certeza de que tinha de estar um encanto confiava-lhe aos lbios um sorriso involuntrio
Um enxame de raparigas, massas de tule, de fitas, de rendas, de flores, aguardava os seus pares, mas Kitty, nem agora nem em outra qualquer noite precisava de se lhes juntar mal entrara na sala, logo fora convidada pelo melhor dos pares, o mestre de-cenmnia e organizador de bailes, um homem casado, belo, elegante, o Sr Egoruchka Korsunski. Acabava de deixar a condessa Banme, com quem abrira o baile, quando, relanceando um olhar aos seus domnios, isto , a um grupo de pares que valsavam, descobriu Kitty que entrava no salo. Imediatamente se lhe dirigiu, nesse passo desenvolto, caracterstico dos organizadores de bailes, e sem mesmo lhe pedir autorizao, passou-lhe o brao pela cintura fina Kitty procurou com os olhos a quem entregar o leque a dona da casa pegou nele, sorrindo.
- Fez muito bem em ter vindo cedo - disse ele, no momento em que a enlaava -No compreendo essa mama de chegar tarde
Kitty pousou a mo esquerda no ombro de Korsunski e os seus pzmhos, nos sapatos cor-de-rosa, deslizaram, ao compasso da msica, pelo soalho encerado
-  um descanso danar consigo - disse Korsunski mal deram os primeiros passos lentos da valsa -fi um encanto de ligeireza, de pr cisto n - acrescentou
Costumava dizer o mesmo a todas as suas conhecidas Mas Kitty sorriu ao ouvir o elogio e continuou a olhar para a sala por cima do ombro de Korsunski No era nem uma principiante, que confunde o rosto de todos os assistentes na embriaguez das primeiras impresses, nem to-pouco uma dessas jovens j fartas de bailes a quem todos os rostos conhecidos apenas inspiram tdio Nem uma coisa nem outra. Por mais excitada que estivesse, nem por isso deixava de se dominar, mantendo ntegra a sua faculdade de observao Notou, por isso mesmo, que a nata da sociedade se agrupava no ngulo esquerdo da sala. Ali estava a dona da casa e a mulher de Korsunski, a bela Ldia, escanda-
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losamente decotada, Krivne, que privava sempre com a alta-roda, exibia a sua calvcie Os rapazes olhavam de longe aquele grupo sem se atreverem a aproximar-se E foi ali tambm que ela descobriu Stiva e depois a deliciosa cabea de Ana e o seu elegante corpo moldado num vestido de veludo negro "Ele" tambm l estava Kitty no o tornara a ver desde a noite em que recusara a proposta de Levme Os seus penetrantes olhos reconheceram no de longe, notou mesmo que ele a olhava
- Quer dar mais uma volta' No est cansada, pois no' - perguntou Korsunski, ligeiramente sufocado
- No, muito obrigada
- Aonde quer que a acompanhe'
- Est ali a Karenina, parece     Leve me at junto dela
- Com todo o gosto
E Korsunski, retardando o passo, mas valsando sempre, encammhou-
-se para o grupo da esquerda Ia dizendo "Pardon, Mesdames; pardon, pardon, Mesdames'", e to bem a conduzia pelo meio daquela onda de rendas, de tules e de fitas, que nem uma s pluma se lhe prendeu ao vestido Ao chegar ao seu destino, fez o seu par dar uma brusca pirueta, e a cauda do vestido de Kitty, desdobrando-se como um leque, veio pousar nos joelhos de Krivine, enquanto as delgadas pernas da danarina, nas suas meias transparentes, se descobriam e mostravam Korsunski fez uma reverncia, empertigou-se ligeiro e ofereceu-lhe o brao para conduzi Ia at junto de Ana Arkadievna Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Knvme e volveu os olhos em busca de Ana Esta no estava vestida de lils, como tanto teria desejado Kitty Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava lhe os ombros esculturais, que lembravam velho marfim, assim como o colo e os braos rolios, de pulsos finos Rendas de Veneza guarneciam lhe o vestido Nos cabelos negros, sem postios, ostentava uma grinalda de amores
-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade Apenas alguns caracis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriavam rebeldes Em volta do pescoo bem torneado brilhava um fio de prolas
Kitty, fascinada, todos os dias, em imaginao, via Ana vestida de lils Mas s agora, ao v-la de preto, percebia que no apreendera todo o seu encanto Via-a sob um aspecto novo e inesperado Agora compreendia que o lils no lhe ficasse bem O seu grande encanto resultava precisamente desse relevo da sua personalidade O que vestia passava despercebido Enquanto um vestido lils a teria exibido, este, ao contrrio, no obstante as sumptuosas rendas, era apenas uma moldura discreta que lhe punha em evidncia a inata elegncia, o encanto, a perfeita naturalidade.
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Como sempre, l estava, erecta, e quando Kitty se aproximou do grupo, ela, de cabea ligeiramente inclinada, falava com o dono da casa.
- No, no serei eu quem atire a primeira pedra, embora o no compreenda - replicava Ana a um argumento daquele, e encolhendo os ombros, logo se dirigiu a Kitty com um meigo sorriso protector. Num rpido olhar, muito feminino, apreciou a maneira como ela estava vestida, esboando, aprovador, um breve aceno de cabea, que no escapou a Kitty.
- Parece que entrou na sala a danar - disse-lhe ela.
-  uma das minhas melhores colaboradoras - observou Kor-sunski, numa reverncia a Ana Arkadievna, que ainda no cumprimentara. - A princesa contribuiu para tornar o baile encantador e alegre. Ana Arkadievna, uma valsa ? - disse, numa mesura.
- Ah, conhecem-se? - observou o dono da casa.
- Quem  que nos no conhece,  minha mulher e a mim ? Somos o lobo branco. Esta valsa, Ana Arkadievna?
- Nunca dano, sempre que o posso evitar.
- Hoje no pode - teimou Korsunski. Vronski aproximou-se naquele momento.
- Est bem, j que hoje  impossvel, dancemos - acedeu Ana Arkadievna, fingindo no ver o cumprimento que Vronski lhe dirigia e colocando, apressadamente, a mo no ombro de Korsunski
"Por que estar ela enfadada com ele?", pensou Kitty, notando que Ana no respondera, intencionalmente, ao cumprimento de Vronski. Este aproximou-se de Kitty, lembrou-lhe que lhe prometera a primeira quadrilha e que lamentava no ter tido o prazer de a ver antes. Kitty ouvia-o enquanto, embevecida, contemplava Ana, que danava. Julgara que Vronski a iria convidar para aquela v^lsa, mas ele no a convidou, e Kitty olhou-o surpreendida. Perturbado, Vronski deu-se pressa em convid-la, mas quando passava o brao pela cintura da jovem e dava o primeiro passo, a msica parou. Kitty fitou-lhe o rosto, que to prximo estava do seu, e por muito tempo, anos e anos depois, sempre que lembrava o olhar cheio de amor que ento lhe dirigira e a que ele no correspondera, atormentava-se envergonhada,
- Pardon, paron! A valsa, valsa - gritou Korsunski do outro extremo do salo.
E enlaando a primeira senhora que lhe passava perto, principiou a rodopiar.
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CAPTULO XXIII
Vronski e Kitty deram alguns passos de dana. Depois Kitty foi para junto da me e mal teve tempo de trocar algumas palavras com a condessa Nordston, pois Vronski veio tir-la para a primeira quadrilha Enquanto falaram nada disseram de especial, a conversa girou  volta do casal Korsunski, que Vronski descrevia de maneira assai cmica, como se fossem crianas de quarenta anos, e de um espectculo de amadores em organizao. S uma vez a conversa tocou Kitty vivamente, quando Vronsk, lhe perguntou se Uvine estava no baile, acrescentando que minto gostara dele. Alis, Kitty pouco esperava da quadrilha, toda a sua esperana estava na mazurca. Acreditava que, nessa ocasio, tudo se decid,r,a. Nem sequer se sentiu preocupada com o facto de Vronski no a ter convidado para a mazurca enquanto danavam a quadrilha. Tinha a certeza de que a convidaria, como nos bailes anteriores, e recusou cinco pares sob o pretexto de estar comprometida.'Todo o baile, at  ultima quadrilha, foi para Kitty um sonho encantador, cheio de cores, de sons e de movimentos harmoniosos. S no danava quando se sentia muito cansada e pedia que a deixassem descansar. Mas, durante a ltima quadrilha, que danara com um rapaz enfadonho, a quem no pudera furtar-se, encontrou-se frente a frente com Vronski e Ana. No voltara a ver Ana desde o princpio do baile e de novo ela se lhe apresentou sob um aspecto novo e inesperado. Viu em Ana aquela excitao que o xito d, to sua conhecida. Dir-se-ia embriagada pela admirao que despertava em volta de si. Kitty conhecia essa sensao com todos os seus sintomas, e era o que via em Ana: o brilho inflamado dos olhos e o sorriso feliz e animado que, mal-grado ela, lhe assomava aos lbios, bem como a graa, a segurana e a ligeireza dos movimentos.
"Quem ser?", perguntou a si prpria. "Todos ou um apenas?" E sem prestar ateno ao rapaz com quem rodopiava, que fazia grandes esforos para reatar a conversa interrompida, e obedecendo, automaticamente, aos gritos imperiosos de Korsunski, que a todos ordenava um grand rond, ora a cbeune, Kitty observava-a enquanto o corao se Ihejjprimia. "No, no  a admirao geral que a embriaga, mas a admirao de um s. Ser possvel que seja a dele?" De cada vez que Vronski lhe falava, os olhos de Ana brilhavam alegres, e um sorriso de felicidade lhe aflorava aos lbios vermelhos. Dir-se-ia que fazia tudo para no deixar transparecer esses indcios de alegria, que se manifestavam apesar de tudo. "Mas que tem ela?", pensou Kitty, olhando Vronski horrorizada. No rosto dele viu o que to claramente vira no de Ana. Onde estava a sua atitude, sempre firme e serena, e a sua expresso despreocupada e tranquila? Agora, de cada vez que se dirigia a Ana, inclinava ligeiramente a cabea, como se desejasse cair-lhe aos ps, e no
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seu olhar tudo era receio e submisso. "No quero ofend-la, quereria apenas salvar-me e no sei como", parecia dizer o olhar dele. Kitty nunca vira aquela expresso no rosto de Vronski
Ana e Vronski falavam das suas relaes, a conversa era trivial, mas Kitty persuadia-se de que cada palavra que pronunciavam decidia ao mesmo tempo da sorte deles e da sua prpria. E o mais estranho  que, embora na realidade comentassem o ridculo de Ivan Ivanovitch a falar um pssimo francs, e achassem que se poderia ter encontrado melhor partido para a leletskaia, de facto, as palavras que diziam tinham outro significado para eles, coisa de que se davam conta com tanta evidncia como a prpria Kitty. O baile, as luzes, tudo se velou de nvoa na alma desta. A nica coisa que a amparava era a sua rgida educao, que a forava a fazer o que convinha, isto , a danar, a responder s perguntas que lhe faziam, a falar e at a sorrir. Mas antes de comear a mazurca, j colocadas as cadeiras e um certo nmero de pares a passar das salas pequenas para o salo, encheu-se de desespero e horror. Recusara cinco pares e ia ficar sem parceiro para a mazurca. No tinha j esperana de que a convidassem, pois, como era grande o xito que desfrutava em sociedade, ningum pensava que naquela altura ainda estivesse sem par. Ver-se-ia obrigada a dizer  me que se sentia indisposta e que tinha de voltar para casa, embora lhe faltasse nimo para isso. Era grande o seu abatimento
Refugiando-se a um canto de uma das salinhas, deixou-se cair numa poltrona. A vaporosa cauda do vestido, envolvendo-a, parecia uma nuvem; uma das delicadas e finas mos descaiu-lhe, ocultando-se entre as pregas do vestido; na outra tinha o leque, que de vez em quando agitava em rpidos movimentos diante do rosto arrebatado. No entanto, apesar desse aspecto de mariposa que acaba de pousar na relva, pronta a bater de novo as asas irisadas, uma terrvel angstia lhe oprimia o corao.
"Talvez me tenha enganado, talvez no seja nada disso." E de novo recordou tudo o que vira.
- Kitty, que tens tu? No percebo nada - disse, entretanto, a condessa Nordston, que se aproximara silenciosamente, os passos abafados pelo tapete.
O lbio inferior de Kitty tremeu e ela ergueu-se precipitadamente.
- Kitty, no danas a mazurca?
- No - respondeu ela, numa voz em que as lgrimas tremiam.
- Convidou-a para danar a mazurca diante de mim - disse a condessa, certa de que Kitty saberia a quem ela aludia. - E ela perguntou-lhe: "Ento no a dana com a princesa Tcherbatskaia?"
- Tanto faz! - atalhou Kitty.
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Ningum, a no ser ela prpria, podia compreender a situao em que se encontrava: ningum se no ela sabia que recusara a proposta de um homem a quem talvez amasse, por acreditar noutro.
A condessa Nordston foi em busca de Korsunski, com quem danaria a mazurca, e pediu-lhe que convidasse Kitty.
Kitty abriu a mazurca com Korsunski, felizmente sem necessidade de falar, uma vez que este ia de um lado ao outro dirigindo os pares. Vronski e Ana estavam sentados mesmo defronte dela. Via-os ora longe ora perto quando os pares se cruzavam, e quanto mais os observava mais se convencia da sua infelicidade. Adivinhava que ambos se sentiam completamente ss no meio do salo. E o rosto de Vronski, sempre to resoluto e sereno, reflectia agora aquela expresso submissa e atemorizada que tanto a impressionara, fazendo-lhe lembrar a expresso de um co inteligente quando se sente culpado.
Ana sorria e o seu sorriso comunicava-se a Vronski. Se porventura ficava pensativa, ele punha-se srio. Uma fora sobrenatural atraa para Ana os olhos de Kitty. Estava encantadora com o seu vestido negro muito simples; os seus torneados braos, cingidos por pulseiras, eram belos; belo era o seu colo alto, em que avultava o fio de prolas; encantadores os graciosos e ligeiros movimentos dos seus pzinhos e das suas mos; fascinante o seu rosto animado. No seu encanto, porm, havia qualquer coisa de cruel e de terrvel.
Kitty olhava-a mais fascinada ainda do que at ento e cada vez era maior o seu sofrimento. Sentia-se esmagada, e isso mesmo se lia no seu rosto. Quando Vronski a viu, ao encontrar-se com ela durante a mazurca, no a reconheceu logo, to mudada estava.
- Que baile magnfico! - disse, para dizer alguma coisa.
- Pois  - respondeu Kitty.
L para o meio da mazurca, quando se ensaiava uma complicada figura inventada por Korsunski, Ana teve de colocar-se no centro do crculo e escolher dois cavalheiros e duas senhoras. Uma das senhoras que escolheu foi Kitty. Kitty aproximou-se, olhando-a, receosa. Ana, semicerrando os olhos, fitou-a sorrindo enquanto lhe apertava a mo. Mas ao ver que Kitty lhe respondia com uma expresso de angstia e surpresa, voltou-se e ps-se a falar alegremente com outra senhora.
"Sim, h nela uma seduo estranha, diablica", pensou Kitty consigo mesma.
Ana no queria ficar para a ceia, mas o dono da casa insistiu.
- Fique, Ana Arkadievna - disse Korsunski, puxando-a pelo brao nu- - Tenho uma ideia para o cotillon. Un bijou!
E procurava arrast-la, encorajado pelo sorriso do anfitrio.
- No, no posso ficar - respondia Ana,  sorrindo. No entanto, apesar daquele sorriso, tanto o dono da casa como Korsunski compreenderam, graas ao seu tom decidido, que ela no ficaria.
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- J dancei hoje mais em Moscovo do que durante um ano inteiro em Samjjetersburgo. Preciso de descansar antes da viagem - acrescentou, voltando-se para Vronski, que estava junto dela.
- Sempre parte, realmente, amanh? - perguntou ele.
- Sim, acho qu'sim - volveu-lhe Ana, como que surpreendida com o atrevimento da pergunta.
Mas o irresistvel brilho dos seus olhos e o sorriso que lhe lanou enquanto lhe dirigia a palavra abrasaram-no.
Ana Arkadievna partiu sem ter querido cear.
CAPTULO XXIV
"Sim, em mim h qualquer coisa de desagradvel, qualquer coisa que afugenta", pensava Levine ao sair da residncia dos Tcherbatski, enquanto se dirigia a p para casa do irmo. "No sirvo para conviver com as pessoas. Dizem que  orgulho, mas a verdade  que nem sequer sou orgulhoso. Se o fosse, no estaria na situao em que estou." E diante de seus olhos aparecia o feliz, o bom, o inteligente Vronski, o qual, com certeza, nunca se vira numa situao assim. "Era naturalssimo que ela o preferisse. No podia ser de outra maneira, e no devo queixar--me de nada nem de ningum. A culpa  minha. Com que direito pensei eu que ela estivesse disposta a unir a sua vida  minha? Quem sou eu? Que sou eu? Um homem intil, de quem ningum precisa." Lembrou-se do irmo Nicolau e essa lembrana consolou-o. "Pois no tem ele razo quando diz que tudo neste mundo  mau e repugnante? No sei se fomos justos armando-nos em juizes do nosso outro irmo. Naturalmente do ponto de vista de Prokofi, que o v de pelica rota e bbedo,  um homem desprezvel; mas eu vejo-o de outra maneira. Conheo-lhe a alma e sei que nos parecemos um com o outro. E o certo  que em vez de o ter ido procurar fui jantar e depois apresentei-me ali."
Levine aproximou-se de um lampio, puxou da carteira, leu o endereo de Nicolau, chamou um carro de praa e deu a direco ao cocheiro. Durante o longo trajecto foi recordando os episdios que conhecia da vida do irmo. Lembrou-se de que ele, durante os anos dos seus estudos universitrios e mesmo at um ano depois de concludo o curso, apesar da troa dos amigos, vivera como um frade, cumprindo rigorosamente os preceitos da religio, assistindo  missa e praticando jejuns, evitando toda a sorte de prazeres e sobretudo mulheres. Depois, mudara de chofre, passando a acompanhar-se de gente da pior espcie e votando-se a uma vida dissoluta. Lembrou-se da histria do garoto que
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trouxera da aldeia para educar e em quem batera tanto num momento de excitao que fora chamado ao tribunal para responder plos maus tratos que lhe infligira. E tambm daquele grego a quem dera em pagamento de uma dvida de jogo uma letra de cmbio (a letra que Srgio Ivanovitch acabava de pagar), denunciando-o depois por crime de estro-querie. De outra vez passara uma noite no comissariado da polcia por desordem na via pblica. E ainda intentara um processo contra o irmo Srgio, a quem acusava de no lhe ter entregue a parte que lhe cabia na herana materna. A sua ltima proeza fora quando viajara para a Polnia, em busca de trabalho, e se vira em srios apuros, chamado ao tribunal, por haver maltratado um magistrado. Evidentemente que tudo isto era odioso mas menos odioso, no entanto, aos olhos de Levine do que aos daqueles que no conheciam nem a vida nem o corao de Nicolau.
Levine recordou que na poca em que Nicolau procurara na religio e nas suas prticas mais austeras um freio, um dique a opor  sua natureza apaixonada, ningum o amparara, pelo contrrio, todos, e ele em primeiro lugar, o tinham ridicularizado, chamando-o de eremita e beato. Quando Nicolau mudou, e o dique se rompeu, todos, em vez de o ampararem, se afastaram dele, desgostosos e horrorizados.
Levine dava conta de que no seu ntimo, no mais fundo da sua alma, apesar da vida depravada que levava, ele, o irmo, no era mais culpado do que os que o desprezavam. No tinha culpa de ter nascido com aquele carcter indomvel e aquela ilimitada inteligncia. Sempre desejara ser bom. "Falar-lhe-ei com o corao nas mos, obrig-lo-ei a fazer o mesmo e provar-lhe-ei que o estimo e portanto que o compreendo", decidiu Levine, falando consigo mesmo, ao chegar ao hotel que o endereo indicava, cerca das onze horas.
- L em cima, no 12 e no 13 - respondeu o porteiro, em resposta  pergunta de Levine.
- Est em casa?
- Creio que sim.
A porta do n." 12 estava entreaberta e do quarto desprendia-se um fumo espesso de tabaco ordinrio. Levine ouviu, primeiro, uma voz desconhecida, e em seguida a conhecida tossezinha do irmo.
Quando entrou, numa espcie de vestbulo, a voz desconhecida dizia:
- Tudo depende da habilidade e da prudncia com que se fazem as coisas...
Levine olhou pela porta entreaberta e viu que quem falava era um rapaz de grande cabeleira que vestia uma fodiovka. No div estava sentada uma mulher nova, picada de bexigas, com um vestido de l, sem mangas nem gola. No se via Nicolau. Constantino Levine sentiu oprimir--se-lhe o corao ao ver a espcie de gente com quem o irmo privava. Ningum dera por ele e Levine ficou a ouvir o que dizia o rapaz de podiovka enquanto descalava as galochas. Falava de um negcio em projecto.
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- Que o diabo as leve, s classes privilegiadas! - disse Nicolau, tossindo. - Macha, pede a ceia e serve-nos vinho, se o h; se no, manda-o vir.
A mulher levantou-se do div, passou para o outro lado do tabique e viu Constantino.
- Nicolau Dimitrievitch, est aqui um senhor - disse ela.
- Quem procura? - exclamou a voz irritada de Nicolau Levine.
- Sou eu - respondeu Constantino, aproximando-se da luz.
- Eu, quem? - exclamou Nicolau, ainda mais irritado.
Levine ouviu-o levantar-se de chofre, agarrando-se a qualquer coisa, para da a momentos ver diante dele a alta silhueta descarnada e um pouco corcovada do irmo. Por mais familiar que lhe fosse a figura de Nicolau, o seu aspecto doentio e selvagem no deixou de o assustar.
Ainda estava mais magro que da ltima vez que o vira, trs anos antes. Vestia uma sobrecasaca curta, e os seus braos e os seus ossos salientes ainda pareciam maiores. Tinha os cabelos menos fartos, o bigode que lhe escondia os lbios era ainda o mesmo e a mesma surpreendente ingenuidade se lia no olhar que fixava no recm-chegado.
- Ah! Kstia! - exclamou, ao reconhecer o irmo, e nos olhos perpassou-lhe um lampejo de alegria.
Ao mesmo tempo, porm, virara-se para o amigo com aquele movimento convulsivo de cabea e pescoo que Constantino to bem lhe conhecia, como se a gravata o enforcasse, e uma expresso diferente - selvagem, de sofrimento e crueldade - se reflectiu no seu rosto magro.
- J lhe mandei dizer, e tambm ao Srgio Ivanovitch, que no quero nada com vocs. Que desejas? Que deseja o senhor?
No era aquele o homem que Constantino imaginara ir encontrar. Ao pensar nele esquecera o pior e o mais penoso do carcter do irmo, o que tornava to difcil o trato com ele. E agora, ao ver-lhe o rosto, e sobretudo aquele seu convulsivo movimento de cabea, tudo lhe vinha  memria.
- Nada quero de ti - respondeu, com uma certa timidez. - Vim apenas para te ver.
A timidez de Constantino pareceu acalmar Nicolau. Contraiu os lbios.
- Ah, vens por desfastio? - disse ele. - Bom, entra, senta-te. Queres cear? Macha, traz trs raes. No, espera. Sabes quem ? - perguntou ao irmo, apontando para o rapaz da podiovka. - O Senhor Kritski, um amigo meu ainda do tempo de Kiev, um homem notvel. Como  natural, anda perseguido pela polcia, pois no  um canalha. - E, segundo seu velho costume, relanceou os olhos por todos os que o rodeavam. Ao ver que a mulher, ainda junto  porta, se dispunha a sair, gritou-lhe:
- Disse-te que esperasses!
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E com aquela indeciso e aquela falta de eloquncia que Constantino to bem lhe conhecia, ps-se a contar ao irmo, depois de perpassar de novo a vista por todos, a histria de Kritski: que fora expulso da Universidade por ter criado uma sociedade de auxlio aos estudantes pobres e s escolas dominicais, que se fizera professor de uma escola pblica e tambm fora expulso dali, e que depois disso lhe haviam instaurado um processo.
- Estudou na Universidade de Kiev? - inquiriu Levine de Kritski, para interromper o silncio desagradvel que se formara no quarto.
- Sim, em Kiev - murmurou este, franzindo as sobrancelhas, numa expresso de enfado.
- E esta mulher, Maria Nikolaievna,  a companheira da minha vida - interrompeu Nicolau Levine, apontando Macha. - Tirei-a de uma casa...-ao dizer isto agitou convulsivamente o pescoo. - Mas quero-lhe e respeito-a e peo a todos que queiram entender-se comigo que lhe queiram e a respeitem. -  como se fosse minha mulher, tal qual como se o fosse. Bom, agora j sabes com quem ests a falar. Se achas que isso te rebaixa, a porta est ali, vai-te com Deus.
De novo percorreu os olhos plos circunstantes, numa expresso interrogativa.
- No sei por que havia de me rebaixar.
- Ento, Macha, encomenda a ceia: que tragam trs raes, vodka e vinho. No, espera... No, est bem... Raspa-te!
CAPTULO XXV
- J vs - continuou Nicolau Levine, fazendo uma careta e enrugando a testa, pois no sabia l muito bem que dizer ou que fazer -, como vs...
Apontou para um recanto do quarto onde estavam umas barras de ferro amarradas com cordas.
- Ests a ver aquilo ? - conseguiu dizer, finalmente. -  o comeo de uma nova obra a que nos vamos consagrar. Trata-se de uma cooperativa operria de produo...
Constantino quase no lhe prestava ouvidos. Observava-lhe o rosto de tuberculoso e cada vez era maior a compaixo que lhe inspirava. No conseguia prestar ateno ao que ele dizia. Compreendia que aquela cooperativa era para ele apenas uma tbua de salvao: a forma de no se desprezar a si prprio por completo. Deixava-o, pois, perorar.
- Bem sabes que o capital oprime o trabalhador. Entre ns, os operrios e os camponeses suportam todo o peso do trabalho, e as coisas
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esto feitas de tal maneira que por mais que trabalhem no conseguem passar de bestas de carga. Todos os benefcios, tudo o que permita ao trabalhador melhorar a sua condio, ter descanso e, por conseguinte, tempo para instruir-se, todos esses benefcios os capitalistas lhes roubam. A sociedade est organizada de tal maneira que quanto mais os operrios trabalharem tanto mais amealharo os comerciantes e os donos da terra, continuaro aqueles a ser bestas de carga.  preciso modificar esta ordem de coisas - concluiu, olhando interrogativamente para o irmo.
- Claro,  natural - corroborou Constantino, notando a cor que aparecera nas mas salientes do rosto de Nicolau.
- Estamos a organizar uma cooperativa de serralheiros em que tudo ser em comum: trabalho, lucros e at as principais ferramentas.
- Onde instalaro  a  cooperativa? - perguntou  Levine.
- Na aldeia de Vozdrema, na provncia de Kazan.
- Por qu numa aldeia? Em geral nas aldeias no falta trabalho. Para que querero ali uma cooperativa de serralheiros ?
- Porque o campons contnua escravo como antes e o que vos desagrada, tanto ao Srgio como a ti,  que o vo tirar dessa escravido- replicou Nicolau, irritado com a interrupo.
Constantino suspirou enquanto examinava o quarto sujo e lgubre. E aquele suspiro ainda pareceu irritar mais Nicolau.
- Conheo muitssimo bem os pontos de vista aristocrticos de Srgio Ivanovitch e os teus. Sei que ele pe em prtica todo o vigor da sua inteligncia para justificar o mal existente.
- Nada disso; mas para que  o Srgio chamado aqui? - perguntou Levine, sorrindo.
- Por que chamo aqui o Srgio Ivanovitch? Pois vou j dizer-te, vou j dizer-te! - vociferou Nicolau exasperado, ao ouvir o nome do irmo. - Mas, o que adianta discutir ? Diz-me s uma coisa... Que vieste fazer? A nossa empresa no te merece seno desprezo, no  verdade? Est bem, mas ento vai-te com Deus! Vai-te! Vai-te! - gritou, levantando-se. - Vai-te! Vai-te!
- No a desprezo, nem sequer a estou a discutir - disse Constantino, timidamente.
Naquele momento entrava Maria Nikolaievna. Nicolau voltou-se para ela, irritado. Maria aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa precipitadamente.
- Estou doente, tudo me irrita - murmurou Nicolau Levine, serenando e respirando penosamente. - E vens tu falar-me do Srgio Ivanovitch e do artigo dele.  um absurdo, um embuste, a maneira de uma pessoa se enganar a si prpria. Que h-de dizer da justi um homem que no conhece a justia? Leu o artigo dele? - perguntou a Kristki, enquanto voltava a sentar-se e se punha a juntar a um lado o monte de cigarros espalhados na mesa.
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- No - replicou Kritski, com uma expresso taciturna, como se no quisesse tomar parte na conversa.
- Por qu? - perguntou Nicolau Levine, exasperado desta vez com Kritski.
- Eu acho que no vale a pena perder tempo com essas coisas.
- Perdo, como sabe que  perder tempo? Esse artigo est para alm da compreenso de muitos. Quanto a mirn,  diferente. Eu conheo o fundo das suas ideias, conheo-lhe os pontos fracos.
Todos se calaram. Kritski levantou-se vagarosamente e pegou no chapu.
- No quer cear? Bom, ento passe muito bem. Volte amanh com o serralheiro.
Depois de Kritski sair, Nicolau Levine sorriu, piscando o olho.
- Este tambm no vale grande coisa. Vejo que... Naquele momento Kritski chamou-o da porta.
-'Que  que h - perguntou Nicolau, que saiu ao patamar da escada.
Ao ficar sozinho com Maria Nikolaievna, Levine perguntou-lhe:
- Vive h muito tempo com meu irmo?
- Vai para  dois  anos.  Piorou muito  de  sade.  Bebe de mais.
- Que me diz?
- Sim, bebe muita vodka, e isso faz-lhe muito mal.
- Ser possvel?
- Bebe - respondeu Macha.
E olhou receosa para a porta, onde nessa ocasio assomava Nicolau Levine.
- De que falavam? - perguntou ele, franzindo o sobrolho, enquanto olhava ora para um ora para outro, com olhos assustados. - De qu?
- De nada - replicou Levine, um pouco confuso.
- Se no queres dizer, no digas. Mas no tens nada que falar com ela. Ela  uma prostituta e tu s um cavalheiro - exclamou, com um movimento convulsivo do pescoo. - Estou vendo que percebeste tudo e que ests a mostrar compaixo para com os meus desvaira-mentos - acrescentou, alteando a voz.
- Nicolau Dimitrievitch, Nicolau Dimitrievitch - murmurou Maria Nikolaievna, aproximando-se dele.
- Bom, bom!... E a ceia? Ah! L vem ela - acrescentou, ao ver o criado com a bandeja. - Aqui, aqui, ponha aqui - disse, irritado, e imediatamente encheu um copo de vodka, que bebeu de um trago, avidamente. - Queres beber? - perguntou, j mais alegre, ao irmo.- Bom, deixemos o Srgio Ivanovitch. Seja como for, estou contente por te ver. Por mais que diga, vocs no so uns estranhos para mim. Anda, bebe. Conta-me o que tens feito. Que vida levas ? - continuou,
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enquanto mastigava com avidez um pedao de po e enchia outro copo de vodka.
- Vivo s na aldeia, como antigamente, e trato das terras - respondeu Constantino Levine, horrorizado com a maneira vida como o irmo comia e bebia e procurando fingir que no percebia.
- Por que no te casas?
- Ainda no calhou - replicou Constantino, ruborizando-se.
- Ora. No que me diz respeito, adeus, acabou-se! Dei cabo da vida. Digo e repito: se me tm dado a minha parte quando necessitava dela, toda a minha vida teria sido diferente.
Constantino deu-se pressa em mudar de assunto.
- Sabes que empreguei o teu Vnia em Pokrovskoie como auxiliar de escritrio? - disse ele.
- Sim, conta-me o que vai l por Pokrovskoie. A casa continua de p, e as nossas btulas e o nosso quarto de estudo? E o Filipe, o jardineiro, ainda  vivo? Estou a ver o pavilho e o div!... No mudes nada na casa, casa-te depressa e que tudo fique como dantes. Ento irei visitar-te, se a tua mulher for uma rapariga s direitas.
- Por que no hs-de vir agora comigo? Entender-nos-amos to bem os dois!
- Iria, se tivesse a certeza de que no me ia encontrar com o Srgio Ivanovitch.
- No te encontrars com ele. Vivo completamente independente.
- Por mais que digas, tens de escolher entre ele e eu - disse Nicolau, olhando o irmo nos olhos com uma expresso onde havia timidez. Essa timidez comoveu Constantino.
- Se queres que te fale com toda a franqueza, dir-te-ei que nessa vossa disputa no estou nem contigo nem com o Srgio Ivanovitch. Nenhum de vocs tem razo. Tu no a tens, digamos, na forma e ele no fundo.
- Ah! Compreendeste! Compreendeste! - exclamou Nicolau alegremente.
- Mas, se queres saber, aprecio mais a tua amizade, porque...
- Por qu? Por qu?
Constantino no podia dizer-lhe por que o considerava desgraado e portanto mais necessitado de carinho. Mas Nicolau compreendeu-o e franzindo as sobrancelhas ps-se a beber vodka.
- Basta, Nicolau Dimitrievitch! - disse Maria Nikolaievna, estendendo o brao nu e torneado para a garrafa.
- Larga! Deixa-me em paz! Queres apanhar? - gritou Nicolau. Maria Nikolaievna sorriu, entre doce e bondosa, comunicando o seu sorriso a Nicolau, e retirou a garrafa.
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- Julgas que no percebe nada ? - perguntou ele. - Entende tudo melhor do que ns. No  verdade que h nela qualquer coisa de simptico, de agradvel?
- A senhora no viveu j em Moscovo? - perguntou Constantino, para dizer alguma coisa.
- No a trates por senhora, isso faz-lhe medo. Nunca ningum,  excepo do juiz de paz, que a julgou quando quis sair daquela casa de corrupo, a tratou at agora por senhora. Meus Deus, quantas coisas absurdas neste mundo! So um escndalo essas novas instituies, esses juizes de paz, esses zemstvos.
E principiou a contar os seus conflitos com as novas instituies. Constantino Levine escutava-o, e embora fosse da mesma opinio e como tal se tivesse manifestado muitas vezes, agora, ao ouvi-lo dizer a mesma coisa, sentia uma impresso desagradvel.
- No outro mundo, havemos de compreender tudo isto - disse-lhe por zombaria.
- No outro mundo? Oh, no gosto do outro mundo! - exclamou, pousando os olhos selvagens e assustados no rosto do irmo. - Tenho vontade de sair de toda a esta porcaria, dizer adeus s nossas misrias e s do prximo, mas tenho medo da morte, tenho um medo horrvel da morte. - Teve um arrepio. - Anda, bebe qualquer coisa. Queres champanhe? Ou ento vamos dar uma volta. Queres ir ver os zngaros? Agora gosto muito dos zngaros e das canes russas.
Entaramelava-se-lhe a lngua, passava de um assunto a outro; Constantino, ajudado por Macha, convenceu-o a que no sasse, e deitaram--no completamente embriagado.
Macha prometeu a Levine que lhe escreveria em caso de necessidade e que faria o possvel por convenc-lo a ir morar com ele.
CAPTULO XXVI
No dia seguinte pela manh, Constantino Levine saa de Moscovo e chegava a casa ao fim da tarje. Durante o trajecto entabulou conversa com os companheiros, falou de poltica, de caminhos de ferro, e tal como em Moscovo no tardou a sentir-se submerso no caos das opinies, descontente consigo prprio e envergonhado sem que soubesse muito bem porqu. Mas quando,  luz indecisa que se derramava das janelas da estao, viu Incio, o cocheiro estrbico, a gola do cafet levantada, depois o tren coberto de peles e os cavalos com os seus arreios bem tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da
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aldeia - que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso-, Levine sentiu que toda aquela confuso de ideias se esclarecia e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impresso teve-a apenas ao ver Incio e os cavalos, quando se embrulhou na tuluf 'que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado no tren, que se ps a andar, pensou nas ordens que teria de dar logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para montar - um velho cavalo do Don, j gasto, mas ainda veloz - ps-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou de querer ser outro que no ele prprio e apenas desejou ser melhor do que fora at ali. Em primeiro lugar, decidiu que da por diante no poria as suas esperanas numa felicidade extraordinria, como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, no iria menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir por uma baixa paixo, como acontecera na vspera de se decidir a declarar-se. E, lembrando-se do irmo, resolveu nunca mais o esquecer nem o perder de vista, para assim poder ajud-lo sempre que ele precisasse. Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa que tivera com o irmo sobre o comunismo e que io superficialmente encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condies econmicas, mas sempre se dera conta da injustia que representava o muito que tinha em comparao com a misria do povo. Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito, vivendo sem luxo algum, tomou a resoluo de trabalhar cada vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia to fcil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agradvel que lhe ocorreu durante o trajecto. Quando chegou a casa, por volta das nove da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, comeava para ele. Uma rstia de luz filtrava-se atravs das janelas de Agfia Mikailovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda no dormia. Acordou Kuzma, que, estremunhado e descalo, veio at ao alpendre. Tambm Laska, a cadela, apareceu, e por pouco no derrubava Kuzma, ladrando e esfregando-se nas pernas de Levine, sem ousar pr-lhe as patas dianteiras no peito.
- Ora ainda bem que voltou to cedo, paizinho! - exclamou a velha.
- Tinha saudades, Agfia Mikailovna. Estamos bem em casa dos outros, mas ainda melhor na nossa - respondeu Levine, entrando no escritrio.
 luz de uma vela trazida  pressa e que iluminou lentamente a casa, Levine viu surgir, pouco a pouco, da obscuridade os objectos seus conhecidos: os chifres de veado, as estantes cheias de livros, o espelho, a estufa com o seu ventilador, sempre  espera de conserto, o div do pai, a mesa grande com um livro aberto em cima, um cinzeiro partido e um caderno com anotaes suas. Quando viu tudo aquilo, pareceu-lhe mais
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difcil a mudana de vida com que nnhara durante a viagem. Todos aqueles vestgios do passado pareciam apoderar-se dele, dizendo: "No, no nos abandonars, no hs-de ser outro, continuars o que sempre foste: com as tuas dvidas, o teu perptuo descontentamento contigo mesmo, as tuas baldadas tentativas de aperfeioamento, as tuas crises, a tua sempre renovada esperana de uma felicidade que no consegues e que no foi feita para ti." Era o que diziam as coisas que o rodeavam; mas outra voz falava do fundo da sua alma e essa dizia-lhe que no se submetesse ao passado, que cada um pode fazer de si prprio o que quiser. Obedecendo quela voz, Levine aproximou-se de um recanto, onde tinha dois pesos de um pua cada um, e principiou a fazer com eles alguns exerccios na inteno de se animar. Entretanto ouviram--se uns passos atrs da porta e Levine largou precipitadamente os pesos. Era o administrador. Declarou que graas a Deus tudo ia bem, a no ser o trigo-negro, que se queimara um pouco na nova secadora. A notcia irritou Levine. A nova secadora fora construda e em parte inventada por ele. O administrador mostrara-se sempre hostil a essa mquina e agora vinha anunciar-lhe aquele malogro com um triunfo dissimulado. Levine estava convencido de que aquilo acontecera por no se terem tomado as precaues que ele mil vezes recomendara. Zangado, repreendeu o administrador. Mas logo lhe passou a m disposio quando lhe anunciaram um acontecimento importante e agradvel: Pava, a melhor vaca, adquirida numa exposio, tivera o seu bom-sucesso.
- Kuzma, d-me o tulup. E voc - disse ele ao administrador - mande acender uma candeia: vou ver a Pava.
O estbulo das vacas seleccionadas ficava mesmo por detrs da casa. Levine contornou o monte de neve acumulada sobre o macio dos lilases, aproximou-se do estbulo e abriu a porta, em parte gelada nos gonzos. L de dentro saiu um quente cheiro de estrume; as vacas, surpreendidas pela luz da candeia, revolveram-se na sua cama de palha fresca. O amplo lombo preto e branco da vaca holandesa avultou na penumbra. Berkut, o touro, deitado, com um anilho nas narinas, fez m"no de se levantar, depois, mudando de ideia, limitou-se a mugir quando passaram junto dele. A magnfica Pava, imensa como um hipoptamo, deitada de costas, no permitia que os recm-chegados vissem a bezerrinha, que arfava.
Levine aproximou-se dela, examinou-a e ergueu a bezerra, malhada de branco e vermelho, sobre as suas longas pernas vacilantes. A vaca mugiu, inquieta, mas assim que Levine aproximou dela a cria, sossegou, e, depois de beij-la como se suspirasse, ps-se a lamb-la com a lngua, spera. A bezerra procurava-lhe os beres, metendo a cabea nos flancos da me, enquanto meneava a cauda.
- Alumia aqui, Fiador. Aproxima a candeia - disse Levine, examinando a cria. - Parece-se com a me, mas no plo faz lembrar o pai!
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 bonita! E que grande, que forte! No  bonita, Vacili Fiodorovitch? - exclamou, voltando-se para o administrador, reconciliado com ele, graas  alegria que lhe causava a bezerrinha.
- Pois como no havia ela de ser bonita, Constantino Dimitrievitch! A propsito, no dia seguinte ao da sua partida, apareceu a o Semionov, o comerciante. Temos que regatear muito com ele. Bom, j lhe disse o que se passou com a mquina.
Esta simples frase fez reentrar Levine de novo nos pormenores da herdade, que era grande e complicada. Do estbulo dirigiu-se directamente ao escritrio, e depois de falar com o administrador e com o comerciante Semionov voltou para casa e subiu ao salo.
CAPTULO XXVII
A casa era grande e antiga, e ainda que Levine vivesse s, ocupava-a inteiramente e aquecia-a de ponta a ponta. Sabia que aquela vida era absurda, contrria aos seus novos planos e, inclusive, que no estava certa, mas aquela casa representava todo um mundo para ele: o mundo onde tinham vivido e morrido os pais. Ali haviam levado uma existncia que se lhe afigurava ideal e era com isso mesmo que ele sonhava: voltar a viver com a mulher essa mesma vida ideal.
Embora mal se lembrasse da me, Levine mantinha um verdadeiro culto da sua memria e parecia-lhe impossvel desposar uma mulher que no fosse a incarnao desse ideal adorado. No concebia o amor fora do casamento; mais, era na famlia que ele pensava em primeiro lugar e s depois na mulher que lhe daria essa famlia. Ao contrrio de todos os seus amigos, que apenas viam no casamento mais uma das manifestaes da vida social, ele considerava-o o principal acto da existncia, aquele de que dependia toda a felicidade do homem. E agora via-se obrigado a renunciar a ele.
Penetrou no salozinho onde lhe costumavam servir o ch, pegou num livro, sentou-se na sua poltrona, e, enquanto Agfia Mikailovna lhe trazia uma chvena de ch e se retirava para o vo da janela, declarando, como de costume: "Vou sentar-me, paizinho", com grande surpresa sua, Levine reconheceu que no renunciara s suas iluses e que no podia viver sem elas.
"Com ela ou com outra, pouco importa", disse consigo, "mas tem de ser." Por mais que tentasse ler ou que se esforasse por prestar ateno  tagarelice de Agfia Mikailovna, em imaginao iam-lhe perpassando,
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desordenadamente, vrias cenas da sua futura vida de famlia. E compreendeu que uma ideia fixa se instalara de vez nos recessos da sua alma. Agfia Mikailovna contava-lhe que, sucumbindo  tentao, Prochor, a quem Levine confiara uma certa importncia para a compra de um cavalo, se pusera a beber e a espancar a mulher, que ficara meia morta. Enquanto a ouvia, Levine lia o livro e pouco a pouco reencontrava o fio das ideias que aquela obra outrora despertara nele. Era o tratado de Tyndall sobre o calor. Lembrava-se de ter censurado ao autor a sua suficincia, quando falava das prprias experincias com grande vanglria e inteiramente desprovido de pontos de vista filosficos. De sbito, um alegre pensamento lhe ocorreu: "Dentro de dois anos terei duas holandesas, talvez a Pana ainda seja viva, e se juntarmos s doze crias de Berkut essas trs, ser uma beleza!" Voltou  leitura: "Bom, admitamos que a electricidade e o calor so o mesmo e nico fenmeno; mas, na equao que serve para resolver o problema, poderemos ns empregar as mesmas unidades? No. E ento? A relao existente entre todas as foras da natureza nota-se por instinto... Que linda manada quando a filha de Pava se tiver transformado numa bela vaca vermelha e branca e lhe tenhamos juntado as trs holandesas!... Magnfico! Quando ns sairmos com os convidados, minha mulher e eu, para ver as vacas... Minha mulher dir: "Kstia e eu crimos este bezerro como se fosse uma criana." "Como pode interessar-se por estas coisas?", perguntar um dos convidados. "Tudo o que interessa a meu marido me interessa tambm." "Mas quem ser ela?" E lembrou-se do que acontecera em Moscovo. "Que havemos de fazer?... A culpa no  minha... Agora tudo caminhar de maneira diferente.  absurdo no aceitarmos a vida como ela , deixarmo-nos dominar pelo passado. H que lutar para viver melhor, muito melhor." Levine levantou a cabea das pginas do livro e ficou a pensar, perdido nas suas reflexes. Entretanto a velha Laska
- que ainda no perdera a alegria que lhe causara a chegada do dono, que ia ladrar l fora por tudo e por nada, voltou  sala meneando o rabo, impregnada do ar fresco da noite. Aproximou-se de Levine, meteu-
-Ihe a cabea debaixo da mo e principiou a latir, queixosa, como que exigindo que ele a acariciasse.
- S lhe falta falar - disse Agfia Mikailovna. - Sendo uma cadela... compreende que o dono voltou para casa e que est triste.
- Por qu?
- Julga que eu no vejo? Vivo com os meus amos desde rapariga, j tenho tempo de os conhecer. Criei-me com eles. Mas no se atormente, paizinho. Desde que haja sade e que a conscincia esteja tranquila.
Surpreendido de v-la adivinhar-lhe os pensamentos, Levine olhou-a atentamente.
- Quer mais um pouco de ch?-perguntou a velha, e saiu levando a chvena.
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Laska continuava a meter a cabea por debaixo da mo de Levine. Este acariciou-a, e a cadela, enroscando-se-lhe aos ps, apoiou o focinho na pata traseira, que estendera para a frente. E como que a demonstrar que tudo agora estava bem, entreabriu a boca, remexeu o focinho, ajeitou em volta dos lbios pegajosos os velhos dentes e adormeceu numa paz beatfica. Levine, que observara atentamente todos estes movimentos da cadela, disse consigo mesmo: "Faamos o mesmo. No vale a pena atormentarmo-nos. Tudo se arranjar."
CAPTULO XXVIII
Na manha seguinte ao baile, Ana Arkadievna telegrafou ao marido anunciando-lhe que partiria de Moscovo naquele mesmo dia.
- Tenho de ir, tenho de ir - dizia, explicando  cunhada, num tom peremptrio, como se lhe ocorresse de repente que tinha muitas coisas inadiveis a fazer. - No.  melhor que seja hoje mesmo.
Stepane Arkadievitch no jantou em casa, mas prometeu estar de volta s sete para acompanhar a irm.
Kitty tambm no apareceu, e mandou um bilhetinho desculpando--se. Dolly e Ana jantaram as duas sozinhas com a inglesa e as crianas. Entretanto, ou pela inconstncia prpria da idade ou adivinhando que Ana j no era a mesma pessoa do dia em que a ela se tinham afeioado, e que pouca ateno lhes prestava agora, as crianas perderam de sbito toda a amizade pela tia, j no queriam brincar com ela nem tinham pena que se fosse embora. Toda a manh Ana estivera ocupada com os preparativos da viagem: escreveu alguns bilhetes de despedida, fez as suas contas e arrumou as malas. Parecia a Dolly que Ana no estava tranquila ou que se encontrava num estado de preocupao que ela prpria conhecia, e que raras vezes se produz sem motivo e na maior parte dos casos esconde um verdadeiro descontentamento ntimo. No fim do jantar, Ana foi vestir-se nos seus aposentos e Dolly seguiu atrs dela.
- Que estranha ests hoje! - disse-lhe.
- Eu? Achas? No estou estranha, mas triste. Acontece-me isto s vezes. Tenho vontade de chorar.  uma tolice, daqui a pouco estou boa - replicou Ana, rapidamente, escondendo o rosto afogueado com o saquinho onde guardava os lenos e a touca de dormir. Tinha um brilho especial nos olhos, que a cada momento se enchiam de lgrimas.
- No tinha vontade de sair de Sampetersburgo, e agora, pelo contrrio, no tenho vontade de me ir embora daqui.
- Uma boa inspirao te trouxe -disse Dolly, examinando-a atentamente.
- No digas isso, Dolly. Nada fiz e nada podia fazer. Por vezes pergunto a mim mesma por que ho-de as pessoas estar assim todas de acordo para me tecerem elogios. Que fiz eu e que podia fazer? No teu corao  que havia amor bastante para perdoares...
- S Deus sabe o que teria acontecido se no tens aparecido! Que feliz tu s, Ana! Na tua alma tudo  claro e puro.
- Todos temos os nossos skeletom na alma, como dizem os Ingleses...
- Que skeletons* tens tu? Em ti tudo  to claro!
- Tenho-os-disse Ana, repentinamente, e um inesperado sorriso, rrralicioso e zombeteiro, lhe assomou aos lbios atravs das lgrimas.
- Pelo que vejo, o teu skeleton deve ser divertido e no triste - observou Dolly, sorrindo.
- No;  triste. Sabes por que me vou embora hoje em vez de ir amanh? Estava atormentada com isto, mas quero confessar-te a verdade - volveu Ana, reclinando-se numa poltrona, em atitude decidida, enquanto cravava os olhos nos de Dolly.
E com grande surpresa, Dolly viu que Ana rosara-se at s orelhas, at  prpria raiz dos seus ondulados cabelos negros.
- Sabes por que  que Kitty no veio jantar hoje em tua casa? - prosseguiu Ana.-Tem cimes de mim. Estraguei-lhe a felicidade... Por minha causa o baile tornou-se para ela um tormento em vez de uma alegria, quando a verdade  que no tenho culpa ou tenho muito pouca culpa no que aconteceu - disse, arrastando em voz dbil a expresso "muito pouca".
- Oh! Disseste isso de maneira to parecida  maneira de falar do Stiva - observou Dolly, sorrindo.
- Oh, no! Oh, no! No sou como o Stiva - exclamou, franzindo as sobrancelhas. - Conto-te isto porque no me permito duvidar de mim mesma um instante que seja.
Mas no momento de pronunciar estas palavras, Ana deu conta de que no correspondiam  verdade: no s duvidava de si mesma como pensar em Vronski a perturbava e apenas antecipara a partida com o nico objectivo de o no tornar a ver.
- Sim, o Stiva contou-me que danaste a mazurca com Vronski e que ele...
- No podes calcular a graa que as coisas tomaram. Propunha-me armar em casamenteira, e resultou o contrrio. Talvez contra minha vontade...
'  Esqueletos, mas. figurativamente, "segredo". LB202-7
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Corando, calou-se.
- Oh, os homens sentem isso imediatamente! - exclamou Dolly.
- Ficaria muito pesarosa se ele tivesse tomado as coisas a srio - interrompeu-a Ana. - Mas tenho a certeza de que tudo esquecer e que Kitty deixar de me odiar.
- Por outro lado, Ana, para te falar a verdade, no tinha grande desejo que Kitty casasse com ele. Acho melhor que este casamento se desfaa, uma vez que Vronski pde enamorar-se de ti to depressa.
- Oh, meu Deus, seria absurdo! - exclamou Ana, e de novo ficou toda corada, to grande a satisfao que a percorreu ao ouvir pronunciar em voz alta o pensamento que o preocupava. - E aqui me tens que me vou embora depois de ter feito da Kitty uma inimiga, a Kitty de quem tanto gostava.  to simptica! Mas tu arranjars tudo, no  verdade, Dolly?
Dolly a muito custo reteve um sorriso. Gostava de Ana, mas no lhe desagradava a ideia de que tambm ela tinha as suas fraquezas.
- Uma inimiga? Isso no pode ser.
- Gostaria muito que todos me quisessem como eu lhe quero a ela. E agora ainda vos quero mais do que antigamente - disse Ana, com as lgrimas nos olhos. - Ah, que tola eu estou hoje!
Passou o lencinho plos olhos e principiou a vestir-se.
Precisamente na ocasio em que ia partir, chegava Stepane Arka-dievitch, que vinha atrasado, cheirando a vinho e a tabaco e muito corado e alegre.
A comoo de Ana apoderara-se de Dolly, e quando abraou a cunhada pela ltima vez, murmurou:
- Lembra-te, Ana, de que nunca esquecerei o que fizeste por mim. E quero que saibas que sempre te quis e sempre te hei-de considerar a minha melhor amiga!
- No compreendo por qu - replicou Ana, beijando-a e escondendo as lgrimas.
- Compreendeste-me e ainda me compreendes. Adeus, minha querida!
CAPTULO XXIX
"Graas a Deus, tudo acabou!", foi o primeiro pensamento de Ana Arkadievna ao despedir-se pela ltima vez do irmo, que permaneceu na plataforma, impedindo a entrada do vago, at a sineta tocar o terceiro sinal. Ana sentou-se no seu lugar, ao lado de Anuchka, examinando tudo  sua volta, na semipenumbra do compartimento. "Graas a Deus,
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amanh verei o meu Seriocha e Alexei Alexandrovitch e retomarei a minha vida agradvel."
Sentindo a mesma preocupao que a tomara todo o dia, mas com certo prazer, comeou a instalar-se para a viagem; abriu, com as suas mos geis, o saquinho vermelho, retirou dele uma almofada, que colocou em cima dos joelhos, e embrulhou as pernas na manta de viagem, sentando-se com toda a comodidade. Uma senhora doente disps-se a deitar-
-se desde logo. Outras duas puseram-se a conversar com ela e uma dama gorda queixava-s do mau aquecimento enquanto embrulhava as pernas. Ana respondeu com algumas palavras a perguntas que elas lhes dirigiam, mas ao ver que a conversa era destituda de interesse, pediu a Anuchka a lanterninha, que prendeu no brao do assento, e tirou da maleta um romance ingls e uma esptula de cortar papel. De princpio no pde ler. O ir e vir das pessoas incomodava-a, e quando o comboio se ps em andamento foi-lhe impossvel no prestar ateno aos rudos dos vages. Mas da a pouco distraa-se com a nevasca que caa, aoitando a vidraa da portinhola esquerda, com o condutor que passava, muito agasalhado e coberto de neve, e os comentrios a respeito da tempestade que se desencadeava. Mais adiante tudo se repetia, o trepidar da composio, a neve na vidraa, as bruscas mudanas de temperatura, do calor para o frio e do frio para o calor, as mesmas caras na obscuridade e as mesmas vozes. Contudo conseguira principiar a ler e a compreender o que lia. Anuchka j dormitava, segurando entre as mos enluvadas
- uma das luvas estava rota - o saquinho vermelho em cima dos joelhos. Ana Arkadievna lia e compreendia o que lia, mas o desejo que ela prpria tinha de viver era grande de mais para se interessar pela vida dos outros. Se a herona do romance tratava um doente, Ana tinha desejos de andar em passos leves pelo quarto do enfermo; se um membro do Parlamento pronunciava um discurso, ela prpria desejaria t-lo pronunciado ; se lady Mary cavalgava atrs da sua matilha, irritando a nora e a todos assombrando com a sua audcia, Ana ambicionava ser ela prpria a golopar. Mas nada tinha que fazer! E l ia revolvendo nas mos a esptula de cortar papel e prosseguindo na leitura.
O heri do romance estava j a dois passos de conseguir o que constitui a felicidade inglesa: o ttulo de baro e uma terra, onde ela teria gostado de o acompanhar, quando, de repente, se lhe afigurou que o dito heri devia sentir vergonha e que essa vergonha a atingia tambm. Mas por qu vergonha ? "De que me envergonho eu ?", perguntou a si mesma assombrada e sentida. Abandonou o livro e recostou-se no assento, apertando a esptula entre os dedos. Que fizera ela? As suas recordaes de Moscovo perpassaram-lhe diante dos olhos: eram todas excelentes. Lembrou-se do baile, de Vronski, com o seu rosto transido de enamorado, a atitude que ela mantivera para com ele: nada disso a podia envergonhar. Mas ao mesmo tempo, precisamente neste ponto das suas recor-
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daes, a vergonha aumentou, como se uma voz interior lhe dissesse enquanto pensava em Vronski: "Foi-te agradvel, foi-te muito agradvel!" "Sim, e depois", .perguntou a si mesma, resoluta, agitando-se no assento. "Que tem isso? Terei medo de enfrentar esta recordao? Que houve, afinal? Existe, poder existir alguma relao, alm das simples relaes mundanas, entre mim e aquele mlitarzinho ?" Sorriu, desdenhosa, e voltou a pegar no livro; era-lhe, porm, completamente impossvel compreender o que lia. Passou a esptula pela vidraa coberta de gelo, depois perpassou pelo rosto a superfcie fria e lisa, e, cedendo a um sbito acesso de alegria, desatou a rir quase ruidosamente. Notou que os nervos se punham cada vez mais tensos, que os olhos se lhe abriam desmesuradamente; as mos e os ps crispavam-se; qualquer coisa a sufocava. E naquela penumbra vacilante os sons e as imagens impunham--se-lhe com uma estranha intensidade. A cada momento perguntava a si mesma se o comboio avanava, recuava ou permanecia no mesmo lugar. Era Anuchka realmente ou seria uma estranha aquela mulher ali sentada a seu lado? "Que est suspenso daquele cabide? Uma pelica ou um animal? Sou eu realmente quem est sentada nesta almofada? Serei eu ou outra mulher?" Receava abandonar-se a semelhante estado de inconscincia. Mas algo a arrastava para ele, embora se lhe pudesse ou no entregar consoante a sua vontade. Ergueu-se, sentindo-se ainda incapaz de resistncia, jogou a manta, tirou a capa. Momentaneamente voltou a si, compreendendo que o homem magro com um grande capote a que faltava um boto era o encarregado do aquecimento que viera verificar o termmetro e que o vento e a neve tinham entrado atrs dele pela porta do compartimento. Depois, porm, tudo se confundiu outra vez... O homem alto ps-se a raspar qualquer coisa na parede do carro; a senhora idosa estendeu as pernas, levantando uma nuvem de p negro; ouviu um ranger, um martelar medonho, como se estivessem a torturar algum; uma luz vermelha cegou-a, depois a escurido tudo invadiu. Ana julgou que se despenhava de um precipcio. As sensaes que experimentava eram, alis, mais alegres que terrveis. A voz de um homem todo enroupado e coberto de neve gritou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Recuperou os sentidos, compreendeu que se aproximavam de uma estao. O homem era o condutor. Imediatamente pediu  criada que a acompanhava o xale e a capa, agasalhou-se e dirigiu-se para a porta.
- A senhora quer sair? - perguntou Anuchka.
- Quero, preciso de respirar; aqui sufoca-se.
Ana tentou abrir a portinhola. O vento e a neve fizeram-lhe frente. Era divertido. Por fim, tendo conseguido abri-la, saiu. Dir-se-ia que o vento a esperava: ululava, querendo arrast-la, mas Ana agarrou-se com uma das mos ao varo da portinhola e erguendo a saia com a outra ps os ps na plataforma. Abrigada pela composio, respirou com verdadeira
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satisfao o ar glacial daquela noite de tempestade. De p, junto da portinhola, olhava a gare e as luzes da estao.
CAPTULO XXX
Desencadeara-se uma terrvel tempestade de neve e o vento sibilava por entre as rodas do comboio e os postes prximos da estao. As carruagens, os postes, as pessoas, tudo ficava coberto de neve, que aumentava constantemente. Aps uma curta acalmia, a tempestade redobrou de intensidade e to violentamente que parecia nada poder resistir-lhe. Entretanto a porta da estao abria-se e fechava-se continuamente para dar passagem a pessoas que cornam de um lado para o outro ou ficavam a conversar alegremente na plataforma, cujas pranchas rangiam debaixo dos ps. A sombra de um homem curvado pareceu sair de sob a terra junto do local onde Ana se encontrava; ouviu o retinir de um martelo num pedao de ferro e em seguida, do lado oposto, uma voz irritada, que saa das trevas, e vociferava: "Mande um telegrama!", dizia, e outras vozes gritavam: "Por aqui, se faz favor! O n." 28!" Ana viu passar diante de si vultos cobertos de neve, atrs dos quais dois senhores caminhavam fumando tranquilamente. Ana respirou outra vez a plenos pulmes o ar frio, e, j com a mo na portinhola do compartimento, de novo se preparava para embarcar quando um homem de capote militar se aproximou, ocultando a luz do farol. Ana observou-o e reconheceu Vronski. Este levou a mo ao barrete, inclinou-se e perguntou se lhe podia ser tl em alguma coisa. Ana olhou-o um momento sem responder. Embora ele estivesse de costas para a luz, julgou ver-lhe nos olhos e na fisionomia a expresso de respeitoso entusiasmo que tanto a impressionara na vspera. Acabava de dizer para si mesma, depois de o repetir tantas e tantas vezes naqueles ltimos dias, que Vronski, para ela, era um rapaz como outro qualquer que encontrava por todos os lados na sociedade, e em quem nunca se permitiria pensar, e eis que, de repente, ao v-lo, se apoderavam dela a alegria e o orgulho. No precisava de lhe perguntar por que estava ali. Estava ali, sabia-o com toda a certeza, como se ele lho tivesse dito, evidentemente para se encontrar com ela.
- No sabia que tinha de ir a Sampetersburgo! Que vai fazer l? - perguntou Ana, deixando descair a mo, que se firmara j no varo da portinhola.
A animao e a alegria, uma animao e uma alegria indizveis, resplandeciam-lhe no rosto.
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- Que vou fazer l - repetiu Vronski, fitando-a nos olhos. - Bem sabe que vou para estar junto de si. No posso fazer outra coisa.
Naquele instante o vento, como se tivesse acabado de derrubar todos os obstculos, arrancou a neve do tecto das carruagens, agitou no ar uma prancha metlica que arrancara de qualquer parte, e, l mais para diante, ressoou, triste e lgubre, o estridente silvo da locomotiva. Todo o horror da tormenta se lhe afigurou ainda mais grandioso. Vronski dissera precisamente o que Ana no fundo da sua alma desejava que ele dissesse, embora a sua razo receasse ouvi-lo. E no respondeu. Ele viu que na expresso dela se traduzia um sentimento de luta.
- Perdoe-me, se o que acabo de dizer lhe desagrada - pronunciou humildemente.
Falava com respeito e cortesia, mas com tanta firmeza e deciso que Ana se viu impossibilitada de lhe responder logo.
- Isso no est certo, e peco-lhe, se  homem de bons sentimentos, que esquea o que disse; eu farei o mesmo - pronunciou, finalmente.
- No esquecerei, nem poderei esquecer nunca uma s palavra, um s gesto seu.
- Basta! Basta! - exclamou Ana, procurando debalde imprimir ao rosto uma expresso sria, ao rosto que ele fixava demoradamente.
Erguendo-se at  fria plataforma da carruagem, deteve-se ali por momentos. No se lembrava das palavras dele, mas sentia que aquela rpida conversa os unira muito, o que a assustava e a fazia feliz ao mesmo tempo. Alguns segundos depois penetrava no compartimento e sentava-se. Cada vez se sentia mais nervosa: chegou a pensar que ia partir-se dentro dela uma corda demasiado tensa. No dormiu toda a noite. Mas naquela tenso nervosa e nos sonhos que lhe enchiam a imaginao nada havia de desagradvel ou de triste, muito pelo contrrio, havia qualquer coisa de perturbador, de ardente, de excitante. Pela madrugada, adormeceu na poltrona e ao acordar j era dia. O comboio aproximava-se de Sampetersburgo. Imediatamente se ps a pensar na casa, no marido, no filho, e as preocupaes do dia absorveram-na.
Mal desembarcou, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: "Meu Deus! Por que lhe tero crescido tanto as orelhas?" pensou ela, mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas, que lhe chamavam agora a ateno, nas quais, dir-se-ia, vinham pousar as abas do chapu. Ao v-la, avanou ao seu encontro, com o seu habitual sorriso irnico, fitando-a com os seus grandes olhos fatigados. Uma sensao desagradvel oprimiu o corao de Ana ao encontrar o olhar cansado e tenaz do marido. Era como se esperasse ach-lo diferente. O que mais a surpreendia era a sensao de descontentamento consigo prpria que a dominava ao ver-se junto dele. Afinal, no trato com ele experimentava uma sensao familiar, conhecida, uma espcie
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de hipocrisia; anteriormente no dava por isso, mas agora essa sensao tornave-se clara e dolorosa.
- Como vs, o teu terno marido, terno como no primeiro ano de casado, estava morto por tornar a ver-te - proferiu ele, na sua voz aguda e lenta, naquele tom como de mofa, que habitualmente adoptava para com ela, como se quisesse ridicularizar essa mesma maneira de se exprimir.
- E o Seriocha, est bem? - perguntou ela.
- Assim respondes  minha veemncia!... Est bem, est bem.
CAPTULO XXXI
Vronski nem sequer tentara dormir aquela noite. Passara-a inteira sentado com os olhos muito abertos. O seu olhar, fixo a maior parte das vezes, atentava, de quando em quando, nas pessoas que entravam e saam, sem as distinguir das prprias coisas. Nunca a sua serenidade parecera to desconcertante, a sua altivez mais inabordvel. Esta sua atitude desde logo lhe conquistou a inimizade do companheiro de viagem, um jovem funcionrio judicial, nervoso, que tentara o impossvel para faz-lo compreender que fazia parte do nmero dos vivos. Mas por mais que lhe pedisse lume, que lhe dirigisse a palavra, que o acotovelasse mesmo, Vronski no lhe prestara maior ateno que  lanterna do comboio e o desgraado, ofendido por tamanha fleuma, dificilmente se reprimia, pronto a explodir.
Se Vronski dava mostras de uma to real indiferena no era por estar certo de haver tocado o corao de Ana. No, isso no ousava pensar; mas o veemente sentimento que sentia por ela enchia-o de felicidade e de orgulho. Que resultaria de tudo aquilo ? No sabia nem queria pensar nisso. Mas sentia que todas as suas foras, relaxadas e dispersas at ento, se enfeixavam e tendiam como que para um fim nico e maravilhoso. V-la, ouvi-la, viver junto dela, a vida j no tinha para ele outro sentido. Este pensamento a tal ponto o dominava que no pde evitar confessar-lho quando viu Ana na estao de Bologoia, onde descera para tomar um copo de soda. Estava contente por ter falado: Ana, agora, sabia que ele a amava, e no podia deixar de pensar nisso. Ao voltar para o seu compartimento, Vronski recapitulara, um por um, todos os pormenores dos encontros que tinha tido. Reviu todos os gestos, todas as palavras, todas as atitudes de Ana. E as imagens que se iam formando no seu espirito quase lhe paralisavam o corao.
Quando desceu do comboio em Sampetersburgo sentiu-se fresco e repousado como depois de um banho frio, embora no tivesse pregado olho a noite inteira. Deteve-se junto do carro dela, para a ver passar.
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"Tornarei a ver-lhe mais uma vez o rosto, o andar", dizia consigo, com um sorriso involuntrio. "Talvez tenha para mim um olhar, um sorriso, uma palavra, um gesto." Mas a quem viu primeiro foi ao marido, acompanhado, com grande deferncia, pelo chefe da estao. "Ah! Sim, o marido!" E quando o viu aparecer na sua frente com aquela cabea, os ombros e as pernas perdidas dentro das calas, quando o viu, sobretudo, dar o brao a Ana, como homem que conhece os direitos que lhe assistem, Vronski teve de convencer-se de que aquela personagem, cuja existncia at ento se lhe afigurara problemtica, existia, era de carne e osso, e que laos muito estreitos a uniam  mulher que ele, Vronski, amava. Naquele frio rosto petersburgus, aquele ar severo e seguro de si, aquele chapu de abas redondas, aquele dorso ligeiramente corcovado, de tudo isto Vronski teve de admitir a existncia, mas com a sensao de um homem que, morto de sede, encontra uma nascente de gua pura conspurcada pela presena de um co, de uma carneiro ou de um porco. O andar de Alexei Alexandrovitch, de pernas hirtas e quadris bambo-leantes, foi o que mais o incomodou. A ningum reconhecia o direito, salvo a ele prprio, de amar Ana. Felizmente, esta era a mesma de sempre K ao v-lo sentiu-se reanimado. O criado de Vronski, um alemo que viajara em 2." classe, veio receber as ordens do amo. Confiando--Ihe as bagagens, Vronski avanou resolutamente para ela. Assistiu, pois, ao encontro dos esposos e a sua perspiccia de namorado permitiu-lhe apreender o ligeiro constrangimento com que Ana acolheu o marido. "No, ela no gosta dele, nem pode gostar", decretou. Embora Ana estivesse de costas, Vronski notou com alegria que ela lhe adivinhara a presena. Voltou-se um pouco, reconheceu-o e continuou a conversa que encetara com o marido.
- Passou bem a noite ? - perguntou Vronski, inclinando-se diante do casal, dando assim oportunidade a Alexei Alexandrovitch de o reconhecer, caso isso lhe aprouvesse.
- Muito obrigada, passei bem - respondeu ela.
O seu rosto fatigado no aparentava a animao costumeira; no entanto, um lampejo lhe perpassou plos olhos ao ver Vronski, e foi quanto bastou para ele se sentir feliz. Entretanto levantara os olhos para o marido, como para se certificar de que ele reconhecia o conde: Alexei Alexandrovitch olhava-o com um ar de poucos amigos, procurando lembrar-se de quem se tratava. A serenidade e a suficincia de Vronski chocaram-se com a fria segurana de Alexei Alexandrovitch, como uma foice que bate numa pedra.
- O conde Vronski - disse Ana.
- Ah! Creio que j nos conhecemos - replicou com indiferena Alexei Alexandrovitch, estendendo-lhe a mo. - Fizeste a viagem de ida com a me e a de volta com o filho - acrescentou, sublinhando cada palavra. - Tem estado de licena, naturalmente ? - perguntou, e sem
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aguardar resposta dirigiu-se  mulher no seu habitual tom irnico: - Qu? Ento houve muitas lgrimas  despedida em Moscovo?
Pela maneira de se dirigir  mulher, Vronski percebeu que ele desejava estar s com ela. Mas Vronski, voltando-se para Ana, disse-lhe ainda:
- Espero ter a honra de lhe apresentar os meus cumprimentos. Alexei Alexandrovitch olhou Vronski com os seus olhos cansados.
- Com muito gosto; recebemos s segundas-f eiras - replicou com frieza, e, sem mais se preocupar com ele, voltou-se para a mulher. - Muita sorte tive em poder dispor desta meia hora para te vir esperar, e ter podido mostrar-te todo o meu carinho - continuou ironicamente.
- Ests a ressaltar o teu carinho para que eu o aprecie melhor - respondeu Ana no mesmo tom irnico, ouvindo, involuntariamente, os passos de Vronski, que caminhava atrs dela. "Mas que me importa?", pensou. E imediatamente perguntou ao marido como Seriocha passara aqueles dias, na sua ausncia.
- Oh, magnificamente! Mariette diz que esteye muito bonzinho... E tenho'de te dar um desgosto... No teve tantas saudades tuas como o teu marido. E outra vez merci por teres vindo um dia mais cedo. O nosso querido samovar vai ter com isso uma grande alegria (era o nome que ele dava  clebre condessa Ldia Ivanovna, que vivia sempre em estado de emoo e de agitao). Perguntou por ti. Se me atrevesse a dar-te um conselho, dir-te-ia que a visitasses hoje mesmo. Sabes que sofre por tudo e por nada. Agora, alm de todas as suas preocupaes, est mteressadssima na reconciliao dos Oblonsk.
A condessa Ldia Ivanovna era amiga de Alexei Alexandrovitch e o eixo do grupo da alta sociedade de Sampetersburgo que Ana mais frej quentava por causa do marido.
- Eu escrevi-lhe.
- Mas precisa de saber pormenores. Vai a casa dela, se no ests cansada, querida. Kondrati leva-te no carro. Eu tenho de ir a uma reunio. Enfim, j no jantarei s - acrescentou com ironia desta vez. - No podes calcular como me habituei...
E dito isto, apertou-lhe demoradamente a mo, sorriu-lhe com o seu melhor sorriso e ajudou-a a subir para a carruagem.
CAPTULO XXXII
A primeira pessoa que descobriu Ana quando esta chegou a casa foi o filho; sem querer ouvir os brados da preceptora, correu escada abaixo ao seu encontro, gritando numa grande alegria: "Mezinha! Mezinha!", e lanou-se-lhe ao pescoo.
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- Eu bem lhe dizia que era a mezinha! - gritava ele  preceptora. - Tinha a certeza.
Mas tambm o filho, tal como o pai, causou em Ana uma espcie de desencanto. Imaginava-o melhor do que ele era realmente. Para o apreciar plenamente, viu-se obrigada a descer  realidade e v-lo tal como era, isto , uma linda criana de caracis louros, belos olhos azuis e pernas bem feitas nas suas meias bem esticadas. Ento experimentou um prazer quase fsico ao senti-lo junto de si, ao receber as suas carcias e uma espcie de apaziguamento moral penetrou nela quando ele principiou a fazer as suas ingnuas perguntas e se ps a perscrutar-lhe os olhos to meigos, to confiantes, to cndidos. Desembrulhou os presentes que Dolly lhe mandava e contou-lhe que havia em Moscovo uma menina chamada Tnia, que j sabia ler e at ensinava os outros a ler.
- Ento sou pior do que ela? - perguntou Seriocha.
- Para mim, meu amor, no h ningum melhor do que tu.
- Eu bem sabia - disse Seriocha sorrindo.
Ainda Ana no acabara de tomar o caf quando lhe anunciaram a condessa Ldia Ivanovna. Era uma mulher alta e cheia, de tez amarelada e enfermia e uns melanclicos e bonitos olhos pretos. Ana, que a estimava, julgou aperceber-se pela primeira vez de que ela tambm tinha os seus defeitos.
- Ento, querida, levaste-lhes o ramo de oliveira? - perguntou a condessa, mal entrou na sala.
-  verdade, tudo se consertou. Alm disso as coisas no eram to feias como pareciam - replicou Ana. - Em geral ma belle-soeur  um pouco precipitada nas suas decises.
Mas a condessa Ldia, sempre muito interessada pelo que no lhe dizia respeito, tinha por costume no prestar a menor ateno ao que se supunha interessar-lhe. Interrompeu Ana.
- Sim, h muita maldade e muita desgraa neste mundo. Estou hoje to desanimada!
- Por  qu ? - interrogou  Ana,  procurando  conter  o  riso.
- Comeo a cansar-me de lutar em vo pela verdade e s vezes vejo-me completamente derrotada. A obra das nossas irmzinhas (tratava-se de uma instituio filantrpica patritico-religiosa) segue por bom caminho, mas no se pode fazer nada com estes senhores - disse a condessa Ldia Ivanovna, ironicamente, como que submetendo-se ao destino.- Apoderaram-se da ideia para a desvirtuarem e agora julgam-na de uma forma vil e indigna. S duas ou trs pessoas, no nmero das quais est o seu marido, compreendem o significado desta obra; as demais no sabem seno desacredit-la. Ontem recebi uma carta de Pravdine...
Pravdine, clebre pan-eslavista, residia no estrangeiro. A condessa resumiu a Ana o contedo da carta dele. Depois contou-lhe as inmeras ciladas e contratempos armados  obra da unio das igrejas e retirou-se
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a toda a pressa, pois ainda tinha de assistir, naquele dia, a duas reunies, uma das quais do comit eslavo.
"Nada disto  novo", dizia Ana com os seus botes, "mas por que no o percebi antes? Estaria ela hoje mais nervosa do que de costume? KO fundo, tudo isto  cmico: esta mulher, que se diz crist e que s pensa na caridade, zanga-se e luta com outras pessoas que trabalham exactamente plos mesmos fins que ela."
Depois da condessa, chegou uma amiga de Ana, esposa de um funcionrio, que lhe contou as novidades da capital, e partiu s trs horas, prometendo vir jantar com ela. Alexei Alexandrovitch estava no Ministrio. Quando ficou s, Ana assistiu primeiro ao jantar do filho - a criana comia  parte - e depois procurou pr em ordem as suas coisas e responder  correspondncia em atraso.
Da perturbao, da vergonha inexplicvel que a assaltara durante a viagem, j no havia vestgios. De novo no seu ambiente habitual, sentia-se outra vez segura e irrepreensvel, e no conseguia perceber o estado de esprito por que passara na vspera. "Que se passou afinal de to grave ?", interrogou-se a si mesma. "Nada. Vronski disse uma loucura e eu respondi-lhe como devia. No vale a pena falar no caso a Alexei, seria como que atribuir-lhe importncia." E recordou-se de ter contado, uma vez, ao marido que um subordinado dele estivera a ponto de se lhe declarar e ele lhe respondera que toda a mulher que frequenta a sociedade est sujeita a coisas dessas, mas que confiava plenamente no seu tacto e nunca se permitiria humilh-la e  humilhar-se a si prprio deixando-se arrastar pelo cime. "O melhor, portanto,  calar-me", concluiu ela. "E, alis, graas a Deus, nada tenho a dizer-lhe."
CAPITULO XXXIII
Alexei Alexandrovitch voltou do Ministrio s 4 horas, mas, como frequentemente acontecia, no teve tempo de entrar nos aposentos da mulher. Meteu-se logo no escritrio para receber umas visitas que o aguardavam e assinar uns papis que o secretrio lhe trouxera.  hora do jantar chegou a velha prima de Alexei Alexandrovitch, um director do seu Ministrio com a esposa e um rapazola que lhe fora recomendado (os Karenines tinham sempre dois ou trs convidados para o jantar). Ana desceu ao salo para receb-los. s 5 em ponto, ainda o relgio de bronze, estilo Pedro I, no deixara cair a ltima badalada, entrava Alexei Alevandrovitch, de sobrecasaca e duas condecoraes ao peito, pois tinha de sair logo aps o jantar. Todos os minutos da sua existncia
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eram cojitados, e para poder cumprir o que diariamente lhe competia via-
-se obrigado a observar uma pontualidade estrita. "Sem precipitao e sem descanso", eis o seu lema. Ao entrar no salo, cumprimentou todos os presentes e sentou-se, apressadamente, sorrindo para a mulher.
- Finalmente, acabou a minha solido! Nem tu imaginas como  incmodo - sublinhou a palavra "incmodo" - comer sozinho.
Durante o jantar falou com Ana acerca de Moscovo, e com um sorriso irnico perguntou por Stepane Arkadievitch; mas conversou a maior parte do tempo sobre assuntos de ordem geral, tendo abordado questes do Ministrio e da sociedade de Sampetersburgo. Findo o jantar, Alexei Karenine demorou-se meia hora com os seus convidados e depois de apertar de novo a mo da mulher, sorrindo sempre, saiu para ir assistir a uma nova sesso do conselho. Ana no foi a casa da princesa Betsy Tverskaia, nem ao teatro, onde tinha um camarote reservado. No foi principalmente por ainda no ter pronto o vestido com que contava. Ao ocupar-se das suas toilettes depois da partida dos convidados, irritou-
-se muito. Antes de partir para Moscovo mandara  modista trs vestidos para transformar. Em geral, tinha a habilidade de gastar pouco, vestindo-se embora muito bem. Precisava de transformar aqueles vestidos de tal sorte que ficassem irreconhecveis, e havia j trs dias que deviam estar prontos. No entanto, dois deles estavam por acabar, e o outro no lhe agradou. A modista apressou-se a explicar-lhe que o vestido ficava melhor como ela o fizera, e Ana enfurecera-se tanto com ela que at sentia vergonha agora ao record-lo. Para serenar, dirigiu-se ao quarto do filho e passou todo o sero com ele, deitou-o, arranjou-lhe a roupa com muitos cuidados e saiu depois de o abenoar com o sinal-da-cruz. E sentiu-se ento bastante satisfeita por no ter sado e por ter passado uma tarde to agradvel. Estava serena e tranquila, e via claramente que tudo que lhe parecera significativo durante a viagem era um facto corriqueiro e trivial da vida mundana e que no havia razo para se envergonhar nem perante si mesma nem perante ningum. Sentou-se junto ao fogo e ali ficou tranquilamente  espera do marido, entretida a ler o seu romance ingls. s 9 horas em ponto retiniu a campainha autoritria de Alexei Alexandrovitch e no tardou que ele entrasse na sala.'
- Finalmente, chegaste! - exclamou ela, estendendo-lhe a mo, que ele beijou antes de se sentar junto da mulher.
- Vejo que a tua viagem obteve xito - disse Alexei.
- Sim, o mais completo - replicou Ana, e contou tudo desde o princpio: a viagem com Vronskaia, a chegada a Moscovo e o desastre na estao. Depois disse-lhe da compaixo que sentira primeiro pelo irmo e depois por Dolly.
- Sou de opinio que no se deve perdoar a um homem assim, embora se trate de teu irmo - disse ele com expresso severa.
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Ana sorriu. Compreendeu que ele falava assim para provar que os laos de parentesco no o podiam impedir de emitir juzos sinceros. CoflhoM-lhe: esse trao de carcter e apreciava-o.
- Estou muito satisfeito que tudo tenha acabado bem-continuou.- Bom, o que se diz por l da nova lei que apresentei ao conselho?
Ana no ouvira falar de semelhante lei em Moscovo e envergonhou--se por ter esquecido uma coisa que to importante era para ele.
- Aqui, pelo contrrio, tem sido muitssimo comentada - disse Alexei Alexandrovitch com um sorriso de satisfao.
Ana compreendeu que o marido lhe queria comunicar qualquer coisa agradvel a propsito da referida lei e tantas perguntas fez que conseguiu que ele se explicasse.
- D-me isso muita satisfao. Isso s demonstra que, por fim, aqui comea a forma-se um ponto de vista firme e razovel acerca de semelhante assunto.
Depois de ter tomado dois copos de ch com nata, levantou-se disposto a voltar para o seu gabinete de trabalho.
- No sastes ? Deves ter-te aborrecido - disse  mulher.
- Oh, no! - replicou Ana, erguendo-se tambm e seguindo com ele ao longo da sala. - Que ests a ler agora ?
- La fosie ds Enfers, do duque de Lille.  um livro muito interessante.
Ana sorriu, como em geral as pessoas sorriem diante das fraquezas dos seres amados, e, enfiando o brao no do marido, acompanhou-o at ao escritrio. Conhecia o costume dele, que se lhe tornara imprescindvel, de ler todas as noites. Sabia que apesar das obrigaes, que lhe roubavam quase todo o tempo, considerava como que um dever acompanhar todas as coisas interessantes que apareciam no mundo intelectual. De resto, ela no ignorava que, assaz competente em poltica, filosofia e religio, Alexei Alexandrovitch nada entendia nem das letras nem das artes, o que, no entanto, no o impedia de se interessar particularmente por obras do gnero. E se em poltica, em filosofia, em religio lhe acontecia ter dvidas e procurar esclarec-las, nas questes de arte, de poesia, de msica, sobretudo nos assuntos de que nada entendia, estava sempre pronto a emitir opinies definitivas e sem recurso. Gostava de discutir Shakespeare, Rafael ou Beethoven, de pronunciar-se sobre as novas escolas de msica e poesia, e de classific-las numa ordem to lgica quanto rigorosa.
- Bom, at j - disse Ana Karenina, junto  porta do escritrio. Junto  poltrona do marido j estavam acesas as velas com o seu abat-jour e posta uma garrafa com gua.
- Vou escrever para Moscovo.
Alexei  Alexandrovitch  apertou-lhe  a  mo,  tornando  a  beij-la.
"Seja como for,  um homem bom e justo, de bom corao e notvel
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no seu meio", dizia Ana para si mesma, ao regressar aos seus aposentos, como se o defendesse diante de algum que o acusava e dissesse ser impossvel am-lo. "Mas por que razo lhe sobressaem tanto as orelhas? Teria cortado o cabelo?"
 meia-noite em ponto, Ana ainda escrevia a Dolly, sentada  sua pequenina secretria, quando ouviu aproximarem-se uns passos abafados e Alexei Alexandrovitch apareceu, com um livro na mo, de pantufas caladas, j pronto na sua toilette da noite.
- So horas de dormir - disse-lhe ele com um sorriso malicioso, antes de penetrar no quarto de dormir.
"Que direito tinha de o olhar assim?", pensou Ana, lembrando-se, de repente, do olhar que Vronski lanara ao marido.
Ana no tardou a entrar no quarto do marido, mas onde estava aquela chama que em Moscovo lhe animava o rosto, lhe cintilava nos olhos, lhe iluminava o sorriso? Extinta, ou, pelo menos, bem escondida.
CAPTULO XXXIV
Ao deixar Sampetersburgo, Vronski cedera ao seu melhor camarada, Petritski, o amplo andar que ocupava na Rua Morskaia.
Petritski era um jovem tenente, de famlia modesta, sem bens e cheio de dvidas. Todas as noites se embriagava e com frequncia era preso por causa das suas aventuras divertidas e escandalosas. Mas, apesar de tudo, tanto os seus camaradas como os seus superiores o estimavam muito. Ao chegar a casa, pouco depois das 11 horas, Vronski viu  porta uma carruagem que no lhe era desconhecida. Enquanto no lhe abriam a porta, ouviu risos de homens, a tagarelice de uma voz feminina e em seguida os gritos de Petritski:
- Se  uma dessas aves de rapina, no a deixem entrar!
Vronski entrou na primeira saa, silenciosamente, sem se anunciar. Muito catita, no seu vestido de cetim lils e com a sua carinha rosada, a amiga de Petritski, a baronesa Chiltone, tal qual um canrio enchia toda a casa com o seu sotaque parisiense. Sentada a uma mesa redonda, preparava caf. Petritski,  paisana, e o capito de cavalaria Kame-rovski, fardado (naturalmente chegava do servio), estavam a seu lado.
- Ol, Vronski! - exclamou Petritski, levantando-se e fazendo rudo com a cadeira. - Aqui tem o dono da casa em pessoa! Baronesa, sirva-lhe caf da cafeteira nova. No te espervamos! Que dizes a esta nova decorao do teu escritrio? Espero que te agrade - exclamou ele, apontando para a baronesa.-J se conhecem, no  verdade?
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- Po^s no nos havamos de conhecer ? - replicou Vronski, sorrindo e apertando a mozinha da baronesa. - Somos velhos amigos!
- Acaba de chegar de viagem? - perguntou a baronesa. - Ento vou-me embora. Se incomodo, saio j.
- Est em sua casa, baronesa - replicou Vronski. - Ol, Kame-rovitch - acrescentou, apertando-lhe friamente a mo.
- Vocs no sabem dizer coisas assim amveis - censurou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro.
- Por qu? Depois de jantar, tambm lhas saberei dizer. E melhores ainda.
- Depois de jantar j no tm mrito. Bom, vou preparar-lhe caf enquanto se lava e arranja - disse a baronesa, e ps-se a arranjar a cafeteira nova. - Pierre, passa-me o caf. Vou deitar mais - disse a Petritski. Chamava-lhe "Pierre", abreviando-lhe o nome, sem esconder a sua intimidade com ele.
- Vai estrag-lo!
- No, no! No o estrago... E a sua mulher? - perguntou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro. - Casmo-lo na sua ausncia. Trouxe a sua mulher?
- No, baronesa. Nasci bomio e espero morrer bomio.
- Tanto melhor! Tanto melhor! D-me a sua mo. E sem o deixar partir, a baronesa comeou a expor-lhe, entre gracejos, os seus ltimos planos de vida pedindo-lhe conselhos.
- Ele continua a no querer consentir no divrcio. Que hei-de eu fazer? ("Ele" era o marido.) Penso em dar incio  aco. Que acha?... Kamerovski, cuidado com o caf, que est quase a ferver. Bem v que estou a falar de negcios. Estou resolvida a instaurar o processo, porque preciso do que me pertence, no  verdade? Imagine, que atrevimento! Com o pretexto de que lhe sou infiel - sorriu, com desdm-aquele cavalheiro apropria-se do que  meu.
Vronski ouvia, divertido, a tagarelice daquela bonita mulher, dava--Ihe razo, aconselhava-a, zombando, e no tardou a adoptar o tom que costumava empregar para com essa espcie de mulheres. As pessoas do seu meio dividiam a humanidade em duas categorias opostas: a primeira, de gente vulgar, estpida e sobretudo ridcula, supe que os maridos devem ser fiis s suas mulheres, as donzelas puras, as mulheres castas, os homens corajosos, firmes e moderados, e que devem educar os filhos, ganhar a vida, pagar as dvidas e outras frioleiras do mesmo gnero. Esta era a gente antiquada e ridcula. A segunda, pelo contrrio - * gente da "alta" -,  qual eles se vangloriam sempre de pertencer, preza a elegncia, a generosidade, a audcia, o bom humor, entrega-se sem pudor a todas as paixes e ri-se de tudo o mais.
Ainda sob a impresso dos costumes moscovitas - quo diferentes ! -, Vronski sentiu-se, por momentos, aturdido ao reencontrar
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aquela gente alegre e agradvel, mas no tardou a adaptar-se  sua antiga existncia com a felicidade de quem cala uma velha pantufa.
O famoso caf nunca mais estava pronto. Transbordou da cafeteira para o tapete, sujou o vestido da baronesa, salpicou todos, conseguindo o que era preciso: provocar o riso e soltar o esprito.
- Bom, agora, adeusinho. Se no me vou embora, nunca mais se lavar nem arranjar, e sobre a minha conscincia vir a pesar o maior delito que um homem elegante pode cometer - no se lavar. Acha ento que lhe devo apontar o punhal ao peito?
- Com certeza, e procure a maneira de a sua mo lhe ficar bem perto dos lbios. Acabar por beij-la e tudo ficar resolvido - replicou Vronski.
- Ento, at logo, no Teatro Francs!
Kamerovski levantou-se tambm, e Vronski, sem esperar que ele se retirasse, apertou-lhe a mo e dirigiu-se ao quarto de banho. Enquanto ele procedia s suas ablues, Petritski pintava-lhe, a grandes pinceladas, o quadro da sua situao. Nada de dinheiro; o pai declarava no lhe dar dinheiro e nunca mais lhe pagara nenhuma dvida; um alfaiate estava disposto a recorrer  polcia e outro ameaava-o de fazer o mesmo; o comandante decidido, caso continuasse aquele escndalo, a obrig-lo a deixar o regimento; a boronesa, enfadonha como uma chuva mida, sobretudo por causa das ofertas de dinheiro que constantemente lhe fazia; em compensao, uma nova beldade no horizonte, de estilo oriental, "gnero escrava Rebeca, meu caro, e que tu precisas de conhecer"; uma questo com Berkochev, que estava disposto a enviar-lhe as suas testemunhas, mas que naturalmente nada faria. Entretanto tudo corria melhor e o mais alegremente possvel. E sem dar tempo a que Vronski meditasse no que lhe acabava de dizer, Petritski ps-se a contar-lhe todas as novidades que corriam. Ouvindo aquelas coisas que lhe eram to familiares, em sua casa, naquela casa onde vivia h trs anos, Vronski experimentava a agradvel sensao de ter regressado  despreocupada e habitual vida petersburguesa,
-  impossvel!  impossvel! - exclamava, abrindo a torneira do lavatrio, que ao jorrar lhe borrifava o pescoo forte e vermelho. -  impossvel! - repetia, recusando-se a acreditar que a Laura tivesse deixado o Fertingov para viver com o Mileiev. - Ele continua o mesmo estpido que sempre foi e a mesma aiatura cheia de suficincia ? E a propsito, que me contas do Buzulukov?
- Buzulukov? Ao Buzulukov aconteceu uma coisa estuperda! - exclamou Petritski. - Bem sabem que tem a paixo da dana e no falta a um s baile da Corte. Pois bem, foi a um grande baile com o capacete novo. J viste os capacetes novos? So bons, mais leves... L estava ele, pois, de grande uniforme... Ouve, faz o favor de ouvir-me.
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- Estou a ouvir -replicou Vronski, que se enxugava com uma toalha de felpa.
- Passa uma gr-duquesa pelo brao de um diplomata estrangeiro e por infelicidade a conversa recaa sobre os novos capacetes. A gr-
-duquesa estava morta por mostrar um ao embaixador. De sbito, v o nosso amigo, ali, de p, de capacete na mo (dizendo o que, Petritski ia arremedando a atitude de Buzulukov). A gr-duquesa pede-lhe que lhe mostre o capacete. Ele no" se mexe. Que significa aquilo ? Todos lhe fazem sinais, caretas, piscadelas de olhos. Mas ele no se mexe. Parece petrificado. Podes imaginar a cena? Ento um no sei quem... esquece-me sempre o nome dele... tenta tirar-lhe o capacete. Ele no deixa. O outro arranca-lho da cabea e apresenta-o  gr-duquesa. "Aqui tem o novo modelo", diz ela, examinando o capacete. Pois que julgas que sai de l de dentro? Nunca te passar pela cabea... Uma pra, e bombons, duas libras de bombons... Tinha-se abastecido bem, o figuro! Vronski ria a bandeiras despregadas. E tempo depois, sempre que lhe acontecia, ao falar de coisas muito diferentes, lembrar-se da histria do capacete desatava a rir, num riso franco e jovial que lhe punha  mostra os belos dentes fortes e regulares.
Inteirado das ltimas novidades, Vronski envergou o uniforme, com a ajuda do criado de quarto, e cuidou de ir apresentar-se no quartel. Tencionava passar depois por casa do irmo, visitar Betsy e principiar uma srie de visitas pela sociedade onde lhe seria mais provvel encontrar-
-se com Ana Karenina. Como sempre fazia em Sampetersburgo, saiu de casa na inteno de a ela no voltar seno noite adentro.
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SEGUNDA PARTE
CAPTULO I
No fim do Inverno, os Tcherbatski tiveram uma conferncia mdica para decidir o que havia a fazer quanto  sade de Kitty a jovem sentia-se muito fraca e a aproximao da Primavera pioraria as coisas O me dico assistente receitara lhe leo de fgado de bacalhau, depois ferro e finalmente nitrato de pra*i Como, porm, nenhum destes remdios fizera efeito, aconselhara uma viagem ao estrangeiro Foi ento que deci diram consultar uma celebridade mdica Esta celebridade, homem ainda novo e muito cheio de si, exigiu um exame rigoroso da doente Insistia, com uma certa complacncia, em que o pudor das donzelas era uma reminiscncia brbara e nada mais natural do que um homem ainda novo auscultar uma mocinha seminua Como o fazia diariamente sem sentir - assim o acreditava-a menor perturbao, era natural que considerasse o pudor das jovens no s um resto de barbrie, mas at uma injria pessoal
No houve remdio seno transigir Embora todos os mdicos tivessem estudado na mesma escola e praticassem uma e a mesma cincia, e houvesse quem falasse mal desta sumidade, o certo  que em casa da princesa e entre as pessoas das suas relaes se considerava esse mdico como um caso extraordinrio, estando todos certos de que era o nico capaz de salvar Kitty Depois de um exame minucioso da doente, muito confusa e envergonhada, o mdico lavou cuidadosamente as mos e voltou para o salo onde falou com o prncipe Este ouviu o tossindo, taciturno Homem idoso, saudvel e nada tolo, o prncipe no acreditava na medicina e irritava se tanto mais com toda aquela comdia quanto era certo no ser o nico, talvez, a compreender a causa da doena de Kitty "Este lebru sai daqui como entrou, sem uma pea de caa", dizia ele consigo mesmo, exprimindo, nesta linguagem de caador, a sua opinio sobre o diagnstico do famoso doutor Por seu lado, este no se dava sequer ao trabalho de esconder o desdm que lhe merecia o velho fidalgo Quase no se dignava dirigir lhe a palavra, a esse pobre diabo, uma vez que quem mandava Ia em casa, evidentemente, era a princesa Preparava se para derramar diante dela as prolas da sua eloquncia, quando ela apareceu com o mdico da famlia e o prncipe logo tratou de se afastar
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paia. no deixar perceber o que pensava de toda aquela farsa A princesa, desconcertada, no sabia que fazer  Sentia se culpada perante a filha
- Ento, doutor, decida a nossa sorte - disse -Diga me tudo - Queria acrescentar "H esperanas'", mas os lbios tremeram-lhe e contentou-se em repetir -Fale, doutor
- Permita, primeiro, princesa, que eu tenha uma conferncia com o meu colega, depois terei a honra de lhe dar a minha opinio
- Querem que os deixemos ss'
- Como quiserem A princesa suspirou e saiu
Uma vez a ss com o colega, o mdico da famlia emitiu timidamente a sua opinio
- Devia tratar se do princpio de um processo tuberculoso, mas O clebre mdico ouviu o, porm a meio da sua tirada interrompeu o, consultando o enorme relgio de ouro
- Sim - disse ele-, mas
O mdico assistente calou se respeitosamente
- Como o colega sabe, no podemos determinar o princpio de um processo tuberculoso Antes do aparecimento das cavernas, no h nada concreto No caso presente, contudo, certos sintomas, como a desnutrio, a excitao nervosa, e outros, levam nos a recear precisamente isso A questo  esta que deve fazer se para melhorar a nutrio quando se suspeita da existncia de um processo tuberculoso'
- No devemos perder de vista, no entanto, as causas morais - permitiu se insinuar, com um sorriso subtil, o mdico da famlia
- Sim, naturalmente - respondeu o f arnoso doutor, depois de olhar de novo para o relgio - Perdoe me sabe dizer me se a ponte de lauski est pronta ou se temos de fazer algum desvio' - perguntou - Ah1 J esta pronta1 Ento poderei chegar em vinte minutos Como estvamos dizendo, a questo  a seguinte melhorar a nutrio e cuidar dos nervos Uma coisa esta em relao com a outra Temos de actuar nas duas direces
- E a viagem ao estrangeiro'
- Sou contra essas viagens De resto, se houver um princpio de tuberculose, coisa que no podemos saber, uma viagem ao estrangeiro nada adiantar O essencial  arranjar maneira de melhorar a nutrio sem prejudicar o organismo da doente
E o eminente clnico exps o seu plano de um tratamento de gua de Soden, cujo mrito principal consistia a seu ver, na mocuidade O colega ouvia o com uma ateno respeitosa
- Eu invocaria, em favor da viagem ao estrangeiro, a mudana de ambiente, o afastamento de tudo que desperta recordaes E alm disso  esse o desejo da me
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- Bom, nesse caso, que vo, mas que esses charlates dos alemes no lhe agravem o mal'  preciso que ela siga estritamente o trata mento Pois bem, que vo -Tornou a olhar para o relgio
- Oh' So, horas de partir - declarou ele, e dirigiu se para a porta O eminente mdico comunicou  princesa que teria de voltar a ver a enferma - naturalmente movido por um sentimento de convenincia
- Como' Tornar a vela'- exclamou a me, horrorizada
- No, no, princesa, apenas alguns pormenores
- Pois bem, seja1
E a princesa acompanhou o mdico ao salo onde estava Kitty, de p, no meio da casa, muito magra, as faces afogueadas e um brilho p culiar nos olhos, causado pela vergonha por que passara Quando os viu entrar de novo, os olhos encheram se lhe de lgrimas e corou ainda mais A sua doena e os tratamentos que lhe impunham pareciam lhe tolos e ridculos Trata Ia desta maneira era to absurdo como apanhar do cho pedaos de um \aso partido e tentar cola los Tinha o corao despe daado e queriam cura Io com plulas e ps' No queria porm, contrariar a me, principalmente porque sabia que esta se considerava culpada
- Faa favor de se sentar, princesa - disse o mdico, sentando-se diante dela
Depois de lhe tomar o pulso, voltou a fazer lhe perguntas aborre cidas Kitty respondeu lhe, mas no tardou a levantar se, impaciente
- Desculpe me, doutor, mas na verdade tudo isto no adiante nada  a terceira vez que me pergunta a mesma coisa O mdico afamado no se ofendeu
- Excitao nervosa - observou ele, voltando-se para a princesa, como para uma pessoa de excepcional inteligncia, expondo lhe cienti ficamente o estado da filha, e terminou indicando-lhe como devia tomar as aguas de que estava a precisar Ao perguntar lhe a princesa se de veriam ir ao estrangeiro, aquela sumidade mdica reflectiu profunda mente e o resultado das suas reflexes foi que podiam partir, com a condio de no se fiarem nos charlates alemes e de seguirem apenas as prescries dele, medico russo
A partida do mdico foi um alvio a me voltou alegre para junto da filha e esta fingiu tambm estar alegre Agora via se obrigada muitas vezes a fingir
- Na verdade sinto me muito bem maman Mas se queres que partamos, podemos partir - disse, fingindo se interessada na viagem que iam fazer, e ps se a falar dos preparativos
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CAPTULO II
Pouco depois de o mdico sair, chegava Dolly Inteirada de que iria haver uma conferncia mdica naquele dia e no obstante acabar de levantar se de mais um parto (nascera lhe uma filha no fim do Inverno) e dos muitos desgostos e preocupaes que a afligiam, deixando em casa a recm nascida e outra filha doente, quis saber o que havia sobre o destino de Kitty, que naquele momento se decidia
- Ento' - disse ela, ao entrar no salo, sem tirar o chapu - Esto contentes' Quer dizer tudo caminha bem
Procuraram explicar lhe o que o mdico dissera, mas o certo  que, conquanto este tivesse falado muito e muito bem, no conseguiram resumir lhe a sua opinio Alias, no as autorizara ele a que fossem ao estrangeiro' Eis a nica coisa que importava
Dolly teve um suspiro involuntrio A irm, a sua melhor amiga, ia partir' E a vida era para ela to pouco alegre' Depois da reconciliao com a mando, as suas relaes com ele tinham se tornado francamente humilhantes a soldadura feita por Ana no mostrara firmeza e a harmonia conjugal quebrara no mesmo lugar Nada de concreto, mas a verdade  que andavam sempre com falta de dinheiro Stepane Arka-dievitch quase no parava em casa e a suspeita de que lhe era infiel atormentava Dolly, embora procurasse fugir a essa ideia, receosa de passar de novo pelo sofrimento que experimentara, entregando-se ao cime A exploso de cimes que se verificara da primeira vez no podia voltar a produzir se, e, se era certo que isso no voltaria a dar se, no receava menos uma nova ruptura dos seus hbitos Preferia, pois, deixar se enganar, desprezando o marido e desprezando se a si prpria, merc dessa mesma fraqueza Alm disso, as preocupaes inerentes a uma famlia numerosa j lhe no davam pouco que pensar ora no aumentava de peso a recm nascida, ora i ama se despedia, ora, como naquele momento, algum dos filhos adoecia
- As crianas como esto' - inquiriu a princesa
- Oh, me1 As coisas no vo bem l por casa Lih est de cama, tenho medo que seja escarlatina Vim saber da Kitty, porque, se for escarlatina, Deus nos livre, no poderei sair de casa to cedo
O velho prncipe saiu tambm do escritrio logo que soube da partida do mdico e depois de apresentar a face ao beijo de Kitty, e de trocar algumas palavras com ela, dirigiu se  mulher
- Que resolveram, afinal' Sempre partem' E que destino me do'
- Acho melhor ficares, Alexandre
- Como queiras
- Maman, por que no h de o pai vir connosco' - perguntou Kitty -Sena melhor para ele, e para ns tambm
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O prncipe, que se sentara, levantou-se e acariciou os cabelos de Kitty. Esta levantou o rosto e fitou-o com um sorriso forado. Kitty tinha a impresso de que de toda a famlia o pai era quem melhor a compreendia, embora pouco conversasse com ela. A filha mais nova era a predilecta do prncipe e o afecto que ele lhe tinha, pensava ela, devia torn-lo mais compreensivo. Quando o olhar de Kitty se cruzou com o do pai, que a fitava com os seus bons olhos azuis, teve a impresso de que ele lhe lia na alma e que via nela tudo o que l se passava. Corando, debruou-se para ele,  espera de um beijo, mas ele contentou-se em passar-lhe a mo plos cabelos e em dizer:
- Qu estpidos estes cabelos postios! Nunca conseguimos acariciar os cabelos da nossa filha; no que tocamos  na cabeleira de alguma pobre defunta... Bom, Dolly, que h ? - inquiriu, dirigindo-se  filha. - Como vai o teu "s"?
- Bem, paizinho - replicou-lhe Dolly, compreendendo que o pai se referia ao marido. - Est sempre fora de casa, quase no o vejo - acrescentou, sem poder dominar um sorriso irnico.
- Ainda no foi  aldeia vender o bosque?
- No, est sempre a preparar-se para isso.
- Realmente!... Ento, tambm eu tenho de me preparar? Pois seja - acrescentou, dirigindo-se  mulher, enquanto voltava a sentar-se. - E tu, Kitty, sabes o que deves fazer?  preciso que uma destas manhs, ao acordares, digas a ti mesma; "Estou completamente curada e sinto-me alegre, vou dar um passeio com o pap pelo manh muito cedo, respirar o ar fresco." Que te parece?
Ao ouvir estas palavras do prncipe, alis de uma grande simplicidade, Kitty sentiu-se perturbada, como um criminoso surpreendido em flagrante. "Sim, ele sabe tudo, compreende tudo e com estas palavras d-me a entender que, ainda que isso me custe, devo dominar-me." Quis falar, mas as lgrimas embargaram-lhe a voz e saiu correndo.
-  isto que consegues com as tuas tolices! - exclamou a princesa, irritada. - Sempre h-de...-prosseguiu, fazendo-lhe um sermo cheio de censuras.
O prncipe escutou-a um bom bocado em silncio, mas o rosto ia-se-lhe anuviando cada vez mais.
- Faz tanta pena, a pobrezinha! No compreendes que a menor referncia  causa do seu desgosto a faz sofrer? Ah, como a gente se pode enganar com os outros! (Pela mudana do tom da voz, o prncipe e Dolly compreenderam que ela se referia a Vronski.) S no compreendo que no haja leis para castigar criaturas to vis!
- Farias melhor se te calasses! - exclamou o prncipe em tom sombrio, erguendo-se e fazendo meno de retirar-se. Mas ao chegar ao limiar da porta, deteve-se. - Essas leis existem, minha boa amiga, e j que me obrigas a isso, dir-te-ei que em tudo isto a verdadeira culpada
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s tu apenas. Sempre houve leis contra semelhantes indivduos, e ainda as h! E embora velho como sou, eu prprio lhe teria pedido contas, a este peralvilho, se... se no se tm passado certas coisas que no deviam ter-se passado. E agora trata-lhe da sade, manda vir essa cambada de charlates! Dir-se-ia que o prncipe estava disposto a dizer ainda muito mais coisas, mas, como sempre que se tratava de questes srias, a princesa, ao ouvi-lo, logo se arrependeu e se aquietou.
- Alexandre, Alexandre - murmurou ela, caminhando para ele, os olhos cheios de lgrimas.
O prncipe assim que a viu chorar acalmou-se e aproximou-se dela.
- Bom, bom, no chores mais! Bem sei que tambm sofres. Mas que havemos de fazer? Alis, o mal no  grave e a misericrdia de Deus  infinita... Demos-Lhe graas... -acrescentou, j sem saber bem o que dizia e respondendo ao beijo que a princesa lhe depunha na mo. Por fim, resolveu retirar-se.
Guiada pelo seu instinto maternal, Dolly adivinhara, ao ver Kitty afastar-se chorando, que s uma mulher poderia ter influncia sobre ela. Tirando o chapu, chamou a si todas as foras e preparou-se para intervir. Quando a me increpou o prncipe, Dolly procurara det-la, na medida que lhe permitia o respeito devido; mas  resposta do pai apenas ops o silncio, envergonhada pela me, embora no tardasse em comover-se ante a ternura que o prncipe logo manifestara pela princesa. Assim que o prncipe se retirou, logo ela se disps a cumprir a sua misso.
- Tenho-me esquecido de te perguntar, maman, se sabias que Levine estava disposto a pedir a mo de Kitty, quando aqui esteve pela ltima vez. Disse-o ao Stiva.
- Sim, e ento? No compreendo.
- Talvez a Kitty o tenha repelido. No lhe disse nada, me ?
- No, no me falou nem de um nem de outro:  demasiado orgulhosa. Mas sei que tudo isto  porque...
- Sim, mas suponha que ela repeliu o Levine! Nunca o teria feito se o outro no existisse, tenho a certeza. E esse outro enganou-a miseravelmente.
Custando-lhe reconhecer-se culpada perante a filha, a princesa zangou-se.
- Ai, j no compreendo nada! Hoje em dia cada um quer fazer o que lhe d na veneta, j as filhas no dizem nada s mes, e depois...
- Maman, vou falar com ela.
- Pois sim. Porventura to probo ?
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CAPTULO III
Ao entrar no minsculo quarto de Kitty, um gabinetezinho agradvel, forrado de seda cor-de-rosa e guarnecido de figurinhas de vieux Saxe, to juvenil, to rosado e to alegre como a prpria Kitty havia dois meses, Dolly lembrou-se do prazer que ambas experimentaram quando um ano antes se dedicaram a decor-lo. Oprimia-lhe o corao ver Kitty sentada numa cadeirinha baixa, junto a uma porta, com o olhar fixo num ponto qualquer do tapete. Havia no seu rosto uma expresso fria e severa, que no desapareceu com a entrada de Dolly. Contentou-se em lanar-
-Ihe um olhar vago.
- Tenho receio de no poder voltar a sair de casa to depressa, e de que no me possas vir visitar - disse Daria Alexandrovna, sentando-
-se ao lado da irm. - Por isso gostava de conversar um pouco contigo.
- De qu? - perguntou Kitty, alarmada, levantando a cabea.
- De que h-de ser seno do teu desgosto?
- No tenho desgostos.
- Basta, Kitty. Julgas que porventura no sei? Sei tudo. E podes crer que  uma coisa to insignificante...  Todas passamos por isso. Kitty permanecia calada, no rosto uma expresso severa.
- No merece que sofras por ele - prosseguiu Daria Alexandrovna, atacando o assunto de frente.
- Claro, porque me desprezou - disse Kitty em voz trmula. - No me fales disso! No me digas nada, peo-te!
- Mas quem te disse uma coisa dessas ? Ningum o acreditaria. Pelo contrrio, estou convencida de que ele gostava de ti e que ainda gosta, mas...
- Ah, no h nada que mais me exaspere do que essa compaixo! - exclamou Kitty, exaltando-se de repente.
Agitou-se na cadeira, corando e, movendo rapidamente os dedos, ps-se a retorcer, ora com uma mo ora com outra, a fivela do cinto. Dolly conhecia-lhe esse gesto, to seu habitual, quando se exaltava. Sabia-a capaz de proferir palavras inteis e desagradveis. Quis acalm-
-la, mas j era tarde.
- Que queres tu fazer-me compreender - prosseguiu Kitty, muito agitada-, que eu me apaixonei por um homem que no quer saber de mim e que morro de amor por ele? E  a minha prpria irm que me vem dizer isto, uma irm que julga testemunhar-me... testemunhar-me simpatia!... No preciso dessa piedade hipcrita!
- Kitty, ests sendo injusta!
- Para que me atormentas?
- Nunca pensei nisso... Pelo contrrio. Vejo que sofres... Kitty, no seu arrebatamento, nada ouvia.
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- No tenho que me afligir nem que me consolar. Sou demasiado orgulhosa para amar um homem que no gosta de mim.
- Mas eu no compreendo... Ouve, diz-me a verdade - replicou Daria Alexandrovna, pegando-lhe na mo. - Diz-me, Levine falou-te?
Ao ouvir pronunciar o nome de Levine, acabou por perder com-pletamente o domnio sobre si prpria: deu um pulo da cadeira, atirou ao cho a fivela do cinto e gesticulando bruscamente exclamou:
- Que tem o Levine a ver com isto? No compreendo por que me queres fazer sofrer. J o disse e reptio-o: sou orgulhosa e absolutamente incapaz de fazer,'nunca, nunca, o que tu fizeste: voltar para um homem que me enganou, que se apaixonou por outra mulher. No posso compreend-lo. Tu podes fazer uma coisa dessas, mas eu no!
Ao dizer isso, encaminhou-se para a porta, mas ao ver que Dolly baixava a cabea tristemente, sem dizer palavara, deixou-se cair numa cadeira e escondeu o rosto no leno.
O silncio prolongou-se por um ou dois iriinutos. Dolly pensava nas suas prprias aflies: a humilhao por que passara, que ela to bem sentia, parecia-lhe agora mais dolorosa lembrada pela irm. Kitty ferira-a; nunca a julgara capaz de tanta crueldade. Mas de sbito sentiu o ruge-ruge de um vestido, ao mesmo tempo que um soluo abafado, enquanto dois braos lhe envolviam o pescoo: Kitty estava de joelhos diante dela.
- Dolinka, sou to desgraada! - murmurou ela num tom contrito, escondendo na saia de Dolly o seu lindo rosto coberto de lgrimas.
Eram precisas talvez aquelas lgrimas para lubrificar as rodas da mquina das relaes das duas irms: depois de terem chorado, no voltaram a falar nas coisas que as preocupavam, mas, falando de outros assuntos, compreendiam-se uma  outra perfeitamente. Kitty sabia que as suas palavras de censura e de azedume tinham ferido profundamente a irm, mas sabia tambm que Dolly no lhe queria mal por isso. Por outro lado, Dolly sentia que adivinhara tudo: Kitty recusara a proposta de Levine para depois se ver enganada por Vronski. Aquele era o ponto doloroso, embora estivesse pronta a amar Levine e a esquecer Vronski. Claro que Kitty nada disse a este respeito, mas, assim que serenou, deixou entrever o seu estado de esprito.
- No tenho nenhum desgosto, mas no podes calcular como tudo se me tornou odioso e repugnante, a comear por mim prpria. No podes calcular os pensamentos maus que me vm  mente.
- Que maus pensamentos podes ter ? - perguntou Dolly, sorrindo.
- Os piores, os mais feios, no os posso descrever. No  nem tdio nem desepero,  coisa bem pior. Tudo que havia de bom em mim me parece, s vezes, ter cedido lugar ao mal... Como explicar-te? - prosseguiu ela, vendo uma certa perplexidade nos olhos da irm. - O pai disse-me h pouco... Parece-me que a nica coisa que ele desejava para mim era um marido. Se a me me leva a um baile, acho que o fazem
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apenas para me casarem e para se verem livres da filha. Bem sei que no  verdade, mas no posso deixar de pensar assim. No posso ver esses homens a quem do o nome de pretendentes. Tenho a sensao de que me esto a tomar as medidas. Antigamente era uma alegria para mirn ir a qualquer baile, gostava de me vestir bem, agora tenho vergonha, no me sinto  vontade. Que queres que eu faa? O mdico... Sim... Kitty calou-se, perturbada; queria dizer, alm disso, que depois daquela nefasta transformao, detestava Stepane Arkadievitch e no podia tornar a v-lo sem que as imagens mais baixas se lhe representassem no esprito.
- Sim,  verdade, tudo se me apresenta sob um aspecto infame, material...-prosseguiu Kitty.-Eis no que consiste a minha doena. Talvez isto venha a passar.
- Procura no pensar mais nisso...
- No posso. S me sinto bem em tua casa, no meio das crianas.
- Que pena no poderes ir agora para l.
- Pois irei. J tive a escarlatina e hei-de convencer a me.
Ktty cumpriu o que dissera: declarada a escarlatina, foi para a casa da irm e ajudou-a a, tratar das seis crinas, e todas melhoraram, felizmente. Mas nem por isso a sua prpria sade melhorou. Os Tcherbatski saram, portanto, de Moscovo pela Quaresma e dirigiram-se ao estrangeiro.
CAPTULO IV
A alta sociedade petersburguesa constitui, na realidade, um nico crculo, onde todos se conhecem e se visitam. Mas este grande crculo tem as suas subdivises. Ana Arkadievna tinha amizades ntimas e relaes em trs crculos diferentes. O primeiro, o crculo oficial, compreendia os colegas e os subordinados do marido, unidos ou divididos entre si pelas relaes sociais mais diversas e mais caprichosas. A princpio, Ana nutrira por estas personagens um respeito quase religioso de que no lhe restava mais que a recordao.  que as conhecia a todas agora, como as pessoas se conhecem numa cidade pequena, cada uma com as suas manias e as suas fraquezas, as suas simpatias e as suas antipatias. Sabia onde lhes apertava o sapato, a quem deviam a situao que ocupavam e por que razo, quais as relaes entre elas e relativamente ao centro comum a todas. Mas o certo  que, a despeito dos conselhos da condessa Ldia, este crculo de personalidades oficiais, a que estava ligada pelas funes do marido, no a interessava nada e evitava-o o mais possvel.
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O segundo crculo, ao qual Alexei Alevandrovitch devia o xito da sua carreira, tinha por centro a condessa Ldia. Compunha-se de damas idosas, feias, virtuosas e devotas e de homens inteligentes, instrudos e ambiciosos. Um deles cognominara este grupo "A conscincia da sociedade petersburguesa". Alexei Alexandrovitch apreciava-o muito e Ana, que sabia conviver com todas as pessoas, encontrou nele muitos amigos durante os primeiros tempos da sua vida em Sampetersburgo. Mas agora, de regresso de Moscovo, este crculo tornara-se-lhe insuportvel: afigurava-se-lhe que ali todos, a comear por ela prpria, passavam o tempo a fingir, e como se sentia mal e pouco -vontade em casa da condessa Ldia frequentava-a cada vez menos.
Finalmente, o terceiro crculo era a alta sociedade propriamente dita, a sociedade dos bailes, dos banquetes, dos vestidos elegantes, a sociedade que dava a mo  Corte para no cair nessa meia sociedade que julgava menosprezar, compartilhando dos seus gostos. O elo que prendia Ana Karenina a este meio era a princesa Betsy Tverskaia, mulher de um dos seus primos, que dispunha de um rendimento de vinte mil rublos. Desde que Ana chegara a Sampetersburgo a princesa Betsy sentira-se atrada por ela. Procurava introduzi-la no seu meio, troando muito do da condessa Ldia.
- Quando eu for velha e feia, farei como ela - dizia Betsy -, mas a Ana, nova e bonita como , que vai fazer nesse asilo?
Entretanto, Ana mantivera-se muito tempo afastada dessa sociedade, cujo meio de vida estava em relao com os seus meios de fortuna e que, alis, lhe agradava menos que a outra. No seu regresso de Moscovo, porm, tudo se modificara: trocara os amigos virtuosos plos amigos da alta sociedade. Ali encontrava Vronski, e sempre que o via sentia uma deliciosa emoo. A maior parte das vezes viam-se em casa de Betsy, Vronski de famlia e prima germana de Alexei. Este, porm, no perdia a mnima oportunidade de v-la e de lhe falar do seu amor. Ana no dava qualquer esperana, mas, assim que o via, sentia apoderar-se da sua alma aquela mesma alegria de que se sentira possuda quando do primeiro encontro na estao. Esta alegria denunciava-se no sorriso que lhe aparecia nos lbios e na luz do olhar, e o certo  que percebia isso, embora sem foras para o esconder.
De princpio, Ana acreditava sinceramente que a perseguio 'de Vronski a desgostava, mas certa noite em que ele no apareceu numa casa onde esperava encontr-lo, compreendeu claramente, frente  amargura que a trespassou, quanto eram vs as suas iluses e que, em vez de lhe desagradar, essa assiduidade constitua o interesse dominante da sua existncia.
Uma cantora clebre cantava pela segunda vez e toda a alta sociedade fora  pera, incluindo Vronski, que estava na primeira fila da plateia.
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Quando viu, porm, a prima num camarote, no esperou sequer pelo intervalo para ir ter com ela.
- Por que no veio jantar comigo ? - disse-lhe ela, e acrescentou a meia voz, de modo a no ser ouvida seno por ele: - Admiro essa segunda vista dos apaixonados: "ela" no est, mas vem depois do espectculo.
Vronski interrogou-a com os olhos: Betsy respondeu-lhe com um aceno de cabea; ele agradeceu-lhe com um sorriso e sentou-se junto dela.
- E os seus divertimentos de outrora, que  feito deles? - continuou a princesa, que seguia com uma prazer especial a marcha desta paixo. - Est apanhado, meu amigo.
- No peo outra coisa - respondeu Vronski, com o seu sorriso sereno e bondoso. - Para falar francamente, se de alguma coisa me posso queixar  de no estar suficientemente "apanhado". Principio a perder a esperana.
- Que esperanas pode ter? - perguntou Betsy, defendendo a virtude da sua amiga. - Entendons-nous...'
Mas nos seus olhos excitados qualquer coisa dizia que ela compreendia to bem como ele em que consistia essa esperana.
- Nenhuma - respondeu Vronski, mostrando, num sorriso, os seus dentes brancos e muito certos. - Perdo - acrescentou, pegando no binculo, que retirou das mos de Betsy, para observar, por cima dos ombros nus da prima, a fila dos camarotes do lado oposto. - Tenho receio de comear a ficar ridculo.
Vronski sabia perfeitamente que aos olhos de Betsy, bem como aos das pessoas do seu meio, no corria o mnimo risco de se tornar ridculo. Sabia muito bem que para essa gente o papel de namorado infeliz de uma donzela ou de uma mulher livre pode parecer ridculo, mas o do homem que persegue uma mulher casada e que tudo arrisca para a seduzir tem algo de belo e de grandioso e nunca pode parecer ridculo. Eis por que, pondo de lado o binculo, olhou para Betsy com um sorriso de orgulho, que lhe brincava por debaixo do bigode.
- Mas porque no veio jantar ?-insistiu ela, sem resistir a admir-lo.
-  toda uma histria. Estive ocupado. Em qu? Aposto um centra cem, ou contra mil, em como no adivinha... A reconciliar um marido com o homem que lhe ofendeu a mulher.
- E conseguiu?
- Quase.
- Tem de me contar isso no prximo intervalo - disse ela, levantando-se.
- Impossvel. Vou ao Teatro Francs.
Entendamo-nov
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- Deixa de ouvir a Nilson por causa disso ? -exclamou Betsy, horrorizada, embora no fosse capaz de distinguir a Nilson da pior das coristas.
- No me  possvel. Tenho ali um encontro por causa da tal reconciliao.
- Bem-aventurados os pacificadores, que sero salvos - exclamou Betsy, que se lembrava de ter j ouvido qualquer coisa no gnero. -Bom, ento diga-me depressa do que se trata.
E voltou a sentar-se.
CAPTULO V
-  um pouco indiscreto, mas como se trata de uma coisa muito simptica, estou ansioso por lha contar - disse Vronski, olhando-a com olhos risonhos. - No direi nomes.
- Est bem, eu encarrego-me de os adivinhar. Tanto melhor.
- Ento, oua: dois rapazes bastante alegres...
- Seus camaradas de regimento,  claro!
- No disse dois oficiais, mas dois rapazes que tinham almoado bem...
- Traduza-se: fartos de beber.
- Talvez. Com ptima disposio, vo jantar a casa de um camarada. Passa por eles um carro; a linda mulher que o ocupa volta-se para trs, e, assim se lhes afigura, faz-lhes um aceno de cabea. Est claro que lhe vo no encalo a todo o galope. Com grande surpresa deles, porm, a bela desconhecida pra exactamente diante da porta da casa para onde eles prprios se dirigiam. Sobe at ao andar superior. Apenas tiveram tempo de lobriga.- dois lindos pzinhos e por debaixo do vu o fulgor de uns lbios vermelhos.
- A avaliar pela maneira como se exprime, tambm devia fazer parte do grupo.
- Esquece-se do que disse h pouco... Os meus dois amigos entraram em casa do camarada, que nesse dia dava um jantar de despedida. Foi a talvez que eles beberam um pouco mais do que deviam, como sempre acontece em jantares dessa ordem.  mesa tratam de investigar quem mora no andar de cima: ningum lhes sabe prestar esse esclarecimento. "H mamzellas na casa?", perguntam ao criado do amigo. "Oh, h muitas", responde este. Findo o jantar, entram no escritrio do amigo para escreverem uma carta  desconhecida. Redigem-na em tom incendiado e resolvem entreg-la em mo, para assim poderem explicar o que porventura ficasse obscuro.
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- Para que me conta uma patifaria dessas? E depois?
- Tocam a campainha. Vem abrir uma jovem. Entregam-lhe a carta, declaram-lhe que esto loucos de amor e prontos a morrer diante daquela porta. A criada, estupefacta, parlamenta com eles. De sbito, aparece um sujeito vermelho como um pimento, com suas em forma de pata de coelho, que os pe na rua, no sem lhes dizer previamente que naquela casa s h uma mulher e que essa mulher  a sua.
- Como sabe que tinha suas em forma de pata de coelho?
- Porque tentei hoje uma reconciliao.
- E depois?
-  o mais interessante da histria. Acontece que aquele casal feliz  um conselheiro titular e esposa. O Senhor Conselheiro apresentou queixa e a apareo eu como medianeiro. E que medianeiro! Junto de mim, Talleyrand fica a perder de vista.
- Onde estava a dificuldade?
- J vai ver... Comemos por nos desculpar o melhor que pudemos. "Deplorvel mal-entendido... Estamos desesperados... Queira desculpar-nos..." O conselheiro titular, com as suas suas em forma de pata de coelho, principia a humanizar-se, mas tambm deseja exprimir os seus sentimentos e quando vai faz-lo, exalta-se, diz grosserias e l tenho de pr novamente  prova as minhas habilidades diplomticas. "Reconheo que o comportamento desses rapazes no foi correcto, mas peco-lhe que tenha em considerao o equvoco: so rapazes e acabavam de jantar bem. Esto arrependidos e pedem-lhe que os desculpe." O Senhor Conselheiro volta a humanizar-se. "Estou de acordo, conde, e estou mesmo disposto a perdoar-lhes, mas  preciso que compreenda: a minha mulher, uma senhora honesta, ver-se sujeita s perseguies, s grosserias, s impertinncias de dois velhacos, de dois mise..." Isto nas bochechas dos ditos velhacos com quem estou encarregado de o reconciliar! Ponho novamente em jogo toda a minha diplomacia e de novo, quando o assunto parece resolvido, o conselheiro titular irrita-se, fica vermelho, eriam-se-lhe as suas e vejo-me obrigado a recorrer a novas subtilezas diplomticas.
- Oh! Tenho de contar-lhe esta histria - exclamou Betsy, numa gargalhada, dirigindo-se a uma senhora que acabava de entrar no camarote.- Ri-me tanto!... Pois bem, bonne chance - acrescentou estendendo a Vronski o nico dedo que o leque lhe deixava livre.
Antes de voltar para a primeira fila do camarote e de se exibir  luz crua do gs, com um rpido movimento de ombros alargou o decote do vestido para que a sala tivesse a completa revelao da sua esplndida nudez.
Entretanto Vronski dirigia-se ao Teatro Francs, onde o seu comandante, que no falhava a uma nica representao, lhe marcara, de facto, um encontro. Tinha de lhe fazer um relatrio sobre a marcha das
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negociaes que h trs dias o ocupavam e divertiam. Os heris da aventura eram dois oficiais do seu esquadro: Petritski, de quem era grande amigo, e outro jovem, o prncipe Kedrov, que acabava de ingressar no regimento, belo rapaz e excelente camarada. E o mais importante  que a reputao do regimento estava em jogo.
Efectivamente, Wenden, o conselheiro titular, apresentara uma queixa ao coronel contra os ofensores da mulher. Segundo ele, esta, casada h seis meses, e em estado interessante, fora  igreja na companhia da me: uma sbita indisposio obrigara-a a tomar a primeira carruagem que lhe aparecera para voltar rapidamente a casa. Perseguida plos oficiais, cheia de medo, subira as escadas a correr, o que lhe agravara o mal-estar fsico. Ele, que j regressara da repartio, ouviu uma campainha e vozes desconhecidas. Foi ver quem era e ao defrontar os dois oficiais embriagados, com uma carta, pusera-os na rua, pedindo, agora, que eles fossem severamente castigados. O coronel enviara-lhe imediatamente Vronski.
- Diga o que quiser, Petritski est impossvel - disse a Vronski o comandante do regimento. - Todas as semanas arma um escndalo. Esse funcionrio no vai ficar por a.
Efectivamente o caso era complicado. No se podia pensar em duelo. Era indispensvel, custasse o que custasse, acalmar o queixoso. Vronski compreendera-o imediatamente e o coronel confiava na sua habilidade, na sua inteligncia e sabia quanto ele tinha em conta o bom nome do regimento. Os dois resolveram que Petritski e Kedrov apresentariam desculpas e que Vronski os acompanharia: o seu ttulo e as suas insgnias de ajudante de campo deveriam impor-se ao ofendido. Assim a reconciliao estava ainda indecisa.
Vronski, ao chegar ao Teatro Francs, chamou o coronel ao foyer e contou-lhe o que se passava: o xito, ou antes, o malogro da misso. Depois de muito pensar, o coronel decidiu no mexer mais no caso, o que no o impediu de fazer mais perguntas a Vronski e de rir a bom rir ao tomar conhecimento das oscilaes de humor do Senhor Conselheiro e da maneira hbil como Vronski, aproveitando um minuto de calma, tratara de se retirar trazendo consigo Petritski.
- Histria estpida - concluiu ele -, mas engraada. Seja como for, Kedrov no pode bater-se em duelo com esse sujeito! Quer dizer que estava furioso ? - perguntou o coronel, rindo de novo a bom rir. - E que tal lhe parece a Claire esta noite? Maravilhosa, no  verdade? (Tratava--se de uma nova actriz francesa.) Por mais que a gente a veja representar,  sempre diferente. S os Franceses so capazes de uma coisa destas, meu caro.
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CAPTULO VI
A princesa Betsy saiu do teatro antes de terminado o ltimo acto Mal tivera tempo de entrar no toucador para passar a esponja de p de arroz pelo longo rosto plido e de arranjar se um pouco, mandando servir o ch no salo, logo principiaram a chegar as primeiras carruagens  sua vasta residncia da Rua Bolchaia Morskaia Os convidados desciam diante do grande alpendre, um porteiro monumental abria-lhes, sem rudo, a imensa porta envidraada, atras da qual costumava ler os jornais, todas as manhs, para edificao dos transeuntes
Quase ao mesmo tempo, entravam no salo, por uma porta, a dona da casa, j recomposta e o rosto refrescado, e, pela outra, os convidados As paredes eram forradas de tecidos escuros, o cho coberto de tapetes espessos Sobre uma mesa grande a luz das velas fazia cintilar a brancura da toalha em que estava o samovar de prata e um servio de ch de porcelana transparente
A princesa sentou se diante do samovar e tirou as luvas Lacaios prticos em deslocar cadeiras sem ningum o notar ajudaram os convi dados a sentar se Logo se formaram dois grupos um em torno da dona da casa, o outro, no canto oposto do salo, em volta de uma formosa embaixatriz de bem desenhadas sobrancelhas pretas, toda de veludo negro Nos primeiros momentos, como sempre acontece ao iniciar se uma reunio, a conversa, interrompida plos que iam chegando, pelas chvenas de ch que se ofereciam e pela troca de cumprimentos permaneceu hesitante
-  uma actriz extraordinria V se logo que estudou Kaulbach - afirmou um diplomata no grupo da embaixatriz -Notaram como ela caiu'
- Por amor de Deus, no falemos da Nilson, j est tudo dito a seu respeito - exclamou uma gorda dama loura, muito corada, sem sobrancelhas nem postios, que envergava um vestido de seda velho Era a princesa Miagkaia, a quem chamavam l'enfant ternble' por causa da sua irreverncia Assentada entre os dois grupos, apurava o ouvido e tomava parte na conversa dos dois - J ouvi hoje trs pessoas dizerem me a mesma coisa sobre Kaulbach Parece que se tinham combi nado No sei por que lhes caiu no goto essa frase
A conversa foi interrompida com este comentrio Houve que arranjar novo tema
- Conte nos qualquer coisa divertida, mas que no seja maliciosa - pediu ao diplomata, que ficara sem saber o que dizer, a embaixatriz,
Criana endiabrada
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muito hbil em artifcios de conversas elegantes, de smalltalk', como dizem os Ingleses
- Dizem que isso  muito difcil e que a nica coisa engraada  a malcia - replicou o diplomata sorrindo -No entanto vou tentar Desde que me dem um tema  o mais importante Quando h um tema nada mais fcil que borboletear sobre ele s vezes penso que os grandes conversadores do sculo passado, se viessem hoje, tenani as suas dificuldades em manter uma conversa interessante Fazer esprito tornou-se uma maada
- Isso j foi dito h muito - interrompeu, rindo, a embaixatriz A  comersa  ia  assumindo  um  tom  agradvel,  mas   demasiado
andino para durar muito S havia um meio infalvel de salvar a situao
a maledicncia  Era preciso recorrer a ela
- No acham que Tuchkevitch tem qualquer coisa de Lus XV' - voltou o diplomata, apontando, com um movimento de olhos, um belo rapaz louro junto  mesa
- Oh' Sim'  no mesmo estilo do salo Por isso vem ca tantas vezes Desta vez a conversa manteve-se  era divertido versar, por meio de
aluses, um assunto interdito no local, a saber, a ligao de Tuchkevitch
com a dona da casa
Entretanto a conversa do grupo que se encontrava em volta desta
flutuara um certo tempo sobre temas inevitveis  a notcia da ltima hora,
o teatro e a censura ao prximo E tambm ali prevaleceu a maledicncia
- No ouviram dizer que a Maltischeva, a me, no a filha, est a fazer um trajo de diable rose?
- No  possvel1 Mas isso  delicioso1
- Admira me que com a inteligncia dela, porque no  tola, no sinta o ridculo disso
Todos tiveram qualquer coisa a dizer para criticar e ridicularizar a infeliz Maltistcheva, e as frases crepitaram, alegremente, como uma fogueira que arde
O marido da princesa Betsy, um homem gordo e bom, coleccionador apaixonado de gravuras, ao saber que a mulher tinha convidados entrou no salo antes de sair para o clube Em passos melfluos, que os grandes tapetes abafavam mais ainda, dirigiu se logo  princesa Miagkaia
- Gostou da Nilson' - perguntou ele
- No tem o direito de assustar assim uma pessoa1 - exclamou ela - Assustou me' No me fale da opera, voc no entende nada de musica Prefiro descer at ao seu nvel e falar de gravuras e de majolicas Ento, que descobriu mais no antiqurio'
- Quer ver a minha ltima descoberta' Mas a senhora no percebe nada dessas coisas
Com<.rsa de ninharias
IB>0_>-9
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- Mesmo assim, mostre l Aprendi muito em casa desses esqueci-me do nome Voc sabe, dos banqueiros Palavra, tm gravuras, magnficas Mostraram-mas
- O qu' Voc foi a casa dos Schutzburg'- perguntou de onde estava a dona da casa
-  verdade, ma chre - respondeu a princesa Miagkaia, elevando a voz, pois percebia que todos a ouviam - Convidaram nos para jantar, a meu marido e a mim, e serviram nos um molho que, ao que parece, lhes ficou em mil rublos Pssimo molho, alias, uma coisa assim esverdeada Como tive de convida los, pela minha vez, ofereci-lhes um molho de oitenta e cinco copeques, que todos apreciaram muito Eu no tenho-meios para oferecer molhos de mil rublos1
- Esta mulher  nica1 - comentou a dona da casa
- Extraordinria' - aprovou algum
Se a princesa Miagkaia nunca perdia o efeito das suas palavras, era apenas porque costumava dizer com bom senso, mas sempre a propsito, coisas absolutamente vulgares Na sociedade em que vivia, aquele espesso bom senso passava por finura de esprito O xito que obtinha surpreen dia a, o que, no entanto, no a impedia de tirar partido dele
No silncio que se seguiu, a dona da casa tentou uma fuso entre os dois grupos, dirigindo se  embaixatriz
- Decididamente - disse-lhe ela - no querem tomar ch' Deviam sentar se aqui connosco
- No, muito obrigada, estamos muito bem aqui - respondeu a outra, sorrindo E retomou a conversa interrompida O assunto valia a pena estavam na berlinda os Karemnes - mando e mulher
- A Ana mudou muito desde a viagem a Moscovo - dizia uma das suas amigas -H nela qualquer coisa de estranho
- A mudana que se operou foi a sombra de Alexei Vronski que ela trouxe atras de si - comentou a embaixatriz
- E que tem isso de especial' Ha um fabula de Grimm em que um homem, para castigo de no sei que maldade,  privado da sua prpria sombra No consigo perceber tal gnero de castigos Estou certa de que deve ser muito penoso para uma mulher ver se privada da sua prpria sombra
- Sim - interveio a amiga de Ana-, mas as mulheres que tm sombra geralmente acabam mal
Ao ouvir estas palavras, a princesa Miagkaia observou
- Devia levar pimenta na lngua1 Ana Karemna  uma mulher encantadora Do mando, sim, no gosto mas dela gosto muitssimo
- E por que no gosta dele' - inquiriu a embaixatriz - um homem notvel Meu marido diz que no h hoje na Europa outro estadista da sua envergadura
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- O meu  da mesma opinio, mas eu no concordo com ele Se os nossos mandos nada tivessem dito a respeito dele, todas ns veramos Alexei Alexandrovitch tal como  E na minha opinio  um asno Isto aqui entre ns,  claro Ao menos assim tudo fica dito de uma vez Antigamente, quando me mandavam considera Io uma pessoa inteligente, cheguei a concluso de que a asna era eu, porque no havia maneira de descobrir onde estava a inteligncia dele Mas desde que disse, uma vez, em surdina, claro " um asno", tudo se explicou
- Que maldosa est hoje'
- Absolutamente Mas no h outra alternativa Um de ns dois  asno E, como todos sabem, ningum vai considerar se asno a si prprio
- Ningum est contente com a sua posio, mas todos esto contentes com a sua inteligncia - insinuou o diplomata, citando um aforismo francs
- Precisamente - tratou de confirmar a princesa Miagkaia Quanto  Ana, a essa no lhes deixo eu nas mos  encantadora, garanto lhes Que culpa tem de que todos os homens se apaixonem por ela e a sigam como uma sombra'
- Mas eu no estou a censura Ia - disse a amiga de Ana, ds culpando se
- L porque ningum nos segue como uma sombra, nem por isso nos assiste o direito de criticar os outros
E aps esta boa lio  amiga de Ana, a princesa levantou se e, seguida da embaixatriz, aproximou se da mesa grande, onde o assunto da conversa era o rei da Prssia
- De quem estavam a falar mal' - perguntou Betsy
- Dos Karenmes a princesa fez nos o retrato de Alexei Alexan drovitch - respondeu rindo a embaixatriz E sentou se a mesa
- Que pena no a termos podido ouvir' - exclamou Betsy com os olhos voltados para a porta - Ah' Finalmente - acrescentou, sorrindo para Vronski, que acabava de entrar
Vronski no s conhecia todos os presentes como estava mesmo com eles todos os dias Entrou, pois, com o  vontade de um homem que se encontra diante de pessoas que deixara h pouco tempo
- De onde venho' - replicou  pergunta da embaixatriz - Que hei de eu dizer' Vejo-me obrigado a confessar venho da pera cmica Deve ser a centsima vez que vou l, mas nem por isso me diverti menos  uma vergonha diz Io, mas e a verdade na opera lrica adormeo, en quanto na opera cmica me sinto s mil maravilhas at ao fim Esta noite
Vronski citou o nome de uma actriz francesa e dispunha se a contar qualquer coisa a seu respeito quando a embaixatriz o interrompeu com uma expresso de cmico espanto
- Peco-lhe que no me fale desse horror'
- Esta bem, calar me ei, tanto mais que todos conhecem esse horror
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- E todos o iriam ver se fosse de bom-tom, como ir  pera lrica - acrescentou a princesa Miagkaia.	/
CAPTULO VII
Ouviram-se passos junto  porta de entrada e a princesa Betsy, convencida de que era Ana Karemna, relanceou um olhar a Vronski Este mudara de expresso com os olhos fitos na porta, levantou se lentamente da cadeira e pareceu ficar flutuando entre o receio e a alegria Era Ana Muito direita, como sempre, e olhando em frente, num passo rpido e decidido, que a distinguia das outras senhoras da alta sociedade, venceu o curto espao que a separava de Betsy e apertou lhe a mo, sorrindo Depois, com o mesmo sorriso, voltou se para Vronski Este, numa profunda vnia, ofereceu lhe uma cadeira Ana pareceu contrariada, corou e quase no correspondeu  gentileza Imediatamente, porm, refreou se, saudou com inclinaes de cabea alguns dos presentes, apertou a mo a outros e disse a Betsy
- Gostaria de ter chegado mais cedo, mas estive em casa da con dessa Ldia e demorei me Estava l Sir Jonh  um homem muito interessante
- O missionrio'
- Sim, contou nos coisas muito curiosas sobre a ndia A conversa,  interrompida com a chegada  de Ana,  de novo se reavivou, como a chama quando  soprada
- Sir John'Sim, Sir John Conheo o Fala muito bem A Vlacievna est encanta ,a com ele
- fi verdade que a Vlacievna mais nova vai casar com Topov'
- Sim, dizem que sim
- Surpreende me que os pais consintam  um casamento de amor, segundo ouo dizer
- De amor' - exclamou a embaixatriz - Onde foi colher esras ideias antediluvianas' Quem fala em amor nos nossos dias'
- Que quer, minha senhora' - disse Vronski - Essa velha moda ridcula ainda no acabou de todo
- Tanto pior para os que ainda a usam1 Em matria de casamentos, s conheo uma espcie feliz o casamento de convenincia
- Pode ser, mas, em troca, a felicidade desses casamentos muitas vezes desfaz se em p justamente porque surge o amor, no qual no acreditavam - replicou Vronski
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- Perdo, chamo casamento de convenincia a esse em que ambas as partes j pagaram o seu tributo  mocidade O amor  como a escarlatina, todos tm de passar por ela
- Ento, seria bem melhor que se arranjasse maneira de inocula-lo artificialmente, como se faz com a varola
- Quando rapariga, apaixonei me por um sacristo - declarou a princesa Miagkaia - Mas no sei se isto me serviu de alguma utilidade
- Fora de brincadeira - interrompeu Betsy -, sou de opmo que, para conhecermos o amor, temos primeiro que nos enganarmos para depois ento corrigirmos o erro
- Mesmo depois de casadas' - perguntou, rindo, a embaixatriz
- Nunca  tarde para nos arrependermos - observou o diplomata, citando um provrbio ingls
- Exactamente - aprovou Betsy -Cometer um erro e, depois, repar-lo, eis o verdadeiro caminho Qual a sua opinio, minha querida'- perguntou ela a Ana, que ouvia a conversa, calada, um meio sorriso nos lbios
- Eu acho - disse Ana, brincando com uma das luvas - que se  verdade que cada cabea cada sentena, h de haver tantas maneiras de amar quantos os coraes
Vronski, que de olhos fitos em Ana ouvira a resposta dela com c corao fremente, respirou, como quem acaba de sah ar se de um grande perigo Ana voltou se bruscamente para ele
- Recebi notcias de Moscovo Kitty Tcherbatski est mu *o doente
- Sim' - disse ele, franzindo as sobrancelhas Ana relanceou lhe um olhar severo
- Pelo que vejo, isso no lhe interessa
- Pelo contrrio, interessa me muito Podia resumir me o que lhe dizem de Moscovo a esse respeito'
Ana levantou se e aproximou se de Betsy
- Quer dar me uma xcara de ch' - disse lhe ela, detendo-se atrs da cadeira da princesa
Enquanto Betsy lhe enchia a xcara aproximou se de Ana
- Que lhe mandaram dizer'
- Penso muitas vezes que os homens no compreendem o que  nobre, embora passem a vida a falar de nobreza - replicou Ana, sem responder  pergunta que ele lhe fizera - H muito que lhe queria dizer isto - acrescentou E, dando alguns passos, sentou se num canto diante de uma mesa onde estavam uns lbuns
- No compreendo muito bem o que quer dizer - observou ele, oferecendo-lhe uma chvena de ch
E como ela lhe apontava com os olhos o canap, ele sentou-se junto dela
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- Sim, queria dizer-lhe - prosseguiu ela, sem levantar os olhos para ele - que procedeu mal, muito mal
- No o sei por acaso' Mas de quem  a culpa'
- Por que me diz uma coisa dessas' - inquiriu ela, fitando o com severidade
- Sabe-o to bem como eu - replicou ele, exaltado Deteve ousadamente o olhar de Ana e foi ela quem se perturbou
- Isso prova apenas que no tem corao - voltou ela Mas os olhos com que o olhava diziam lhe saber muitssimo bem que isso no era verdade
- Isso a que se refere era uma iluso, no era amor
- Lembre se de que o proibi de pronunciar essa palavra - disse ela, estremecendo Mas imediatamente compreendeu que, ao empregar a palavra "proibi", reconhecia certos direitos sobre ele e parecia encoraj-lo a que falasse de amor - H muito desejava ter consigo uma conversa sria - prosseguiu ela, olhando o bem nos olhos, as faces incendiadas de rubor - e vim hoje de propsito aqui, sabendo que o encontraria  preciso que tudo isto acabe Nunca tive de corar de quem quer que fosse, mas por sua causa sinto-me culpada
Enquanto falava, a beleza de Ana ganhava uma expresso nova, toda espiritual, que impressionou Vronski
- Que posso eu fazer' - perguntou ele, em tom simples e grave
- Que v a Moscovo pedir perdo a Kitty
- No  esse o seu desejo	^ Sentia que ela se empenhava em dizer uma coisa, mas desejando outra bem diferente
- Se me ama, como diz, peco-lhe que me restitua a minha tranquilidade
O rosto de Vronski resplandeceu.
- No sabe que  toda a minha vida' Mas no tenho tranquilidade nem lha posso dar Dar-me todo inteiro, dar-lhe o meu amor isto sim posso Mas pensar em ns separadamente, no Para mim, voc e eu somos um s E no vejo que o futuro nos reserve tranquilidade, nem para si nem para mim Diante de ns s vejo infelicidade e desespero ou felicidade, e que felicidade1  realmente impossvel' - acrescentou, com um simples movimento de lbios, que ela ouviu
Ana reuniu todas as foras da sua alma para dar a Vronski a resposta que o dever lhe impunha, mas no conseguiu seno pousar nele um olhar cheio de amor, sem pronunciar palavra.
"Meus Deus'", pensou ele num transporte, "no momento em que eu perdia toda a esperana, eis que o amor chega1 Ama-me, confessou-o"
- Faa-o por minr nunca me fale assim e fiquemos bons amigos - conseguiu Ana articular, mas nos seus olhos lia-se coisa bem diferente
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- Ns nunca seremos amigos, bem o sabe Nas suas mos est decidir se viremos a ser ou os mais felizes ou os mais infelizes dos seres humanos Ana quis falar, mas ele tomou lhe a palavra
- Pense bem nisso, s lhe peo uma coisa que me d o direito de esperar e de sofrer como neste momento Mas se nem sequer isso  possvel, mande que eu desaparea e desaparecerei No mais me tornar a ver, se porventura lhe  penosa a minha presena
- No quero expuls-lo
- Ento no mude nada, deixe as coisas como esto - murmurou ele, em voz trmula -Mas a tem o seu marido
Efectivamente, Alexei Alexandrovitch entra' i no salo naquele instante, no seu andar imponente e arrastado Ao passar, lanou um olhar  mulher e a Vronski, apresentou os seus respeitos  dona da casa, sentou se junto  mesa do ch e declarou, na sua voz lenta e bem timbrada, nesse tom irnico que tanto estimava
- O vosso Ramboudlet', pelo que vejo, est completo as Graas e as Musas
Mas a princesa Betsy no podia com aquele tom escarninho, sneermg2, como ela dizia Como mulher inteligente que era, porm, conduziu a conversa para um assunto srio, o servio militar obrigatrio Alexei Alexandrovitch imediatamente se exaltou e ps-se a defender a nova lei contra os ataques de Betsy
Ana e Vronski permaneceram junto  mesinha
- Isto est a ficar indecoroso - sussurrou uma senhora, com um movimento de olhos que abrangia Ana Karenina, o mando e Vronski
- Que lhe dizia eu' - frisou a amiga de Ana
No foram s aquelas senhoras que comentaram o caso Quase todas as outras, inclusive a princesa Miagkaia e a prpria Betsy, lanaram ao par isolado olhares reprovadores S Alexei Alexandrovitch, entusias mado com as prprias afirmaes, parecia nada ver
A princesa Betsy, entretanto, ao dar-se conta da m impresso que aquilo produzia em todos, deixou no seu lugar outra pessoa a ouvir Alexei Alexandrovitch e aproximou-se de Ana
- Admiro sempre muito a clareza de expresso de seu mando - disse ela -, quando ele fala, compreendo as questes mais trans cendentes
- Oh, sim' - replicou Ana, resplandecente de felicidade e sem entender uma s palavra do que Betsy dizia Levantando-se, aproximou se da mesa grande e ps-se a discutir o assunto que a todos interessava Meia
1 Residncia da marquesa do mesmo nome (1588 1665) onde se reuniam as figuras mais representativas da poltica das artes e das letras dt Frana no sculo XVII
2 Trocista
J 35
hora depois, Alexei Alexandrovitch propunha  mulher que se retirassem, mas ela respondeu-lhe, sem o olhar sequer, que ficava para a ceia Alexei Alexandrovitch despediu-se e saiu
A carruagem da senhora Karemna aproximou se, o velho e corpulento cocheiro trtaro, de capote de oleado, segurava a custo o cavalo cinzento da esquerda, que se encabntava, transido de frio Um lacaio acabava de abrir a portinhola do coitp, enquanto o porteiro vigiava a porta de entrada Vronski acompanhava Ana Arkadievna De cabea inclinada, ela ouvia-o deliciada, enquanto puxava com a mo nervosa a renda da manga que se prendera no colchete da capa de peles
- Nada me prometeu - dizia ele-, eu nada lhe peo, mas j sabe que no  de amizade que necessito a felicidade da minha vida depende dessa nica palavra que tanto lhe- desagrada amor
- Amor - repetiu ela, lentamente, como se falasse consigo mesma E tendo finalmente desprendido a renda, disse, de sbito, olhando o bem de frente - Se essa palavra me desagrada  porque tem para mim um sentido muito mais profundo do que o que pode imaginar At  vista
Ana estendeu-lhe a me e no seu passo elstico e rpido pass^a por diante do porteiro e desapareceu na portinhola da carruagem
Aquele olhar, aquele aperto de mo inflamaram Vronski Levou aos lbios a mo que tocara nos dedos de Ana e voltou para casa convencido de que aquela curta noite fizera mais pelo objectivo que perseguia do que os dois ltimos meses
CAPTULO VIII
Alexei Alexandrovitch nada vira de anormal na animada conversa a ss entre a mulher e Vronski, mas, ao dar-se conta de que as outras pessoas se mostravam formalizadas com aquele afastamento, achou o, por sua vez, inconveniente e decidiu chamar a ateno de Ana para o facto
Como de costume, ao regressar a casa, Alexei Alexandrovitch din-gm-se ao escritrio, instalou se numa poltrona, abriu um livro sobre os papas na pgina marcada pela esptula, e mergulhou na leitura at  uma hora da manh. Acontecia-lhe, porm, de vez em quando, passar a mo pela testa e abanar a cabea, como se afastasse um pensamento importuno  hora habitual, levantou se e despiu-se Ana ainda no chegara Com o livro debaixo do brao, subiu para o seu quarto, mas o seu esprito, sempre preocupado com questes relativas  sua carreira, repisava de vez em quando o incidente da noite. Contra o costume, no se deitou
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logo, ps-se a passear de um lado para o outro, com as mos atrs das costas   parecia-lhe necessrio pensar maduramente no assunto
<Quando decidira ter uma conversa com a mulher, achara o caso muito simples e fcil, mas, depois de muito pensar nele, afigurava-se-lhe complicado e difcil Fora sempre de opinio que um mando deve ter plena confiana na mulher e no ofend-la com cenas de cime Quais as razes que justificavam essa confiana' Pouco lhe importava" mostrava-se confiante, porque considerava esse o seu dever E eis que, de sbito, sem em nada renegar as suas convices, se encontrava diante de uma situao ilgica, absurda, no sabendo como proceder Essa situao era nada mais nada menos do que a vida real, e, se a achava ilgica e estpida, era apenas porque nunca a conhecera seno atravs do anteparo deformador das suas obrigaes profissionais A impresso que experimentava naquele momento era a de um homem que passa tranquilamente por uma ponte suspensa sobre um precipcio e se apercebe, de sbito, que a ponte est desmantelada e o abismo a seus ps Esse abismo era para ele a vida real, a ponte, a existncia artificial, a nica coisa que at ento conhecera do mundo Pela primeira vez lhe vinha  mente a ideia de que sua prpria mulher pudesse gostar de outro homem, e essa ideia aterrava-o
Sem pensar em deitar se, passeava, no seu passo rtmico, pelo patquet rangente da sala de jantar, que um nico candeeiro iluminava, pelo tapete espesso do salo s escuras, em que o seu prprio retraio, recentemente pintado, suspenso por cima do div, reflectia uma dbil rstia de luz, atravessando depois o gabinete de Ana, onde duas velas, na secret-nazinha, lhe entremostravam, entre retratos de parentes e amigas, alguns delicados bbelots muito seus conhecidos Quando chegava  porta do quarto, retrocedia, pelo mesmo caminho Assim andou por muito tempo, parando no fim de cada percurso, quase sempre  porta da sala de jantar para dizer de si para consigo "Sim, temos de acabar de vez com isto, tomar partido, manifestar lhe a minha resoluo " E continuava o seu passeio "Sim, mas que resoluo'", perguntava a si mesmo, no salo, sem achar resposta "E no fim de contas, que se passou7 Nada Esteve muito tempo a falar com ele, mas com quantos homens no tem uma mulher de falar na sociedade'", pensava, ao chegar ao gabinete da mulher E assim que atravessa\ a a porta, conclua "Alis, mostrar me ciumento seria humilhante para os dois " Este argumento, outrora to decisivo, agora, porm, no prova\a nada E retomava, no quarto de dormir, o passeio em sentido imerso Assim que punha o p no salo s escuras, uma voz interior murmura\a-lhe ao ouvido "No se as demais pessoas se mostram surpreendidas,  porque h aqui qualquer coisa " E quando chegava  sala de jantar proclamava de novo ser preciso acabar de vez com tudo aquilo, tomar uma resoluo "Mas que resoluo '/>, interrogava se a si prprio, j no salo E assim por diante Tal como o corpo, o pensamento dcs-
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crevia lhe um crculo perfeito, sem ver maneira de sair dele   Dando por isso, passou a mio pela testa e sentou se no gabinete de Ana
Uma vez ali, enquanto olhava para a secretria da mulher, com o seu mata borro de malaquite e um bilhete meio escrito, as ideias tomaram--Ihe outro caminho pensou nela, perguntou a si mesmo que pensamentos seriam os seus, que sentimentos experimentaria Pela primeira vez a imaginao lhe apresentou a vida da mulher, as necessidades do seu esprito e do seu corao e a ideia de que ela teria uma vida pessoal impressionou o to vivamente que tratou logo de a sacudir do esprito Eis o abismo que ele no ousava medir com o olhar Penetrar pelo pensamento e o sentimento na alma de outrem, parecia-lhe uma fantasia perigosa
"E o mais terrvel", pensava, " que esta inquietao insensata me aparece no momento preciso em que ia dar a ltima' demo na minha obra (certo projecto que pretendia fazer aprovar), quando o sossego me era mais preciso, quando necessito de todas as energias do meu esprito Ento, que hei de eu fazer' No perteno ao nmero dos que sofrem de inquietao e angstia, sem coragem de olhar de frente para o prprio mal"
- Preciso de reflectir, tomar uma resoluo e acabar com esta preocupao - proferiu em voz alta	"
< No me sinto no direito de lhe perscrutar os sentimentos, de sondar o que se passou ou poder passar na sua alma Isso  com a conscincia dela e do domnio da religio", resolveu, no seu ntimo, aliviado por ter encontrado, finalmente, uma norma capaz de se aplicar s circunstncias presentes "Assim, portanto", repetia consigo mesmo, "as questes rela tivas aos sentimentos dela, etc, so questes de conscincia em que eu no tenho de tocar Pelo ^ontrrio, o meu dever est claramente delimitado Obrigado, enquanto chefe de famlia, a dirigir a conduta dela, incorro numa responsabilidade moral devo, pois, preveni-la do perigo que entre-vejo, devo recorrer, em caso de necessidade,  minha autoridade No me posso calar "
Posto isto, lamentando ter de despender o seu tempo e os seus recursos intelectuais em questes domsticas, Alexei Alexandrovitch elaborou mentalmente um projecto de discurso, que no tardou a tomar a forma ntida, precisa e lgica de um relatrio "Devo fazer lhe sentir o seguinte primeiro, o significado e a importncia da opinio pblica, se gundo, o sentido religioso do casamento, terceiro, e se for o caso, as ds graas que podem resultar para nosso filho, e, por ltimo, as que podem atingir a ela prpria" E entrelaando as mos Alexei Alexandrovitch fez estalar as articulaes dos dedos Este gesto, este mau hbito, serenava o sempre e ajudava o a recuperar o equilbrio moral de que necessitava
Uma carruagem parara  porta, e Alexei Alexandrovitch deteve se no meio do salo Passos de mulher subiam a escada Com o seu sermo pronto, ei-lo ali de p, retorcendo os dedos, para que estalassem mais uma vez efectivamente uma das articulaes estalou Apesar de ter o
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sermo preparado,   ao  sentir  a mulher  aproximar-se  teve medo  da explicao que ia ser obrigado a ter com ela
CAPTULO IX
Ana entrou brincando com as borlas do capuz De cabea baixa, o rosto resplandecia-lhe, mas no de alegria era antes como que o terrvel resplendor de um incndio numa noite escura Ao descobrir o marido, ergueu a cabea e sorriu, como se acabasse de despertar
- Qu' Pois ainda no te deitaste' Que milagre  esse' - disse ela, tirando o capuz E sem se deter, dirigiu se para o toucador
--  tarde, Alexei Alexandrovitch - acrescentou, ao chegar  porta.
- Ana, preciso falar contigo
- Comigo' - Voltou se e fitou-o, surpreendida - A que propsito' De que se trata' - perguntou ela, sentando-se -Pois bem, conversemos, se  to necessrio, mas era bem melhor dormirmos
Ana dizia o que lhe vinha  cabea, surpreendida consigo prpria da facilidade com que mentia Que naturalidade nas suas palavras' Quo real parecia aquela necessidade de dormir' Sentia-se apoiada, amparada por uma fora invisvel, envolta numa impenetrvel armadura de mentira
- Ana - principiou ele -, devo advertir te
- Advertir-me' Por qu'
Olhava com tanta naturalidade e estava to alegre que quem no a conhecesse como o marido no teria notado nada fingido nem no tom em que falava nem nas maneiras que aparentava Mas para ele, que no podia deitar se mais tarde cinco minutos sem que ela lhe perguntasse logo qual a razo, para ele, que era sempre o primeiro confidente tanto das suas alegrias como das suas mgoas, a circunstncia de ela, naquele momento, no atentar na perturbao que dele se apoderava nem falar de si prpria no podia deixar de ser muito significativa Compreendeu que aquela alma, sempre to aberta para ele, se fechava agora E no s no se perturbava como parecia dizer claramente "Sim, assim tem de ser e assim ser de hoje em diante " Alexei Alexandrovitch experimentava a sensao de um homem que ao regressar a casa encontra a porta fechada "Mas talve*. ainda ache a chave", pensou com os seus botes
- Devo advertir te - continuou ele em voz serena - de que a tua imprudncia e a tua leviandade podem dar motivo a que falem de ti Chamaste a ateno, conversando to animadamente com o conde Vronski - E pronunciou o nome com firmeza e lentido
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r
Enquanto falava, via os olhos risonhos e impenetrveis de Ana e compreendia a inutilidade absoluta das suas palavras
- Sempre foste assim - replicou ela, como se nada compreendesse do que ele lhe estava a dizer e apenas atribusse importncia ao final da frase -Ora te incomodas por me veres aborrecida, ora por me veres alegre Como esta noite no me aborreci, sentes-te ofendido'
Alexei Alexandrovitch estremeceu e de novo entrelaou os dedos para os fazer estalar
- Oh, pelo amor de Deus, no faas isso aos dedos1 No posso suport-lo
- Ana, s tu realmente' - disse Alexei Alexandrovitch, em voz baixa, dominando se e contendo o movimento das mos
- Mas afinal que aconteceu' - exclamou ela, numa expresso de surpresa ao mesmo tempo sincera e cmica -Que queres de mim'
Alexei Alexandrovitch calou se e passou a mo pelo rosto Dava se conta de que, em vez de ter feito o que queria, advertir a mulher de uma falta perante a sociedade, se inquietava, a seu pesar, do que dizia respeito  conscincia dela, e se defrontava com um obstculo qui imaginrio
- O que eu queria dizer te  o seguinte - prosseguiu com uma expresso fria e serena -, e peo te que me escutes como sabes, acho que o cime  um sentimento ofensivo e humilhante e nunca me deixarei dominar por ele, mas a verdade  que existem certas convenes sociais que no podem violar se impunemente Hoje, no fui eu quem o nofou, mas, a avaliar pela impresso que produziste nas pessoas presentes, todos deram conta de que a tua conduta e a tua atitude deixavam muito a desejar
- No entendo absolutamente nada - exclamou Ana, encolhendo os ombros Consigo mesma pensou "Para ele  indiferente, mas corffo os outros repararam, preocupa se " - No ests bem de sade Alexei Ale xandrovitch - acrescentou, levantando-se, disposta a sair, mas ele avanou para ela como para a deter
Nunca Ana lhe vira uma expresso to triste e to desagradvel, ficou onde estava, baixando a cabea para retirar dela os ganchos do cabelo, com grande agi'idade de mos
- Pois bem, sou toda ouvidos - proferiu num tom de tranquila zombaria -E mesmo cheia de interesse, pois muito gostaria de saber do que se trata
Falando assim, ela prpria estava surpreendida com a sua naturalidade e a tranquilidade e segurana com que escolhia as palavras que empregava
- No tenho esse direito e considero mesmo perigoso aprofundar os teus sentimentos - continuou Alexei Alexandrovitch -Escavando no nossa prpria alma, arnscamo nos a trazer  superfcie o que talvez continuasse enterrado nas suas profundezas Os teus sentimentos so com a tua conscincia, mas sinto me obrigada, perante ti, perante mim mesmo e perante Deas, a apontar te os teus deveres No foram os homens que
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uniram as nossas vidas, mas Deus S um crime pode romper este vnculo e um crime traz consigo o seu castigo
- Meu Deus, no entendo patavina, e o pior  que estou a cair de sono - exclamou Ana, apalpando, rpida, os cabelos  procura dos ltimos ganchos
- Ana, por amor de Deus, no fales assim - implorou ele - Talvez me engane, mas cr que digo isto tanto para meu como para teu bem Sou teu mando e quero-te muito
Por um momento Ana baixou a cabea e o lampejo zombeteiro que lhe assomava aos olhos desvaneceu se, mas a palavra "quero-te" irritou-a de novo "Querer me'", pensou ela "Saber ele porventura o que isso vem a ser? Se nunca tivesse ouvido falar em amor, nunca teria empregado semelhante palavra "
- Alexei Alexandrovitch, deveras, no te compreendo - exclamou ela -Explica-me o que achas
- Deixa me acabar Quero ..e, mas no  de mim que eu falo As pessoas que nisto mais importam so o nosso filho e tu Repito,  muito possvel que te paream completamente inteis e inoportunas as minhas palavras Talvez sejam o resultado de um erro meu Nesse caso, peo-te que me desculpes Mas se porventura reconheces que as minhas observaes tm algum fundamento, peo-te que reflictas e se o teu corao te leva a dizer me
Sem que desse por isso, Alexei Alexandrovitch estava a dizer coisas muito diferentes daquelas que se propusera
- Nada tenho que te dizer - exclamou Ana, de repente, falando muito depressa e dificilmente reprimindo o riso - e o certo  que so horas de dormir
Alexei Alexandrovitch suspirou e sem dizer palavra entrou no quarto de cama
Quando Ana, por sua vez, penetrou no quarto, j ele estava deitado Um vinco lhe desenhava os lbios apertados e no olhou para ela Ana deitou se na sua cama, sempre  espera que ele lhe falasse, coisa que ao mesmo tempo temia e desejava Mas ele permaneceu calado Por muito tempo ficou  espera, sem se mexer, e acabou por esquec-lo Pensava no outro, via o uma emoo jovial, criminosa, lhe inundava o corao De sbito, ouviu uma respirao regular e serena A princpio, como se se tivesse assustado com o seu prprio resfolegar, Alexei Alexandrovitch calou se, mas, aps duas silenciosas inspiraes, de novo se ouviu o seu respirar sereno e regular
- fi tarde'  tarde' - murmurou Ana com um sorriso E permaneceu por muito tempo assim, imvel, de olhos abertos, com a sensao de que via brilhar nas trevas os seus prprios olhos
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CAPTULO X
A partir de ento uma nova vida comeou para os Karenmes Nada de especial ocorrera na aparncia Ana continuava a frequentar a socie dade, por toda a parte, com Vronski Alexei Alexandrovitch notava o, mas sem poder impedi Ia Todas as vezes que tentava suscitar uma explicao, Ana opunha lhe uma perplexidade risonha, absolutamente impenetrvel Aparentemente tudo permanecia na mesma, mas as su*as relaes ntimas tinham passado por uma transformao radical Alexei Alexandrovitch, homem enrgico em tudo que dizia respeito a questes de interesse publico, via se impotente perante este caso Como uma rs no matadouro, baixava a cabea submisso e aguardava a machadada fatal Quando pensava no caso, dizia para si mesmo que a bondade, a ternura, a persuaso ainda poderiam, talvez, salvar Ana Mas de cada vez que entabulava conversa com ela convencia se de que o esprito do mal e da mentira que se assenhoreara da mulher se apossara dele tambm, e ento no chegava a dizer lhe o que pensava e assumia um tom diferente do que se propunha Involuntariamente recuperava o seu habitual ar irnico e no era nesse tom que as coisas que ele gostaria de lhe fazer sentir podiam, de facto, dizer se	^
O que durante um ano constitura o nico objectivo da vida de Vronski, ocupando o lugar de todos os seus desejos anteriores, e o que a Ana se lhe afigurara a iluso de uma felicidade impossvel, terrvel mas fascmadora, realizou se finalmente Plido, com a mandbula inferior a tremer, debruado para ela, Vronski pedia lhe que sossegasse "
- Ana, Ana - dizia ele em voz sacudida -, Ana, pelo amor de Deus
Mas quanto mais ele levantava a voz, tanto mais ela baixava a cabea Aquela cabea outrora to altiva, to alegre e agora to humi lhada, t Ia ia ela baixado at ao cho, do div onde estava sentada, caindo ela prpria no tapete, se ele a no tivesse amparado
- Meu Deus' Perdoa me' - soluava, apertando lhe a mo contra o peito
Ana sentia se to culpada, to criminosa, que nada mais lhe restava seno humilhar se e pedir lhe perdo Como j no tinha mais ningum na vida a no ser Vronski, a ele implorava que lhe perdoasse Ao fita Io, a humilhao a que descera parecia lhe to palpvel que no sabia pronunciar outra palavra Quanto a ele, sentia se como um assassino diante do corpo inanimado da vtima o corpo por ele imolado era o seu amor, a primeira fase do seu amor Havia algo de odioso e repulsivo em recordar aquilo cujo preo estava naquela hedionda vergonha A nudez moral em que cara esmagava Ana e comunicava se a Vronski Seja
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qual for, porm, o horror do assassino diante da vtima, jamais aquele deixa de sentir a necessidade de esconder o cadver, de o cortar em pedaos, de colher os benefcios do crime cometido Ento, com uma raiva frentica, lana se sobre o cadver e arrasta o para o despedaar Assim Vronski cobria de beijos o rosto e os ombros de Ana Ela agarrava lhe a mo e no se mexia Sim, aqueles beijos comprava os ela pelo preo da honra, sim, aquela mo, sua para sempre, era a mo do seu cmplice Levantando-a, beijou a Vronski caiu lhe aos ps procurando descobrir lhe o rosto que ela escondia em silncio Por fim, pareceu fazer um esforo sobre si mesma, levantou se e repeliu o O seu rosto inspirava tanto mais compaixo quanto era certo nada ter perdido da sua beleza
- Esta tudo acabado - disse ela - S tu me restas, no o esqueas
- Como poderei eu esquecer a minha prpria vida' Por um mo mento de felicidade como este
- Que felicidade' - exclamou ela, com um sentimento de ds gosto e de terror to profundo que ele se sentiu contagiado - Suplico te, nem mais uma palavra, nem mais uma palavra
Ana ergueu se repentinamente e afastou se dele
- Nem mais uma palavra' -repetiu, e afastou se com uma expresso fria e desesperada que causou estranheza a Vronski
Ana tinha a impresso de que naquele momento lhe era impossvel exprimir por palavras o sentimento de vergonha, de alegria e de horror que se lhe deparara na aurora daquela nova vida, preferia calar se a dizer palavras imprecisas ou banais Mas nem no dia seguinte nem da a dois dias lhe ocorreram as palavras capazes de definirem a comple xidade dos seus sentimentos, os prprios pensamentos no traduziam as impresses que sentia na alma "No", dizia ela consigo mesma, "mais para diante, quando me sentir mais tranquila " Mas o sossego para pensar no chegava nunca, sempre que pensava no que acontecera e no que iria ser dela, sentia se tomada de angstia e repelia os pensa mentos que a assaltavam "Mais tarde, mais tarde, quando tiver r cuperado a minha serenidade"
Em compensao, assim que perdia o domnio dos seus pensa mentos, a situao aparecia lhe em toda a sua horrvel nudez Sonhava que Alexei Alexandrovitch e Vronski eram ambos seus maridos e que ambos lhe dispensavam carcias Alexei Alexandrovitch chorava e, bei jando lhe as mos, dizia "Que felizes somos agora'" E Alexei Vronski estava ali mesmo e tambm era seu mando E Ana surpreendia se de que, antes isso se lhe afigurasse impossvel, explicava lhes que assim era muito mais simples e que ambos agora eram felizes e estavam contentes Mas este sonho oprimia a como um pesadelo e acordava horrorizada
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CAPTULO XI
Nos primeiros tempos, aps o seu regresso de Moscovo, sempre que acontecia a Levme corar e estremecer lembrando-se da vergonha de ter sido repelido, dizia para si mesmo "Corava e estremecia como agora, considerando-me um homem ao mar, quando me reprovaram em FSICA e tive de repetir o ano e quando pus a perder aquele caso que minha irm me confiou E o certo  que presentemente, anos passados, lembro -me com espanto desses momentos de desespero O mesmo vir a suceder com a mgoa presente o tempo h de passar e tudo esquecerei "
Trs meses passaram, contudo, sem que Levme esquecesse O que impedia a fenda de cicatrizar era o facto de, tendo sonhado com a vida de famlia e julgando se preparado para ela, no s no haver chegada a casar mas encontrar-se mais longe do que nunca do casamento Como toda a gente que o rodeava, sentia, com mgoa, no ser bom para o homem viver s, na sua idade Lembrava se das palavras do vaqueiro Nicolau, um campons ingnuo com quem gostava de tagarelar, antes da sua viagem a Moscovo "Nicolau, quero casar me", dissera-lhe dias antes Ao que Nicolau respondera sem a menor hesitao "H muito que o devia ter feito, Constantino Dimitnevitch ,> E nunca o*tasa-mento lhe parecera to longnquo' O lugar estava ocupado e se porventura lhe vinha ao esprito arranjar quem substitusse Kitty entre as raparigas suas conhecidas, o corao no tardava a revelar-lhe o absurdo dessa resoluo Alm disso, a lembrana do papel humilhante que julgava ter desempenhado atormentava o a cada momento Por mais que dissesse a si prprio que no praticara nenhum crime, corava co*i essa recordao e com outras do mesmo gnero, igualmente fteis, embora lhe pesassem mais na conscincia que qualquer das ms aces de que era culpado, como, alis, toda a gente
O tempo e o trabalho, contudo, acabai am por cumprir a sua tarefa O dia a dia do campo, to importante na sua modstia, diluiu pouco a pouco todas essas impresses dolorosas Cada semana apagava um pouco a lembrana de Kitty, Levme acabou mesmo por aguardar com impacincia a notcia do casamento dela, na esperana de que isso acabasse por cura Io, tal como acontece ao dente que se arranca
Entretanto chegava a Primavera, uma dessas Primaveras agradveis, sem expectativas e ludbrios, uma dessas raras Primaveras que do ao mesmo tempo alegria aos homens, aos animais e As planUs E essa esplndida Primavera ainda mais excitou Levme, reforando j seu propsito de renunciar ao passado para organizar a vida solitria em condies de solidez e independncia Se muitos dos projectos que formulara no regresso tinham ficado no papel, o ponto essencial, a castidade da vida, no o atormentava mais: a vergonha que habitu Imente se seguia
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a cada uma das suas quedas findara, tinha agora coragem para olhar as pessoas de frente Por outro lado, Maria Nikolaievna prevenira-o, em Fevereiro, de que piorara o estado do irmo, sem que consentisse em deixar-se tratar, e Levme, assim que chegara a Moscovo, conseguira convencer Nicolau da necessidade de consultar um mdico e, inclusive, de aceitar um emprstimo para tratar-se numa estao termal Neste particular, no h dvida de que podia sentir-se contente consigo mesmo Como sempre no princpio da Primavera, os trabalhos agrcolas exigiram--Ihe grande ateno De resto, alm das suas leituras habituais, consagrara-se durante o Inverno a estudos de economia rural partindo do princpio de que o temperamento do trabalhador agrcola  um facto to absoluto como o clima ou a natureza do solo, queria que a cincia agronmica tivesse igualmente em conta estes trs elementos E deste modo, a despeito da solido em que vivia, ou talvez como consequncia dela, tivera uma vida cheia S de longe em longe lamentava no ter mais ningum alm da sua velha ama a quem comunicar as ideias que lhe vinham  cabea, pois lhe acontecia muitas vezes pr se a falar diante dela de fsica, de agronomia e sobretudo de filosofia, assunto muito da predileco de Agfia Mikailovna
Custou a chegar o bom tempo Um cu claro e glacial acompanhou as ltimas semanas da Quaresma Se o sol provocava, durante o dia, um certo degelo, durante a noite o termmetro descia a sete graus e a geada formava sobre a neve uma crosta to dura que j no havia estradas pra-tica\eis O domingo de Pscoa foi todo ele de neves Mas no dia seguinte, repentinamente, ps-se a soprar vento quente, as nuvens acumularam se, e durante trs dias e trs noites caiu uma chuva morna e tempestuosa Na quinta-feira o vento deixou de soprar e um nevoeiro cinzento espesso estendia se sobre a terra como para esconder os mistrios que a essa hora se estavam a realizar na Natureza a chuva, o degelo, o estalar dos blocos de gelo, o desabar das torrentes espumosas e amarelentas Finalmente, na segunda feira de Pascoela, j  noitinha, o nevoeiro dissipou se, as nuvens diluram se em flocos brancos e o bom tempo chegou finalmente No dia seguinte pela manh, um sol resplandecente acabou de derreter a fina capa de gelo que se formara durante a noite e o ar morno impregnou se dos vapores que subiam da terra A erva velha ganhou imediatamente tons verdes, a erva nova despontou no solo, os rebentos dos viburnos, das groselheiras, das btulas encheram se de seiva e sobre os ramos dos vimes, banhados de luz, ac abelhas, abandonando os seus quartis de Inverno, zumbiram alegremente Invisveis cotovias soltaram o seu canto por cima do veludo dos prados e das choupanas cobertas de gelo, os fradezmhos gemeram nas concavidades e nos pntanos submersos pelas chuvas torrenciais Os grous e os gansos bravos vararam o cu com os seus guinchos primaveris As vacas, cujo plo irregular apre sentava, aqui e ali, grandes peladas, mugiram nos pastos Em volta das
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ovelhas balantes que comeavam a perder o plo, os cabritos saltitavam, canhestros Ao longo dos atalhos hmidos cornam os garotos, que deixavam no cho o desenho dos seus ps nus Em torno dos tanques ouvia-se a algaraviada das mulheres a lavar a roupa, enquanto repercutia por todos os lados o machado dos mujiques reparando sebes e arados A Primavera chegara realmente
CAPTULO XII
Pela primeira vez Levme no vestiu a sua pelica, e com uma poiovka de pano e botas altas foi dar um giro pela fazenda, transpondo ribeiros que a luz do Sol tornava resplandecentes e pisando ora finas camadas de gelo, ora lama pegajosa
A Primavera  a poca dos projectos e dos planos Levme, ao sair de casa, sabia to pouco o que ia fazer na sua herdade como qualquer rvore na Primavera ignora como e em que sentido se estendero os seus ramos e as suas hastes novas ainda envoltas nos botes No sabia o que ia fazer, mas sentia se cheio dos melhores propsitos Antes de mais nada, foi ver o gado Tinham soltado as vacas, que, bem aquecidas e com o plo novo reluzindo, mugiam, ansiosas por se verem em pleno campo Levme, que a todas conhecia muito bem, uma por uma, depois de contempl-las, mandou conduzi Ias ao pasto e que soltassem os bezerros O pastor, rpi Jo, preparou se para sair enquanto as vaqueiras, com as saias arregaadas e os ps descalos ainda no queimados pelo sol, patinhavam na lama atrs das bezerras que a Primavera fazia mugir de alegria e que elas, de vara em punho, impediam de sair do curral
Levme ps se a admirar as crias daquele ano, extraordinariamente bonitas bezerras ainda no desmamadas j estavam do tamanho de vacas comuns e a filha de fava, com trs meses, parecia j ter um ano Mandou que trouxessem as selhas e as manjedouras e pusessem feno no curral Como no haviam sido usados durante o Inverno, os barrotes das cercas estavam quebrados Levme mandou chamar o carpinteiro contratado para consertar a mquina de debulhar, mas este reparava as grades, que j deveriam ter ficado prontas desde o Carnaval Levme no escondeu quanto isso o contrariava sempre a mesma desordem, contra a qual lutava debalde h tanto tempo1 As manjedouras, ficou sabendo que haviam sido arrumadas, duiante o Inverno, nas cavalarias e, de material barato, no tardou que se quebrassem Quanto aos arados e demais apetrechos, que trs carpinteiros, pagos para isso, deviam ter reparado tambm durante o Inverno, s agora estavam a ser .onsertad )S, quando
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j estava na hora de comear os trabalhos do campo Levme mandou procurar o administrador, mas no teve pacincia de esperar e foi ele prprio  sua procura Encontrou-o  sada da granja, com um tulup guarnecido de astrac, retorcendo uma palha entre os dedos, radiante, como a terra inteira nesse dia
- Porque no est o carpinteiro a trabalhar na mquina'
- Era isso que eu lhe queria dizer ontem  preciso consertar as grades Chegou a altura de comearmos a lavrar
- Que fizeram durante o Inverno'
- Para que precisa do carpinteiro, agora'
- Onde est o cercado dos bezerros'
- J mandei leva Io para o seu lugar Que quer o patro que se faa com esta gente' - replicou o administrador, esboando um gesto de desalento
- Com esta gente, no, com um administrador destes Que estava 'o senhor a fazer a' - respondeu Levme, exaltando se, mas lembrando-se a tempo de que os gritos nada resolviam, calou-se, limitando-se a suspirar - Esta bem - continuou, depois de um momento de silncio - Bom, e a semeadura'
- Amanh ou depois de amanh podemos meter mos  obra atrs de Turkino
- E  o  trevo'
- Mandei o Vacih e o Michka seme-lo, mas no sei se eles conse guiro Ainda h muita lama
- Quantas desiatmas vo semear'
- Seis
- Por que no todas' - exclamou Levme, que ainda mais irritado ficou com esta notcia Em vez de vinte desiatmas, s iam semear seis Na verdade, por experincia prpria pudera verificar quo certa eia a teoria segundo a qual o trevo, para ser forte, devia semear se o mais cedo possvel, quase debaixo da neve E nunca conseguira que fizessem o que ele mandava1
- Faltam nos braos Que quer o patro que se faa com esta gente' Trs no apareceram E depois o Simo
- Podiam-se ter aproveitado os que esto a cuidar da palha
- Foi o que eu fiz
- Onde esto eles,  ento'
- Cinco esto a preparar o "adrubo" (o administrador queria dizer "adubo") Quatro esto a transportar a aveia  preciso no a deixar estragar, Constantino Dimitnevitch
Levme compreendeu imediatamente o que queria dizer aquele " preciso no a deixar estragar" a aveia inglesa, reservada para a semea dura, j estava perdida1 Mais uma vez tinham deixado de cumprir as suas ordens
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- No tinha dito, pela Quaresma, que era preciso areja Ia'
- No se preocupe, tudo ser feito a seu tempo Levme limitou se a fazer um gesto de indignao e foi directamente  granja examinar a ateia felizmente ainda no estava estragada, mas os trabalhadores remexiam na com as ps, em vez de, muito simples mente, a passarem de um andar para o outro Depois de dar ordens para que o fizessem e de ter mandado dois dos trabalhadores semearem o trevo, Levme sentiu se mais sereno, estava um dia lindo de mais pra uma pessoa se aborrecer E foi para a cavalaria
- Incio - gritou ele para o cocheiro, que de mangas arregaadas lavava a caleche junto ao poo -, sela me um cavalo
- Qual deles'
- O Kolptk
-As suas ordens
Enquanto lhe selavam o cavalo, Levme, \endo o administrador ali perto dirigiu lhe a palavia j sem azedume e posse a falar com ele sobre os trabalhos a realizar e quais os seus planos era preciso barrelar o estrume o mais depressa possvel, de maneira que essa tarefa estivesse pronta antes da primeira ceifa, lavrar a parte mais afastada da gro pnedade e deixa Ia de pousio, e depois fazer a sega por sua conta e no a meias com os camponeses
O administrador ouvia, atento, fazia esforos para aprovar os pio jectos do amo, porem mostrava uma expiesso desanimada e abatida, expresso essa que Levme conhecia muitssimo bem e que tanto o irritava "Tudo isso  muito bonito", parecia dizer, "mas o homem pe e Deus dispe " No havia nada que mais contrariasse Levme do que esse ajude solado, que era, alis, o de todos os administradores que tivera ao seu sen io Resolvera no se zangar mais, nem por isso no entanto, deixava de lutar com um ardor cada vez maior contra essa fora prim tiva que a cada momento lhe obstrua o caminho e  qual ele dera o nome de "Deus dipe"
- L ainda  preciso que haja tempo, Constantmo Dimitrievitch - proferiu finalmente o administrador
- Por que no haver tempo'
- Precisamos de contratar mais uns quinze homens, o que  coisa difcil Apareceram hoje a alguns, mas pedem setenta rublos pelo Vero Levme calou se Sempre aquela fora inimiga' Bem sabia ele que, apesar de todos os esforos, no era possvel contratar ao preo normal mais de trinta e sete ou trinta e oito trabalhadores As vezes conseguiam se mesmo quarenta, nunca mais do que isso Decidiu por conseguinte continuar a luta
- Manda a Sun, a Tchefirovka Se os homens no aparecem,  preciso procura los
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- Manda los vir  coisa que sempre se pode fazer - disse Vacih Fiodorovitch em tom desanimado -A propsito, devo dizer-lhe que os cavalos esto muito cansados
- Iremos comprando outros, bem sei - acrescentou rindo - que vocs gostam de trabalhar pouco e o pior possvel Mas devo preveni los de que este ano no os deixarei fazer as coisas a seu bei prazer Eu mesmo dirigirei tudo
- Acho que assim no vai ter muito tempo para dormir1 Tanto melhor, de resto Ns at trabalhamos melhor vigiados pelo patro1
- Disseste me que esto a semear o trevo do outro lado do vale das btulas' Vou l ver isso - continuou Levme, montando o cavalinho baio que o cocheiro lhe trouxera
- O senhor no poder atravessar os regatos, Constantmo Dimi-tnevitch - gritou-lhe o cocheiro
- Ento, irei pelo bosque
No seu passo rpido o bom do cavalinho, que no cabia em si de contente por se ver fora da cavalaria, e repuxava o freio e relinchava diante de todas as poas de gua, l se foi, com o amo s costas, para fora do pao lamacento O contentamento que Levme sentira no curral e no meio do rebanho era ainda maior quando, embalado pelo trote do belo animal, se via em pleno campo Ao atravessar o bosque, aspirou a largos pulmes o ar tpido e hmido, pois a neve ainda no desaparecera de todo, e era grande a sua satisfao ao ver o musgo renascer em cada tronco de rvore e, em cada ramo, botes prestes a desabrochar Saindo do bosque, apareceu lhe diante dos olhos a vastido dos campos, imenso tapete de veludo verde, uniforme, onde se viam, aqui e ali, pequenas manchas de neve
Sem se zangar, ao ver um cavalo de mujique, com seu potro, pisando os grelos que rebentavam, disse a um homem que encontrou ali perto que os enxotasse E com igual cordura ouviu a resposta, ao mesmo tempo simplria e manhosa, do campons a quem perguntava- "Que achas, Ipate, estaremos a semear dentro de pouco tempo'" "Temos primeiro de lavrar, Constantmo Dimitrievitch " Quanto mais avanava plos campos fora, mais bem disposto se sentia e mais projectos ia fazendo, cada um melhor do que o outro, segundo lhe parecia dividir os campos com sebes de vime voltadas para o sol, a fim de que a neve no se acumulasse em cima delas, separar as terras de lavoura em nove parcelas, seis das quais seriam estrumadas e trs reservadas para horta, construir um estbulo na parte mais afastada da propriedade, abrir a um poo e utilizar o adubo por meio de parques desmontveis, conseguir assim trezentos hectares de trigo, cem de batatas e cento e cinquenta de forragens, sem esgotar as terras
Perdido nas suas reflexes, Levme guiava o cavalo ao longo dos sulcos para no pisar as plantaes Por fim chegou ao ponto onde
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estavam a semear o trevo A carroa estava parada num campo de trigo, no nual as rodas tinham aberto sulcos que o cavalo ia seguindo Era uma mistura de terra e de sementes que o frio ou a longa armazenagem do celeiro haviam reduzido a torres, sem que houvesse o cuidado de peneira -los Sentados  beira de uma azinhaga, os dois trabalhadores fumavam, tahez no mesmo cachimbo Ao verem a amo, um deles, Vacili, dirigiu se  carroa enquanto o outro, Michka, se punha a semear Nada daquilo estava certo, mas Levine, que raramente se zangava com os seus traba dores, limitou se a mandar que Vacih puxasse a carroa para o rego
- No faz mal, patro - objectou Vacili-, isso volta a crescer, pode ter a certeza
- Queira fazer o favor de me obedecer sem mais explicaes - replicou Levine
- Est bem, patro - replicou Vacili, pegando no cavalo pelo brido -Que semeadura' Isto  que  uma semeadura1 - continuou, para cair nas boas graas do amo - No h mais linda' O pior  que a gente no pode andar depressa, leva um pud de terra agarrado em cada p
- Mas por que no peneiraram a terra'
- No tem importncia, patro, ns prprios vamos tratar disto - respondeu Vacili, triturando um torro na palma da mo
O culpado no era Vacili, portanto, Levine no podia castig-lo Para acalmar a sua irritao, recorreu a um processo que muitas vezes experimentara Depois de olhar algum tempo para Michka, que ao andar carregava enormes pedaos de terra nos ps, pegou ele prprio no saco das sementes de Vacili, e comeou tambm a semear
- Onde paraste'
Vacih apontou lhe com o p o lugar onde ficara, e Levine ps se a semear o melhor que podia Mas avanava com dificuldade, como se estivesse dentro de um pntano Por isso, ao findar um sulco, parou, alagado de suor, e entregou de novo o saco ao trabalnador
- Agora gostava de o ver pegar me - disse Vacili - no rego que vou encher
- Achas que no sou capaz' - disse Levine, alegremente, percebendo que o seu mtodo dera resultado
- Vai ver, quando chegar o Vero, vai ser o primeiro a brotar, garanto lhe' Olhe para o campo que eu semeei na Primavera passada'  preciso que o saiba, Constantino Dimitnevitch, eu trabalho para o patro como se trabalhasse para o meu velho No gosto de trabalho mal feito e no consinto que os outros o faam Quando o patro est contente, ns tambm estamos Basta olhar para um campo destes para nos sentirmos bem
- Que linda Primavera, hem, Vacili'
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- Sim, senhor, nem os nossos velhos se lembram de uma coisa assim Acabo de vir de casa do meu pai Pois imagine que tinha semeado trs osmimk e agora diz que no o podem distinguir do centeio
- H muito que a tua gente semeia trigo'
- Desde o ano passado e a conselho do patro o patro at nos ofereceu vinte alqueires vendemos oito e sememos o resto
- Bom, a coisa vai, ateno - disse Levine, voltando para junto do cavalo - Tritura os torres como deve ser e no percas o Michka de olho Se tivermos boa colheita dar te ei cinquenta copeques por desiatma
- O patro  formidvel, assim, todos ficaremos contentes
Levine voltou a montar no cavalo para ir inspeccionar o trevo semeado no ano anterior e o campo lavrado para o trigo da Primavera
O trevo tinha crescido bem atravs do restolho j se viam tons verdes Naquela terra em que o gelo estava quase fundido o cavalo enterrava as patas at ao (arrete No foi mesmo possvel seguir adiante nos regos sem neve Pelo menos Levine pde verificar que a lavra era excelente dentro de dois ou trs dias, j seria possvel arar e semear Levine regressou a casa plos regatos, na esperana de que as guas tivessem descido de nvel efectivamente pde atravessa los e ao passar espantou dois patos bravos
"Deve haver por aqui galinholas", disse com os seus botes, e o guarda florestal, que encontrou nas imediaes de casa, confirmou lhe a suspeita Imediatamente ps o cavalo a trote, para ter tempo de jantar e de preparar a espingarda para a tardinha
CAPTULO XIII
No momento em que Levine entrava em casa, muito satisfeito, ouviu um retinir de campainhas para os lados da entrada principal
" algum que chega da estao", pensou ele, " a hora do comboio de Moscovo Quem ser' Nicolau' Pois no me disse ele que em lugar de ir para as guas talvez viesse para minha casa'" Por instantes sentiu se contrariado, receoso de que o aparecimento do irmo viesse estragar aquela sua boa disposio primaveril, mas, reprimindo incontinente esse sentimento egosta, ps-se a desejar, de todo o seu cor<-o, com enternecida alegria, que o visitante que a campainha anunciava fosse o seu umo Nicolau Esporeou o cavalo e ao contornar uma moita de accias divisou dentro de um tren de aluguer um senhor de pelica, que no reconheceu logo "Oxal seja algum com quem se possa conversar'"
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- Oh, mas  o mais bem-vindo dos hspedes' - exclamou, da a momentos, erguendo os braos para o cu, pois acabava de reconhecer Stepane Arkadievitch -Que prazer tenho em ver-te'
Para si mesmo observou "Por ele hei-de saber, naturalmente, se ela j est casada " E reconheceu que naquele esplendoroso dia de Primavera nem a lembrana de Kitty o fazia sofrer
- Confessa que contavas comigo - disse Stepane Arkadievitch, apeando-se do tren, todo ele resplandecente de alegria e de sade, apesar de trs salpicos de lama que se lhe tinham grudado no nariz, nas faces, nas sobrancelhas -Aqui me tens primeiro para te ver, segundo, para caar, terceiro, para vender o meu bosque de lerguchovo
- ptimo1 E que te parece esta Primavera' Como pudestes chegar at aqui de tren''
- De carruagem ainda era mais duro, Constantino Dimitrievitch - replicou o cocheiro, velho conhecido de Levme
- Pois  o que te digo, estou contente por te ver - continuou este, com um largo sorriso infantil
Conduziu o amigo ao quarto de hspedes, onde logo lhe levaram a bagagem uma maleta, uma espingarda, no seu estojo, e uma cauja de charutos Deixando, pois, Stepane Arkadievitch para que se arranjasse  vontade, tratou de descer ao escritrio para dar ordens ao administrador a respeito dos trevos e dos trabalhos da quinta Mas Agfia Mikailovna, que gostava de manter os bons crditos da casa, deteve-o no vestbulo e pediu-lhe ordens para o jantar
- Faa o que quiser, mas despache-se - respondeu ele, entrando no escritrio
Quando voltou, Oblonski, lavado, penteado, radioso, saa do seu quarto Subiram juntos ao l  andar
- Que contente estou por me encontrar outra vez contigo' Vou, finalmente, ser iniciado nos mistrios da tua existncia Falando srio, tenho te inveja Que casa encantadora1 Como tudo aqui  claro e alegre1
- declarou Stepane Arkadievitch, esquecido de que a Primavera no durava sempre e que durante o ano havia tambm dias escuros - E a tua velha criada s por si paga a pena da viagem Claro que eu por mim preferia uma mocinha boa, mas a simptica velha combina bem com o teu estilo severo e monstico
Entre outras novidades cheias de interesse, Stepane Arkadievitch preveniu Levme de que Srgio Ivanovitch pensava visit-lo durante o Vero No disse palavra nem de Kitty nem dos Tcherbatski, limitando-
-se a transmitir-lhe lembranas da mulher Levme no pde deixar de apreciar a delicadeza que isso significava Alis, a visita de Stepane Arkadievitch agradava-lhe em cheio. como sempre lhe acontecia, durante os perodos de solido ia armazenando no seu retiro muitas ideias e
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impresses que lhe no era possvel comunicar s pessoas que o rodeavam Ei-lo, pois, a despejar em cima do amigo a exaltao que aquela quadra do ano lhe inspirava, os seus planos e os seus dissabores de lavrador, os pensamentos que lhe tinham vindo  mente, as observaes que tinha a fazer aos livros que lera e sobretudo a ideia fundamental da obra que imaginava, ideia que constitua, sem que ele desse por liso, uma crtica a todos os tratados de economia rural Stepane Arkadievitch, sempre amvel e pronto a apreender tudo no ar, mostrou-se desta vez mais encantador do que nunca Levme julgou notar, mesmo, na sua atitude para com ele um tom novo de cordialidade diferente, que no deixava de o lisonjear.
Os esforos conjugados de Agfia Mikaloivna e do cozinheiro para melhorarem o rancho tiveram este resultado inesperado os dois amigos, mortos de fome, atiraram se aos aperitivos, comeram po, manteiga, cogumelos em conserva, meia galinha fumada, e Levme mandou servir a sopa sem esperar plos empades com que o cozinheiro esperava deslumbrar o hspede Alis, Stepane Arkadievitch, muito habituado a banquetes, no se cansou de achar tudo de primeira ordem- o ratafia, o po, a manteiga, a galinha defumada, os cogumelos, a sopa de urtigas, o frango em molho branco, o vinho branco da Cnmeia, tudo o deslumbrou, tudo o encantou
- ptimo, ptimo1 - exclamava ele enquanto acendia, depois do assado, um grosso charuto -Tenho a impresso de que realmente aportei a uma bela enseada depois da algazarra e dos solavancos da movimentada travessia -Pelo que vejo, s de opinio que o elemento representado pelo operrio deve entrar em linha de conta na escola da cultura a fazer Eu sou leigo nestes assuntos, mas quer-me parecer que essa teoria e a sua respectiva aplicao viro a ter influncia sobre o prprio operrio
- Sim, mas espera eu no estou a falar de economia poltica, estou a falar da economia rural, enquanto cincia Da mesma maneira que para as cincias naturais  preciso estudar os dados fundamentais, os fenmenos e o prprio operrio, do ponto de vista econmico, etnogrfico
Entretanto Agfia Mikailovna ia trazendo os doces de fruta
- Felicito-a, Agfia Fiodorovna - disse-lhe Stepane Arkadievitch, beijando-lhe as pontas dos dedos. - Que conservas, que ratafia1 Olha l, Kstia, no sero horas de irmos'
Levme relanceou o olhar atravs da janela, para o Sol que declinava por detrs das copas das rvores ainda desnudadas
- Sim, acho que sim  Kuzma, manda atrelar o carro1 E lanou-se escadas abaixo, correndo  Stepane Arkadievitch seguiu atrs e foi ele prprio, com todas as cautelas, retirar a espingarda do estojo de madeira laada, metido numa bainha de pano   era uma arma
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cara e do ltimo modelo Contando com uma boa gorjeta, Kuzma seguia o de perto, e Stepane Arkadievitch deixou que ele o ajudasse a calar as meias e as botas.
- A propsito, Kstia, deve vir a um tal Riabimne, um homem de negcios Queres fazer o favor de dizer que o recebam e o faam esperar
- fi ao Riabimne que vais vender o teu bosque'
- . Conhece-lo, porventura'
- Claro  Tive negcios com ele "positiva e definitivamente"   ' Stepane Arkadievitch ps-se a rir "Positiva e definitivamente" eram expresses favoritas desse indivduo
- Sim, tem uma maneira de falar bem divertida Ah' Adivinhas para onde o teu dono vai - acrescentou, acariciando Laska, que estava aos pulos, em volta de Levine, e lhe lambia ora as mos ora as botas e a espingarda
Saram  O carro esperava-os  porta.
- Mandei preparar o carro, embora seja muito perto daqui, mas, se preferes, podemos ir a p
- Gostaria mais de ir de carro - volveu Stepane Arkadievitch, sentando se l dentro, envolveu as pernas numa manta mosqueada e acendeu um charuto-Como podes viver sem fumar' - continuou ele - O charuto  a volpia das volpias Ah, que vidinha boa a tua' Como eu te invejo'
- Quem te impede de fazer o mesmo'
- No  a mesma coisa Tu s um homem feliz, possuis tudo o que te d prazer gostas de cavalos, de ces, da caa, da cultura, e tens tudo isto aqui  mo s um homem feliz'
- Precisamente por-jue me contento com o que tenho e no ambiciono o que no tenho -- replicou Levine, que pensava em Kitty
Stepane Arkadievitch compreendeu a aluso, mas contentou-se em fit-lo sem dizer palavra Por mais reconhecido que se sentisse, para com Oblonski, pelo facto de este ter adivinhado, com o seu tacto nabitual, quanto esse assunto lhe era doloroso, Levine teria, no entanto, gostado de saber o que se passava, mas no tinha coragem de abordar a questo
- Bom,  diz me Ia   como vo as tuas coisas' - continuou, cen surando se a si prprio por no pensar seno no que o preocupava Nos olhos de Stepane Arkadievitch prepassou uma chama
- Tu no admites que uma pessoa possa desejar guloseimas quando j tem a sua rao de po Na tua opinio  um crime, mas eu no admito que se possa viver sem amor - respondeu ele, tendo compreendido,  sua maneira, a pergunta de Levine -No posso fazer outra coisa Nasci assim E para falar verdade, com isso  to pequeno o prejuzo que damos aos outros e to grande  o prazer que nos proporcionamos.
- Haver alguma coisa de novo' - inquiriu Levine.
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- H, sim, meu caro. Conheces o tipo das mulheres ossianescas essas mulheres que  s em sonhos  se vem' Pois podes crer,  essas mulheres existem por vezes em carne e osso     e ento so terrveis A mulher, como tu a vs,  um tema inesgotvel   por mais que se estude, h sempre nela qualquer coisa de novo
- Mais vale ento no a estudar
- Oh' Pelo contrrio' No sei quem foi o matemtico que disse que o prazer estava em procurar a verdade, no em encontr-la
Levine ouvia calado, mas, por mais que fizesse, no conseguia perceber a alma do amigo, no conseguia compreender o prazer que ele tinha em estudos daquela espcie
CAPTULO XIV
Os dois amigos chegavam  orla de uma mata de choupos novos que dominava o rio Desceram do carro, depois de deixar Oblonski no ngulo de uma clareira pantanosa, onde, por sob a neve, aflorava o musgo, Levine foi colocar-se no lado oposto, junto a uma btula rachada, apoiando a espingarda num ramo baixo, despiu o cafet, apertou o cinto e verificou a elasticidade dos movimentos
A velha Laska, que o tinha seguido, sentou-se cautelosamente diante dele e levantou as orelhas O Sol, que j desaparecia por detrs das grandes florestas, fazia realar os ramos pendentes, com os seus rebentos novos, das btulas disseminadas pelo meio dos choupos Na parte mais cerrada do matagal, onde a neve ainda no se fundira de todo, ouvia se o murmrio da gua a correr atravs de sinuosos regatos As aves chilreavam e de vez em quando esvoaavam de rvore para rvore Havia momentos de absoluto silncio, em que se ouvia o sussurrar das folhas secas remexidas pelo degelo ou pela erva que crescia
"Imaginem1 Pode ver-se e ouvir-se crescer a erva1", disse Levine para consigo mesmo, ao observar uma folha de choupo hmida e cor de ardsia que um rebentinho de erva levantava Imvel e de ouvido atento, per passava os olhos, da cadela atilada  terra coberta de musgo e  ramana das rvores nuas, cuja vaga ondulava pela encosta abaixo, para depois os erguer ao cu estriado de nuvens brancas que pouco a pouco iam escurecendo Num voo lento passou um abutre, muito alto no cu, outro o seguiu, desaparecendo por sua vez No matagal a melodia das aves tomou se mais estridente, mais animada Um mocho piou, muito prximo Laska ergueu as orelhas, deu alguns passos cautelosos e inclinou a cabea para ouvir melhor Do outro lado do no um cuco lanou por duas vezes
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o seu apelo cadenciado, mas, esganiando se, no soltou mais do que sons discordantes
- Estas a ouvir' J o cuco' - exclamou Stepane Arkadievitch, saindo do seu esconderijo
-  verdade, ouo - replicou Levme, rompendo contrariado o silncio dos bosques -Ateno  agora
Stepane Arkadievitch ocultou se de novo atras da moita e Levme nada mais viu alm do cintilar de um fsforo, logo seguido da chama vermelha e do fumo azul de um cigarro "Tchc, tchc", ouviu ele da a pouco Oblonski armava a espingarda
- Que gnto  este' - exclamou, chamando a ateno de Levme para um rudo surdo e prolongado, muito parecido com o relincho galho feiro de um potro
- Qu, pois no conheces'  o guincho do bode Mas, silncio, Ia vm pelo ar' - quase gritou Levme, armando tambm a espingarda
Um ligeiro assobio se ouviu assaz distante, depois, na cadncia r guiar de dois segundos, outro, e ainda um terceiro, este seguido de um giaSnido
Levme olhou para a direita, para a esquerda De sbito, mesmo diante dele, num cu de um azul toldado, por cima das copas mdeter minadas dos choupos de ramos entrelaados apareceu uma ave Um sorn agudo, muito parecido com o de um tecido que se rasga soou lhe aos ouvidos J distinguia o pescoo e o bico da gahnhola, mas mal o tinha visado, um relmpago vermelho se ergueu da moita onde estava Oblonski a ave mergulhou como uma flecha, para logo, numa curva, ascender no ar Um segundo relmpago cintilou, ouviu se um tiro, o animal, pr curando safar se, debalde bateu as asas, imobilizou se por momentos, e caiu pesadamente no cho
- Errei' - gritou Stepane Arkadievitch, cego pela fumarada
- Ali a tens' - replicou Levme apontando para a Laska que com uma orelha levantanda, agitando alegremente a ponta do rabo penugeto e esboando uma espcie de sorriso trazia, lentamente como para fazer durar a satisfao, a pea de caa  mo do seu dono - Com os meus cumprimentos' - continuou ele, recalcando um certo sentimento de despeito
- Foi um mau tiro do cano direito - resmoneou Stepane Arka dievitch, voltando a carregar a arma -Chiu1 La vem outra'
Efectivamente, assobios sucediam se a assobios, rpidos, penetrantes mas desta vez sem serem seguidos de qualquer grasnido Duas galinholas brincando, em perseguio uma da outra, surgiram precisamente por cima dos caadores Quatro tiros ressoram, mas as aves, fazendo um brusco desvio,  maneira das andorinhas, perderam se nos ares
J 56
A caada foi excelente Stepane A^adievitch matou ainda mais duas peas e Levme outras duas, uma das quais no foi encontrada A noite descia Muito baixo, para o lado do poente, Vnus, com as suas suaves cintilaes de prata, subia por entre as btulas enquanto rebn lha\a, Ia no alto, na direco do Levante, a chama vermelha do sombrio Arcturo Algumas das estrelas da Ursa Maior brilhavam de quando etn quando por cima de Levme A caada estava no fim, mas ele resolveu esperar que Vnus tivesse ultrapassado o ramo de uma btula por cima da qual a estava a vei e que a Ursa Maior estivesse completamente visvel A estrela, porm, ultrapassava o ramo e o carro da Ursa Maior e j se deixava ver por inteiro, continuando ele sempre  espera
- No so horas de voltarmos para casa' - perguntou Stepane Arkadievitch
Na floresta tudo era silncio, no se ouvia mexer uma ave
- Esperemos ainda - respondeu Levme
- Como quiseres
Estavam   nessa altura* a quinze passos um do outro
- Stiva1 - exclamou repentinamente Levme -No me disseste se a tua cunhada est casada ou para quando  o casamento
Sentia se to firme, to calmo, que nenhuma resposta, fosse qual fosse, o poderia perturbar Mas em verdade no esperava a resposta que Stepane Arkadievitch lhe ia dar
- No esta casada, nem nunca pensou em casar Est muito doente  pena, mas que hei de eu fazer' Ah, ah, minha linda, muito mal
- Que dizes' - exclamou Levme -Doente mas que tem ela' E como
Entretanto, Laska, de orelha atenta, perscrutava o cu, lanando lhes olhares de censura "Escolheram ma ocasio para dar  lngua'", p recia ela pensar "La vem outra Sim, Ia est ela Vo perde Ia"
No mesmo instante um silvo agudo arranhou o ouvido dos caadores, apontaram a arma, e os dois relmpagos, os dois tiros, confundiram se A gahnhola, que voava muito alto, debateu se e caiu em cima da ramana, quebrando os galhos novos
- ptimo1 Ao mesmo tempo1 - exclamou Levme, correndo com Laska em busca de presa "Que foi que ha momentos me deu um ds gosto to grande'", perguntava se ele "Ah, sim, a Kitty esta doente  pena, mas que hei de eu fazer'" Ah, ah, minha linda, apanhaste a' - voltou ele em voz alta, retirando da bocarra de Laska a ave ainda quente, para a lanar na bolsa quase cheia -Encontrei a, Stiva - gritou ele alegremente
No regresso a casa, Levme fez muitas perguntas sobre a doena de Kitty e os projectos dos Tcherbatski Sem que ousasse confessa Io a si prprio, os pormenores que lhe forneceu o amigo deram lhe um secreto prazer Ainda podia ter uma esperana, e sobretudo no lhe desagradava
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pensar que aquela que tanto o fizera sofrer sofresse por seu turno Mas quando Oblonski se referiu s causas da doena de Kitty e pronunciou o nome de Vronski, Levme interrompeu o
-No tenho o direito de ser iniciado nos segredos de famlia, os quais, para te falar verdade, no me interessam
Stepane Arkadievitch esboou um sorriso acabava de surpreender na expresso de Levme aquela brusca passagem da alegria  tristeza que ele to bem lhe conhecia
- Fizeste negcio com o Riabinine' - perguntou Levme
- Fiz, ofereceu me um bom preo trinta e oito mil rublos, oito mil adiantados e os trinta mil restantes a pagar no prazo de seis anos Trouxe
-me muito apoquentado este negcio, ningum me ofereceu mais
- Vais dar lhe o bosque por uma ninharia' - comentou Levme em voz triste
- Que dizes' Por uma ninharia' - ripostou Stepane Arkadievitch com um sorriso divertido, pois sabia que Levme a partir daquele mo mento estaria descontente com tudo
- Esse bosque vale, pelo menos, quinhentos rublos a desiatma - retrucou Levme
- Ah, estes lavradores' - gracejou Stepane Arkadievitch - Vocs, com esse desdm esmagam os pobres citadinos como ns1 No entanto, quando se trata de negcios, samo nos melhor do que vocs Podes crer calculei tudo O bosque  vendido em condies excelentes e eu s tenho
iiedo de uma coisa que o comprador se arrependa  preciso considerar que no tem madeira para construo - continuou ele, sublinhando as palavras, pois pensava reduzir a nada todas as dvidas de Levme, com aquela informao tcnica -  quase tudo madeira para queimar e no tem mais de trezentos sajenas por desiatma Ora, ele paga me a duzentos rublos cada uma
Levme teve um sorriso de desdm "Ora, conheo bem", pensou ele, "esse tipo de cavalheiros da cidade que s porque de dez em dez anos vm uma ou duas vezes  aldeia e s porque aprendem duas ou trs expresses populares e as empregam com ou sem propsito, julgam que sabem mais que toda a gente O pobre rapaz fala de coisas de que no percebe patavina "
- No me atrevo a dar te lies quando se trata de papelada da tua repartio - replicou ele - E at sou capaz de te pedir conselhos sobre a matria Mas tu julgas por acaso que conheces a fundo assuntos de bosques' O que te posso dizer  que so complicadssimos Contaste as tuas rvores'
- Qu' Contar as rvores'' - objectou, rindo, Stepane Arkadie-vitch, que a todo o custo queria obrigar o amigo a voltar  sua antiga alegria -Contar as areias do mar e os astros do cu  obra de gnios1
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r
- Pois garanto te que o gnio de Riabimne consegue esse milagre Mo h um s negociante que compre um bosque sem contar as rvores, a no ser que o receba de graa, como  o caso Conheo muito bem o teu bosque, vou l caar todos os anos vale quinhentos rublos a desiatma, dinheiro na mo, e ele oferece duzentos a prazo Ds lhe de presente nada mais nada menos do que uns trinta mil rublos
- No te entusiasmes, que diabo1 - disse Oblonski, em tom queixoso -Mas por que  que ningum me ofereceu esse preo'
- Porque Riabinine est mancomunado com os outros negociantes e prometeu lhes luvas Conheo toda a essa malta, tive negcios com ela, entendem se uns com os outros muitssimo bem Rezam todos pela mesma cartilha Fica descansado, o Riabinine no liga aos pequenos lucros, lucros de dez a quinze por cento Espera o momento azado, e compra por vinte copeques o que yale um rublo
- Vs tudo negro
- De maneira nenhuma' - concluiu Levme em tom taciturno, quando j se aproximavam de casa
Diante da porta estava paradfe uma telega, solidamente recoberta de ferro e couro, atrelada a um cavalo bem tratado, em que se repimpava o empregado de Riabinine, rapazola muito corado e de cafet cinzento, que naquela altura servia de cocheiro O patro, esse, aguardava os dois amigos no vestbulo Era um homem de meia idade, alto, seco, de grandes bigodes, o queixo rapado e proeminente, os olhos meigos e  flor do rosto Com um redingote de longas abas ornadas de botes da cintura para baixo, calava botas cujos canos lhe subiam at ao joelho e, por cima destas, umas enormes galochas Limpou o rosto com o leno, apanhou, sem que fosse necessrio, as abas do redingote, e caminhou para os recm chegados, de sorriso nos lbios, estendendo a Oblonski uma mo que parecia querer agarrar lhe alguma coisa
- Ora aqui o temos - exclamou Stepane Arkadievitch, apertando-lhe a manipula -ptimo'
- Embora as estradas estejam muito ms, no me atrevi a desobedecer s ordens de Vossa Excelncia Percorri o caminho todo a p mas aqui estou na data combinada Os meus respeitos, Constantino Dimitrievitch - prosseguiu ele, voltando se para Levme, no intuito de lhe apertar tambm a mo, mas este, que na ocasio retirava as gahnholas da sacola de caa, fingiu no dar pelo gesto -Vossas Excelncias divertiram se na caa' - acrescentou Riabinine, com um olhar de menosprezo para as gahnholas -Que pssaro vem a ser esse' Ser possvel que isso saiba a alguma coisa' - e abanou a cabea de maneira reprovadora seria comida digna de cristos'
- Queres ir para o meu escritrio' - perguntou Levme em francs a Stepane Arkadievitch, num tom francamente lgubre - Entrem para o meu escritrio, a trataro dos seus negcios - contmuou_em russo
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- Onde quiserem - comentou o comerciante, com ar de desdenhosa superioridade, querendo dar a entender que, se havia quem ignorasse as regras da cortesia, ele, Riabmme estava sempre e onde quer que fosse perfeitamente  vontade
Ao entrar no escritrio, Riabmme, maquinalmente, procurou com a vista a imagem sagrada, mas quando deu com ela no se persignou Para a estante e para as prateleiras carregadas de livros teve o mesmo olhar de desprezo, o mesmo aceno de cabea que paia as galinholas tambm aquilo no valia nada
- Bom,   trouxe   o   dinheiro   consigo' - perguntou   Oblonski -
Sente se
_O dinheiro no h de faltar   Por ora vamos conversar
- A respeito de qu' Mas sente se, sente se
- Bom - disse Riabmme, deixando se cair numa poltrona e apoiando se lhe nas costas da maneira mais incmoda que se possa imaginar - preciso fazer um abatimento, meu prncipe Seria pecado, se o no fizesse Quanto ao dinheiro, tenho o pronto, at ao ltimo copeque Por esse lado no haver dificuldades
Esta conversa fez estacar Levine que depois de anumar a espingarda no armrio, se dispunha a retirar se
- O qu' - interveio ele - Pois ainda quer um tesouro' Atas o preo que voc oferece j  ridculo Se o meu amigo se tivesse antes dirigido a mim, eu lhe teria sugerido o preo
Riabmme levantou se e, sorrindo, fitou Levine
- Em questes de dinheiro, Constantmo Dimitriewtch  duro de roer - disse ele, dirigindo se a Oblonski - Com ele nunca se faz negcio, quis lhe comprai o trigo, ofereci lhe bom preo e
- Por que razo lhe havia eu de dar de mo beijada o que  meu' Que eu saiba, no o achei nem o roubei
- Graas a Deus, hoje em dia  positivamente impossvel roubar Hoje em dia, com os tribunais abertos, e as coisas todas feitas de acordo com a lei, no se pode falar em roubar Tudo se passa honestamente e com lisura Como havia um homem de roubar nestas condies' Estamos a tratar destas coisas como gente honrada Sua Excelncia pede muito pelo bosque No chego at l Tem de me fazer uma reduozinha
- Mas o negcio est ou no est fechado' Se est, no ha mais que regatear, caso contrrio, sou eu quem compra o bosque
O sorriso desapareceu do rosto de Riabmme, onde surgiu uma expresso cruel de ave de rapina Com os dedos ossudos e geis, desa botoou o redmgote, deixando ver por baixo a blusa russa o colete de botes de cobre, a cadeia do relgio, e acabou por retirar l de dentro uma carteira velha e recheada
- O bosque  meu, se me da licena - proferiu ele, estendendo a mo depois de um breve smal-da cruz Tome o seu dinheiro, o bosque
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 meu  assim que Riabmme trata dos seus negcios, no  homem para discutir ninharias - acrescentou em tom desabrido, brandindo a carteira
- Eu, no teu lugar, no me precipitava - aconselhou Levine
- Que ests a dizer' - objectou, no sem surpresa, Stepane Arka-dievitch -Dei-lhe a minha palavra
Levine saiu batendo com a porta Riabmme abanou a cabea, sorrindo
- Tudo isto, como v, so mfantihdades, positiva e definitivamente, Palavra que o compro exclusivamente pela honra de que se diga "Foi o Riabmme, e no outro qualquer, que comprou o bosque de Oblonski >j E s Deus sabe se no terei prejuzo' Palavra de honra Agora, ser bom redigirmos um contratozmho
Uma hora depois, o homem de negcios, de redmgote abotoado, o gibo aconchegado ao peito, voltava a subir para a sua telega bem slida, levando para casa um contrato em boa e devida forma
- Oh, estes fidalgos' - disse para o empregado - So todos iguais'
-  assim mesmo - volveu lhe o ajudante, entregando lhe as rdeas para abotoar o avental de couro da telega -E a respeito da compra, Mikail Ignati'
- Ora! Ora'   .	*
CAPTULO XV
Stepane Arkadievitch subiu para o l  andar, com o bolso cheio do dinheiro correspondente a trs meses que Riabmme lhe soubera fazer aceitar por conta A venda estava feita, tinha o dinheiro na carteira, a caa fora boa sentia-se, portanto, com ptima disposio e era seu desejo rematar agradavelmente, com uma lauta ceia, aquele dia to bem comeado Para isso precisava, fosse como fosse, distrair Levine, mas, por mais que este procurasse mostrar se amvel e cordial, no conseguia desanuviar o esprito das suas ideias negras A notcia de que Kitty no estava casada como que o embriagara, mas no fundo a sua embriaguez comeava a desvanecer-se Solteira e doente, doente de amor por aquele que a desprezara' Era quase uma injria pessoal Vronski repelira-a, mas ela repelira Levine No teria Vronski o direito de o desprezar' Levine, porm, no reflectia sobre isso Apenas sentia vagamente que em tudo aquilo havia qualquer coisa de insultuoso para ele, contudo, no estava zangado agora com o que o perturbara ento, mas com o que presentemente se lhe deparava Aquela absurda venda do bosque, o logro de que Oblonski fora vtima sob o seu prprio tecto, irritavam no particularmente
- Ento, est tudo pronto' - perguntou, ao ver chegar Oblonski - Queres cear'
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- No digo que no O campo d me um apetite de lobo Mas por que no convidaste o Riabmme'
- Que v para o diabo que o carregue1
- Caramba, como tu o tratas1 Nem mesmo lhe estende te a mo, porqu'
- Porque tambm no a estendo ao meu criado, que vale cem vezes mais do que ele
- Que ideias obsoletas1 E que dizes da fuso das classes'
- Deixo isso para as pessoas a quem semelhante coisa  agradvel, no que me diz respeito, d me nuseas
- Decididamente, no passas de um retrgrado
- Para falar a verdade, nunca perguntei a mim prprio o que seria Sou, muito simplesmente, Constantino Levine
- Um Constantmo Levine levado dos diabos - disse Oblonski, sorrindo
- Tens razo E sabes por qu' Por causa dessa venda estpida, desculpa o termo
Stepane Arkadievitch assumiu uma expresso de inocncia ultrajada
- Bom - disse ele---, quando  que j aconteceu algum vender alguma coisa, sem que lhe digam logo em seguida "Mas isso valia muito mais'"' Infelizmente, nunca aparece quem pague esse bom preo antes de as coisas estarem vendidas No, estou persuadido de que no toleras esse pobre Riabmme
- Talvez, e vou dizer te porqu Podes tratar me de retrogrado ou de qualquer outro nome to ridculo como esse, no posso deixar de deplorar o empobrecimento geral desta nobreza,  qual, apesar da fuso das classes, eu me sinto feliz por pertencer Ainda se se tratasse de uma consequncia das nossas prodigalidades, estava certo levar uma vida larga  privilegio dos nobres e s eles o sabem fazer No me da engulhos ver os camponeses comprarem as nossas terras Como o proprietrio no faz nada, o campons, que trabalha, toma o lugar dos ociosos Est na ordem natural das coisas, e acho que deve ser assim Mas o que me vexa  verificar que a nossa nobreza se est a deixar despojar por como  que hei de dizer' sim,  isso mesmo, por inocncia! Aqui  um lavrador polaco que compra por metade do preo, a uma dama que vive em Nice, uma propriedade magnfica Acol  um negociante que arrenda por um rublo a desiatma o que vale dez Hoje s tu que, sem mais nem menos, das de presente a esse malandro trinta mil rublos
- Ento, na tua opinio, eu devia ter contado as rvores uma por uma'
- Isso mesmo Se no as contaste, podes ter a certeza de que Riabmme as contou por ti Os seus filhos tero com que viver e com que se instruir enquanto os teus, s Deus o sabe
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- Desculpa-me, mas acho esse clculo mesquinho Ns temos as nossas ocupaes, eles tm as deles, e  muito compreensvel que tirem partido disso Em concluso, o negcio est feito e no vale a pena falar mais no caso A vm ovos estrelados, o meu prato favorito E Agfia Mikailovna, assim o espero, vai trazer-nos daquela magnfica vodka
Oblonski sentou se  mesa e ps se a gracejar com Agfia Mikai lovna, dizendo lhe que havia muito no jantava nem ceava to bem
- Ao menos - disse ela - sempre tem uma palavra agradvel a dizer, enquanto a Constantmo Dimitrievitch podamos lhe servir  vontade apenas uma cdea de po que a comeria e se iria embora sem dizer palavra
Por mais esforos que fizesse para se dominar, Levine continuava macambzio e silencioso Tinha na ponta da lngua uma pergunta que no se atrevia a fazer, no sabendo como nem de que maneira formula Ia Stepane Arkadievitch j tivera tempo de descer ao seu quarto, de fazer as suas ablues, de vestir uma camisa de noite plissada e de se deitar, enfim, e Levine ainda andava em volta dele, falando de coisas insigni ficantes, sem coragem para pergurJfar o que no lhe saa do pensamento
- Que bem apresentado, no achas' - disse ele, desembrulhando um sabonete perfumado, uma ateno de Agfia Mikailovna, de que Oblonski nem sequer se servira -Ora repara  uma autntica obra de arte
-  verdade, hoje tudo se est a aperfeioar - aprovou Stepane Arkadievitch com um bocejo de felicidade -Os teatros, por exemplo, e outros locais de divertimento -Aqui um novo bocejo -Por toda a parte j ha luz elctrica
- Sim, luz elctrica - repetiu Levine - A propsito, e Vronski, que  feito dele' - ousou, finalmente, pondo de lado o sabonete
- Vronski - repetiu Stepane Arkadievitch, deixando subitamente de bocejar -Est em Sampetersburgo Partiu pouco depois de ti e nunca mais voltou a Mscovo Queres saber, Kstia' - prosseguiu ele, encostando se  mesinha de cabeceira e apoiando nas mos o seu belo rosto onde brilhavam, como duas estrelas, os seus olhos bondosos um pouco sonolentos - Vou dizer te a verdade A culpa foi tua Tiveste medo de um rival e repito te o que ento te disse no sei qual de vocs dois teria mas probabilidades de xito Por que no te adiantaste' Eu no te disse, ento
E um bocejo lhe movimentou as maxilas, num esforo para no abrir a boca
"Saber ele, ou no, que pedi a mo de Kitty'", interrogava se Levine, fitando o "Sim, ha manha, h diplomacia na cara dele " E sentindo -se corar, mergulhou os olhos nos de Oblonski sem abrir a boca
- Admitindo - continuou Stepane Arkadievitch - que ela se sen tisse atrada por ele, no podia deixar de ser uma atraco superficial
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A me  que se deixou seduzir pela aristocracia das maneiras do rapaz e pela brilhante posio que ele um dia vir a ocupar na sociedade
Levine franziu as sobrancelhas A injria do repdio trespassava -lhe de novo o corao como uma ferida recente Felizmente estava em sua casa e um homem em sua casa sente se sempre mais forte
- Espera, espera - exclamou ele, interrompendo Oblonski - Falas da sua procedncia aristocrtica Podes dizer me em que consiste a aristocracia de Vronski ou de qualquer outra pessoa e em que essa aris tocracia autoriza o desprezo que tiveram para comigo' Consideram no um aristocrata No sou da mesma opinio Um homem cujo pai subiu na vida graas a miserveis intrigas e cuja me teve aventuras sem conta No, isso no Eu chamo aristocratas aos homens que como eu podem orgulhar se de ter atrs de si trs ou quatro geraes de gente honesta, instruda, educada (no falo de dotes de esprito, isso  outra coisa), que, no tendo precisado de ningum, nunca se rebaixaram diante de quem quer que fosse Assim foram o meu pai e o meu av E conheo muitas famlias do mesmo tipo Ds de mo beijada a Ribiamne trinta mil rublos e achas mesquinho que eu conte as rvores das minhas florestas, mas ainda um dia hs de dispor de uma propriedade do Estado e de muito mais coisas e eu nada obterei Isto  a razo por que trato de poupar a que herdei de meu pai e o que consegui amealhar com o meu trabalho Ns  que somos os aristocratas e no esses que vivem  custa dos poderosos deste mundo e que se deixam comprar por pouca coisa
- Mas a quem ests a atacar' Eu sou da tua opinio - respondeu com toda a sinceridade Stepane Arkadievitch, divertido com esta sada, mas desconfiado de que Levine o inclua tambm na categoria dos que se deixam comprar por pouca coisa - No estas a ser justo para com Vronski, mas no  disso que se trata Digo te com toda a franqueza devias vir comigo para Moscovo e
- No No sei se soubeste o que se passou De resto, tanto faz, vou te dizer declarei me a Catarina Alexandrovna e ela brindou me com uma negativa que me torna a sua lembrana penosa e humilhante
- Por qu' Que loucura1
- No falemos mais nisso E se me exaltei, peo te que me ds culpes
Agora   que falara,  finalmente, voltava a sentir se bem disposto
- Bom - tornou ele, sorrindo e apertando a mo de Oblonski - Ficaste zangado comigo5 Por favor, no te zangues, Stiva'
- Nunca pensei em zangar me Estou muito contente que nos tenhamos aberto um com o outro Mas diz me uma coisa  boa a caa pela manh' Achas que sim' Passarei bem sem dormir, e depois da caa irei directamente para a estao
- De acordo
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CAPTULO XVI
Embora a vida ntima de Vronski estivesse inteiramente absorvida pela paixo, a sua vida exterior seguia o curso imutvel, oscilante entre os deveres mundanos e as obrigaes militares O regimento desempenhava um papel muito importante na sua existncia em primeiro lugar gostava dele e depois porque Ia o apreciavam No s o apreciavam como o rs peitavam, todos se orgulhavam de ver um homem to rico, to instrudo, to bem dotado, colocar os interesses do seu regimento e dos seus camaradas acima dos triunfos do amor prprio e da vaidade a que tinha O direito de aspirar Vronski dava conta dos sentimentos que inspirava e julgava se na obrigao de os alimentar Alis, a carreira das armas agradava lhe
 bvio que a ningum falava do seu amor Nem uma s palavra imprudente lhe saa da boca no decurso das mais demoradas pndegas (de resto, nunca se embriagava a ponto de perder o autodomnio) E sabia tapar a boca aos indiscretos que porventura se atreviam a fazer qualquer aluso aos seus problemas sentimentais No entanto, esses problemas eram o prato do dia da cidade, toda a gente desconfiava, mais ou menos, da sua aven tura com Ana Karenina A maior parte dos jovens invejava precisamente o que ele mais pesava naquela ligao a alta posio social do marido posto em xeque, o que dava ao caso a importncia de um acontecimento mun dano A maior parte das jovens, invejosas de Ana, a quem estavam fartas de ouvir tratar de "irrepreensvel", viam com prazer cumpridos os seus vaticnios e aguardavam apenas a sano da opinio pblica para sobre ela despejarem todo o seu desprezo J tinham guardada a lama que lhe atirariam quando chegasse o momento As pessoas mais velhas e as de nvel elevado receavam o escndalo e mostravam se descontentes
A condessa Vronski comfara por ter conhecimento dos amores do filho com uma alegria maliciosa no havia nada que se cdhnparasse, na sua opinio, para ajudar a formar um jovem, a uma ligao na alta socie dade No lhe desagradava a ideia de que essa Karenma, que tanto apre ciava e s lhe falava do filho pequenino, tivesse acabado por dar um mau passo, como de resto acontecia a todas as lindas mulheres da sua classe Esta indulgncia cessou, porm, desde que soube que Alexei, para no se afastar de Ana, recusara uma promoo importante, coisa que descon tentara alguns altos personagens Acabara tambm por compreender que aquela paixo, em vez de um brilhante capricho, que ela aprovaria de bom grado, assumia propores trgicas,  Werther, e ameaava levar o filho a cometer alguns disparates Como no tornara a ver Vronski depois da sua brusca partida de Moscovo, mandou preveni Io pelo irmo mais velho de que desejava falar lhe Este to pouco escondia o seu descon tentamento, no que lhe desse cuidado o facto de os amores do irmo
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mais novo serem profundos ou efmeros, serenos ou apaixonados, inocentes ou culposos (ele prprio, embora pai de famlia, mantinha uma danarina e no tinha o direito de se mostrar severo); mas, sabendo que estes amores desagradavam a pessoas a quem era preciso agradar, no podia deixar de censurar Alxei,
Alm do servio militar e das suas relaes mundanas, Vronski consagrava parte do seu tempo a uma segunda paixo, a dos cavalos. Os oficiais organizavam nesse ano uma corrida de obstculos. Vronski inscrevera-se e comprara uma gua inglesa puro sangue. Apesar do seu amor, e posto que pusesse nisso reserva, o certo  que esta corrida tinha grande interesse para ele.
Alis, as duas paixes no se prejudicavam uma  outra. Vronski preciava, alm de Ana, de uma actividade qualquer que o repousasse, que o distrasse das emoes violentas por que passava.
CAPTULO XVII
No dia das corridas de Krasnoi a Selo, Vronski, mais cedo que de costume, foi comer um bife ao refeitrio dos oficiais. No precisava de ter cuidados muito rigorosos com a alimentao, pois o seu peso estava dentro dos setente e dois quilos regulamentares, mas tambm no devia engordar, e por isso mesmo se abstinha de ingerir acar e farinceos. Os cotovelos na mesa, o dlman desabotoado, deixando ver o colete branco, parecia absorto na leitura de um romance francs aberto em cima do prato, quando apenas adoptava essa atitude para mais facilmente se esquivar  conversa dos que entravam e saam. O seu pensamento estavr. longe dali.
Pensava no encontro que ia ter com Ana depois das corridas, como ela lhe prometera. Como no a via h trs dias, a si prprio perguntava se ela poderia cumprir a promessa que lhe fizera, pois o marido acabava de chegar de uma viagem ao estrangeiro. Como ter a certeza? Haviam-se encontrado pela ltima vez na casa de campo de Betsy, sua prima, pois deixara de frequentar a casa dos Karenines. Era onde, no entanto, tencionava dirigir-se naquele momento e para l se apresentar dava tratos  imaginao  procura de um pretexto plausvel.
"Direi que Betsy me encarregou de perguntar se ela pretende assistir s corridas. Sim, com certeza, irei", decidiu ele. E era tanta a vivacidade com que a imaginao lhe pintava a felicidade daquela entrevista que no seu rosto, repentinamente levantado, resplandeceu a alegria.
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- Manda dizer a minha casa que atrelem o mais depressa possvel 4 caleche - disse ele ao criado que lhe trazia o bife numa bandeja de prata. Puxou a bandeja para junto de si e principiou a comer.
Na sala de bilhar contgua, por entre o ressoar das bolas, ouvia-se 0 rudo de vozes de mistura com gargalhadas. Dois oficiais apareceram j porta: um muito novo, de rosto delicado, que acabava de sair do Corpo de Pajens, e outro, gordo e idoso, com uns olhinhos apertados e uma pulseira no brao.
Vronski relanceou-lhes um olhar enfadado e voltando a fixar a vista no livro fingiu no os ver.
- Ento, ests a fortalecer-te, hem? - disse o oficial gordo, sentando-se junto dele.
-  o que vs - replicou Vronski, em tom enfastiado, sem levantar os olhos.
- No tens medo de engordar ? - continuou o outro, oferecendo unia cadeira ao camarada jovem.
- Que dizes? - inquiriu Vronski cada vez mais aborrecido e sem esconder um gesto em que havia repulsa.
- No tens medo de engordar?
- Rapaz, traz Xerez! - gritou Vronski, sem lhe responder, e depois de ter transportado o livro para o outro lado do prato, voltou a mergulhar na leitura.
O robusto oficial pegou na lista dos vinhos, apresentou-a ao mais novo" e disse, olhando para ele:
- Aqui tens o que ns podamos beber.
- Vinho do Reno, se queres - respondeu o jovem, que, enquanto cofiava o imperceptvel bigode, pousava em Vronski um olhar tmido. Ao ver que este no se mexia, levantou-se.
- Voltemos para a sala de bilhar - props ele.
O oficial idoso seguiu-o docilmente. Iam sair quando apareceu um belo moo, o capito de cavalaria lachvine. Este mal lhes fez uma continncia condescendente: foi logo direito a Vronski.
- Ah, c est ele! - exclamou, deixando cair pesadamente a mo sobre o ombro do rapaz. Vronski voltou-se, pouco satisfeito, mas logo no seu rosto reapareceu a serenidade habitual.
- Bravo, Alexei - exclamou, em voz de bartono, o capito. - Come, e no deixes de beber um trago.
- No tenho fome nenhuma.
- So inseparveis - continuou lachvine, relanceando um olhar irnico aos dois oficiais que se afastavam. E sentou-se junto de Vronski, encolhendo as longas pernas, moldadas no calo de montar, demasiado compridas para a altura das cadeiras. - Por que no foste ontem ao Teatro de Krasnoie? A Numerova realmente no representa nada mal. Onde estiveste?
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- Demorei me em casa dos Tverskoi
- Ah, sim    '
Bbedo, jogador, destitudo de princpios, ou antes dotado de pnn cpios unicamente imorais, lachvme era o melhor camarada de Vronski no regimento Este admirava-lhe a excepcional fora fsica, que ele punha  prova, sobretudo quando bebia como uma ostra, ou passando noites inteiras sem dormir, se fosse preciso No admirava menos a sua fora moral, que lhe granjeava a considerao um tanto inquieta dos superiores e dos camaradas e lhe permitia arriscar no jogo, mesmo depois das maiores farras, dezenas de milhares de rublos com uma serenidade e uma presena de esprito de tal modo imperturbveis que no Clube Ingls o consideravam o primeiro dos jogadores Alm disso, Vronski sentia que lachvme o estimava por ele prprio e no por causa do seu nome nem da sua fortuna Eis por aue lhe dedicava uma afeio sincera e teria desejado falar lhe - e s a ele - da sua paixo, conven eido de que, apesar do desprezo de que dava mostras por toda a espcie de sentimentahsmos, s ele, lachvme, podia compreender a profundeza daquele amor, s ele, lachvme, no faria dessa paixo um motivo de maledicncia Sem nunca lhe ter dito absolutamente nada, lia se lhe nos olhos que lachvme sabia tudo e considerava o caso com a seriedade desejada
- Ah, sim' - disse o capito Um relmpago lhe perpassou plos olhos negros enquanto, em obedincia a um tique familiar, metia entre os lbios a guia esquerda do bigode
- E tu, que fizeste ontem  noite' Ganhaste'
- Oito mil rublos, trs mil dos quais talvez nunca os verei
- Ento no tenh nrsos de te fazer perder - disse Vronski, rudo, pois sabia que L J\ apostara nele uma importncia avultada
- No espero peni      > temos a temer Makotme E a conversa passou a girar em torno das corridas, o nico assunto que no momento era susceptvel de despertar o interesse de Vro iski
- Bom, acabei - disse este, por fim -, podemo nos ir embora Levantou se e dirigiu se para a porta  lachvme ergueu se tambm, estirando as largas espduas e as longas pernas
- No posso jantar to cedo, mas vou beber qualquer coisa Acompanho te Eh' Vinho' - gritou ele, na sua voz tomtruante, que fazia estremecer as vidraas, e no tinha rival nas vozes de comando - No,  intil1 - exclamou, logo em seguida -Visto que voltas para casa, acompanho te
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CAPTULO XVIII
Vronski estava instalado numa choupana finlandesa, grande e asseada, dividida ao meio por um tabique Tal como em Sampetersburgo, tinha na sua companhia Petntski, que dormia quando Vronski e lachvme chegaram
- Levanta te, j dormiste bastante - disse lachvme, sacudindo o dorminhoco plos ombros, atrs do tabique onde ele estava deitado, de cabelos desgrenhados e o nariz enterrado no travesseiro
Petntski deu um pulo e ficou de joelhos, enquanto olhava em redor com os olhos ainda mal abertos
- Esteve a o teu irmo - diss^ a Vronski - Acordou me, o grande animal, para me dizer que voltava
Dito isso, tornou a enterrar a cabea no travesseiro, cobrindo se com a colcha
- Deixa me em paz caramba - exclamou, colrico, para lachvme, que lhe puxava a roupa - Deixa me' - Virou se para ele e abriu defi nitivamente os olhos -Era melhor que me dissesses o que devo beber para acabar com este amargor que tenho na boca
- Vodka,  o que h de melhor - vociferou lachvme -Terets chenko, depressa, vodka e pepino de conserva para o teu patro' - gritou ele, evidentemente deliciado com as modulaes do seu vozeiro
- Vodka' Achas'-perguntou Petntski, esfregando os olhos - Se tu tomares tambm, estou aqui para o que der e vier E tu, Vronski, fazes nos companhia '
Ao levantar se da cama, ps se a andar, embrulhado numa colcha listrada, os braos para cima, trauteando em francs "Havia um rei em Tu tu l"
- Ento, Vronski - repetia ele -, fazes nos companhia ou no'
- Vai bugiar' - replicou Vronski a quem o criado oferecia nesse momento o uniforme
- Aonde vais' - perguntou lachvme, ao ver aproximar se da casa uma caleche tirada por trs cavalos
- A cavalaria e de l a casa de Bnanski, com quem tenho uns assuntos a tratar
Prometera, com efeito, a Brianski, que morava a umas dez verstas de Peterov, regularizar com ele uma compra de cavalos e esperava ter tempo de passar por sua casa Mas os camaradas imediatamente perce beram que ele ia a mais algum lugar Continuando a cantarolar, P tritski piscou o olho e fez uma careta, que significava "Ns sabemos o que quer dizer Bnanski "
- No vs chegar tarde - foi o nico comentrio de lachvme, e para mudar de conversa - a propsito o meu ruo tem se portado
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bem ? - perguntou, observando, atravs da janela, o cavalo que vendera a Vronski.
Quando este j ia a sair, Petntski deteve-o, gritando:
- Espera, o teu irmo deixou-te uma carta e um bilhete. Onde demnio os meti eu?
- Bom, onde esto eles'
- Onde esto eles' Eis a questo - declarou Petntski, cravando o dedo na fronte
- Vamos,  diz  l,  isso  estpido1 - tornara Vronski,  sorrindo
- No acendi o fogo Portanto tm de estar por a
- Basta de gracejos' Onde est a carta'
- Palavra de honra, no sei Teria eu sonhado, porventura' Espera, espera, no te zangues Se tivesses emborcado quatro garrafas, como eu, ontem  noite, tambm tu perderias a noo das coisas Espera, vou procurar lembrar-me.
Petntski voltou para trs do tabique e deixou-se cair de novo sobre a cama
- Bem, era assim que estava deitado e ele estava ali . Sim, sim, sim, ora a est
E tirou a carta de debaixo do colcho
Vronski pegou na carta, que vinha acompanhada de um bilhete do irmo. Era o que ele esperava a me censurava-o por no ter ido v-la e o irmo desejava falar-lhe urgentemente. "Que tm que ver com a minha vida'", murmurou para si mesmo e, amarrotando os dois papis, mtroduziu-os entre os botes do dlman, com a inteno de os ler, no caminho, mais  sua vontade.  entrada esbarrou com dois oficiais, um dos quais de outro regimento. Era costume escolherem a sua casa para ponto de reunio.
- Aonde vais? - perguntou um deles.
- A Peterov, tratar de negcios.	r
- O teu cavalo j chegou de Tsarskoie?
- J, mas eu ainda no lhe pus a vista em cima.
- Dizem que o Gladiador, o cavalo de Makotme, coxeia.
- Tolice' - disse o outro oficial - Mas como ho-de vocs correr com toda essa lama'
- Ah, ah1 Vm-me salvar a vida' - exclamou Petntski, ao ver entrar mais aqueles dois, a quem o ordenana oferecia, numa bandeja, pepinos e vodka - Como vem, lachvme manda me beber para refrescar as ideias.
- Sabem que nos fizeram passar uma noite em claro' - disse um dos oficiais
- Se soubessem como a terminmos' - replicou Petntski - Volkov trepou ao telhado e de l participou-nos que estava triste E se fizssemos
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um pouco de msica', propus eu; uma marcha fnebre' E ao som da jnarcha fnebre adormeceu ali mesmo em cima do telhado.
- Toma ento a tua vodka e por cima soda e muito limo - disse lachvme, animando Petntski, como uma me que quer que o filho engula um purgante. - Depois, tens o direito de mandar vir uma garrafa de champanhe.
- Gosto mais. Espera um pouco, Vronski, vais beber connosco'
- No, meus senhores, adeus. Hoje no bebo.
- Tens receio de ficar muito pesado. Est bem, passaremos sem ti Depressa, soda e limo
- Vronski' - gritou algum, no momento em que este saa.
- Que aconteceu?
- Devias mandar cortar o cabelo, faz-te muito pesado. Sobretudo a careca
Uma calvcie precoce afligia Vronski Sorriu com o gracejo e pondo o qupi na cabea, para esconder o ponto final, saiu de casa e entrou para a caleche.
-   cavalaria!-ordenou.	-t Ia pegar nas cartas para as reler, mas, pensando melhor, preferiu no se distrair e adiou a leitura para depois da visita  cavalaria.
CAPTULO XIX
Deviam ter trazido na vspera o cavalo de Vronski para a cavalaria provisria, barraca de madeira armada  pressa nas cercanias do campo de corridas. Como dias antes deixara ao cuidado do treinador a obrigao de lev-la a passear, Vronski j esperava o estado em que ia encontrar a sua montada. Assim que viu aproximar-se a caleche, o cavalario (groom, como lhe chamavam) mandou buscar o treinador. Este, um ingls esgalgado, com um tufo de plo no queixo, de palet curto e botas altas, veio ao encontro do amo, no seu andar pesado e bamboleante, os cotovelos afastados, posio habitual dos jqueis.
- Como est a Frufru? - perguntou Vronski em ingls.
- AU nght, sir- replicou o ingls em voz gutural - melhor no entrar - acrescentou, tirando o chapu - Pus-lhe um aaimo e est agitada Se nos aproximarmos, vai ficar nervosa.
- Mesmo assim, quero v-la
- Bom, est bem - consentiu o ingls, contrariado, falando sem abrir a boca E franzindo o sobrolho tomou a dianteira com o seu passo desengonado, abrindo os cotovelos.
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Penetraram no ptiozmho da barraca O cavalario, um rapaz bem posto e d bom aspecto, abriu lhes a porta, de vassoura na mo Cinco cavalos ocupavam a,cavalaria, cada um deles no seu box; o de Mako tine, o concorrente de Vronski mais temvel, Gladiador, um alazo robusto, devia estar l Vronski, que no o conhecia, tinha mais curi sidade de v Io do que ver a sua prpria gua, mas o regulamento das corridas impediu o de solicitar que lho mostrassem e at mesmo de perguntar o que quer que fosse a respeito dele Enquanto seguia pelo corredor, o cavalario abriu a porta do segundo box da esquerda e Vronski pde entrever um possante alazo de patas brancas Percebeu que se tratava de Gladiador, mas voltou se imediatamente para o lado onde estava a Frufru, tal como teria desviado a vista de uma carta aberta que no lhe fosse endereada
-  o cavalo de Ma Mak no consigo pronunciar semelhante nome - gaguejou o ingls por cima do ombro, apontando com o polegar de unha suja o box de Gladiador
- De Makotme' Sim,  o meu nico adversrio de respeito
- Se o montasse - disse o ingls -, apostava no senhor
- A Frufru  mais nervosa, ele  mais resistente - respondeu Vronski, sorrindo, satisfeito com o elogio
- Na corrida de obstculos - voltou o ingls - tudo depende da arte de montar, do pluck
De pluck, isto , de energia e de audcia, no carecia Vronski sabia o muito bem, e, coisa melhor ainda, estava absolutamente conven eido de que ningum teria mais pluck do que ele
- Acha que no seria necessrio obriga Ia a transpirar bastante'
- Absolutamente - replicou o ingls - No fale alto, por favor, o animal enerva se - acrescentou com um aceno de cabea na direco do box fechado, onde se ouvia o escarvar da gua na cama de palha Abriu a porta e Vronski penetrou no box, escassamente iluminado por uma pequena fresta Uma gua baia escura, com um aaimo, escarvav , nervosa, a cama de palha fresca Assim que os seus olhos se habituarjm  escurido do box, Vronski percorreu uma vez mais com um olhar maquinal as formas do seu animal favorito Frufru era uma gua de estatura mdia e de conformao algo defeituosa Tinha os membros franzinos, o peito estreito, apesar do peitoral saliente, a garupa ligei ramente rebaixada, as pernas, sobretudo as traseiras, um pouco cambaias e no muito musculosas Conquanto o treino lhe tivesse feito perder o ventre, nem por isso tinha o peito muito desenvolvido Vista de frente, os ossos das pernas pareciam fusos, mas, vista de lado, pelo contrario, pareciam largos de mais Apesar dos flancos encovados era compr da era excesso no tronco Uma grande qualidade, porm, compensa\a todos esses defeitc s tinha "sangue", esse "sangue" que "se revela", como dizem os Ingleses Os seus msculos, muito desenvolvidos sobre uma rede
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de veias, que se lhe desenhavam por debaixo da pele fina, macia e elstica como cetim, pareciam duros como ossos A cabea delgada, com os olhos  flor da pele, brilhantes e alegres, alargava se at  boca e as na nnas dilatadas, com as suas mucosas injectadas de sangue Era um desses animais que do a impresso de que s no falam poi ser incompleto o seu mecanismo bucal Pelo menos Vronski tinha a sensao de estar a ser compreendido por ela no momento em que a contemplava Assim que entrou, a gua relinchou e, enquanto revirava um dos olhos a tal ponto que a crnea se injectava de sangue, relanceou o outro para trs, para as pessoas que entravam, procurando libertar se do aaimo, balanando se ou num p, ora no outro
- V como est excitada' - disse o ingls
- Calma, querida, calma' - exclamou Vronski, aproximando se para aquiet-la
Quanto mais se aproximava, mais enervada ela ficava Somente quando lhe chegou perto da cabea, ela serenou de sbito e os msculos estremeceram lhe sob a pele delicada Vronski afagou lhe o robusto pescoo, alisou lhe uma das madeixas da crina que atirara para o outro lado da cabea, e aproximou o rosto das narinas dilatadas e delgadas como asas de morcego A gua resfolegou ruidosamente, deixou cair a orelha e estendeu para ele o vigoroso focinho preto, como se o quisesse agarrar pela manga Impedida, contudo, de o fazer por causa do aaimo, sacudiu se, enquanto, com as pernas bem feitas, voltava a escarvar na palha fresca
- Sossega, minha linda, sossega - disse lhe Vronski, acanciando-Ihe a garupa
Saiu do box com a sensao tranquila de que a gua estava em perfeita forma
A agitao da gua comunicara se ao cavaleiro O sangue aflua ao corao de Vronski Tambm experimentava a necessidade de se agitar e de morder, sensao ao mesmo tempo perturbadora e divertida
- Bem, conto contigo - disse para o ingls-, s seis horas e meia na pista
- Ali nght Mas para onde vai o senhor, my lord?- perguntou o ingls chamando o de lord, ttulo que quase nunca empregava
A ousadia da pergunta surpreendeu Vronski, ergueu a cabea e olhou o ingls, como sabia fazer, no nos olhos, mas em plena fronte Compreendera imediatamente que o treinador no falara como se se dirigisse ao patro, mas a um jquei
- Preciso de falar com Bnanski - replicou -Estarei de volta dentro de uma hora
"Quantas vezes j me perguntaram isso mesmo hoje1", pensou Vronski E, coisa que raramente lhe sucedia, corou ali mesmo, observado
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plos olhos perscrutantes do ingls. Como se soubesse onde ia o amo,
o ingls voltou:
- O mais importante  conservat-se calmo. No se irrite. Evite as contrariedades.
- AH rght- replicou Vronski, sorrindo. E pulando para dentro da caleche, mandou seguir para Peterov.
Entretanto o cu, carregado desde o amanhecer, escurecera de todo. Um forte aguaceiro desabou, apenas ele se afastara.
"Que maada!", exclamou Vronski, levantando a capota da caleche: "a terra j estava mole, agora vai ficar um charco."
Aproveitou aquele momento de solido para reler as famosas cartas. Sempre a mesma coisa. Tanto a me como o irmo teimavam em imiscuir-se nos seus problemas sentimentais. Tal atitude provocava nele uma irritao inslita. Que lhes importa? Para qu esta solicitude irritante? Naturalmente sentem que h nisto qualquer coisa que no podem compreender. Se se tratasse de uma vulgar ligao mundana, deixavam-me em paz, mas adivinham que no se trata de uma brincadeira, que esta mulher -me mais preciosa do que a prpria vida. Eis o que no entendem e, por conseguinte, os irrita. "Seja qual for o nosso destino, fomos ns que o crimos e no estamos arrependidos disso", pensou, e, na palavra "ns" ligava-se a Ana. "Querem a todo o transe ensinar-nos a viver, eles, que no fazem a mnima ideia do que seja a felicidade. No sabem que, sem este amor, no haveria para ns nem alegria nem dor neste mundo, a vida deixaria de existir."
No fundo, o que mais o irritava contra os seus era que no seu ntimo reconhecia que eles tinham razo. O amor que Ana lhe inspirava no era entusiasmo passageiro destinado, como tantas outras ligaes, a desaparecer sem deixar mais vestgios que algumas recordaes, alegres ou penosas. Sentia vivamente a falsidade da situao, amaldioava as obrigaes mundanas que os constrangiam, para salvarem as aparncias, a levar uma vida de dissimulao e de hipocrisia, a preocuparem-se constar temente com a opinio pblica, quando era verdade que todas as coisas estranhas  paixo em que se abrasavam se lhes tinham tornado de todo indiferentes.
Essas frequentes necessidades de fingimento vieram-lhe, impressivas,  memria. No havia nada mais oposto  sua natureza, e lembrou-se do sentimento de vergonha que mais de uma vez surpreendera em Ana quando ela prpria tambm se via obrigada a mentir. O estranho desgosto que havia algum tempo por vezes se apossava dele assaltou-o repentinamente. Por quem sentia aquela repulsa? Por Alexei Alexan-drovitch? Por ele prprio? Pelo mundo inteiro? Realmente no sabia e no estava disposto a pensar nisso. Mais uma vez, portanto, afastou essa impresso e deixou que o pensamento seguisse o seu caminho.
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"Sim, ela outrora sentia-se infeliz, mas mostrava-se altiva e tranquila. E agora no pode sentir-se nem digna nem tranquila, embora procure escond-lo.  preciso acabar com isto."
E pela primeira ver a ideia de pr termo quela vida de mentira se lhe afigurou ntida e precisa. "Basta de tergiversaes", decidiu. "Temos de deixar tudo, ela e eu, e os dois, sozinhos com o nosso amor, escondermo-nos em qualquer parte."
CAPTULO XX
O aguaceiro no durou muito e quando Vronski chegou, ao trote de um cavalo de tiro, arrastando atrs de si os outros cavalos, galopando*"" a toda a brida, pela lama fora, j o Sol, de novo no firmamento, fazia cintilar, dos dois lados da larga rua, os telhados das moradias, escorrendo gua, e a folhagem encharcada das velhas tlias que iam deixando cair gotas alegres. Vronski abenoava a chuva: que lhe importava agora o mau estado do campo de corridas, quando era certo que, graas quele aguaceiro, iria encontrar Ana em casa e muito provavelmente s, visto -o marido, recm-chegado das termas, ainda se no ter instalado no campo.
Para no chamar a ateno, Vronski, como de costume, apeou-se um pouco antes da ponte, e seguiu a p at  residncia dos Karenires. Em vez de tocar a campainha da porta principal, deu a volta pelo porto de servio.
- O patro j chegou? - perguntou ao jardineiro.
- Ainda no, mas a senhora est em casa. Faa o favor de tocar a campainha da porta principal, que lha abrem.
- No, prefiro entrar pelo jardim.
Certo de que a iria encontrar s, queria fazer-lhe uma supresa: como no lhe prometera visit-la nesse dia, ela no o esperaria, visto ser dia de corridas. Levantou, pois, a espada, para no fazer rudo, e enveredou, cauteloso, pela lea, coberta de areia e orlada de flores, que conduzia ao terrao por onde a casa comunicava, desse lado, com o jardim. Afastando do esprito as preocupaes que o tinham assaltado no caminho, apenas pensava na felicidade de a ver, no tardaria muito, em carne e osso e no mais em imaginao. J ia a subir o mais suavemente que lhe er^a possvel a rampa do terrao quando se lembrou do que sempre esquecia e que no fim de contas constitua o ponto mais doloroso das suas relaes com Ana: a presena do filho dela, dessa criana de olhar inquisidor e hostil, assim lhe parecia.
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A criana era o principal obstculo s entrevistas dos dois. Nunca diante dela ousava pronunciar uma palavra que no pudesse ser ouvida por toda a gente Nenhuma aluso susceptvel de levantar suspeitas lhe era permitida Eirre os dois tinha se estabelecido uma espcie de aliana muda ludibriar a criana era para eles como proceder mal um para com o outro Diante dela falavam, pois, como se fossem apenas dois amigos Apesar de todas estas precaues, a cada passo Vronski encontrava fixado nele o olhar perplexo e perscrutador do rapazinho Ora carinhoso, em certos momentos, ora frio e sombrio, noutros, dir-se-ia que Srgio percebia instintivamente existir entre aquele homem e sua me um lao srio cujo significado no compreendia
Efectivamente, o pobre pequeno no conseguia saber como comportar se para com aquele senhor, graas  finura da intuio prpria das crianas, adivinhara que, conquanto nunca falassem dele, o pai, a preceptora, a criada, experimentavam por Vronski repulsa um pouco receosa, enquanto a me o tratava como um amigo muito querido "Que significa isto' Quem  ele' Devo gostar dele' Se nada compreendo de tudo isto,  porque, sem dvida alguma, ou sou mau ou sou estpido", pensava a criana Da a sua timidez, o seu olhar perscrutador e um tanto desconfiado, essa mobilidade de atiude que tanto embaraava Vronski. A presena daquele serzmho provocava-lhe, invariavelmente, sem causa justificvel, essa estranha nusea que ultimamente o perseguia Essa nusea fazia deles - tanto de Ana como de Vronski - uma espcie de navegantes a quem a bssola mostra que seguem  deriva, embora incapazes de deter o curso da embarcao Reconhecerem semelhantes erros de rumo era o mesmo que verificarem estarem perdidos Tal qual como a bssola ao navegante, aquela criana de olhar cndido tornava-lhes evidente o afastamento em que estavam da norma que por de mais conheciam, conquanto no quisessem submeter se a ela
Nesse dia, porm, Ana estava completamente s Aguardava no terrao o regresso do filho, surpreendido pela chuva no seu passeio Mandara ao encontro dele um criado e uma criada de quarto Com um vestido branco guarnecido de largas rendas, sentada a um canto, escondida atrs de umas plantas, no ouvira Vronski aproximar-se A cabea descada, apoiava a fronte no metal frio de um regador esquecido em cima da balaustrada, que segurava com as duas mos cheias de anis bem conhecidos de Alexei A beleza daquela cabea de cabelos negros anelados, daquele pescoo, daqueles braos, de toda ela, era sempre para ele motivo de nova surpresa Parou e contemplou-a num xtas.- Instintivamente Ana sentiu que ele se aproximava e ainda Vronski no dera mais um passo j ela repelia de si o regador, voltando para fie o rosto ardente.
- Que tem' Est doente' - perguntou-lhe Vronski em francs, aproximando-se dela Teria desejado correr, mas, receoso de que o vissem, relanceou um olhar  porta do terrao, olhar que o fez corar
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como sempre o fazia corar tudo que lhe lembrasse que era obrigado a dissimular e a vigiar-se
- No, estou bem - respondeu ela, levantando-se e apertando com firmeza a mo que ele lhe estendia -No te esperava.
- Meu Deus, que mos to frias!
- Assustaste me, estou s e espero o Senocha, que foi passear Entraro por este lado
Procurava mostrar-se serena, mas os lbios tremiam-lhe
- Desculpe me ter vindo, mas no podia passar o dia inteiro sem a ver - continuou ele em francs, o que lhe permitia, para evitar um "tu" perigoso, recorrer ao "vs", demasiado cerimonioso em russo
- Desculpar-te quando a tua visita me faz to feliz1
- Mas est doente ou sofre por qualquer coisa - continuou ele, inclinando-se para ela, sem lhe largar a mo -Em que estava a pensar'
- Sempre na mesma coisa - respondeu ela, sorrindo Falava verdade A qualquer momento que a tivessem interrogado, tena podido dar sempre a mesma resposta, pois a verdade  que no pensava noutra coisa seno na sua felicidade e na sua desventura No mo mento em que ele aparecera, perguntava ela a si mesma por que  que outras, Betsy, por exemplo, cuja ligao com Tuchkevitch, muito bem dissimulada, conhecia perfeitamente, tomavam to  ligeira o que a ela tanto fazia sofrer Naquele dia essa ideia atormentava-a particularmente por certas razes Interrogou Vronskl sobre as corridas Ao responder-lhe, percebeu que Ana estava agitada e, tentando distra Ia, ps-se a contar-
-Ihe, com a maior naturalidade, alguns dos pormenores dos preparativos para as provas
"Devo ou no dizer-lhe", pensava Ana, mirando os olhos lmpidos e caridosos de Vronskl "Est to feliz, to preocupado com as corridas, que no poder compreender as coisas como so, no poder compreender o que este facto significa para ns "
- Maf/afinal no me disse em que estava a pensar quando entrei
- tornou ele, bruscamente, interrompendo o que dizia - Diga-me, por favor'
Ana no respondeu Inclinando ligeiramente a cabea, olhava para Vronski com uma expresso interrogativa nos olhos brilhantes e de grandes pestanas A mo, que brincava com uma folha arrancada, tremia-
-Ihe Vronskl notou o e no seu rosto pintou-se aquela submisso e aquela fidelidade de escravo que a subjugavam
- Vejo que sucedeu qualquer coisa   Poderei eu porventura sentir-
-me sossegado, um momento que seja, sabendo que est a sofrer uma dor de que eu no compartilho' Fale, pelo amor de Deus - insistiu, numa splica,
"No lhe perdoaria se no compreendesse toda a importncia do que tenho a dizer lhe  melhor no lho dizer Para que hei-de eu fazer
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essa prova'", pensava Ana, que continuava de olhos fitos nele e se dava conta de que a mo cada vez lhe tremia mais
- Pelo amor de Deus' - exclamou ele, pegando-lhe na mo
- Devo dizer-lhe'
- Diga, diga
- Estou grvida - disse Ana, lenta e murmuradamente A folha que tinha entre os dedos ainda tremeu mais, mas no desprendia dele os olhos na esperana de lhe ler no rosto como receberia a notcia Vronski empalideceu, quis dizer qualquer coisa, mas conteve-se, baixou a cabea e deixou cair a mo "Sim, compreendeu todo o significado deste acontecimento", pensou Ana, e apertou lhe a mo, reconhecida Enganava-se, contudo, pensando que Vronski atribua ao facto o mesmo significado que ela, mulher que era Esta notcia principiara por despertar nele, mil vezes mais forte, o sentimento de desgosto que sentia, embora, ao mesmo tempo, compreendesse que chegara, finalmente, a crise que tanto desejava Era impossvel continuar a encobrir os factos ao marido de Ana e tornava-se indispensvel acabar quanto antes, de qualquer modo, aquela situao odiosa Alis, a sua agitao fsica comumcara-se lhe Lanou um olhar cheio de enternecimento e de submisso, beijou lhe a mo, levantou-se e ps se a andar de urn lado para o outro, no terrao, sem dizer palavra
- Nenhum de ns, nem a Ana nem eu, encarmos nunca esta situao como uma brincadeira, qualquer coisa sem importncia Agora o nosso destino est decidido - articulou, aproximando se dela, resoluto -  preciso, d por onde der, acabarmos com esta mentira em que vivemos - acrescentou, lanando  sua roda um olhar circunspecto
- Acabar' Mas como, Alexei' - interrogou ela, em voz suave Sentia-se tranquilizada e no rosto transpareceu-lhe um sorriso enternecido
- Tens de abandonar o teu mando para unirmos as nossas vidas
- J o esto mesmo sem isso - replicou Ana, numa voz quase imperceptvel
- Sim, mas de todo, de todo
- Como, Alexei' Diz me como' - tornou a perguntar, sorrindo com tristeza e certa ironia, revendo a situao insolvel - Haver acaso alguma sada para ns' No estou eu casada'
- Todas as situaes tm uma sada  preciso decidirmo-nos - teimou Vronski - Seja o que for, sempre ser melhor que viver como vivemos Bem vejo como sofres por tudo, pela sociedade, pelo teu filho, pelo teu mando
- Oh, por causa do meu mando, no' - replicou Ana, com um sorriso cndido -No penso nele No existe para mim
- No ests a ser sincera Conheo-te bem Tambm sofres por causa dele	t
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- Ele nada sabe -disse Ana, e de sbito um grande rubor lhe inundou a face, a fronte, o colo, e nos olhos afloraram-lhe lgrimas de vergonha -No falemos mais dele
CAPTULO XXI
Vrias vezes tentara Vronski, embora nunca to decididamente como agora, fazer Ana reflectir na sua situao, mas acabava sempre por defrontar se com a mesma superficialidade e ligeireza de juzo Era como se alguma coisa houvesse que ela prpria no podia nem queria esclarecer consigo mesma, como se, ao principiar a falar, Ana, a verdadeira Ana, se ocultasse dentro de si mesma e surgisse outra mulher, estranha, alheia para ele, a quem ele no amava, a quem temia e que lhe oferecia resistncia Mas naquela tarde resolvera dizer-lhe tudo
- Que ele saiba ou no saiba, pouco nos importa - disse Vronski, na sua habitual entonao firme e serena - No podemos No pode continuar nesta situao, sobretudo agora
- Que devemos fazer' - inquiriu Ana, com o mesmo sorriso ligeiramente irnico
Ela, que tanto receara que Vronski tomasse de nimo leve a notcia de que estava grvida, afligia-se agora que ele conclusse desse facto ser preciso tomar uma resoluo enrgica
- Confessar tudo e deix-lo.
- Muito bem, mas suponhamos que eu o faa, sabe o que da resultar' Eu lhe digo - volveu-lhe Ana, e uma cintilao maligna lhe transpareceu nos olhos ainda h instantes to ternos "Gosta de outro e mantm com ele relaes criminosas'", continuou Ana, imitando o mando e frisando, como e^e o fana, a palavra "criminosas" - Tinha a prevenido das consequncias de uma tal conduta no campo religioso, social e familiar No me quis ouvir Agora no posso consentir que desonre o meu nome -"e o do meu filho", quis acrescentar Ana, mas deteve-se Aquele filho no podia ser para ela motivo de troa -Em concluso, com o seu estilo de funcionrio, ntido e preciso, dir que me no pode deixar partir e que tomara todas as medidas ao seu alcance para evitar o escndalo E far o que disser com a maior ordem e serenidade No se trata de um homem, mas de uma mquina, de uma mquina cruel quando se zanga - terminou Ana, recordando Alexei Alexandrovitch, em todos os pormenores do seu rosto e da sua maneira de falar, e atri-buiu-lhe todo o mal de que se tornara culpada perante ele, na esperana de achar nisso compensao para a sua terrvel falta.
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- No entanto, Ana - interveio Vronski, em voz suave e persuasiva, na esperana de a convencer e sossegar -, seja como for,  preciso dizer-lhe e proceder depois como entendermos, de acordo com o que ele disser.
- Ento, teria de fugir?
- E por que no? Esta vida no pode continuar. No  em mim que penso, mas em si, que est a sofrer.
- Fugir, e tornar-me ostensivamente sua amante, no  verdade? - volveu-lhe ela, agressiva.
- Ana! - exclamou Vronski, repreensivo.
- Sim, tornar-me sua amante e perder tudo... tudo... -Quis dizer mais uma vez o "meu filho", mas no pde pronunciar a palavra.
Vronski no podia compreender que Ana, com a sua maneira de ser enrgica e honrada, pudesse suportar aquela situao de fraude sem desejar libertar-se dela, mas no se dava conta de que a causa principal era a palavra "filho", que ela no pudera pronunciar. Quando pensava no filho e nas suas futuras relaes com ele depois de abandonar a marido, sentia tamanho horror pelo que fizera que no era capaz de raciocinar. Como mulher, apenas procurava tranquilizar-se a si mesma com ludbrios, para que tudo continuasse na mesma e para que pudesse esquecer o tremendo problema que seria a situao do pequeno.
- Peo-te, suplico-te que nunca me fales numa coisa dessas - exclamou, de sbito, numa entoao terna e sincera, pegando-lhe carinhosamente na mo.
- Mas,  Ana...
- Nunca, nunca. Deixa-me decidir sozinha. Estou consciente de todo o horror e de toda a baixeza da minha situao, mas no  to fcil de resolver como julgas. Deixa-me decidir, e obedece-me. Nunca me fales nisso. Prometes?... No! No! Prometes-me?...
- Prometo-te, mas a verdade  que no posso estar descansado, sobretudo depois do que acabas de me dizer. No posso estar descansado, quando sei que tu o no ests...
- Eu? - repetiu Ana. - Sim, s vezes sofro, mas passar desde que no tornes a falar-me mais nisso. S sofro quando o fazes.
- No te entendo.
- Sei quanto  penoso mentir para a tua maneira honesta de ser, e tenho pena de ti. Penso muitas vezes que estragaste a tua vida por minha culpa.
- Era o que eu estava agora mesmo a pensar: como pudeste sacrificar tudo por mim? No me posso perdoar a mim mesmo que te sintas desgraada.
- Desgraada, eu ? - exclamou Ana, aproximando-se dele, fitando-o com um sorriso de amor e exaltao. - Sinto-me como uma esfomeada a
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quem deram de comer. Talvez tenha frio, talvez esteja esfarrapada e sinta vergonha, mas desgraada, no. Desgraada, eu? No, esta  a minha felicidade...
A voz do filho que se aproximava ressoou no jardim e Ana, levantando-se, rpida, lanou  sua volta um desses seus olhares inflamados, que Vronski muito bem conhecia. Depois, num movimento impetuoso, agarrou-lhe na cabea com as duas mos cheias de anis, contemplou-o demoradamente e, aproximando dele o rosto de lbios entreabertos, beijou-o na boca e nos olhos. Quis ento repeli-lo e afastar-se, mas Vronski deteve-a.
- Quando? - murmurou ele, fitando-a num transporte.
- Esta noite,  uma - sussurrou Ana e, suspirando profundamente, seguiu, no seu passo rpido e ligeiro, ao encontro do filho.
A chuva surpreendera Seriocha e a criada em pleno parque, e ali se abrigara com ela num pavilho.
- At breve - disse Ana. - Ver-nos-emos nas corridas, no tarda muito. Betsy prometeu vir buscar-me.
Vronski viu as horas e saiu precipitadamente.
CAPTULO XXII
Quando Vronski consultou o relgio no terrao dos Karenines estava to alterado e absorto nos seus pensamentos que olhou para os ponteiros sem atentar na hora. Saiu do jardim e pisando, cauteloso, a lama do caminho encaminhou-se para a caleche que o aguardava. Estava to compenetrado do sentimento que Ana lhe inspirava que no pensou nas horas nem reflectiu sobre se teria tempo de ir a casa de Brianski. Caso assaz frequente, a memria recordava-lhe o que decidira fazer, sem que a reflexo interviesse no seu estado de esprito. Aproximou-se do cocheiro, que dormitava na boleia da caleche  sombra j oblqua de, uma frondosa tlia, contemplou as nuvens de mosquitos que volteavarr por cima dos cavalos cobertos de suor, e, pulando para dentro do carro, acordou o cocheiro, a quem deu ordem de seguir para casa de Brianski. S depois de percorrer umas sete verstas, caiu em si, e de tal maneira que de novo consultou o relgio, dando-se conta de que eram cinco e meia e de que se fizera muito tarde.
Naquele dia devia haver vrias corridas: a primeira era a da escolta imperial, depois a de duas verstas, para oficiais, em seguida a de quatro e finalmente aquela em que ele prprio, Vronski, tomaria parte. Tinha tempo de chegar ao campo para isso mesmo, mas, se fosse a casa
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de Brianski, corria o risco de no chegar se no depois da Corte. No pareceria bem. Mas dera a sua palavra a Brianski de como iria a casa dele, e resolveu cumpri-la, ordenando ao cocheiro que no tivesse d dos cavalos.
Em casa de Brianski esteve cinco minutos e regressou a trote. Essa corrida veloz acalmou-o. O que havia de penoso nas suas relaes com Ana e o facto de no terem chegado a um acordo depois da ltima conversa, tudo se lhe varreu do crebro. Agora pensava nas corridas com satisfao e entusiasmo, pensava que chegaria a tempo, e de vez em quando a ventura que iria ter essa noite na entrevista aprazada perpassava-lhe pela imaginao como uma luz deslumbrante. Mas  medida que se aproximava do hipdromo, ultrapassando numerosas carruagens que chegavam de Sampetersburgo ou dos arredores, cada vez se deixava mais penetrar pela atmosfera das corridas.
No encontrou em casa mais ningum alm da ordenana, que o esperava  porta. Todos tinham ido para o hipdromo. Enquanto mudava de roupa, o soldado comunicou-lhe que j comeara a segunda corrida, que muita gente perguntara por ele e que o moo da cavalaria por duas vezes viera informar-se.
Uma vez vestido, sem pressa (nunca se dava pressa nem nunca perdia o domnio sobre si mesmo), Vronski mandou que o conduzissem s barracas. Dali via-se um mar de carruagens, de transeuntes e de soldados em volta do hipdromo; todas as tribunas regurgitavam de espectadores. Provavelmente era aquela a segunda corrida; na ocasio em que entrava na barraca, ouviu a sineta. Ao aproximar-se das cavalarias, cruzou com o Gladiador, o alazo de malhas brancas de Makotine, coberto com uma gualdrapa laranja, cuja franja azul parecia enorme.  -O Kord onde est? - perguntou ao cavalario.
- Na cavalaria, a selar a gua.
Frufru j estava selada no box aberto. Preparavam-se para retir-la de l.
- Chego tarde?
- Ali right! AU rigbtl - exclamou o ingls. - Nada de nervos.
Vronski percorreu com os olhos as belas formas da sua gua dilecta, que tremia dos ps  cabea, e, para se afastar desse espectculo, saiu da barraca. Chegou s tribunas no momento mais oportuno para no chamar a ateno. A corrida das duas verstas estava no fim e todos os olhares se fixavam no cavaleiro da Guarda e no hussardo da escola imperial que lhe ia no encalo, ambos instigando as suas montadas, deses-peradamente, a pouca distncia j da meta. De todos os lados aflua gente para a meta, e um grupo de oficiais e de soldados da Guarda exteriorizava a sua alegria com sonoras exclamaes, vitoriando o triunfo do oficial e camarada. Vronski misturou-se  multido quase na altura em que a sineta anunciava o termo da corrida. O cavaleiro da Guarda, alto,
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salpicado de lama, que chegara em primeiro lugar, descara sobre a sela e soltava de mo o cavalo, extenuado, mais escuro pelo suor que o cobria.
O animal, movendo as patas com esforo, refreou o seu galope e o oficial, como um homem que desperta de um pesadelo, olhou  sua roda e teve um sorriso vago. Uma chusma de amigos e conhecidos juntou-se em volta dele.
Vronski evitava, intencional, os grupos da sociedade que passeavam diante das tribunas, discretos e ligeiros, trocando impresses. De longe reconheceu Karenine e Betsy e tambm a mulher do irmo, mas no se aproximou para no se distrair, mantendo-se a distncia. No entanto, a cada instante se lhe deparavam conhecidos que o detinham para lhe contarem pormenores das corridas e interrog-lo sobreas causas do atraso que tivera.
Quando procediam  distribuio de prmios na tribuna de honra e toda a gente se dirigia para esse lado, Vronski viu aproximar-se dele o irmo mais velho, Alexandre, coronel do exrcito, de mediana estatura e to robusto como Alexei, embora mais belo e rubicundo, o nariz vermelho e cara de alclatra.
- Recebeste o meu bilhete ? - perguntou ele. - Nunca te encontro em casa.
Alexandre Vronski, apesar da vida de dissipao que levava, e sobretudo das bebedeiras a que se entregava, e que o haviam tornado clebre, "r um" perfeito corteso. Ao falar com o irmo de um assunto que lhe era desagradvel, mantinha, por isso mesmo, a expresso sorridente, como se pilheriasse sobre coisa sem importncia, pois calculava que seriam muitos os olhos pousados neles.
- Recebi - disse Alexei -, mas no sei, francamente, com que te preocupas tu.
- Fiz isso porque acabaram de me observar que ainda h pouco no estavas aqui e que segunda-feira te viram em Peterov.
- H assuntos que s dizem respeito s pessoas interessadas, e c^e, que tanto te preocupa, pertence a esse nmero...
- Sim, mas ento no se permanece em servio, no...
- No te intrometas no assunto,  tudo o que tenho a pedir-te.
O rosto sombrio de Alexei Vronski empalideceu, e a proeminente mandbula inferior tremeu-lhe, coisa que raramente lhe acontecia.
Como homem de bom corao que era, poucas vezes se zangava, mas quando isso acontecia costumava tremer-lhe a maxila: tornava-se temvel e o irmo no o ignorava. Alexandre Vronski sorriu jovialmente.
- Queria apenas entregar-te a carta da me - respondeu -, e no te irrites antes da corrida. Bonne chance ' - acrescentou, sorrindo, e afastou-se.
Felicidades.
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Imediamente, porm, um cumprimento  amistoso deteve Vronski.
- No queres falar aos amigos! Ol, mon cher - exclamou Stepane Arkadievitch. Ali, no meio da elegncia petersburguesa, com o seu rosto rubicundo e as suas suas lustrosas, bem penteadas, sentia-se to  vontade como em Moscovo. - Cheguei ontem e estou contentssimo por poder assistir ao teu triunfo. Quando apareces?
- Amanh, no refeitrio do quartel - retrucou Vronski, que, desculpando-se, lhe aflorou,  maneira de aperto de mo, a manga do sobretudo, dirigindo-se ao centro do hipdromo, para onde estavam a ser conduzidos os cavalos que deviam tomar parte na corrida de obstculos.
Os cavalarios reconduziam os cavalos que tinham participado da ltima prova, cobertos de suor, exaustos, enquanto, uns atrs dos outros, vinham chegando os da corrida seguinte, muito respousados, a maioria deles puros-sangues ingleses, que debaixo das suas gualdrapas e dos seus cabees pareciam grandes pssaros estranhos. Pela direita entrava a delgada e formosa Frufru, que caminhava como sobre molas, nas suas patas flexveis e um pouco desproporcionadas. No longe dali retiravam a gualdrapa do Gladiador, As grandes, belas e perfeitas formas do animal, com a sua garupa magnfica e as suas patas extraordinariamente curtas, chamaram a ateno de Vronski, a seu pesar. Ia aproximar-se da sua gua, mas de novo foi interrompido por um amigo, que o deteve  passagem.
- Olha, o Karenine! - disse-lhe ele, de repente. -Anda  procura da mulher, que est no centro da tribuna. No a viu?
- No, no a vi - replicou Vronski, e sem voltar a cabea para a tribuna onde o amigo lhe dissera estar Ana Karenina aproximou-se de Frufru.
No teve tempo sequer de examinar o selim, acerca do qual queria dar algumas instrues. Nessa altura chamavam os corredores  tribuna para sortear os nmeros e dar comeo  corrida. Dezassete oficiais, srios, solenes, alguns mesmo bastante plidos, reuniram-se diante da tribuna e procedeu-se ao sorteio. A Vronski coube o n. 7.
- Montar! - gritaram.
Vronski voltou para junto da sua gua. Tanto ele como os camaradas se sentiam alvo de todas as atenes, e como sempre lhe acontecia em casos semelhantes a solenidade da ocasio tornava-lhe os movimentos mais lentos e mais ponderados. Em homenagem s corridas, Kord envergara o seu traje de ver a Deus: redingote preto, todo abotoado, colarinho de goma, muito entesado, que lhe enquadrava as faces, chapu de coco e botas de montar. Calmo e importante, como era seu costume, tinha nas mos as rdeas da Frufru. A gua continuava a tremer, como se tivesse febre, revirando para o dono os olhos incendiados. Vronski passou-lhe um dedo por debaixo do selim. A gua revirou ainda mais os olhos, arreganhou os dentes e levantou as orelhas. Fazendo uma careta,
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e esboando um sorriso, o ingls mostrava o seu espanto: dir-se-ia que no confiava na sua maneira de selar um cavalo!
- Monte! - disse ele. - Ficar menos agitado.
Vronski lanou um ltimo olhar aos rivais. Sabia que durante a corrida no voltaria a v-los. Dois deles j se dirigiam para o recinto da largada. Galtzine, amigo e perigoso competidor de Vronski, girava em volta do seu cavalo baio, que no se deixava montar. Um hussardo da Guarda, pequenino, de cales cingidos  perna, galopava, derreado sobre a garupa, para imitar os ingleses, como um gato enroscado. O prncipe Kuzovlev, plido, montava uma gua puro-sangue, das cavalarias de Grobovski, que um ingls conduzia pela arreata. Tanto Vronski como os companheiros conheciam muito bem Kuzovlev, os seus nervos particularmente dbeis e o seu monstruoso amor-prprio. Aquele homem tinha medo de tudo, at mesmo de montar um cavalo vulgar. Mas, precisamente por isso, pelo medo que sentia, por correr o perigo de rachar a cabea e porque junto de cada obstculo estava um mdico, uma enfermeira e uma ambulncia com a cruz vermelha, resolvera participar na corrida. Os olhos de ambos encontraram-se. Vronski relanceou-lhe um olhar encorajador e amigo. A nica pessoa que no viu foi o seu principal concorrente: Makotine, montado no Gladiador.
- No tenha pressa - dizia-lhe Kord. - E lembre-se de uma coisa: no a reprima nem a pique diante dos obstculos. Deixe-a saltar como ela quiser.
- Est bem, est bem! - replicou Vronski, colhendo as rdeas.
- Se lhe for possvel, ponha-se  cabea, mas no perca a coragem, mesmo que seja o ltimo.
Sem dar tempo  gua de o pressentir, Vronski, com um movimento gil e vigoroso, meteu o p no estribo de ao e deixou-se cair firme na sela, cujo correame rangeu. Mal enfiou o p direito no outro estribo, igualou entre os dedos o duplo brido e Kord soltou a gua. Como que vacilante, sem saber com qual das patas romper a marcha, Frufru estendeu o pescoo, esticando as rdeas, e partiu, como impelida por molas, balanando o cavaleiro sobre o seu dorso flexvel. Kord seguiu-a em grandes passadas. A gua, nervosa, como se procurasse enganar o cavaleiro que a montava, puxava o brigo, ora de um lado, ora do outro. Vronski debalde tentava sosseg-la, dizendo-lhe palavrinhas e dando-lhe palmadas.
Aproximavam-se do riacho, no longe do local da largada. Muitos cavaleiros iam adiante, outros atrs de Vronski, quando, de sbito, este ouviu nas suas costas o galopar de um cavalo pela lama. Era Makotine montado no Gladiador, o alazo de malhas brancas e orelhas pendentes. O cavaleiro sorriu, mostrando muito os dentes, quando passou por Vronski, mas este apenas lhe devolveu um olhar irritado. No gostava de Makotine, e agora considerava-o o rival mais perigoso, irritado por v-lo excitar-lhe a gua com aquele galope a seu lado. Frufru ergueu
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a pata esquerda, pronta a galopar, e, contrariada por sentir o brido tenso, trotou, sacudindo-se e fazendo estremecer o cavaleiro em cima da sela. Kord, contrariado tambm, quase corna a trote atrs de Vronc
CAPTULO XXIII
Dezassete eram os oficiais que tomavam parte na prova As corridas realizavam se num grande percurso elptico, de quatro verstas de extenso, diante das tribunas Havia nove obstculos no circuito- um riacho, uma grande barreira, de duas archinas de altura, mesmo em frente das tribunas, um fosso seco, outro com gua, um talude, uma banqueta dupla (um dos mais perigosos), isto , uma rampa coberta de ramos secos, atrs da qual - invisvel para o cavalo - se abria um fosso, de tal sorte que aquele ou saltava os dois obstculos de uma s vez ou se matava, e ainda mais dois fossos, um com gua e o outro sem ela, ficando a meta das corridas em frente das tribunas A corrida no principiava a, mas a umas cem sajenas mais adiante, e nesse trajecto j se encontrava o primeiro obstculo, um riacho de trs archinas de largura, cercado por uma vala, que os cavaleiros podiam saltar ou passar a vau, a seu talante
Trs vezes os concorrentes alinharam, mas como um cavalo se adiantava sempre, houve que voltar ao princpio O coronel Sestrmce, juiz da largada, comeava a impacientar-se, mas por fim, na quarta vez, gritou- "Larguem1", e os cavaleiros largaram
Todos os olhares e todos os binculos se fixaram no pequeno grupo colorido dos concorrentes alinhados.
"J deram a partida, l vo eles1", gritaram mil vozes no meio do silncio da expectativa
Grupos de espectadores e pessoas-isoladas principiaram a correr de um lado para o outro, na esperana de seguirem melhor a corrida Desde logo os cavaleiros se dispersaram, avanando para o riacho em grupos de dois, de trs, e um a um De longe pareciam um peloto compacto Mas a fraco de segundo que os distanciava uns dos outros era para eles da maior importncia
Frufru, exalada e demasiado nervosa, atrasou-se de comeo e alguns cavalos passaram-lhe adiante, mas antes de chegar ao riacho, Vronski, retendo com todas as suas foras o animal contido pelo brido, com facilidade se adiantou a trs cavaleiros Diante dele havia apenas um cavalo, Gladiador, o alazo de Makotme, que galopava, balanando a garupa, mesmo na frente de Vronski, regular e ligeiro, e na vanguarda de todos a formosa Diana, com Kuzovlev em cima, mais morto do que vivo
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Durante os primeiros momentos, Vronski nem dominava a gua nem se dominava At ao primeiro obstculo, o riacho, foi-lhe impossvel comandar os movimentos do animal.
Gladiador e Diana transpuseram o curso de gua ao mesmo tempo e quase simultaneamente, atrs deles, sem esforo, e quase como que voando, ergueu-se Frufru, mas, no mesmo instante em que Vronski se sentiu no espao, surgiu-lhe, quase debaixo das patas da gua, Kuzovlev, que se debatia com a sua Diana do outro lado do rio Kuzovlev soltara as rdeas depois do obstculo e o cavalo cara de cabea junto dele Vronski s mais adiante se inteirou destes pormenores, agora via apenas que, precisamente onde Frufru ia pr as patas, podia estar a cabea ou uma pata de Diana Mas Frufru, como um gato ao cair, enquanto saltava fez um esforo com as patas e a garupa e, deixando Diana de lado, seguiu avante
"Oh' Minha querida Frufru'", pensou Vronski
Uma vez transposto o riacho, Vronski dominou por completo a gua e ps-se mesmo a refre-la no intuito de saltar a barreira atrs de Makotme, pensando adiantar se-lhe no percurso seguinte, de umas duzentas sajenas, em que no havia obstculos
A grande barreira ficava mesmo diante da tribuna imperail O imperador, toda a corte, uma multido imensa olhavam nos, e, diante dele, a um cavalo de comprimento, Makotme a aproximar se do "demnio" (assim denominavam aquela barreira) Vronski sentia todos os olhos postos nele, mas nada mais via alm das orelhas e do pescoo da gua, da terra que vinha ao seu encontro e da garupa e das patas brancas do Gladiador, correndo, rtmico, na sua frente, sempre  mesma distncia O Gladiador ergueu se no espao e, agitando a cauda curta, desapareceu do campo visual de Vronski, sem ter roado pelo obstculo
- Bravo' - gritou algum
Naquele mesmo instante, diante dos olhos de Vronski, diante dele mesmo, surgiram as varas da barreira Sem alterar em nada a sua marcha, a gua elevou se com o cavaleiro em cima, as varas desapareceram e s l para trs se ouviu um rudo Excitada por ver diante de si o Gladiador, Frufru saltara cedo de mais, tropeando na barreira com um dos cascos traseiros A sua marcha, porm, no sofreu alterao e Vronski, que recebera em plena face um salpico de lama, compreendeu que de novo se encontrava  mesma distncia do Gladiador Tornou a ver diante de si a garupa, a cauda curta e aquelas patas brancas movendo-se rpida mente sem se afastarem No momento preciso em que Vronski pensou que devia ultrapassar Makotme, Fiufru adivinhou lhe o pensamento, e, sem que a incitassem, acelerou sensivelmente a sua marcha, aproximando se de Makotme pelo lado mais conveniente, o das cordas Makotme, porm, no se separava das cordas Enquanto Vronski pensou que tambm 0 podia ultrapassar pelo outro lado, a gua, mudando de pata, disps se a
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faz-lo precisamente da mesma maneira Os flancos de Prufiu, que o suor principiava a enegrecer, j estavam  altura do alazo de Makotme Correram por momentos um ao lado do outro Mas, perante o obstculo de que se aproximavam, Vronski, para evitar um grande desvio, animou a gua com as rdeas e no prprio talude adiantou se rapidamente a Makotme Viu de relance o rosto do competidor salpicado de lama Pareceu-lhe, mesmo, que sorria Tinha ultrapassado Makotme, mas sentia-o colado ao seu flanco, sem deixar de ouvir o galope compassado e a respirao regular, sem a mnima fadiga, do Gladiador
Os dois obstculos seguintes, um fosso e uma barreira, foram transpostos com facilidade, mas Vronski principiou a sentir, mais prximos, o galope e a respirao do Gladiador Esporeou a gua e com grande alegria notou que esta corna mais, voltando a ouvir-se,  distncia costumada, as patas do alazo
Vronski ia  frente - como era seu propsito e como Kord o aconselhara - e agora tinha a certeza do triunfo A emoo, a alegria e o carinho que lhe inspiravam Frujru eram cada vez maiores Tinha vontade de voltar a cabea para trs, mas no se atrevia, procurando tranquilizar se e no excitar a gua, para conservar uma reserva de foras igual  que adivinhava no Gladiador Faltava um obstculo, e o mais difcil, se o transpusesse primeiro do que os outros, seria o primeiro a chegar  meta Aproximou-se do obstculo duplo Tal como Frujru, tambm ele, a certa distncia, vira o obstculo e ambos tiveram um momento de dvida Vronski notou, pelas orelhas, a indeciso da gua e levantou o pingalim, mas logo percebeu que o seu receio era infundado a gua sabia muito bem o que tinha a fazer Acelerou o passo, exactamente como era desejo de Vronski, ergueu se no espao e, com um impulso, abandonou se  fora da inrcia, que a transportou muito mais para alm do fosso, prosseguindo na carreira com o mesmo ritmo e sem sombra de esforo
- Bravo, Vronski' - gritaram num grupo varias vozes Sabia que eram os seus camaradas de regimento que estav am junto quele obstculo, e no deixou de reconhecer a voz de lachvme, embora no o visse
"Oh, que belo animal'", pensava Vronski de Fruftu, enquanto apurava o ouvido, escutando o que se passava atrs de si "Ele passou1", disse, ao ouvir o Gladiador Faltava o ltimo fosso, com gua, de duas archinas de largura Vronski nem sequer o olhava, desejoso de ser o primeiro a chegar, com grande vantagem sobre os demais, ps se a agitar as rdeas de maneira oblqua, fazendo levantar e baixar a cabea da gua ao compasso da marcha Percebeu que Frujru dava mostras de esfalfa mento, no s tinha o pescoo e os flancos cobertos de suor, como at mesmo lhe apareciam gotas de transpirao na cabea, nas orelhas pontiagudas e nas crinas, a respirao era entrecortada e ofegante No entanto, tinha a certeza de que no lhe faltariam foras para transpor
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as duzentas sajenas que restava percorrer S^ por se sentir mais perto do solo e merc de uma peculiar suavidade dos movimentos de Ftujru, Vronski compreendeu at que ponto acelerara a marcha Galgou o fosso, como se o fosso no existisse Voou por cima dele como um pssaro, mas, nesse mesmo instante, percebeu, aterrorizado, que, sem tempo para acompanhar o impulso da gua e sem saber como, fizera um movimento errado, imperdovel, descaindo em cheio sobre o selim De repente, a situao mudou, compreendeu que algo de terrvel acontecera, mas, antes de dar se conta do que era, passaram junto de si como um raio as patas brancas do alazo de Makotme, que, de um salto, se lhe adiantou Vronski aflorou o cho com um p e a gua inclinou-se para esse lado Mal teve tempo de desembaraar a perna, j a gua caa de costas, com um ronco penoso, fazendo inteis esforos, o grande pescoo coberto de suor, para tornar a erguer-se Debatia se aos ps de Vronski como um pssaro ferido Em virtude do errado movimento, Vronski, quebrara lhe a coluna vertebral Agora apenas via Makotme, que se afastava, veloz, enquanto ele ali permanecia de p, imvel, sobre a terra coberta de lama, e, a seu lado, Frujru estendida, respirando a custo e voltando para ele os seus magnficos olhos Sem compreender ainda muito bem o que se passara, Vronski puxou lhe pelas rdeas A gua agitou-se de novo, como um peixe, fazendo estremecer o selim, levantou as patas dianteiras, mas faltaram lhe as foras para erguer a garupa, e vacilou, tombando de lado O rosto desfigurado pelo espanto, plido, e a man dbula inferior trmula, Vronski deu lhe um pontap na barriga e tornou a puxar as rdeas Mas o animal no se moveu e, enterrando a boca na terra, volveu para o dono uns olhos que falavam
- Ah, meu Deus' - gemeu Vronski, levando as mos  cabea - Ali' Que fiz eu " - exclamou - Perdi a corrida' E por culpa minha Erro humilhante, imperdovel1 E este pobre e querido animal que eu matei' Ah, meu Deus, o que eu fiz1
Cornam j para Vronski, o mdico, o enfermeiro, oficiais do regimento e muita gente Com grande mgoa sua, percebia estar so e saho A gua partira a coluna vertebral Resolveram abat-la Vronski era incapaz de responder ao que lhe perguntavam e de falar a quem quer que fosse Sem apanhar o qupi, que lhe cara, afastou se do hipdromo, caminhando desatinado Pela primeira vez na vida se sentia infeliz, irremedivelment desgraado, e desgraado por sua culpa
lachvme, que lhe veio trazer o qupi, acompanhou o a casa Da a meia hora, Vronski estava refeito Mas a lembrana daquela corrida por muito tempo o atormentou como uma das mais penosas e terrveis recordaes de toda a sua vida
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CAPTULO XXIV
Nada parecia ter mudado exteriormente nas relaes entre os dois esposos, a no ser que Alexei Alexandrovitch de dia para dia levava uma vida cada vez mais laboriosa. Como nos anos anteriores, no comeo da Primavera Karenine foi para umas termas no estrangeiro, na inteno de refazer a sade, que se ressentia do esforo realizado durante o Inverno. E como de costume, estava de volta no ms de Junho, entregando-se de novo e com redobrada energia s suas tarefas habituais. E tambm, como de costume, a mulher instalara-se no campo, tendo ele permanecido em Sampetersburgo.
Desde aquela conversa com Ana, depois da noite em casa da princesa Tverskaia, nunca mais lhe falara das suas suspeitas nem dos seus cimes, e o seu tom habitual proporcionava-lhe agora as maiores comodidades nas relaes com a mulher. Mostrava-se um tanto mais frio para com Ana, embora apenas parecesse um pouco desgostoso com a conversa que ela no quisera continuar. No seu trato com a mulher havia apenas um tom de enfado. "No quiseste que tivssemos uma explicao", parecia dizer-lhe mentalmente. "Pior para ti. Agora hs-de ser tu a pedi-la, mas hei-de ser eu a recusar. Pior para ti", dizia de si para consigo na atitude de algum que houvesse tentado debalde apagar um incndio e, aborrecido, ao verificar terem sido inteis os seus esforos, dissesse: "Pois est bem, ento arde!"
Alexei Alexandrovitch, to inteligente e subtil no seu trabalho, no compreendia que era um erro tratar a mulher daquela maneira. No o podia compreender, porque a situao em que se encontrava lhe era demasiado penosa. Eis por que encerrou e selou na alma o cofre em que guardava os sentimentos que lhe inspiravam a mulher e o filho. Ele, que fora sempre um pai carinhoso, desde o fim do Inverno tornara-se frio para com o pequeno, tratando-o com o mesmo tom irnico que usava para com a mulher. "Ol, rapaz!", costumava dizer.
Alexei Alexandrovitch opinava e dizia que em ano algum tivera tanto trabalho como naquele, sem reconhecer que ele prprio inventava esse trabalho, que era essa uma das maneiras de que dispunha para no abrir o cofre onde jazia o afecto para com a famlia e os pensamentos a respeito dela, pensamentos esses tanto mais terrveis quanto por mais tempo l permaneciam encerrados. Se algum tivesse ousado perguntar a Karenine o que pensava do comportamento da mulher, o manso e pacfico Alexei Alexandrovitch nada teria respondido e ter-se-ia irritado muito. Por isso se lhe notava certa severidade e altivez na expresso quando lhe perguntavam pela sade da esposa. No queria pensar nem na conduta nem nos sentimentos de Ana, e, efectivamente, no pensava. A residncia de Vero habitual dos Karenines ficava em
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Peterov, e a condessa Ldia Ivanovna tambm ali costumava passar o Vero, numa casa vizinha, a cada passo em contacto com Ana. Naquele ano a condessa no quis ir para Peterov e nem uma s vez visitou Ana Arkadievna; em compensao, conversando certo dia com Alexei Alexandrovitch, permitiu-se fazer aluses  inconveniente amizade de Ana com Betsy e Vronski. Karenine interrompeu-a, severo, e disse-lhe que a mulher estava acima de quaisquer suspeitas, e desde ento evitou tornar a encontrar-se com a condessa Ldia. Decidido a nada saber, no reparava que na sociedade havia j muita gente a olhar para a mulher com certa reserva. Como nada queria ver, nem sequer a si mesmo perguntava por que quisera ela instalar-se em Tsarskoie, onde vivia Betsy, e no longe do acampamento de Vronski. Embora no se permitisse a si prprio pensar em tal, no fundo da sua alma - sem o confessar a si mesmo e sem prova? ou sequer suspeitas - tinha a certeza de que era um marido enganado, e sofria com isso profundamente.
Quantas vezes durante oito anos de vida conjugal feliz, ao ver mulheres infiis e maridos enganados, Alexei Alexandrovitch dizia a si mesmo: "Como  possvel chegar a uma situao destas? Por que no resolver uma situao to terrvel?" Em compensao, agora, que a desgraa lhe cara em casa, no s no pensava em resolver a situao, mas, inclusive, no se dava por achado, precisamente por ser aquilo demasjado terrvel e antinatural.
Depois do seu regresso do estrangeiro, Alexei Alexandrovitch estivera duas vezes em Peterov. Uma das vezes jantou, outra passou a tarde com convidados, mas no ficou para dormir, como costumava nos anos anteriores.
No dia das corridas, Alexei Alexandrovitch estava muito atarefado, mas desde manh traara o programa do que teria a fazer. Resolveu jantar cedo e logo em seguida dirigir-se  casa de campo e dali s corridas, a que no podia faltar, uma vez que a corte inteira assistia a elas. Pensava ir a casa, pois resolvera visitar a mulher uma vez por semana, para guardar as aparncias. Alm disso, tinha de lhe entregar o dinheiro para as despesas da quinzena, consoante o seu costume. Estas decises tomara-as ele com a sua costumeira fora de vontade e sem permitir que a imaginao fosse alm do que estabelecera.
Teve uma manh muito ocupada. Na vspera, a condessa Ldia enviara-lhe um folheto acerca de uma personagem clebre pelas suas viagens na China, que se encontrava em Sampetersburgo, e uma carta em que lhe pedia que a recebesse, pois era um homem interessante e til a muitos ttulos. Alexei Alexandrovitch no teve tempo de ler todo o folheto nessa noite e terminou-o de manh. Depois principiaram a chegar os solicitantes e as visitas; apresentaram-lhe relatrios, despachou assuntos relativos a nomeaes e transferncias, distribuiu gratificaes, soldos, penses e escreveu cartas; numa palavra, "o ramerro quotidiano", como
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costumava dizer, e que tanto tempo lhe roubava Em seguida ocupou se dos seus assuntos particulares, recebeu o mdico e o administrador A visita deste foi breve, limitou se o entregar lhe o dinheiro de que precisava e a p Io ao corrente do estado dos seus negcios No iam muito bem, pois naquele ano, em virtude das frequentes viagens que fizera, gastara mais e verificara se um dejtctt Em compensao o mdico, sumidade de Sampetersburgo, amigo seu, demorou o muito Alexei Ale xandrovitch, que no o chamara, mostrou se surpreendido com a sua visita e ainda o surpreendeu mais a ateno escrupulosa com que ele o interrogou, o auscultou, lhe palpou o fgado Ignorava ele que, impresi sionada com o seu aspecto muito pouco natural, a condessa Ldia Iva novna pedira ao mdico que o visitasse e examinasse detidamente
- Fao o por mim - dissera a condessa
- F Io ei pela Rssia, condessa - replicou o mdico
-  um homem inestimvel - conclura a condessa
O mdico no ficou contente com o exame a que procedeu Veri ficou que Alexei Alexandrovitch tinho o fgado muito dilatado, que a sua nutrio era defeituosa e nulos os benefcios da estao de guas Mandou o fazer muito exerccio fsico e o mnimo de esforo cerebral, e sobretudo evitar contrariedades, o que para Alexei Alexandrovitch era to difcil como deixar de respirar Quando o mdico partiu, Kare nine ficou persuadido de que no estava bem de sade e de que o mal no tinha remdio
Ao sair, o mdico encontrou se na escada com Sludine, o secretrio de Alexei Alexandrovitch, a quem conhecia desde os bancos da Umver sidade Embora poucas vezes se vissem, no eram menos amigos Por isso a ningum melhor do que a Sludine pde falar com toda a smce ridade do estado de sade de Alexei Alexandrovitch
- Ainda bem que o examinou - disse lhe ele - Karenme no esta bem e parece me Mas qual a sua opinio'
- Qual a minha opinio' - replicou o mdico, que por cima da cabea de Sludine acenava ao cocheiro para que aproximasse a carruagem -A minha opinio  esta se tentarmos rebentar uma corda que no est tensa, no o conseguiremos facilmente - explicou esti cando, com as suas mos brancas, um dedo da luva gelado-, mas se a esticarmos at podermos apoiar nela um dedo, a corda rebentar  o que lhe acontece com a vida sedentria e o trabalho consciencioso que leva E h tambm uma presso exterior, uma presso violenta mesmo - concluiu, erguendo as sobrancelhas de maneira significa tiva - Vai s corridas' - acrescentou, descendo os degraus do ai pendre e encaminhando se para a carruagem - Sim, sim, evidentemente, toma muito tempo - respondeu o mdico a qualquer coisa que Sludine lhe dissera e que ele no ouvira bem
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Depois do mdico, que lhe roubara muito tempo, veio o clebre viajante Alexei Alexandrovitch, valendo se da leitura do prospecto, que acabara de folhear, e de algumas noes anteriores sobre o assunto,' surpreendeu o visitantes com a vastido dos seus conhecimentos e a largueza dos seus pontos de vista
Teve tambm de receber um marechal da nobreza, de passagem em Sampetersburgo e que precisava de conferenciar com ele Quando este saiu, Alexei Alexandrovitch teve de despachar com o secretrio e ainda tinha de visitar uma personalidade importante por causa de um assunto urgente Apenas conseguiu voltar para casa s cinco, hora a que costumava jantar Jantou com o secretrio e convidou o a acompanha Io  sua casa de campo e s corridas
Sem dar por isso, Alexei Alexandrovitch procurava sempre a presena de uma terceira pessoa quando tinha de se encontrar com a mulher
CAPTULO XXV
Ana estava no andar nobre, no seu quarto, diante do espelho, e prendia, com o auxlio de Anuchka, o ltimo lao do vestido, quando ouviu o rodar de um carro no saibro diante do alpendre
" cedo de mais para ser a Betsy", pensou ela E relanceando o olhar pela janela viu uma carruagem e reconheceu o chapu preto e as famosas orelhas de Alexei Alexandrovitch "Que maada'", disse de si para consigo "Ser possvel que venha passar a noite'" Pareceu lhe to terrvel e espantoso o que podia acontecer que sem pensar em nada veio ao encontro dele, alegre e risonha, desde logo possuda pelo tal esprito de logro e falsidade E deixando-se dominar por ele, principiou a falar sem saber o que ia dizer
- Foste muito amvel em vir1-principiou ela, estendendo a mo ao mando, enquanto sorria para Sludine, familiar da casa - Espero que passes aqui a noite-continuou, dominada pelo tal esprito de ludbrio - Iremos juntos s corridas S tenho pena de ter prometido  Betsy que iria com ela Vem me buscar
Alexei Alexandrovitch fez uma careta ao ouvir o nome de Betsy
- Oh, no quero separar as inseparveis' - replicou no seu habitual tom irnico -Irei com Mikail Vacihevitch O mdico prescreveu me exerccio Irei parte do caminho a p e ser como se ainda estivesse nas guas
- Mas no h pressa - voltou Ana - Queres uma chvena de ch' iB_(p_u	193
Ana chamou
- Sirvam o ch e digam ao Senocha que chegou Alexei Alexan drovitch Como tens passado' Mikail Vacihevitch, o senhor ainda aqui no esteve quer ver como eu arranjei o meu terrao'
Dirigia se ora a um ora a outro, num tom simples e natural, mas falava muito e muito depressa, coisa de que ela prpria se apercebeu, julgando surpreender um lampejo de curiosidade no olhar que lhe lanou Mikail Vacilievitch, que se encaminhou para o terrao enquanto ela se sentava ao lado do mando
- No ests com boa cara - disse lhe ela
- Realmente Acabo de ser visitado pelo mdico, que me fez perder uma boa meia hora Estou convencido de que foi qualquer amigo meu que lhe encomendou o recado a minha sade  to preciosa1
- E que te disse ele'
Ana fazia lhe perguntas sobre a sade e o trabalho e procurava convence Io a que descansasse e que viesse instalar se no campo
Tudo isto o dizia alegremente, falando depressa e com um brilho especial nos olho1!, mas Alexei Alexandrovitch no ligava nenhuma importncia a esse tom Limitava se a ouvir lhe as palavras, atribuindo -lhes um significado simples e literal E respondia lhe com naturalidade, conquanto irnico Nada se deu de particular durante a conversa, mas, tempos depois, Ana no podia recordar aquela breve cena sem experimentar um doloroso sentimento de vergonha
Senocha entrou com a preceptora Se Alexei Alexandrovitch fosse observador, teria notado o olhar tmido e confuso com que o filho o olhou e, depois, olhou a me Mas Karemne, que nada queria ver, no deu por isso
- Ol, rapaz' Mas crescemos, estamo nos a fazer homens1 Ento, bom dia, meu rapaz'
E estendeu a mo  criana, que estava assustada Senocha, que j era tmido no seu trato com o pai, desde que este o tratava por "rapaz", e que dentro de si procurava debalde ave riguar se Vronski era seu amigo ou seu inimigo, tinha-lhe medo Como a pedir lhe proteco, olhou para a me S com ela se sentia feliz Alexei Alexandrovitch, pousou a mo no ombro do filho e ps se a falar com a preceptora Senocha a tal ponto parecia atemorizado que Ana julgou que ele ia chorar Gorara quando o vira entrar e, ao v Io agora to intimidado, levantou se, pressurosa, e retirou a mo de Alexei Alexandrovitch do ombro do menino Depois beijou o levou o at ao terrao e voltou para dentro
- Est a ficar tarde - disse ela, consultando o relgio - Por que no ter ainda aparecido a Betsy'
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-  verdade - confirmou Alexei Alexandrovitch, e pondo se em p fez estalar as articulaes dos dedos - Vim trazer te dinheiro, deves estar precisada, nem s de cantigas vive o rouxinol
^ ^- No     Isto  sim - replicou Ana sem olhar para ele, e corando at  raiz dos cabelos - Mas voltars depois das corridas, no  assim'
- Com certeza - disse Karemne - Mas a est a beldade de So Peterov - acrescentou, descortinando, atravs da janela, uma car ruagem  inglesa, de caixa minscula e muito alta, que se aproximava - Que elegncia' Que encanto' Ento vamos ns tambm
A princesa no desceu do carro, apenas o lacaio, de polamas, capote e chapu alto se apeou  entrada
- Vou me embora, adeus Foste muito amvel - disse Ana, e, dando um beijo no filho, aproximou se de Alexei Alexandrovitch e estendeu -lhe a mo
Este beijou a mo que ela lhe estendia
- Bom, at logo' Virs tomar ch' Muito bem' - acrescentou Ana, e saiu radiante
Mas mal perdeu de vista o mando, estremeceu, ao sentir na mo a reminiscncia do contacto dos lbios dele
CAPTULO XXVI
Quando Alexei Alexandrovitch apareceu nas corridas, j Ana estava sentada ao p de Betsy, na tribuna onde se reunia toda a alta sociedade De longe viu o mando Dois homens, o marido e o amante, constituam para ela os dois plos da sua vida e adivinhava lhes a presena sem a colaborao dos sentidos Este instinto revelou lhe, pois, a chegada de Alexei Alexandrovitch e involuntariamente foi o seguindo com os olhos atravs das ondas de gente Viu o aproximar se da tribuna, ora corres pondendo, condescendente, aos cumprimentos aduladores, ora saudando, distrada e amistosamente, os seus iguais, ora aguardando com interesse um olhar dos poderosos, tirando lhes o seu grande chapu redondo, esse grande chapu que lhe dobrava a ponta das orelhas Ana conhecia muito bem aquela sua maneira de cumprimentar, que lhe era profundamente antiptica "Na sua alma no h mais nada alm de ambio e desejo de triunfo", pensava ela "As ideias elevadas, o amor da cultura, a religio e tudo o mais so apenas armas para atingir o seu objectivo"
Plos olhares que ele dirigia  tribuna das senhoras (estava a olhar para ela, mas sem a distinguir naquele mar de mussehnas, de fitas, de plumas, de sombrinhas, de flores), Ana compreendeu que a procurava, roas fingum deliberadamente no o ver
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- Alexei  Alexandrovitch! - gritou-lhe  a  princesa  Betsy. - Naturalmente procura a sua mulher. Est aqui! Karenine sorriu com o seu frio sorriso.
-  tal o resplendor que os olhos se encandeiam - respondeu dirigindo-se  tribuna.
Karenine sorriu a Ana como um marido que acaba de estar corn a mulher. E cumprimentou a princesa e os demais conhecidos, concedendo a cada um o que a cada um competia, isto , galantaria s senhoras e cordialidade aos homens. Mas em baixo, junto  tribuna, estava um general ajudante de campo, clebre pela sua inteligncia e a sua cultura, a quem Alexei Alexandrovitch muito apreciava.
. Era o momento do intervalo entre duas corridas e por isso nada impedia que se conversasse. O general ajudante de campo criticava as corridas. Alexei Alexandrovitch respondeu-lhe defendendo-as. Ana ouvia-
-Ihe a voz aguda e montona sem perder uma s palavra e todas lhe pareciam falsas e lhe feriam os ouvidos.
Quando principiou a prova de quatro verstas com obstculos, Ana inclinou-se para diante. Sem o perder de vista, seguia Vronski, que se aproximava da gua e a montava, enquanto ouvia, ao mesmo tempo, aquela voz repulsiva, que no se calava. Sofria, receosa de que acontecesse qualquer coisa a Vronski e tambm, e mais ainda, por causa da aguda voz do marido, com as suas entoaes to conhecidas e que parecia nunca mais se calar.
"Sou uma m mulher, uma mulher perdida", pensou. "Mas no gosto da mentira, no suporto a mentira, e ele (o marido) ahmenta-se de mentiras. Sabe tudo, v tudo, e no entanto  capaz de falar com toda esta tranquilidade. Se me matasse, se matasse Vronski, respeit-lo-ia; mas no, s precisa de mentira e de decoro", dizia Ana de si para consigo, sem saber concretizar que homem desejaria que o marido fosse. To-
-pouco compreendia que a loquacidade de Alexei Alexandrovitch, que tanto a irritava naquele momento, no era mais do que a expresso do desassossego e da inquietao de marido. Tal como uma criana, que, ao acabar de se magoar, salta, pondo em movimento os msculos para acalmar a dor, assim Karenine precisava daquela actividade mental para afogar os pensamentos que o oprimiam na presena da mulher e de Vronski, cujo nome estava em todas as bocas. Da mesma maneira que em casos semelhantes uma criana salta instintivamente, Alexei Alexandrovitch sentia a necessidade de falar e discutir.
- Nas corridas de cavalos militares o perigo  um elemento indispensvel. Se a Inglaterra se pode orgulhar dos mais belos feitos da sua cavalaria, deve-o apenas ao facto de historicamente ter cultivado essa fora, tanto nos cavalos como nos cavaleiros. Sou de opinio que o desporto tem um sentido profundo, mas, como sempre acontece, s lhe vemos o lado superficial.
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- No to superficialmente assim - objectou a princesa Tvers-kaia-; dizem que um oficial partiu duas costelas.
Alexei Alexandrovitch esboou um sorriso sem expresso, que apenas servia para lhe mostrar as gengivas.
- Suponhamos, princesa, que esse caso no seja superficial, mas profundo. No  disso que se trata - e de novo se voltou para o general, como quem falava de coisas srias. - No se esquea de que os que tomam parte nas corridas so militares, que escolheram essa carreira, e lembre-se de que todas as carreiras tm o reverso da medalha. Isto faz parte das obrigaes do militar. O escandaloso desporto do boxe ou das corridas de touros espanholas so indcios de barbaria. Mas o desporto sistematizado, pelo contrrio,  sinal de civilizao.
- No, no volto aqui - exclamou a princesa Betsy-; isto im-pressiona-me muito. No  verdade, Ana?
- Sim, impressiona, mas fascina - disse outra senhora. - Se tivesse sido romana, no teria perdido nenhum espectculo de circo.
Ana, sem dizer nada, mantinha o binculo fixo no mesmo ponto. Entretanto, um general de grande estatura atravessou a tribuna. Interrompendo o seu discurso, Alexei Alexandrovitch levantou-se pressuroso, embora no sem dignidade, e fez-lhe uma profunda reverncia.
- No toma parte nas corridas ? - perguntou-lhe o militar, gracejando.
- A minha corrida  muito mais difcil - replicou Alexei Alexandrovitch, respeitosamente.
E embora a resposta de Karenine nada quisesse dizer, o militar acolheu-a com o ar de quem acaba de ouvir algo de muito profundo dito pela boca de um homem muito inteligente e que compreendeu Ia pointe de Ia sauce '.
- H dois aspectos a considerar - continuou Alexei Alexandrovitch -, o dos actores e o dos espectadores; o culto por estes espectculos denota, reconheo-o, um baixo nvel da parte dos espectadores, mas...
- Princesa, apostemos! - gritou uma voz, a voz de Stepane Arka-dievitch, que interpelava a princesa Betsy. - Em quem aposta?
- Ana e eu apostamos no prncipe Kuzolev - respondeu Betsy.
- E eu por Vronski. Um par de luvas!
- Apostado!
- Que belo espectculo, no  verdade?
Alexei Alexandrovitch calara-se no momento em que tinham falado junto dele, mas no tardou a continuar.
- Estou de acordo, no so os jogos varonis...
A chispa do geme
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Mas naquele momento soou a largada dos corredores e as conversas cessaram Tambm Alexei Alexandrovitch se calou, todos se levantaram e olharam para o lado do riacho A Alexei Alexandrovitch no mte ressavam as corridas, por isso no olhou para os cavaleiros, percorrendo com olhos cansados os espectadores O seu olhar deteve se em Ana
Nada existia, evidentemente, para ela, alm daquilo que seguia com os olhos O seu rosto estava plido e grave, apertava convulsiva mente o leque entre as mos, no respirava Karenme voltou se para observar outros rostos de mulher
"Tambm esta senhora, como muitas outras, est assim emocionada  muito natural", disse para si mesmo Alexei Alexandrovitch No queria olhar para Ana, mas esta atra lhe, involuntariamente, o olhar De novo cravou os olhos no rosto dela, tendo o cuidado de no ler o que nele estava claramente escrito Mas, a seu pesar, no pde deixar de nota Io
A primeira queda, a de Kuzovlev, ao saltar o riacho, a todos emo cionou, mas Alexei Alexandrovitch viu claramente no rosto plido e vitorioso de Ana que aquele a quem ela seguia com o olhar no tinha cado Quando Makotme e Vronski saltaram a grande barreira e o oficial que os seguia caiu de cabea, ferindo se mortalmente, um murmrio de horror percorreu a tribuna, e Karenme reparou que Ana nem sequer dera por isso e que por assim dizer nem sequer percebia o que se dizia  sua volta Mas Karenme olhava a cada vez mais amide e com maior msis tncia Ana, por mais absorta que estivesse, seguindo o percurso de Vronski, sentia o olhar frio do marido fito nela Voltou se por momentos, olhou o interrogativa e franzindo ligeiramente o sobrolho de novo se ps a seguir a corrida
"Ah, tanto faz'", pareceu dizer lhe, e no voltou a olhar para ele A corrida foi infeliz de dezassete cavaleiros, mais de metade caiu Para o fim, todos se mostravam agitados e o desassossego cresceu quando se soube que o imperador estava descontente
CAPTULO XXVII
Todos, ento, se puseram a reprovar aquele gnero de divertimento Repetiam em voz alta a frase de um espectador "Depois disto s falta o circo com os lees " O pavor era to geral que o grito de Ana, quando Vronski caiu, a ningum surpreendeu Mas imediatamente aps operou se no rosto dela uma grande mudana, uma mudana definitivamente mde corosa Perturbou se profundamente Principiou a agitar se como um
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pssaro que cai na armadilha Ora queria levantar se para ir no sabia aonde, ora se dirigia a Betsy, dizendo-lhe
- Vamo nos, vamo nos
Mas Betsy no a ouvia Inclinada para baixo, falava com um general que acabava de se aproximar
Alexei Alexandrovitch acercou se de Ana, oferecendo lhe galante mente o brao
- Vamo nos, se queres - disse lhe em francs
Mas Ana, que escutava o que o general dizia, no reparou no mando
- Dizem tambm que tem uma perna partida  um disparate - comentava o general
Ana, sem responder ao mauJo, ergueu o binculo e fitou o local onde Vronski cara Porm, ficava to longe e tanta gente se aglomerara naquele lugar que era impossvel ver alguma coisa Baixando o binculo, disps se a partir, mas naquele momento chegava um oficial montado que vinha informar o imperador Ana aproximou se para ouvir
- Stiva1 Stiva1-gritou, chamando o irmo
Mas este no a ouviu Ana disps se novamente a partir
- Ofereo te o brao pela segunda vez, se queres ir - disse Alexei Alexandrovitch, tocando na mo de Ana
Esta afastou se dele com repulsa, sem o olhar de frente, e respondeu
- No, no, deixa me  Fico
Viu que do local onde Vronski cara vinha a correr um oficial que se dirigia  tribuna Betsy acenou lhe com um leno, o oficial anunciava que o cavaleiro estava a salvo e que o cavalo partira a coluna vertebral Ao ouvir isto, Ana deixou se cair na cadeira, escondendo o rosto atrs do leque Karenme percebeu que a mulher chorava, sem poder reprimir as lagrimas nem os soluos que lhe agitavam o peito Ps se diante dela, tentando escond-la, para lhe dar tempo a recompor se
- Pela terceira vez te ofereo o meu brao - repetiu, da a momentos
Ana olhava para ele sem saber que dizer A princesa Betsy veio em seu auxlio
- No, Alexei Alexandrovitch Fui eu quem trouxe a Ana e prometi leva Ia a casa
- Perdoe me, princesa - replicou Karemne, com um sorriso corts, mas olhando a fixamente nos olhos - Vejo que a Ana no se est( a sentir bem e quero que volte para casa comigo
Assustada, Ana voltou se, e, levantando-se, submissa, tomou o brao do marido
- Vou mandar a casa dele saber como esta e mandar te ei dizer - murmurou Betsy
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Ao sair da tribuna, Karenine dirigiu a palavra, como de costume, s pessoas que ia encontrando, e Ana viu-se obrigada a ouvir e a responder; mas no era a mesma, e pelo brao do marido caminhava como num sonho.
"Ser verdade? No estar ferido? Vir ou no? Ve-lo-ei hoje?", pensava.
Subiu sem dizer palavra para a carruagem de Karenine e da a pouco estavam fora da rea do hipdromo. Apesar de tudo o que via, Alexei Alexandrovitch recusava-se a aceitar a evidncia. No entanto, como apenas ligava importncia aos sinais palpveis, entendia de seu dever chamar a ateno da mulher para a inconvenincia da sua conduta. Mas no sabia como faz-lo sem ir longe de mais. Abriu a boca para falar, involuntariamente; porm, disse uma coisa muito diversa do que queria dizer.
- No sei como nos deixamos todos atrair por estes espectculos to brbaros. Tenho notado...
- Que dizes ? No te entendo - replicou Ana com desprezo. Alexei Alexandrovitch sentiu-Se ofendido e imediatamente se ps a falar no que pensara comunicar-lhe.
- Devo dizer-te... -principou em francs. "Aqui temos a explicao", pensou Ana, assustada.
- Devo dizer-te que o teu comportamento de hoje foi indecoroso...
- Em que me comportei indecorosamente ? - perguntou Ana em voz alta, virando rapidamente a cabea para o lado dele e fitando-o nos olhos, no com a falsa alegria de h pouco, mas com uma resoluo que mal podia esconder o temor que sentia.
- Cuidado - disse Alexei Alexandrovitch, mostrando a vidraa da carruagem aberta nas costas do cocheiro. E debruou-se para fech-la.
- Que te pareceu incorrecto no meu comportamento?
- O desespero que no soubeste esconder quando caiu um dos cavaleiros.
Karenine aguardava que ela respondesse, mas Ana permaneceu calada, o olhar fixo diante de si.
- J te pedi que te comportasses correctamente em sociedade para que as ms-lnguas nada tivessem a dizer de ti. De uma vez falei-te, mesmo, das nossas relaes ntimas; agora, no, agora falo das relaes externas. Comportas-te de forma inconveniente e desejaria que isto no voltasse a repetir-se.
Ana no ouviu metade das palavras do marido: por maior que fosse o medo que ele lhe causasse, no pensava seno em Vronski. "Era dele que falavam quando diziam que o cavaleiro sara ileso e que o cavalo partira a coluna vertebral?" Quando Alexei Alexandrovitch acabou, limitou-se o sorrir com fingida ironia, pois nada podia responder--Ihe, porque nada ouvira do que ele dissera. Karenine comeara a falar com resoluo, mas, quando reparou no que estava a dizer, o medo que
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Ana sentia comunicou-se-lhe tambm. Ante o sorriso da mulher, uma estranha confuso se apoderou do seu esprito.
"Sorri das minhas suspeitas; vai dizer-me o que me disse da outra vez: que so infundadas e que so ridculas."
Agora que se aproximava a revelao de tudo, Karenine desejava ardentemente que a mulher lhe respondesse com ironia, como fizera da outra vez, e que lhe dissesse que eram ridculas e infundadas as suspeitas. Era to horrvel o que sabia que estava disposto agora a acreditar em tudo. Mas a expresso do rosto de Ana, assustado e sombrio, nem sequer lhe prometia mentira.
- Talvez me engane - continuou Karenine. - Nesse caso, peo-te que me perdoes.
- No, no te enganas - respondeu-lhe Ana, lentamente, olhando com desespero o rosto glacial do marido. - No te enganas, estava desesperada e no posso deixar de o estar. Ouvia-te e pensava nele. Amo-o, sou amante dele. No posso tolerar-te, tenho-te medo e dio... Podes fazer de mim o que quiseres.
E, deixando-se cair para trs na almofado da carruagem, Ana rompeu em soluos, escondendo o rosto nas mos. Alexei Alexandrovitch no se moveu nem mudou a direco do olhar. O seu rosto adquiriu, porm, imediatamente, a solene imobilidade de um morto, e aquela expresso no se modificou at Peterov. Ao aproximar-se de casa, Karenine voltou a cabea para o lado da mulher, sempre com a mesma expresso.
- Estou ciente, mas exijo que guardes as aparncias at que - e a voz tremeu-lhe - tome medidas para salvaguardar a minha honra e te d parte delas.
Karenine desceu primeiro e ajudou Ana a descer. Diante do criado, apertou-lhe a mo e subiu de novo para a carruagem a fim de dirigir-se a Sampetersburgo.
Mal ele partira, chegou um criado de Betsy com um bilhete para Ana: "Mandei a casa de Alexei saber como ele est; respondeu-me que est ileso, mas desesperado."
"Ento vir", pensou Ana. "Fiz muito bem em confessar tudo." Consultou o relgio. Faltavam trs horas ainda e a lembrana da ltima entrevista inflamou-lhe o sangue nas veias.
"Meu Deus, como est claro, ainda '.  terrvel, mas gosto de lhe ver o rosto e agrada-me esta luz fantstica... Meu marido! Ah! Sim... Graas a Deus tudo acabou entre ns."
1   Referncia  claridade boreal das noites brancas de Petersburgo
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CAPTULO XXVIII
Em todos os lugares em que h gente reunida, uma espcie de cristalizao social parece reservar a cada uma dessas pessoas um lugar definido. A estao termal alem onde os Tcherbatski estavam em vilegiatura no fugia  regra: tal como acontece com uma gota de gua exposta ao frio, que toma, invariavelmente, determinada forma cristalina, cada nova pessoa que chegava ao balnerio se via desde logo colocada no lugar que lhe pertencia na hierarquia social. Graas ao seu nome, aos aposentos que ocupavam e s amizades que fizeram, Frst Tcherbatski sammt Gemahlin und Tocher ' imediatamente cristalizaram no lugar que de direito lhes pertencia.
Este trabalho de cristalizao operava-se tanto mais seriamente nesse ano quanto era certo que uma verdadeira Frstin 2 alem honrava as termas com a sua presena. A princesa Tcherbatskaia empenhou-se em apresentar a filha  princesa alem, e essa cerimnia realizou-se logo no dia seguinte ao da sua chegada. Kitty, com um vestido de Vero muito simples, isto , muito elegante, que lhe tinham mandado de Paris, fez-lhe uma profunda e graciosa reverncia. A princesa alem disse: "Espero que as rosas no tardem a reaparecer nesse lindo rosto", e imediatamente, para os Tcherbatski, se determinaram os caminhos da vida, dos quais lhes era impossvel sair. Os Tcherbatski travaram tambm relaes com uma latty inglesa, com uma condessa alem, acompanhada do filho, ferido na ltima guerra, com um sbio sueco e com o senhor Canut e uma sua irm. Mas o grupo que mais frequentavam formara-se por si mesmo e era constitudo por uma senhora moscovita, Maria Evguenievna Rtichtcheva, a filha desta, de quem Kitty no gostava, pois cara doente, como ela, por paixo, e um coronel de Moscovo, que Kitty conhecia desde pequena, com o seu uniforme e as suas dragonas, e que ali, com os seus olhinhos, o seu pescoo nu e a sua gravata de cor, se lhe afigurava muito ridculo e aborrecido, e era impossvel livrarem-se dele. Estabelecido de maneira definitiva este regime, Kitty comeou a aborrecer-se muito, sobretudo quando o prncipe partiu para Carlsbad, deixando-a sozinha com a me. Kitty no se interessava plos conhecidos, pois se dava conta de que nada de novo lhe tinham a proporcionar. Aquilo que mais a entretinha no balnerio era observar e fazer conjecturas acerca das pessoas que no conhecia. Ao pensar quem seriam, como seriam e quais as relaes que existiriam entre elas, Kitty via-as como criaturas excepcionais e agradveis e costumava encontrar a confirmao das suas hipteses.
1  O prncipe Tcherbatski com sua esposa e filha. 1  Princesa.
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Interessava- especialmente uma jovem russa, dama de companhia de unia senhora doente, russa tambm, a quem todos chamavam Madame Stahl. Pertencia  alta sociedade e estava to doente que no podia andar, s aparecendo para tomar as 'guas no seu carrinho quando fazia bom tempo- Mas no tanto em virtude da sua doena, antes por orgulho, que assim o explicava a princesa, aquela senhora no dirigia a palavra a nenhum dos russos presentes nas termas. A jovem russa, alm de tratar de JAadame Stahl, como Kitty pudera observar, cuidava de todos os doentes graves, que havia muitos nas termas, atendendo-os com a maior simplicidade. Segundo as observaes de Kitty, essa jovem no era parenta da enferma a quem acompanhava, nem to-pouco enfermeira contratada. JAadame Stahl chamava-lhe Varienka e os demais Mademoiselle Va-rienka. Kitty gostava muito de observar a maneira como Varienka tratava Madame Stahl e outras pessoas. Experimentava uma simpatia inexplicvel por ela e percebia, pela maneira como ela a olhava, que tambm era correspondida.
No se podia dizer com justia que Varienka no fosse jovem, antes parecia, contudo, um ser sem juventude: tanto se lhe podia dar dezanove como trinta anos. Nos seus traos, apesar da cor doentia da pele, era mais bonita que feia. Tambm podia passar por bem feita de corpo, se no fosse a cabea grande, desproporcionada em relao ao tronco pouco desenvolvido. No entanto, no devia agradar aos homens. Parecia uma flor bonita, ainda com as ptalas, mas j murcha e sem perfume. Demais, faltava-lhe o que sobrava a Kitty: uma chama vital contida e a conscincia do seu prprio encanto.
Parecia estar sempre ocupada com qualquer trabalho, de cuja utilidade no era lcito duvidar e por isso, aparentemente, era-lhe impossvel interessar-se por qualquer outra coisa. Essa maneira de ser, oposta  sua, era precisamente o que mais atraa Kitty. Sentia que em Varienka, na sua maneira de viver, acharia o modelo que procurava agora to afincada-mente: um interesse na vida, uma existncia digna,  margem do trato mundano com os homens, coisa que lhe repugnava e que se lhe apresentava agora numa jovem como vergonhosa exposio de mercadoria  espera de comprador. Quanto mais observava a sua desconhecida amiga, tanto mais Kitty se convencia de que essa rapariga era o ser perfeito que idealizava e mais se empenhava em conhec-la.
Costumavam encontrar-se vrias vezes por dia e sempre que isso acontecia os olhos de Kitty diziam: "Voc, quem ? Voc, quem ? Ser, de facto, uma criatura to encantadora como eu imagino? Mas, por amor de Deus, no pense que vou obrig-la a ser minha amiga. Apenas a admiro e estimo", acrescentavam os seus olhos. "Tambm eu lhe quero, acho-a muito simptica e ainda mais lhe quereria se tivesse tempo para isso", respondia o olhar da desconhecida. Com efeito, Kitty encontrava-a sempre ocupada: ora a acompanhar as crianas de uma
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famlia russa depois de tomar as guas, ora a levar uma manta a uma doente e a embrulha Ia nela, ora procurando distrair um doente exci tado, ora escolhendo e comprando biscoitos para o caf de algum
Pouco depois da chegada dos Tcherbatski apareceram nas termas outras duas personagens que atraram as atenes gerais, despertando hostilidade Tratava se de um homem alto, um pouco curvado, que usava um sobretudo velho, curto de mais para a sua altura, de mos enormes e olhos pretos, ao mesmo tempo ingnuos e terrveis, e uma mulher agradvel, marcada de bexigas, que se vestia mal e sem gosto Ao verificar que eram russos, Kitty principiou a forjar a respeito deles um lindo e enternecedor romance
Mas a princesa, que na lista dos veraneantes pde colher esses ele mentos, disse  filha que se tratava de Nicolau Levine e de Maria Niko laievna, e contou lhe tudo que de mal sabia acerca desse homem, desva necendo todas as iluses de Kitty No tanto,  certo, pelo que a me lhe dissera, mas por se tratar do irmo de Constantmo, esse casal passou a ser lhe extremamente desagradvel Alm disso, Nicolau Levme, com o seu habito de mover convulsivamente a cabea, despertava em Kitty uma invencvel sensao de repugnncia Parecia lhe que os olhos dele, grandes e terrveis, que fixamente a seguiam, exprimiam dio e ironia E evitava encontrar se com ele
CAPTULO XXIX
Estava um dia desagradvel, chovia desde manh e os veraneantes, com os seus guarda chuvas, invadiam a galeria do estabelecimento balnear Kitty e a me tambm l estavam a passear com o coronel que se exibia jovial, no seu trajo europeu comprado em Francoforte Confinavam o seu passeio a um dos lados da galeria, procurando evitar Levine, que passeava no outro Vanenka, com o seu vestido escuro e o chapu preto de abas descadas, ia de ponta a ponta da galena acompanhando uma francesa cega Sempre que se cruzava com Kitty, ambas se olhavam amistosamente
- Mezinha, posso falar lhe' - perguntou esta, que seguia com os olhos a amiga desconhecida, ao ver que ela se aproximava da fonte e ali podiam reunir se
- Decerto, j que tanto o desejas, mas primeiro quero colher informaes Eu lhe falarei - replicou a me -Que lhe achas tu de especial? Deve ser uma dama de companhia Se queres, travarei relaes
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com Madame Stahl Conheci a sua belle soeut ' - acrescentou a princesa, erguendo com altivez a cabea
Kitty sabia que a princesa se sentia ofendida, porque Madame Stahl parecia no estar disposta a falar lhe E no insistiu
-  encantadora' - exclamou, olhando para Vanenka, que oferecia um copo de gua  francesa - Repare que tudo o que ela faz  simples e agradvel
- Divertem me os teus engouements ? - disse a princesa -  me lhor afastarmo nos - acrescentou, ao ver Levine, que caminhava direito a elas, com a tal senhora e um mdico alemo, com quem falava em voz alta e azeda
J retrocediam, quando ouviram gritos Levine parara, vociferando, e o mdico alemo tambm parecia irritado Em volta deles havia j um ajuntamento A princesa e Kitty trataram de se afastar, apressadas, enquanto o coronel se unia  multido para inteirar se do que se tratava Minutos depois, o coronel alcanava as de novo
- Que foi' - perguntou a princesa
- Uma vergonha' - exclamou o coronel - No h nada que eu mais tema do que encontrar me com russos no estrangeiro Aquele cava lheiro alto zangou se com o mdico e disse lhe impertinncias, porque ele o no trata como deve At o ameaou com a bengala Que vergonha'
- Que coisa to desagradvel' - comentou a princesa - Mas como acabou aquilo'
- Graas a Deus interveio essa senhora, a do chapu de cogumelo Acho que  russa - disse o coronel
- Mademoiselle Vanenka'- perguntou Kitty com alegria
- Sim Isso mesmo Foi ela quem teve mais presena de esprito Travou do brao do cavalheiro e levou o consigo
- Vs, me, e admiras te que eu me encante com ela' - exclamou Kitty
No dia seguinte, enquanto observava a sua amiga desconhecida, Kitty notou que as relaes de Mademoiselle Vanenka com Levine e a mulher eram iguais s que mantinha com as suas restantes protgees 3 Aproximava se deles, falava lhes e servia de intrprete  mulher, que no sabia nenhum idioma estrangeiro
Kitty voltou a implorar  me que a deixasse travar relaes com Vanenka Ainda que lhe desagradasse dar o primeiro passo para conhecer Madame Stahl, uma orgulhosa, resolveu informar se acerca de Vanenka e pde concluir que no havia nada de mal, embora, por
Cunhada
Caprichos
Protegidas
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outro lado, nada de bom pudesse advir daquele conhecimento. E ela prpria se aproximou de Varienka para o estabelecer.
Escolheu o momento em que a filha fora  fonte e Varienka se detinha diante de uma confeitaria.
- Permita que me apresente - disse a princesa com o seu sorriso cheio de dignidade. - Minha filha est encantada consigo. Talvez no me conhea. Sou...
-   um  sentimento  recproco,  princesa - respondeu  de  pronto
Varienka.
- Que boa aco praticou ontem com o nosso triste compatriota -
continuou a princesa. Varienka corou.
- No me lembro, creio que nada fiz - replicou.
- Como assim? Evitou um desgosto a esse Levine.
- Ah, sim! S compagne1 chamou-me e procurei sosseg-lo; est muito doente e o mdico no lhe agrada. Estou habituada a tratar com doentes assim.
- Ouvi dizer que vive em Menton com a sua tia, creio, com Madame Stahl. Conheci a belle-soeur de sua tia.
- No  minha tia. Trato-a por maman, embora no seja parenta dela. Mas foi ela quem me educou - respondeu Varienka, corando
de novo.
Disse isto com tanta naturalidade, com uma expresso to sincera, que a princesa compreendeu por que a filha simpatizara tanto com ela.
- Que  feito desse tal Levine ? - perguntou a princesa.
- Vai-se embora - tornou-lhe Varienka.
Nesse momento chegava Kitty, que vinha da fonte, radiante de alegria por ver a me conversar com a sua desconhecida amiga.
- Pois bem, Kitty, desejavas to ardentemente conhecer Made-mosette...
- Varienka - disse a jovem, sorrindo. -  assim que todos me chamam.
Kitty rosou-se de alegria e durante longo tempo apertou a mo que a nova amiga abandonava, inerte, na sua. No entanto, embora no correspondesse quele aperto de mo, o rosto de Mademoiselle Varienka iluminou-se de um suave sorriso, ao mesmo tempo alegre e um tanto melanclico, que lhe descobria os dentes grandes, mas bonitos.
- H muito que tambm o desejava.
- Mas est sempre to ocupada...
- Oh! Pelo contrrio, no tenho nada que fazer - disse Varienka.
A sua companheira.
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Naquele mesmo momento, porm, teve de abandonar os seus novos conhecimentos, porque vinham para elas duas meninas russas filhas de um doente.
- Varienka, a mezinha est a cham-la! - gritaram-lhe.
E ela retirou-se em companhia das meninas.
CAPTULO XXX
Eis aqui o que a princesa apurou sobre o passado de Varienka e as suas relaes com Madame Stahl, bem como sobre esta mesma:
Madame Stahl, que, segundo uns, tornara um inferno a vida do marido, enquanto outros diziam que fora ele quem a atormentara com a sua vida imoral, era uma senhora nervosa, sempre doente. J estava divorciada quando deu  luz o primeiro filho, o qual morreu poucas horas depois. Os parentes, que lhe conheciam a sensibilidade, receando que a notcia lhe fosse mortal, substituram a criana morta por uma menina que nascera naquela noite na mesma casa, em Sampetersburgo, e era filha do cozinheiro do palcio. Essa menina era Varienka. Madame Stahl veio a saber tudo mais tarde, mas continuou a cri-la. Pouco tempo depois, Varienka ficava no mundo sem pessoa alguma de famlia.
Havia mais de dez anos que Madame Stahl residia no estrangeiro, no Sul, sempre de cama. Uns diziam que criara fama de mulher virtuosa e muito temente a Deus, outros que era realmente o ser espiritual que aparentava e s vivia, de facto, para fazer o bem. Ningum sabia qual a religio que professava - se a catlica, a protestante, ou a ortodoxa -, mas uma coisa era indiscutvel: mantinha relaes de amizade com os altos dignitrios de todas as igrejas e credos.
Varienka vivia sempre com ela no estrangeiro e todos os conhecimentos de Madame Stahl a estimavam e queriam.
Depois de se inteirar de todos esses pormenores, a princesa chegou  concluso de que no havia nenhum inconveniente em que a filha se desse com Varienka, sobretudo porque a educao e os modos desta eram excelentes: falava correntemente francs e ingls e dissera-lhe desde logo, o que era o principal, que Madame Stahl, por causa da sua doena, lamentava muito estar privada de a conhecer.
De dia para dia ia crescendo o entusiasmo que Kitty sentia pela sua nova amiga, e no seu trato com ela descobria-lhe novas qualidades.
Quando soube que Varienka cantava bem, a princesa pediu-lhe que fosse uma tarde cantar a sua casa.
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- Temos um piano e Kitty toca;  certo que o piano no  muito bom, mas dar-nos- um grande prazer, se vier - disse a princesa, com o seu sorriso postio, coisa desagradvel a Kitty, que logo percebera estar Varienka bem pouco disposto a cantar.
No entanto, apareceu nessa tarde, trazendo consigo as msicas. A princesa convidara tambm Maria Evguenievna, a filha desta e o
coronel.
Varienka, que parecia indiferente  presena de pessoas desconhecidas, aproximou-se logo do piano. No sabia acompanhar, mas entoando lia msica muito facilmente. Kitty, que tocava, acompanhou-a.
- Tem um talento extraordinrio - disse-lhe a princesa quando ela acabou de cantar a primeira pea.
Maria Evguenievna e a filha agradeceram - jovem o ter cantado para elas e elogiaram-na.
- Veja quanta gente se juntou para a ouvir - disse o coronel, aproximando-se da janela.
Efectivamente, junto da janela reunira-se um grupo considervel de pessoas.
- D-me muita satisfao que isto lhes tenha proporcionado prazer - disse Varienka com simplicidade.
Kitty contemplava, orgulhosa, a sua nova amiga. Entusiasmava-a a arte, a voz, o rosto de Varienka, e sobretudo a sua maneira de ser. Esta parecia no atribuir qualquer importncia ao facto de saber cantar e mostrava-se indiferente aos elogios. Era como se perguntasse: "Tenho de cantar mais ou chega?"
"Se fosse eu, que orgulhosa estaria! Que alegria sentiria ao ver toda essa gente junto da janela! Para ela,  o mesmo: s a move o desejo de no dizer que no e de dar satisfao  mamem. Que h nela? Que lhe dar esta fora de a tudo ser indiferente e de permanecer serena? Muito gostava de saber como se adquirem estas qualidades!", pensava Kitty, observando o rosto tranquilo de Varienka. A princesa pediu-lhe que cantasse mais; Varienka cantou outra pea da mesma maneira, com naturalidade, rigor e perfeio, em p, junto ao piano, marcando o compasso na caixa do instrumento com a mo fina e morena. A pea que se seguia no livro de msica era uma cano italiana. Kitty tocou o preldio e voltou-se para Varienka.
- Deixe essa para trs - disse ela, corando.
Kitty deteve os olhos, interrogativa e receosa, no rosto da amiga.
- Bem, ento outra - acedeu, precipitadamente, e fez voltar as folhas do livro, adivinhando imediatamente que aquela canc lembrava qualquer coisa a Varienka.
- No - replicou esta, pondo a mo em cima da partitura, e sorriu -, cantemos aquela. - E cantou-a com tanta serenidade e perfeio como qualquer das demais.
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Quando acabou, todos voltaram a agradecer-lhe e puseram-se a tomar ch. Kitty e Varienka foram para o jardinzinho que havia junto  casa.
- Aquela cano desperta-lhe uma recordao qualquer, no  verdade ? - perguntou Kitty. - No me explique nada - apressou-se a acrescentar. - Diga-me s se  verdade.
- No. Porqu? Porque no lhe havia de dizer? - replicou Varienka com simplicidade; e sem esperar resposta continuou: - Sim, uma lembrana que me foi penosa outrora. Amei um homem e costumava cantar-lhe essa cano.
Kitty, calada, com os olhos muito abertos, olhava Varienka, enternecida.
- Amava-o e era correspondida; mas a me dele ops-se ao nosso casamento, e ele casou com outra. Agora vive perto de ns e s vezes vejo-o. No pensava que eu tambm pudesse ter tido um namorado ? - disse, e no seu belo rosto transpareceu, quase imperceptvel, uma chama que Kitty imaginou inflam-la toda noutros tempos.
- Como assim? Se eu fosse homem, depois a ter conhecido, nunca poderia amar outra mulher. No posso compreender como apenas para obedecer  me ele pde esquec-la e faz-la infeliz. No tinha corao!
- Oh! No, nada disso!  um excelente homem e no me sinto desditosa. Pelo contrrio, sou muito feliz. Ento no cantamos mais hoje? - acrescentou, encaminhando-se para casa.
- Como  boazinha! - exclamou Kitty, e, detendo a amiga, beijou-a. - Se eu pudesse parecer-me consigo, por pouco que fosse...
- Para que h-de precisar de parecer-se com algum ? Tal como  est muito bem - replicou Varienka com um sorriso meigo e cansado.
- No; no sou absolutamente boa. Mas diga me... espere, sentemo--nos aqui - atalhou Kitty, forando-a a sentar-se outra vez no banco, a seu lado. - Diga-me, no acha que  uma ofensa um homem desprezar o amor de uma mulher, repeli-la?
- No me desprezou, estou convencida de que gostava de mim, mas era um filho obediente.
- E se o no tivesse feito em obedincia  me, mas por deliberao prpria?...-perguntou Kitty, reparando que acabava de des-vender o seu segredo e que o rosto, inflamado pela vergonha, a atraioara.
- Nesse caso, ter-se-ia portado mal e eu no sofreria por causa dele - respondeu Varienka, compreendendo, imediatamente, que no se tratava j dela prpria, mas de Kitty.
- E a ofensa ? - perguntou Kitty. -  impossvel esquecer uma ofensa - continuou, recordando-se do olhar que lanara a Vronski no ltimo baile, quando a msica se calara.
- De que ofensa est a falar? No fez nada de mal, suponho!
- Pior do que isso, humilhei-me diante dele.
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Varienka abanou a cabea e pousou a mo sobre a de Kitty.
- Em que  que se humilhou? No confessou o seu amor a um homem que lhe mostrasse indiferena.
- Claro que no, e nunca disse nada, mas ele sabia-o. H olhares, maneiras de proceder... No, no, cem anos que eu viva, nunca poderei esquecer esta afronta.
- Mas ento no compreendo. O importante  saber se ainda gosta dele agora ou se j no gosta - disse Varienka, falando com toda a franqueza.
- Odeio-o, no posso perdoar a mim mesma...
- Porqu ?
- A vergonha, a ofensa...
- Meu Deus, se toda a gente fosse to sensvel como a Kitty! No h uma s mulher que no tenha passado por isso. E tudo isso tem to pouca importncia.
- Que tem ento importncia ? - perguntou Kitty, fitando Varienka com surpresa e curiosidade.
- H muitas coisas importantes - replicou esta, sorrindo.
- Quais so?
- Oh, muitas! - repetiu, sem saber que dizer. Mas naquele momento ouviu-se na janela a voz da princesa Tcher-batskaia.
- Kitty, est fresco a fora! Pe um xale ou vem para dentro.
-  verdade, so horas de voltar!-disse Varienka, levantando-se.- Ainda tenho de passar por casa de Madame Berthe, que me pediu.
Kitty segurava Varienka pela mo e perguntava-lhe com um olhar onde havia splica e curiosidade apaixonada: "Quais so essas coisas importantes que infundem tanta serenidade? Sabe? Se sabe, diga-me!" Mas Varienka nem sequer compreendeu o que esse olhar lhe dizia. Apenas se lembrava de que tinha de ir a casa de Madame Berthe e de voltar a casa de maman para tomar ch,  meia-noite. Entrou no salo, juntou as msicas, despediu-se de todos e disps-se a partir.
- Se d licena - disse o coronel -, vou acompanh-la.
- Claro - corroborou a princesa-, no pode voltar para casa sozinha a estas horas. Vou mandar a minha criada acompanh-la. Kitty percebeu que Varienka dissimulava a custo um sorriso.
- Muito obrigada - disse ela, pegando no chapu -, volto sempre sozinha para casa e nunca me aconteceu nada.
Depois de beijar outra vez Kitty e sem lhe dizer em que consistiam aquelas coisas importantes, desapareceu, no seu passo decidido, os livros de msica debaixo do brao, no meio das trevas da noite estival. Levava consigo o segredo do que tinha importncia e do que lhe proporcionava aquela invejvel paz e aquela dignidade.
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CAPTULO XXXI
Kitty conheceu Madame Stahl, e essa amizade, juntamente com a Je Varienka, no s exercia grande influncia nela como a consolava do seu desgosto. Um novo mundo, muito diferente do seu, um mundo todo elevado e nobre, se lhe revelou: dessa eminncia pde julgar o passado com todo o sangue-frio. Veio a compreender que para alm da vida instintiva que sempre fora a sua at ento existia uma vida espiritual na qual se penetrava pela crena. Essa religio no se parecia em coisa alguma com aquela que sempre praticara desde criana e que consistia em assistir  missa e s vsperas no asilo de vivas, onde se encontravam pessoas conhecidas, e em aprender de cor com o sacerdote textos religiosos eslavos. Era uma religio nobre, misteriosa, que despertava os pensamentos mais elevados e os sentimentos mais puros e em que se acreditava no por dever, mas por amor.
Kitty aprendeu tudo isto sem que lho dissessem. Madame Stahl falava com ela como com uma criaturinha agradvel, contemplando-a como quem recorda a sua prpria juventude. Apenas uma vez lhe disse que as penas humanas s tinham consolao no amor e na f e que para Cristo, na sua piedade para com os homens, no existiam penas insignificantes, logo mudando de conversa. Mas em todos os seus gestos, em todas as suas palavras, nos seus olhares "celestes", corno Kitty lhe chamava, sobretudo na histria da sua vida, que conhecia atravs de Varienka, Kitty descobria "o que era importante" e o que at ento ignorava.
Por mais elevado que fosse, no entanto, o carcter de Madame Stahl, por mais emocionante que se revelasse a histria da sua vida, por mais brilhante que se mostrasse a sua conversao, Kitty soube ver nela certos traos de carcter que a desconcertaram. Quando lhe perguntava plos pais, Kitty notava que ela sorria ironicamente, coisa contrria  caridade crist. Reparou tambm que, de uma vez em que Madame Stahl recebeu um sacerdote catlico, postou-se de tal modo que, ficando-lhe o rosto meio oculto por detrs de um quebra-luz, sorria de forma significativa. Embora parecendo sem importncia, a verdade  que estes dois pormenores perturbaram Kitty e levaram-na a duvidar de Madame Stahl. Pelo contrrio, Varienka, s, sem famlia, sem amigos, nada lamentando e nada esperando aps a sua triste decepo, constitua o tipo de perfeio com que sonhara. Aquele exemplo fazia-a compreender que para vir a ser feliz, tranquila e boa, como desejava, tinha de se esquecer de si mesma e amar o prximo. E Kitty desejou ser assim. Inteirada agora do "mais importante", j no se contentava em admir-la; entregou-se com toda a sua alma a essa vida nova que se abria diante de si. Atravs do que Varienka lhe contou sobre a me adoptiva e outras pessoas, traou para si mesma um novo plano de vida. Como Aline, a sobrinha de Madame Stahl,
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de quem Vanenka lhe falara muito, Kitty pensava que, onde quer que vivesse, procuraria os pobres, ajuda los ia o melhor que pudesse, distn buiria Evangelhos e leria as paginas do livro santo aos enfermos, aos crirni nosos e aos moribundos A ideia de ler o Evangelho aos criminosos, corno fazia Aline, seduzia a muito especialmente Mas s em segredo sonhava com tudo isso, sem nada duer  me ou  prpria amiga Alias, enquanto aguardava a opoitunidade de pr os seus planos em execuo numa escala mais vasta, Kitty arranjou maneira, no balnerio, onde havia tantos doentes e infelizes, de praticar as novas regras da sua vida, imitando
Vanenka
A principio a princesa apenas notou que Kitty se achava sob a influncia de uma espcie de engouement, como costumava dizer, por Madame Stahl e por Vanenka Reparava que Kitty no s imitava estas nas suas actividades, mas at, involuntariamente, no andar, na maneira de falar e de revirar os olhos Mais tarde compreendeu que, alm da sua admirao por Vanenka, na filha se estava a operar uma importante mudana espiritual
A princesa notou que Kitty  noite ha o Evangelho francs que lhe oferecera Madame Stahl, coisa que antes no fazia, e que se afastava das pessoas conhecidas da alta sociedade, preferindo lhes os doentes sob a proteco de Vanenka e muito especialmente uma famlia pobre, a do pintor Petro\, que se encontra\ a enfermo Kitty orgulhava se de desem penhar o papel de enfermeira dessa famlia Tudo isso estava muito certo e a princesa nada tinha a recear sobretudo tendo em conta que a mulher de Petrov era uma senhora decente e que a princesa alem, ao ter conhe cimento das actividades de Kitty, lhe chamara "anjo consolador" Tudo estaria muito bem, no entanto, se no fossem os exageros
- // ne jaut jamais nen outiet '-dizia lhe
Mas a filha no lhe respondia, limitava se a pensar no fundo da sua alma que no se devia falar em exageros nas obras crists Que exagero podia haver em seguir o preceito que manda oferecer a face esquerda a quem nos esbofeteia a direita ou de oferecer a camisa quando nos tiram o capote' Mas a princesa no gostava de tais extremos e ainda mais lhe desagradava verificar que Kitty no lhe abria a alma por completo Com efeito, ocultava  me as suas novas ideias e os seus pensamentos Manti nh os em segredo, no por falta de respeito ou de afecto para com ela, mas apenas porque era sua me Preferia confessa los a qualquer outra pessoa menos a ela
- H muito que Ana Pavlovna no aparece - disse uma vez a princesa, aludindo  mulher de Petrov - Convidei a, mas parece que ela se mostrou preocupada
E preciso no exagerar
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- No reparei nisso, maman - replicou Kitty, ruborizando se
- H j muito que no a visitas'
- Amanh iremos as duas dar um passeio pelas montanhas
- No vejo nisso nenhum inconveniente - disse a princesa, surpreendida com a perturbao da filha e procurando adivinhar lhe a causa Nesse mesmo dia Vanenka foi jantar com eles e disse lhes que Ana Pavlovna mudara de ideias e desistia do passeio A princesa notou que Kitty voltara a corar
- Kitty, passou se alguma coisa desagradvel entre ti e os Petrov - perguntou lhe a princesa quando ficaram ss - Por que deixou ela de mandar os filhos e por que no aparece'
Kitty respondeu que nada acontecera e que no fazia a menor ideia da razo por que Ana Pavlovna estaria enfadada Dizia a verdade No entanto, se era certo que ignorava o motivo por que esfriara nas suas relaes para com ela, adivinhava o Mas esse motivo era de tal natureza que no ousava sequer confessa Io a si prpria, e ainda menos  me, to humilhante seria poder enganar se
Lembrou uma vez mais todas as suas relaes com essa famlia Recordava a alegria ingnua que se pintava no bondoso rosto redondo de Ana Pavlovna aquando dos seus primeiros encontros os seus secretos colquios acerca do enfermo, as suas conspiraes para o impedirem de trabalhar, coisa de que estava proibido, e para o levarem a sair Tambm recordou o carinho que lhe dispensava o filho mais novo do casal que a chamava "minha Kitty", no querendo deitar se se no fosse ela a faz Io Como aquilo tudo era agradvel' Depois recordou a delga dssima silhueta de Petrov, o seu pescoo alto emergindo de um redmgote castanho, os seus raros cabelos crespos, os seus interrogativos olhos azuis que a princpio haviam parecido terrveis a Kitty e os seus esforos doentios para parecer animado e enrgico na presena dela E lembrou os esforos que ela prpria fizera para nos primeiros dias dominar a repugnncia que ele lhe inspirava, como em geral todos os tuberculosos, e o cuidado que punha nas coisas que tinha a dizer lhe F tambm o tmido e comovido olhar que lhe dirigia e o estranho sentimento de com paixo e timidez que a embaraavam bem com a conscincia do seu icto de caridade Que bom que tudo aquilo era' Mas isso fora no princpio das suas relaes com a famlia Petrov Agora de h uns dias para c tudo se modificara Ana Pavlovna recebia Kitty com uma amabilidade fingida e estava sempre a observa Ia, a ela e ao mando
Seria possvel que a comovedora alegria que Petrov mostrava ao ver Kitty fosse o morno do retraimento de Ana Pavlovna'
"Sim" pensava "havia qualquer coisa de estranho nela, algo que em nada se parecia com a sua natural bondade, ao dizer dois dias antes contrariada "Ele esperava a e no quis tomar o caf sem a menina apesar de estar muito fraco " Talvez lhe tenha parecido mal que eu lhe
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ajeitasse a coberta. Foi uma coisa to natural, mas ele ficou to perturbado e agradeceu-me com tanta insistncia, que at eu prpria me senti pouco -vontade. E tambm o retraio que me fez! E sobretudo aquele olhar conturbado e enternecido!... Sim,  isso!", disse Kitty de si para consigo, horrorizada. "No, isso no pode ser, no deve ser!  to digno de compaixo!"
Aquelas dvidas envenenavam o encanto da sua nova vida.
CAPTULO XXXII
Ainda a cura de guas de Kitty no terminara quando o prncipe Tcherbatski, que fora at s termas de Carlsbal, de Baden e de Kissingen com o objectivo de visitar uns amigos russos, voltou remoado, "cheio de esprito russo", como dizia.
Os pontos de vista do prncipe e da esposa sobre a vida no estrangeiro eram diametralmente opostos.  princesa tudo se afigurava maravilhoso e, apesar da sua posio na sociedade russa, no estrangeiro desejava parecer uma senhora europeia. Como, porm, era, na realidade, uma autntica senhora russa, via-se obrigada a fingir, coisa que muito a aborrecia. Pelo contrrio, o prncipe achava tudo ruim, no gostava da vida europeia e mantinha os seus hbitos russos, procurando mostrar--se no estrangeiro menos europeu do que o era na verdade. Agora voltava mais magro, com a pele do rosto flcida, mas na melhor disposio deste mundo. E a sua alegria foi maior'ainda ao ver Kitty de todo restabelecida. Ao saber da amizade de Kitty com Madame Stahl e Va-rienka, ao ter conhecimento das observaes da princesa sobre a mudana que se operara na filha, o prncipe alarmou-se. Vieram-lhe aqueles cimes que sempre sentia quando alguma coisa atraa a filha, receoso de que ela pudesse vir a subtrair-se  sua influncia, afastando-se para regies a ele inacessveis. A verdade, porm,  que essas notcias desagradveis se diluram no mar de bondade e alegria que o animava e que se ampliava agora ainda mais com as guas de Carlsbal. No dia seguinte ao da sua chegada, o prncipe, com o seu grande capote, as suas faces enrugadas e um tanto balofas, emolduradas num colarinho engomado e um excelente humor, dirigiu-se com a filha ao balnerio.
A manh estava lindssima; as casinhas alegres, muito limpas, com os seus jardinzinhos, o aspecto das criadas alems, trabalhadoras e joviais, de faces afogueadas pela cerveja e mos vermelhas, o sol radioso, tudo isso alegrava o corao de uma pessoa. Contudo, quanto mais se aproximava da fonte, tanto maior era o nmero de doentes com que se
cruzavam e o aspecto destes ainda mais desolador se apresentava em contraste com o ambiente da vida alem, perfeitamente organizada. Kitty, habituada a esse contraste, j nem o notava. O sol ardente, a vegetao esplendorosa e a msica jovial, para ela, eram a moldura natural desses rostos conhecidos, ora melhores ora piores, que se habituara a observar. Para o prncipe, todavia, a luz e o resplendor daquela manh de Junho, os sons da orquestra que tocava uma valsa alegre, afiguravam--se-lhe inconvenientes e at antinaturais na sua convivncia com aqueles cadveres ali reunidos, vindos de todos os pontos da Europa.
Apenas do orgulho que o invadia e desse como que retorno  juventude, ali com a filha querida pelo brao, no seu andar firme e nos seus membros vigorosos, sentia-se quase to envergonhado diante de todas aquelas desgraas como se tivesse vindo nu para o meio da rua.
- Apresenta-me a todos os teus novos amigos - disse a Kitty, apertando-lhe o brao. - At estou a gostar desta horrvel Soden s pelo bem que te fez. Mas que coisas to tristes, to tristes, se vem aqui! Quem  aquele?
Kitty ia-lhe mostrando as pessoas conhecidas e desconhecidas que passavam perto. A entrada do parque, encontraram Maame Berthe com a sua dama de companhia, e o prncipe sorriu contente, quando viu a expresso enternecida da cega ao ouvir a voz de Kitty. Imediatamente se dirigiu ao prncipe, com a costumada exuberncia francesa, e gabou-lhe a encantadora filha, guiando-a s nuvens e chamando-lhe "tesouro, prola e anjo consolador".
-  o anjo nmero dois - disse o prncipe, sorrindo. - O nmero um  Maemotselle Varienka.
- Oh! Mademotselle Varienka  um anjo autntico, allez! - corroborou Madame Berthe.
Na galeria encontraram Varienka. Vinha, apressada, ao encontro deles, com uma elegante bolsa vermelha na mo.
- O pai  chegou! - exclamou Kitty.
Varienka esboou, com a maior naturalidade, um movimento em que havia saudao e reverncia, e sem falsa timidez ps-se a falar com o prncipe.
-  intil dizer-lhe que a conheo e muito bem - disse o prncipe, com um sorriso que, para grande satisfao de Kitty, significava que a amiga tinha a simpatia do pai. - Onde vai to apressada ?
- Maman est ali - disse Varienka, dirigindo-se a Kitty. - No pregou olho toda a noite e o mdico aconselhou-a a sair. Vou levar-lhe os seus trabalhos de agulha.
- Quer dizer que este  o anjo nmero um ? - exclamou o prncipe quando a jovem se afastou.
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Kitty percebeu imediatamente que Varienka conquista.! as boas graas do pai, pois, tendo querido rir-se dela, no o pudera fazer. De facto, agradara-lhe.
- Vamos ento conhecer os teus amigos, uns atrs dos outros - acrescentou. - E at Matame Stahl, se se dignar reconhecer-nos.
- Ento tu conhece-la, pai? - perguntou Kitty, no sem receio, pois percebera um lampejo de ironia no olhar paterno.
_ Conheci o marido e a ela tambm algum tempo antes de se tornar pietista.
- Que so os pietistas, paizinho ? - perguntou Kitty, assustada com o facto de ver dar um nome ao que parecia de to grande valor em Madame Stahl.
- Tambm no te sei dizer com preciso. S sei que ela d graas a Deus por tudo, por qualquer desgraa... inclusive por ter perdido o marido, e isso pode deixar de parecer cmico quando ns sabemos que no se davam nada bem os dois... Mas quem  aquele pobre diabo? - perguntou ao ver, sentado num banco, um doente de estatura me, de palet e cala branca, que lhe caa em estranhas pregas pelas pernas descarnadas. Esse indivduo tirara o chapu de palha, mostrando uma testa alta, coroada de raros cabelos crespos que a presso do chapu avermelhara.
 -  o pintor Petrov - disse Kitty, corando. - E esta  a mulher dele - acrescentou, apontando para Ana Pavlovna, que, como que de propsito, se levantara, quando eles se aproximavam, para correr atrs de um dos filhos.
- Faz-me d - disse o prncipe -, e tanto mais que tem uma cara agradvel. Por que no te aproximas dele? Parecia querer falar-te.
- Vamos ento falar com ele - disse Kitty, voltando-se decidida. - Como se sente hoje ? - perguntou a Petrov.
Petrov ergueu-se, encostado  bengala e fitou o prncipe com timidez.
- Kitty  minha filha - disse Tcherbatski. - Tenho muito prazer em conhec-lo.
O pintor cumprimentou, mostrando, ao sorrir, os brancos dentes, extraordinariamente brilhantes.
- Espervamos ontem pela senhora, princesa - disse ele a Kitty. Ao dizer estas palavras, Petrov cambaleou, repetindo esse mesmo movimento, para mostrar t-lo feito de propsito.
- Pensava ir, mas Vatienka preveniu-me de que Ana Pavlovna mandara dizer que o senhor desistira de sair.
- Como assim ? - exclamou Petrov, corando.
E tendo-se posto a tossir, buscava com os olhos a mulher.
- Anita! Anita! - gritou, e no seu delgado pescoo br: nco as veias incharam como se fossem cordas. Ana Pavlovna aproximou-se.
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- Mandaste dizer  princesa que no amos sair? - murmurou, irritado, quase sem voz.
- Bom dia, princesa - cumprimentou Ana Pavlovna, com um sorriso fingido e num tom muito diferene daquele com que a tratava antes.-Muito prazer em conhec-lo. J o espervamos h muito - acrescentou, dirigindo-se ao prncipe.
- Como mandaste dizer  princesa que no amos sair ? - teimava o pintor num sussurro rouco, ainda mais irritado do que at a, sem dvida porque a voz o atraioava e no conseguia dar s palavras o tom que pretendia.
- Meu Deus! Julguei que no sairamos - replicou a mulher, enfadada.
- Como?... -e Petrov tossiu e fez um gesto com a mo. O prncipe descobriu-se e afastou-se acompanhado de Kitty.
- Oh! Coitado! - murmurou, suspirando pesadamente.
-  verdade, paizinho - replicou Kitty. - E com trs filhos, sem criados, e quase sem terem com que viver. Ele recebe qualquer coisa que lhe manda a Academia - continuou Kitty, animadamente, para esconder a perturbao que lhe causara a estranha mudana de Ana Pavlovna a seu respeito. - L est Madame Stahl - acrescentou, mostrando um carrinho onde estava estendida uma forma humana envolta em cinzento e azul, amparada por almofadas e abrigada por uma sombrinha. Atrs da doente via-se o alemo, robusto e taciturno, que empurrava o carrinho. Junto  enferma perfilava-se um conde sueco, muito louro, que Kitty conhecia de nome. Vrios enfermeiros rodeavam o carrinho de Mjtdame Stahl, olhando-o, como se olhassem qualquer coisa de extraordinrio.
O prncipe aproximou-se dela, e no tardou que Kitty lhe visse nos olhos aquele fulgor irnico que a perturbava. Principiou a falar com Madame Stahl em excelente francs, como muito poucos o falariam, cheio de amabilidade e cortesia.
- No sei se se recorda de mim. Mas tomo a hberade de lho lembrar para lhe agradecer as atenes que tem tido para com Kitty - disse, tirando o chapu e sem voltar a cobrir-se.
-  o prncipe Alexandre Tcherbatski, no  verdade ? - volveu-lhe Aadame Stahl, erguendo para ele os seus olhos celestiais, em que Kitty notou certa sombra de enfado. - Muito prazer em cumpriment-lo. Gosto muito da sua filha.
- Continua a passar mal de sade?
-  verdade, mas j estou habituada - disse ela. E apresentou-o ao ronde sueco.
- No mudou nada nestes dez ou onze anos em que no a vi.
- Sim. Deus d a cruz e d tambm as foras para carreg-la. Muitas vezes perguntamos a ns mesmos porque dura tanto esta vida... Do
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outro lado' - exclamou, irritada, dirigindo-se a Vanenka, que no lhe estava a embrulhar os ps na manta muito a seu gosto
- Provavelmente para praticar o bem - disse o prncipe, com os olhos risonhos
_ j\Jo nos compete julgar - replicou Madame Stahl, ao observar a expresso do prncipe, que no lhe passara despercebida - Ento manda -me esse livro, querido conde, desde j lhe agradeo e muito - disse, voltando se para o jovem sueco
- Olhem' - exclamou  prncipe, ao ver o coronel moscovita no longe dali E despedindo se de Madame Stahl foi ao encontro dele, sempre acompanhado de Kitty
-  esta a nossa aristocracia, prncipe - comentou o coronel, dese jando mostrar se irnico, pois estava irritado com Madame Stahl, que no o quisera conhecer
-  a. mesma de sempre - respondeu o prncipe
- Conhecia a antes de ela estar doente, antes de estar invalida'
- Conheci,  conheci a precisamente  na  ocasio  em  que  adoeceu .- Dizem que no anda h dez anos
- No anda porque tem uma perna mais curta do que a outra  muito mal feita
- Paiz.nho  isso no pode ser' - exclamou Kitty
-  o que dizem as mas lnguas, querida E muito tem de aturar a tua pobre Vanenka Oh, estas senhoras doentes'
- No, paizinho1 - protestou Kitty, calorosamente-Vanenka adora a E alem disso  to caridosa Pergunte a quem quiser Toda a gente conhece Madame Stahl e Aline
- Talvez - respondeu o pai, apertando lhe meigamente o brao - Mas quando se pratica o bem  melhor que ningum o saiba
Kitty calou se, no porque tivesse que responder, mas apenas por no querer desvendar os seus secretos pensamentos nem mesmo ao prprio pai No entanto, por estranho que parea embora no pensasse submeter se a opinio dele nem permitir lhe que penetrasse no seu santurio, percebeu que a imagem sagrada de Madame Stahl, que trouxera um ms inteiro dentro da alma, desaparecera definitivamente, como desaparece a figura formada por um vestido acabado de despir, quando a imaginao descobre que erp uma figura imaginaria Diante de seus olhos nada mais ficou alm da imagem de uma mulher de pernas desiguais, que passava a vida deitada por ser mal feita, e que martirizava a pobre Vanenka por esta lhe ter ajeitado mal a manta sobre as pernas E no houve esforo de imaginao que lhe permitisse voltar a encontrar a antiga imagem de Madame Stahl
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CAPTULO XXXIII
O prncipe comunicou o seu alegre estado de esprito  famlia, aos da casa, a todos os conhecidos e at mesmo ao alemo seu hospedeiro Ao regressar do balnerio, o prncipe Tcherbatski, que convidara para tomar caf o coronel, Maria Evguemevna e Vanenka, deu ordens para que levassem uma mesa e cadeiras para o jardmzmho, e que ali, debaixo de um castanheiro, fosse servido o pequeno almoo O senhorio e a criada animaram se, contagiados pela alegria do velho prncipe, que, alias, como eles o sabiam, alm de alegre era generoso E deste modo, meia hora depois o locatrio do l  andar, um mdico de Hamburgo, enfermo, coitado, podia contemplar da sua janela, com certa inveja, o grupo de folgazes, todos de ptima sade, reunidos debaixo do castanheiro A sombra oscilante da grande rvore, diante da mesa coberta com uma toalha branca, sobre a qual havia cafeteiras, po, manteiga, fiambre e caa fria, sentava se a princesa, de touca de dormir, com fitas lilases no alto da cabea, e distribua as chvenas e as fatias de po No outro extremo estava o prncipe, comendo com apetite e falando animadamente em voz alta Expusera  sua roda os presentes que trouxera da viagem cofrezinhos de madeira lavrada, cestmhos de junco, facas de cortar papel, que se entretinha a distribuir sem esquecer, nem a criada Linchen, nem o hospe deiro, a quem dizia, no seu mau alemo, as coisas mais cmicas asse gurando-lhe que no eram as guas que tinham curado Kitty, mas a sua excelente cozinha, especialmente as suas sopas de ameixas A princesa arreliava o mando, amistosamente, falando lhe nas suas mamas russas, desde que estava nas termas, porm, era a primeira vez que se ms trava to alegre e animada Como sempre, o coronel na se das graas do prncipe, mas a respeito da Europa, que, segundo julgava, estudara a fundo, era da opinio da princesa A boa da Mana Evguemevna morria a rir com as sadas do prncipe e Vanenka na com um riso suave, mas comunicativo, que os gracejos do prncipe lhe despertavam, coisa que Kitty nunca tinha visto nela
Este espectculo, porm, no conseguia fazer com que Kitty esque cesse as suas preocupaes no julgamento frvolo que fizera dos seus amigos e da sua nova vida, que to bela se lhe afigurava, o pai, mvo luntriamente, apresentara lhe um problema assaz difcil de resolver e que a mudana de atitude de Madame Petrov ainda vinha complicar mais, mudana essa que acabava de se manifestar num desabnmento bem desa gradvel Todos riam, mas essa alegria longnqua turvava Kitty que se julgava de regresso aos tempos da sua infncia, quando, fechada no quarto, para castigo de qualquer travessura, ouvia rir as irms sem poder brincar com elas
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- Para que compraste tu todas essas bugigangas' - perguntou a princesa, sorrindo, enquanto servia uma chvena de caf ao mando
- Que queres tu' Se vamos dar um passeio e nos aproximamos de uma loja, h logo quem nos pea que compremos qualquer coisa, dizendo "Erlaucht, Excellenz, Durchlaicbt'"1 Quando me chamavam Durchlaucht, j me no podia conter l iam dez tleres
- Isso era porque andavas aborrecido - disse a princesa
-  verdade, minha filha, uma pessoa aborrece se de morte nestas
terras
- Que me diz, meu prncipe' - exclamou Maria Evguemevna -
H actualmente tantas coisas para ver na Alemanha1
- Mas j as vi todas J comi sopa de ameixas e salsichas alems
Conheo tudo isso
- Diga o que disser, prncipe - objectou o coronel -, as instituies
alems so interessantes
- Interessantes em qu' Os alemes sentem se contentes por terem vencido todo o mundo Que tenho eu com isso, no me dir' No venci ningum E em compensao vejo-me obrigado a descalar as minhas prprias botas e, o que  pior ainda, a deixa Ias  entrada da porta, no corredor De manh tenho de me levantar, de me vestir, e de descer depois at  sala de jantar para tomar um ch horrendo Em casa  outra coisa' Acordamos pela manh sem pressas, temos tempo de nos zangar, de barafustar e de sossegar por fim para pensar descansadamente na
nossa vida
- Mas lembre se que o tempo  dinheiro, prncipe - replicou o
coronel
- Conforme o tempo' Ha tempo que se pode vender muito bem  razo de meio rublo por ms e tempo h tambm em que no h dinheiro que pague meia hora No  verdade Kitty' Que tens tu' Por que estas to triste'
- No tenho nada, pai
- Aonde vai'-exclamou o prncipe, ao ver levantar se Vanenka - Fique mais um bocadinho
- Preciso de voltar para casa - tornou lhe ela tomada de novo ataque de riso
Quando deixou de rir, despediu se de todos e dirigiu se para o interior da casa na disposio de pegar no chapu Kitty foi atrs dela A prpria amiga se lhe apresentava agora sob aspecto diferente No era pior, mas diversa do que a. imaginara antes
- H muito tempo que me no ria tanto como hoje - disse V rienka, enquanto procurava a sombrinha e a sacola -Seu pai  uma simpatia'
Augusto excelcnua alteza
Kitty no disse nada
- Quando nos 'tornaremos a ver' - perguntou Vanenka
- Maman queria visitar os Petrov A menina estar l' - inquiriu Kitty a perscrutar a amiga
- Estarei - tornou lhe esta - Esto a preparar as coisas para partir, e eu prometi lhes que os ajudaria
- Ento irei tambm
- Para que ha de ir'
- Para qu' Para qu' Para qu' - replicou Kitty, abrindo ds mesuradamente os olhos e prendendo a sombrinha de Vanenka, para no a deixar partir -Espere Por que me diz isso'
- Primeiro, porque tem aqui o seu pai e depois porque eles, os Petrov, no esto  vontade diante de si
- No, no  nada disso diga me por que no quer que eu v regularmente a casa dos Petrov, pois vejo perreitamente que no quer
- No disse isso - tornou lhe, tranquilamente, Vanenka
- Peco-lhe que me diga'
- Quer que lhe diga tudo' - perguntou Vanenka
- Tudo, tudo'
- No ha nada de importante, a no ser que Mikail Alexeievitch, que at aqui se queria ir embora sem delongas, agora no quer partir - disse Vairenka, sorrindo
- Continue, continue' - replicou Kitty, olhando-a gravemente
- Ana Pavlovna diz que ele no quer ir por sua causa E isto deu azo a uma questo domstica de que Kitty  a causa indirecta, como sabe os doentes irritam se com muita facilidade
Cada vez mais sombria, Kitty permanecia calada, e Vanenka con tinuava a falar, procurando aquieta Ia e evitar um acesso de censuras ou de lagrimas
-  por isso que acho melhor no ir Estou certa de que me compreende e que no vai zangar se
- S tenho o que mereo' - exclamou Kitty de chofre, sem ousar fitar Vanenka, mas arrancando lhe a sombrinha das mos
Vanenka sentiu que a ira infantil de Kitty lhe dava vontade de rir mas receou ofende Ia
- Porque tem o que merece' No a compreendo
- Porque tudo isto no passava de uma coisa fingida, de uma coisa inventada, no vinha do corao Que me importa a mim um estranho' E o resultado  que sou a causadora de um desgosto por fazer o que ningum me pediu Da minha parte, tudo foi pura hipocrisia, pura hipocrisia
- Hipocrisia' Mas com que inteno' - perguntou mansamente Vanenka
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- Oh! Que coisa to estpida, to vil! Que necessidade tinha eu... Foi tudo fingido - dizia Kitty, abrindo e fechando a sombrinha.
- Mas com que fim ?
- Para parecer melhor do que sou diante dos outros, diante de mim e diante de Deus; para enganar a todos. Agora no mais voltarei a fazer o que fiz.  prefervel sermos ms a mentirmos e enganarmos.
- Mas quem engana neste caso? - perguntou Varienka em tom de censura. - Fala como se...
Kitty, porm, fora acometida de um acesso de clera. No a deixou acabar.
- No estou a falar de si. No  da sua pessoa que se trata. A menina  perfeita. Sim, sim, sei que todos so umas perfeies. Mas eu sou m, no h nada a fazer. Isto no teria acontecido se eu no fosse m. Serei como sou, mas no mais fingirei. Quero l saber de Ana Pavlovna! Que vivam como lhes aprouver, que eu viverei como me apetecer. No posso ser diferente... E depois, francamente, no  o que eu julgava!
- Que quer dizer ? - perguntou Varienka perplexa.
- Nada. S posso viver obedecendo aos impulsos do meu corao, ao passo que vocs, vocs obedecem a princpios. Eu, por mim, limitei--me a ter para convosco um verdadeiro carinho do corao enquanto vocs, naturalmente, s pensavam na minha salvao, na minha edificao.
- Est a ser injusta! - exclamou Varienka.
- No. S estou a falar de mim. Os outros que fiquem em paz...
- Kitty!-gritou a princesa nesse momento.-Mostra os teus corais ao pai.
Kitty, altivamente, e sem se reconciliar com a amiga, pegou no estojo dos corais que estava em cima da mesa e foi ao encontro da me.
- Que tens tu? Por que ests to corada? - exclamou ao mesmo tempo pai e me.
- Nada - respondeu Kitty. - Eu  j volto - e deitou a correr.
"Ainda l est. Que lhe vou dizer ? Meu Deus que fiz eu, que disse eu? Por que a ofendi eu? Que devo fazer agora?", dizia de si para consigo, parando  porta.
Varienka, de chapu na cabea, estava sentada junto  mesa, examinando a mola da sombrinha que Kitty partira. Levantou a cabea.
- Varienka, perdoe-me - murmurou Kitty, aproximando-se dela. - Nem sei o que lhe disse...
- Sinceramente, no era minha inteno faz-la sofrer - disse Varienka, sorrindo.
A paz estava assinada. Mas a chegada do pai transtornou aos olhos de Kitty o mundo em que ela vivera por algum tempo. Sem renunciar a tudo que nesse mundo aprendera, reconhecia, a seus prprios olhos, ser uma iluso pensar que poderia vir a ser aquilo que desejaria poder vir a ser. Foi como que um despertar; compreendeu que lhe seria dado, sem
222
I
bipocnwa nem vanglria, manter-se a uma to grande altura Alis sentira vivamente o horror dos desgostos, das doenas, das agonias qu a cercavam e achava penoso de mais para ela prorrogar os esforos que fizera para interessar-se por aquele mundo de sofrimento. Experimentou , necessidade de respirar ar puro, de voltar breve  Rssia, a lerguchovo, onde j estavam Dolly e os filhos, como soubera pela carta que acabava de receber.	r ^
O seu afecto por Varienka no fraquejara, porm. No momento da partida, pedm-lhe que os viesse visitar  Rssia.
- Irei quando a menina estiver casada -disse Varienka.
- Nunca me casarei.
- Ento nunca irei.
-Nesse caso, s me casarei para isso. No se esquea da sua promessa.	^
Os_prognsticos do mdico realizaram-se. Kitty regressou  Rssia se no to despreocupada como outrora, pelo menos aquietada e curada. Os maus momentos de Moscovo no passavam agora de uma reminiscncia longnqua.
223
TERCEIRA PARTE
CAPTULO I
Srgio Ivanovitch Kosmchev, querendo descansar do seu trabalho intelectual, em vez de partir para o estrangeiro, como era seu costume, foi em fins de Maio para o campo, para casa do irmo Estava convencido de que no havia melhor vida do que a vida alde Constantino Levine sentiu com isso uma grande satisfao, tanto mais quanto era certo que naquele Vero j no contava com Nicolau Mas apesar do afecto e do respeito que tinha por Srgio Ivanovitch, Levine no se sentia perfeitamente  vontade a vi\er com ele no campo Incomodava-o e achava mesmo desa gradvel a maneira que ele tinha de apreciar a aldeia Para Constantino Levine a aldeia era o local onde se vivia, isto , onde se gozava, se sofria e se trabalhava, para Srgio Ivanovitch, por um lado, era um local de descanso depois do trabalho, e, por outro, um saudvel antdoto confia a corrupo, antdoto que tomava com prazer, reconhecendo lhe a utilidade Para Constantmo Levine a aldeia era boa porque constitua um campo de actividades indiscutivelmente teis, para Srgio Ivanovitch, porque ali era possvel e at indispensvel no se fazer nada Tambm no agradava a Levine a maneira como o irmo tratava a gente da aldeia Srgio Ivano vitch tinha a pretenso de conhecer e de estimar o povo Falava amide com os camponeses, coisa que sabia fazer muito bem, sem fingir nem adoptar atitudes estudadas, e destas conversas extraa concluses a favor do povo, concluses que brandia como provas do seu pretenso conheci mento dos costumes populares Isto no era do agrado de Levine Para ele o povo era antes de mais nada o scio principal de uma tarefa comum Mostrava bem ter mamado no seio da ama o leite de uma fraterna afeio plos camponeses, admirava lhes o vigor, a mansido, o esprito de justia, mas, frequentemente, quando o interesse comum exigia outras qualidades, insurgia se contra eles, para no ver, ento, seno a sua incria, a sua falta de asseio, a sua tendncia para a bebedeira, o seu gosto da mentira Ter -se ia sentido deveras embaraado se lhe perguntassem se gostava ou no do povo Como homem de sentimentos que era, por natureza pendia a amar o prximo, sem excluir os camponeses, mas alimentar por eles senti mentos especiais, isso afigurava se lhe impossvel, vivia a vida deles, os seus interesses identificavam-se, por conseguinte fazia parte integrante do povo Por outro lado, embora, como proprietrio, como "rbitro de
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paz" e sobretudo como conselheiro (vinham pedir lhe conselho daquelas quarenta verstas em redor) tivesse mantido relaes estreitas, por longos anos, com os aldees, ainda no tinha sobre eles uma opinio perfeitamente definida Grande seria a sua surpresa igualmente, caso lhe perguntassem se os conhecia "Nem mais nem menos do que conheo os outros homens", teria ele, com certeza, respondido A cada passo era lhe dado observar numerosos indivduos, camponeses inclusivamente que lhe pareciam dignos de interesse, mas  medida que lhes ia descobrindo novos traos de carcter, os seus juzos variavam de acordo com isso mesmo Srgio, pelo contrrio, considerava todas estas coisas num esprito de oposio preferia a vida da aldeia a um determinado gnero de existncia, o povo, a uma determinada classe social E s estudava este para poder op Io aos homens em geral O seu esprito metdico concebera de uma vez para sempre uma determinada ideia da vida popular, ideia fundada em parte na experincia, mas ainda mais em comparaes tericas, e nunca, em situao alguma, esta ideia variava de forma Essa a razo por que nas discusses entre ele e o irmo acerca do carcter, dos gostos, das particularidades do povo, era ele quem levava sempre a me lhor, s suas apreciaes inabalveis opunha Constantmo opinies sujeitas constantemente a modificaes Fis por que Srgio no tinha dificuldade alguma em supreend-lo em flagrante delito de contradio consigo mesmo
Srgio Ivanovitch considerava o irmo mais novo um belo rapaz, com o corao bem colocado (costumava dizer em francs), mas senhor de um esprito muito impressionvel, que, ao abrir-se, transbordava de mconsequncias Com a condescendncia de um irmo mais velho, dignava se, por vezes, explicar lhe o verdadeiro sentido das coisas, mas discutia sem prazer com um adversrio to fcil de levar  parede
Por seu lado, Constantmo admirava a bela inteligncia, a vasta cultura, a nobreza de alma do irmo e o dom que lhe cabia de dedicar-se ao bem estar geral Mas quanto mais o tempo passava e o ia conhecendo melhor, mais frequentemente se perguntava a si prprio se aquela atitude generosa para com a humanidade, de que ele to privado se sentia, em vez de uma qualidade no seria um defeito No denunciaria ela, seno ausncia de aspiraes nobres e generosas, pelo menos uma certa carncia dessa fora vital a que se chama corao, uma certa impotncia a abrir um caminho pessoal no meio de todos esses caminhos que a vida oferece aos homens' De resto, no  o corao mas a cabea que leva a maior parte das pessoas a interessar se plos problemas sociais s o fazem por raciocnio Esta suposio de Levine ia se confirmando ao observar que o irmo tomava tnais a peito as questes do bem comum ou da imorta lidade da alma do que uma partida de xadrez ou a construo engenhosa de qualquer mquina
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Alm disso, Constantino Levine tambm no se sentia  vontade na aldeia quando o irmo estava presente, sobretudo porque no Vero, enquanto o absorviam por completo os trabalhos de lavoura e lhe no chegava o grande dia estival para fazer tudo que precisava, Srgio Iva-novitch apenas pensava em descansar Naquele ano dera folga  grande obra em que andava empenhado, mas a actividade do seu esprito era intensa de mais para que no precisasse de comunicar a algum, sob uma forma concisa e elegante, as ideias que lhe ocorriam, e o certo  que escolhera o irmo para auditrio Eis por que, apesar da amistosa simpli cidade das suas relaes, Constantino Levine no conseguia deix-lo s por muito tempo Srgio gostava de deitar se na relva, ao sol, para ali ficar, tostando se e falando preguiosamente
- No podes imaginar - dizia ele ao irmo - o prazer que me d este dolce far mente ucramano No tenho uma nica ideia dentro da cabea esta completamente vazia
Mas- Constantmo Levine aborrecia se de ficar ali sentado a ouvi Io, principalmente receoso de que, no estando ele presente, os camponeses lanassem o adubo s terras antes de estas estarem preparadas para isso e o lanassem de qualquer maneira e que no afiassem convenientemente as relhas dos arados ingleses, para poderem dizer depois que nada valiam e que eram bem melhores as charruas antigas
- No te fatiga andares por a com este calor' - perguntava-lhe Srgio
- No me demoro,  s o tempo de relancear a vista ao escritrio- respondia Constantmo, e desaparecia campos fora
CAPTULO II
Em princpios de Junho, Agfia Mikadovna, a ama e governanta, ao descer  adega, com uma tigela de cogumelos que acabava de salgar, escorregou na escada e esfolou um pulso Chamaram o mdico rural, um rapaz verboso, recm sado da Universidade, que observou a doente e declarou que ela no tinha nenhuma entorse, entretendo-se a conversar com Srgio Ivanovitch Kosmchev, diante do qual, a ttulo de exibio das suas tendncias liberais, contou todas as intrigas da provncia, insistindo na situao deplorvel em que se encontravam, em sua opinio, as instituies provinciais Srgio Ivanovitch ouvia-o atentamente, formulando de quando em quando alguma pergunta, satisfeito com a presena de um novo ouvinte, e por sua vez usou da palavra, apresentando certas observaes justas e finas, respeitosamente apreciadas pelo jovem clnico, sentindo-se
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dai a pouco nessa disposio de esprito um pouco sobreexcitada que em geral provocava nele toda a conversa viva e brilhante Depois da partida do medico, quis ir pescar para o no. Gostava de pescar  linha e parecia envaidecer-se com o facto de apreciar um entretenimento to estpido.
Constantmo Levine, que tinha de ir s terras onde andavam a lavrar, e aos prados, props-se lev-lo na sua campana at ao no.
Estava-se nesse momento do Estio em que o trigo chega ao seu apogeu, as colheitas se aproximam e j se principia a pensar nas prximas sementeiras As espigas, j formadas, mas ainda leves e cmzentas-esver-deadas, baloiam ao sopro do vento, a aveia,  mistura com as ervas daninhas que crescem junto, vai rompendo irregularmente nos campos tardiamente semeados, os primeiros rebentos do trigo mourisco juncam j o solo, os terrenos de pousio, com os seus torres quase petrificados sob as patas do gado e os seus sulcos, em que no entra o ferro do arado, s em parte esto lavrados, os montes de estrume juntam o seu aroma ao das ervas dos prados, pela manh e  hora do crepsculo, enquanto nas terras baixas, ansiosas pela foice, os prados ribeirinhos formam vagas imensas, aqui e ali matizados de grandes manchas pretas, que so os montes de azedas arrancadas
Era a poca em que se verifica um curto descanso nos trabalhos da lavoura, antes de principiar a colheita anual, que todos os anos empenha as foras dos camponeses Naquele Vero a colheita anunciava-se magnfica, os dias eram longos e quentes, as noites curtas e bem humedecidas pelo rocio
Para alcanar os prados era preciso atravessar a mata, cuja vegetao luxuriante maravilhou Srgio Chamava a ateno do irmo, ora para uma velha tlia, escura ao lado da sombra, coberta de rebentos prontos a abrir, ora para os ramos novos das outras rvores que brilhavam como esmeraldas Constantmo Levine no gostava de ouvir comentrios s belezas da Natureza As palavras, para ele, despojavam da sua formosura tudo o que via Assentindo com o que o irmo ia dizendo, pensava noutra coisa Quando saram da mata, atentou numa terra em pousio, onde placas de erva amarelenta alternavam, ora com leiras j cavadas ou com outras cobertas de montes de estrume e com outras ainda de todo lavradas j Pelo campo avanava uma fileira de carroas Levine contou as e pareceu lhe que eram suficientes
 vista dos prados pnncipou a pensar na ceifa e na colheita dos fenos, operao que sempre o emocionava muito Fez estacar o cavalo Como a erva alta ainda estava hmida junto aos ps, Srgio Ivanovitch, para no se molhar, pediu ao irmo que o levasse no carro at  moita de salgueiros, junto  qual se pescavam as percas Constantmo aquiesceu, lamentando ter de pisar aquela erva mole que se agarrava s patas do "valo e s rodas do carro, deixando as sementes presas aos cubos e aos
das rodas
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Enquanto Srgio Ivanovitch se instalava debaixo dos arbustos e preparava a cana de pesca, Constantino amarrava o cavalo alguns passos mais longe e instalava-se no imenso mar verdejante que naquele momento nenhum sopro agitava nos pontos onde o no transbordava, a erva brotava da terra fertilizada e sedosa e, coberta de plen, chegava lhe quase  cintura Ao atingir o caminho, encontrou um velho com urn olho inchado que levava uma colmeia
- Apanhaste um enxame, Fomitch'
- Hem1 Constantmo Dimitrievitch, j me custa tanto a guardar as meus  a segunda vez que este me foge Felizmente os garotos apanharam no Como andam a lavrar nas suas terras, desatrelaram um cavalo e foram atrs dele
- Que te parece, Fomitch, devo ceifar j ou esperar mais algum tempo'
- No sei. A mim parece-me que se deve esperar at ao dia de So Pedro Mas o senhor costuma ceifar sempre mais cedo Se Deus quiser, tudo h-de correr bem, a erva j est muito crescida O gado ter mais largueza
- E o tempo, que te parece o tempo, Fomitch'
- Isso  l com Deus Talvez faa bom tempo
Levine voltou para junto do irmo
Embora no tivesse pescado nada, Srgio no se aborrecia e parecia mesmo muito bem disposto Levine percebeu que o irmo, excitado pela conversa com o mdico, queria falar mais Pelo contrrio, ele, Levine, desejava voltar para casa disposto a dar ordens para que mandassem vir os ceifeiros no dia seguinte e decidido a resolver as dvidas que tinha relativamente  ceifa, que tanto o preocupava
- Bom, voltemos para casa - disse ele a Srgio
- Que pressa  essa' Fiquemos mais um bocado Ests todo encharcado1 Mesmo que no se pesque nada, est-se bem aqui Esta espcie de entretenimento  boa, porque nos pe em contacto com a. Natureza Que linda est a gua, parece de ao1 Estas margens cobertas de vege taco fazem me sempre lembrar aquela adivinha, recordas te', em que a erva diz  gua "Vamos tremer, tremer'"
- No conheo essa adivinha - replicou Levine, desanimado
CAPTULO III
- A propsito - continuou Srgio -, estava precisamente a pensar em ti: pelo que vejo, a dar ouvidos quele mdico, que me no parece nada tolo, passam-se coisas incrveis na tua regio. E isso leva me a K
228
petir-te o que j te disse fazes mal em te manteres afastado e em no assistires s reunies do zemstvo. Se as pessoas da nossa classe se desinteressam disso, ha\ era uma desordem de todos os diabos' Para onde vai o nosso dinheiro' Ns  que pagamos e eles trabalham a soldo No h escolas nem farmcias, nem enfermeiras nem parteiras, nada
- Que queres tu que eu faa' - replicou, contrariado, Constantmo Levme - Fiz o possvel por me interessar por tudo isso, mas est alm das minhas possibilidades
- Ora a est uma coisa que me custa a admitir Vejamos, quais so as causas da tua absteno' Indiferena' No posso acreditar Incapacidade' Ainda menos Apatia' Talvez
- Nada disso - replicou Constantmo - Convenci me, muito simplesmente, de que no conseguiria nada
Prestava pouca ateno a Srgio Um ponto negro, que se agitava l diante, nos campos lavrados do outro lado do curso de gua, chamava-lhe a ateno, no seria o administrador a cavalo'
- Por qu' Por qu' - insistia Srgio Ivanovitch - Desistes muito clJ mente No ters amor-prpno'
- Que vem aqui fazer o amor-prpno' - retorquiu Constantmo, fendo pelas palavras do irmo - Se na Universidade me tivessem considerado incapaz de compreender to bem como os meus camaradas o clculo integral, teria apelado para o meu amor prprio Mas, neste caso, temos de principiar por saber se este gnero de actividade exige capacidades especiais e se  um gnero de trabalho muito importante
- Achas ento que no  importante' - exclamou Srgio, ofendido pelo facto de ouvir o irmo tratar com tanta ligeireza coisas que ele muito prezava, que ele considerava de grande importncia, e alm disso vexado por verificar que Constantmo no prestava grande ateno s suas palavras
-  um facto, que hei-de eu fazer' Tudo isso me deixa indiferente - replicou Constantmo, que acabava de convencer se de que o ponto preto no horizonte era, de facto, o administrador, que naquele momento dispensava os trabalhadores, pois estes recolhiam as alfaias "J tero acabado de arar'", pensava ele
- Isso, meu caro, no - disse Srgio, e o seu belo rosto inteligente ensombrou se - H limites para tudo  Compreendo perfeitamente que se deteste a prospia e a mentira, sei muitssimo bem que a originalidade  uma virtude Mas o que acabas de dizer no tem sentido Como podes tu achar que no   importante que essa gente que  dizes estimar "Nunca disse semelhante coisa", pensou Constantmo Levine -    morra   abandonada'   As   parteiras   improvisadas   matam   as crianas e o povo morre na ignorncia, vtima do primeiro amanuense E_quando surge uma forma de os ajudar, tu afastas-te, dizendo   tudo isso no tem importncia
229
E Srgio apresentou ao irmo o seguinte dilema:
- De duas uma: ou a noo do dever  coisa que tu no compreendes ou no ests disposto a sacrificar o teu repouso ou at talvez a tua vaidade...
Constantino compreendeu que, se no queria passar por egosta, no tinha outro remdio seno submeter-se; sentia-se mortificado.
- Nem uma coisa nem outra - declarou em tom peremptrio.- Mas no acho possvel...
- Que dizes ? Pois achas que um melhor emprego das contribuies no permitiria, por exemplo, organizar uma assistncia mdica sria?
- No, no creio. Esqueces, efectivamente, que a nossa provncia abrange uma rea de quatro mil verstas quadradas e que muito frequentemente, com os rios gelados, as tempestades de neve e as pocas de trabalho intensivo nos campos no h comunicaes. Alm disso, no acredito na eficcia da medicina, para te falar com franqueza.
- Ests a exagerar. Podia citar-te milhares de exemplos... E ento as escolas?
- Para que servem as escolas?
- Para que servem? Podes duvidar das vantagens da instruo? Se a achas til para ti, no tens o direito de a recusar para os outros.
Constantino Levine sentiu-se levado  parede e, irritando-se, involuntariamente, explicou o motivo principal da sua indiferena para com as obras sociais.
- Talvez tudo isso esteja certo - disse ele-, mas para-que me hei-de eu afligir por causa desses centros sanitrios, de cujos servios nunca me utilizarei, ou criar escolas, para onde no mandarei os meus filhos nem para onde os prprios camponeses querem mandar os deles? Alis, no sei se teriam vantagem nisso.
Srgio Ivanovitch sentiu-se desconcertado por este inesperado ponto de vista, mas imediatamente eiaborou um novo plano de ataque.
Calou-se por momentos, retirou a cana da gua, atirou a linha para outro ponto do rio e sorrindo dirigiu-se ao irmo:
- Ests enganado... O centro sanitrio servir-te-ia para qualquer coisa. Acabas de chamar o mdico do zemstvo para tratar Agfia Mikailovna.
- E nem por isso ficar com a mo mais direita.
- Eis o que se est para ver... Alm disso, um mujique, um trabalhador que no seja analfabeto, -te mais til e mais valioso.
- No, quanto a isso, no! Pergunta a quem tu quiseres - replicou Constantino Levine, resolutamente. - Ilustrado, um mujique torna-se muito pior trabalhador. No se lhe pode mandar arranjar os caminhos e se se manda construir uma ponte, podemos contar que roubar as pranchas.
- Mas no  disso que se trata - disse Srgio Ivanovitch, franzindo o sobrolho. No gostava de contradies, e sobretudo daquela maneira
230
de saltitar de um assunto para outro, sempre com argumentos novos, sem ligao entre si. Era impossvel responder a tais argumentos. - Vejamos, ests de acordo em que a instruo  um benefcio para o povo?
- Estou - admitiu Levme, sem querer. Logo em seguida se deu conta de que no pensava assim, mas compreendeu num relance que o irmo se ia aproveitar da circunstncia para lhe demonstrar a sua inconsequncia. Mas como iria desenvolver essa demonstrao? De maneira muito mais simples do que ele imaginava.
- Dado que ests convencido disso - declarou Srgio-, como homem honrado que s no podes deixar de simpatizar com essa obra e portanto no podes recusar-te a trabalhar em seu benefcio.
- Mas se eu ainda no reconheci essa obra v' >mo boa ? - objectou Constantino Levine, corando.
- Como? Mas acabas de afirmar...
- No, no a acho nem boa nem possvel.
- Como  que o podes saber, se nada fizeste para isso?
- Bem, suponhamos que a instruo do povo  um benefcio - concedeu Constantino sem a mnima convico. - No vejo que isso seja razo para que eu me preocupe com ela.
- Como assim?
- Bom, j que principimos a falar neste assunto, explica-mo do ponto de vista filosfico.
- No percebo a que vem a filosofia neste caso - replicou Srgio Ivanovitch, e Levine sentiu-se vexado, percebendo, pelo tom do irmo, que ele o no considerava apto a falar de filosofia.
- Achas ? - tornou-lhe, exaltando-se. - Sou de opinio que o interesse pessoal constitui sempre o mbil das nossas aces. Ora eu, conquanto fidalgo, no vejo nada nas novas instituies, nada que possa concorrer para o meu bem-estar. As estradas no so melhores nem podem vir a s-lo. Alis, os meus cavalos levam-me to bem pelas boas como pelas ms estradas. No preciso nem de mdico nem de postos sanitrios. Quanto ao juiz de paz, nunca recorri aos seus servios nem recorrerei. E as escolas, em vez de me serem teis, s me do prejuzos, como acabo de te demonstrar. O zemstvo no representa, por conseguinte, para mim, mais do que um imposto suplementar de dezoito cope-ques por desiatina e de incmodas viagens  cidade, onde me sinto obrigado a pernoitar num quarto cheio de percevejos e a ouvir toda a espcie de inpcias e de incongruncias. E em tudo isto no vejo que o meu interesse pessoal esteja a ser beneficiado.
- D licena - interrompeu Srgio Ivanovitch, com urn sorriso. - O nosso interesse pessoal tambm no estava em jogo quando fomos levados a lutar pela abolio da escravatura e nem por isso deixmos de trabalhar nesse sentido.
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- No' - interrompeu pelo seu lado Constantino Levme, cada vez mais exaltado -A abolio da escravatura era outra coisa. A existia o interesse pessoal Queramos livrar-nos desse jugo que oprimia toda a boa gente, mas l o ser vogal para deliberar sobre o nmero de latas de lixo e de canos de esgoto necessrios  cidade, onde nem sequer vivo, o ser jurado para julgar um mujique que roubou um presunto e ficar seis horas a ouvir todas as tolices que dizem os defensores, os fiscais ou o presidente do tribunal, perguntando ao meu amigo Aliocha, o tontinho "Senhor acusado, reconhece-se culpado do roubo do presunto'" Que te parece'
Constantino Levme, arrastado pela sua argumentao, ps-se a imitar o presidente do tribunal e Aliocha, o tonto Afigurava-se-lhe que tudo estava relacionado com o objecto da discusso, mas Srgio Ivanovitch encolheu os ombros
- Mas afinal, onde queres tu chegar'
- A isto apenas Sempre que se trate de direitos que me digam respeito, isto , que digam respeito ao meu interesse pessoal, eu c estarei para os defender com unhas e dentes Quando ramos estudantes e a polcia nos ia revistar a casa ou nos ha a correspondncia, eu estava pronto a defender os meus direitos  instruo,  liberdade Estou pronto a discutir o servio militar obrigatrio, que atinge directamente o destino dos meus filhos, de meus irmos e de mim prprio Estou pronto a discutir as coisas que me afectam Mas no sei participar da chicana que discute o emprego de quarenta mil rublos dos fundos do zemslvo, nem sentenciar o tonto do Aliocha
Constantino Levme falava com tal mpeto que parecia ter-se lhe rompido o dique da loquacidade Srgio Ivanovitch sornu-se
- E se amanh tiveres um processo s costas, achars melhor ser julgado na antiga auditoria criminal'
- Nunca serei processado No penso matar ningum Tudo isso, repito-te, no me serve para nada - continuou Levme, e de novo passou a falar de um assunto que nada tinha a vet com o tema em discusso - Queres saber, essas histrias do zemstvo fazem-me lembrar ramos de btulas que ns enterrssemos no cho, como se costuma fazer pelo Pentecostes, para fingir uma dessas florestas que na Europa crescem de maneira absolutamente natural Ora eu recuso-me a regar esses ramos e a acreditar que iro ganhar razes e transformar-se em grandes rvores.
Embora tivesse compreendido imediatamente o que o irmo queria dizer, Srgio nem por isso deixou de encolher os ombros, como que a mostrar a surpresa que lhe causava ver surgirem na discusso aqueles ramos de btula
- Isso no  argumento - observou
Mas Constantmo Levme, sentindo-se culpado por no reconhecer em si interesse pelas coisas pblicas, procurou j'ustificar a sua atitude.
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- Acho que no h interesse duradouro desde que no seja fundado no interesse pessoal - continuou ele - uma verdade geral, <losfica, sim, fi-lo-s-fi-ca - repetiu, como para demonstrar que tinha o mesmo direito que qualquer outro de falar em filosofia
Srgio voltou a sorrir "Tambm ele", pensou com os seus botes, "arranja uma filosofia para pr ao servio das suas inclinaes"
- Bom, deixa a filosofia em paz -disse, por fim -O principal problema da filosofia, em todos os tempos, sempre foi o da necessidade de se encontrar a relao indispensvel entre o interesse pessoal e o mteresse geral Mas isso no tem nada que ver com a nossa conversa Pelo contrrio, preciso de rectificar a tua comparao No enterramos no solo ramos de btula, plantamos rvorezinhas novas que precisam de ser tratadas com cuidado As nicas naes com futuro, as nicas a que pode dar se o nome de histricas, so as que compreendem o valor das suas instituies e que portanto as sabem apreciar.
Transitando para um terreno - o terreno da filosofia da histria - em que Constantmo o no podia acompanhar, Srgio demonstrou lhe, peremptoriamente, o erro do seu ponto de vista
- Quanto  tua repugnncia plos negcios - concluiu ele -, ters de desculpar me se eu a debito  conta da nossa indolncia russa, das nossas antigas maneiras de grandes senhores Estou certo de que hs de acabar por reconhecer o erro em que incorres
Constantmo calava se Dando se conta de que estava vencido, sentia que o irmo no compreendera a sua ideia Ter se ia explicado mal' Ou seria o irmo que o no entendera ' Sem aprofundar o problema, no levantou qualquer outra objeco e no pensou noutra coisa se no no assunto em que estava empenhado Entretanto Srgio Ivanovitch recolhia a linha de pescar e desprendia o cavalo Ambos regressaram a casa
CAPTULO IV
O assunto em que Levme estava empenhado durante a discusso com Srgio era o seguinte no ano anterior, na altura em que ceifava o feno, zangara-se com o administrador, e, lanando mo do seu mtodo habitual para sossegar, pegara na gadanha, que arrancara das mos de um ceifeiro, e pusera se a ceifar
Tanto gostou desse trabalho, que o repetiu vrias vezes, chegou a ceifar todo o campo diante da casa, e naquele ano, desde a Primavera que projectava passar dias inteiros a ceifar com os camponeses Desde Sue o irmo chegara no fazia outra coisa seno pensar se deveria ou no raz-lo Custava lhe deixar o irmo sozinho tanto tempo, e alm disso
233
receava que ele troasse de si. Mas quando atravessava o campo, ao recordar as sensaes que experimentara nesse trabalho, quase resolveu faz-lo. Depois da discusso com o irmo, voltou a lembrar-se da deciso que tomara.
"Preciso de exerccio fsico; caso contrrio, azeda-se-me o carcter", pensou. E decidiu que ceifaria, ainda que isso parecesse incorrecto para com o irmo e os camponeses.
Nessa noite Constantino Levine foi ao escritrio, deu as suas ordens quanto aos trabalhos e mandou procurar os ceifeiros pelas aldeias, na inteno de principar a ceifa do prado de Kalinovo, o maior e o melhor de todos.
- Levem a minha gadanha a casa do Tito, para que ele ma afie e leve amanh ao campo. Talvez eu v ceifar tambm - disse, pr-curando no se perturbar.
O administrador sorriu e respondeu-lhe:
- Muito bem, patro.
 noite,  hora do ch, Levine disse ao irmo:
- Parece que o bom tempo est firme. Amanh comearei a ceifar.
- Gosto muito desse trabalho - comentou Srgio Ivanovitch.
- A mim, encanta-me. J algumas vezes tenho ceifado com os camponeses e amanh quero ceifar todo o dia.
Srgio Ivanovitch ergueu a cabea, fitando Levine com curiosidade.
- Qu ? Com os camponeses ? Como se fosses um deles ? Todo o dia ?
- Sim,  muito agradvel - respondeu Levine.
- Como exerccio fsico  excelente, mas no sei se aguentars - disse Srgio Ivanovitch sem qualquer ironia.
- J o demonstrei. Ao princpio custa, mas depois uma pessoa habitua-se. Parece-me que irei at ao fim.
- Deveras ? E os camponeses, como encaram eles isso ? Naturalmente fazem troa das excentricidades do patro.
- No. No me parece.  um trabalho ao mesmo tempo to divertido e to difcil, que no d tempo para pensar.
- Mas vais comer com eles ? Mandar-te ao campo Chateau-lajite e pavo assado era um pouco forte.
- Virei a casa enquanto eles descansam.
Na manh do dia seguinte, Levine levantou-se mais cedo do que o costume, mas entreteve-se a dar ordens, e quando chegou ao campo os ceifeiros j encetavam a segunda franja.
L do alto do cerro Levine viu a parte do campo onde o sol j no chegava: era essa precisamente que os ceifeiros tinham atacado, e as roupas de que se haviam despojado antes de se meterem ao trabalho formavam pequenos montculos pretos na terra ceifada. No tardou a distinguir os ceifeiros: estes em mangas de camisa, aqueles de cafet,
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uns aps outros, formavam uma extensa fileira, movendo as gadanhas cada um  sua maneira. Contou quarenta e dois homens.
Avanavam lentamente pela parte baixa e desigual do campo, onde havia um antigo aude. Levine reconheceu alguns deles. L estava o velho Ermil, com uma grande camisa branca, ceifando muito corcovado, e o jovem Vaska, que fora cocheiro em casa de Levine, que ceifava a franja de uma s vez. Tambm l estava Tito, um campons de pequena estatura e corpo delgado, mestre de Levine na arte de ceifar. A frente de todos, ceifava a grande franja sem se inclinar, como se brincasse com a gadanha.
Levine apeou-se do cavalo e amarrou-o junto ao caminho. Aproximou-se de Tito. Este, sacando de uma gadanha detrs de uma moita, entregou-lha.
- Est bem afiada, patro.  como uma navalha de barba, corta tudo que lhe puserem diante - disse Tito, sorrindo e tirando o gorro, enquanto lhe passava a gadanha para as mos.
Levine pegou nela e experimentou-a. Os camponeses que tinham acabado de ceifar a franja, suados e alegres, saam ao caminho, uns atrs dos outros, e, rindo, saudavam o patro. Todos o olhavam, mas nenhum abria a boca. Por fim um velho alto, de rosto sulcado de rugas e barba rapada, que usava um jaleco de pele de cordeiro, ao chegar ao caminho, como se no se dirigisse a Levine, disse:
- J que o patro pegou na gadanha, vamos a ver se no fica para trs.
Levine ouviu risos sufocados no grupo dos ceifeiros.
- Hei-de fazer por no ficar para trs - replicou ele, colocando-se na retaguarda de Tito,  espera de principiar.
-  o que veremos - disse o velho.
Tito principiou a avanar e Levine atrs dele. A erva era rasteira e Constantino Dimitrievitch, que havia muito no ceifava, sentia-se embaraado por estarem a olhar para ele, iniciou a faina desajeitadamente, embora os seus movimentos fossem enrgicos.
- Pegou mal na gadanha, pega-lhe muito por cima. Olhem como ele tem de se agachar! - disse um dos ceifeiros.
- Apoie melhor o calcanhar - aconselhou outro.
- No, no, l se vai acostumando - comentou o velho. - Ests a ver, j vai melhor... Apanha muito de uma vez. Assim cansa-se mais depressa... fi patro e trabalha para si mesmo. Mas olha os bordos que ele vai deixando! A ns era capaz de nos castigar, se fizssemos uma coisa dessas.
A erva era agora mais macia. Levine ouvia, sem responder, e seguia Tito, procurando ceifar o melhor possvel. Avanaram uns cem passos. Tito continuava sem se deter e sem o mais leve cansao. Mas Levine to cansado estava que receava no poder resistir.
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A cada novo golpe da gadanha mais lhe faltavam as foras, e resolveu pedir a Tito que se detivesse Mas nesse mesmo momento Tito parou e, agachando se, apanhou uma mo cheia de erva, limpou a gadanha e ps se a afi-la Levme ergueu se, suspirou e voltou a cabea Atrs dele vinha um ceifeiro, naturalmente cansado tambm, pois, antes de chegar junto de Levme, deteve se para afiar a gadanha Tito afiou a dele e depois a de Levme, e em seguida continuaram
Na segunda volta fizeram o mesmo Tito avanava ceifando sem parar nem mostrar cansao Levme ia atrs dele, procurando no se atrasar Mas cada vez era mais dura a ceifa Sentia no tardar muito o momento em que no teria mais foras Entretanto Tito deteve se novamente para afiar as gadanhas
Assim terminaram a primeira franja Tito, de gadanha ao ombro, voltou a percorrer o sulco deixado plos seus prprios taces, seguido do patro, que fazia o mesmo e pisava tambm o sulco dos seus prprios taces A Levme custara lhe bastante, mas, em compensao, concluda essa parte do trabalho, sentiu se muito satisfeito, apesar de suar em bica e as gotas lhe escorrerem pelo rosto e pelo nariz e de ter as costas completamente empapadas Alegrava o sobretudo a certeza de que agora seria capaz de aguentar
S uma coisa lhe minorou a satisfao o facto de a sua franja no estar bem ceifada "Moverei menos os braos e mais o corpo todo", pensou, comparando a zona ceifada por Tito, completamente alinhada, com a sua, bastante irregular
Levme reparou que Tito ceifara a primeira franja extraordinariamente depressa, naturalmente para experimentar o amo, e que, alm disso, essa franja era muito larga As seguintes foram mais fceis, mas, mesmo assim, teve de fazer um grande esforo para no ficar para trs
No pensa\a em nada nem desejava nada, excepto no se atrasar e ceifar o melhor possvel Apenas ouvia o bater das gadanhas e via diante dele a figura erecta de Tito, que se afastava, o semicrculo ceifado, a erva que, ondeando, se inclinava lentamente, as flores junto ao fio da sua gadanha e mais adiante o extremo da leira onde descansariam
Sem saber por qu, sentiu, no meio do trabalho, uma agradvel sensao de frescura nos ombros ardentes e suados Olhou para o cu enquanto afiavam as gadanhas, formara se uma nuvem baixa e pesada e caam grandes gotas de chuva Alguns ceifeiros puseram os cafets s costas, outros, como Levme, limitaram se a encolher alegremente os ombros perante a agradvel frescura da chuva
Ceifaram franja aps franja Algumas eram grandes, outras curtas, umas de erva de boa qualidade, outras de erva ma Levme perdeu a noo do tempo, no sabia se era tarde ou cedo Na sua tarefa operara se agora uma mudana que lhe dava grande prazer Durante o trabalho havia momentos em que se esquecia do que estava a fazer e lhe
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era fcil ceifar Ento a sua franja ficava to bem ceifada como a de Tito Porm, quando se capacitava do que estava a fazer, e procurava esmerar -se, sentia a responsabilidade da tarefa e a franja saa pior
Ao terminarem outra franja, Levme ia recomear de novo, mas Tito deteve se e, aproximando se do velho, disse lhe qualquer coisa em voz baixa Ambos olharam para o sol "De que estaro eles a falar' Por que no principiaram outra franja'", pensou Levme, sem reparar que havia pelo menos quatro horas seguidas que os camponeses ceifavam e que chegara a hora do almoo
- Vamos almoar, patro -disse o velho
- J so horas' Ento vamos a isso'
Levme entregou a gadanha a Tito e na companhia dos ceifeiros, que foram buscar o po aos seus cafets, encaminhou se para a sua cabana, atravessando toda a rea ceifada, coberta de montes de feno ligeiramente humedecidos pela chuva S ento compreendeu que se enganara a respeito do tempo e que a chuva ia molhar o feno ceifado
- O feno vai ficar estragado - disse ele
- No faz mal, patro, dizem que se deve ceifar com chuva e
recolher o feno com sol - replicou o velho
Levme desprendeu o cavalo e foi tomar caf a casa
Srgio Ivanovitch acabava de se levantar  Depois de tomar o caf,
Levme voltou para o campo sem dar tempo a que o irmo se vestisse
e entrasse na sala de jantar
CAPTULO V
Depois do almoo coube a Levme ceifar entre um velho trocisra, que o convidou a alinhar com ele, e um mujique novo, que se casara no Outono e era a primeira vez que ceifava naquele ano
O velho, que se'mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rtmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas Graas a um movimento vigoroso e compassado, que no lhe custava mais que balanar os braos em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes Dir se ia que no era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta
Atrs de Levme seguia o jovem Michka O seu rosto agradvel e juvenil, coroado de ervas frescas entranadas, mostrava bem o esforo que fazia, mas quando algum olhava para ele, sorria Estava, sem dvida, mais disposto a morrer do que a reconhecer que aquilo era penoso
Levme ia entre os dois  hora de maior calor a ceifa no lhe parecia to difcil O suor refrescava o, enquanto o sol, que lhe queimava
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as espduas, a cabea e os braos descobertos at ao cotovelo, lhe dava mais vigor e tenacidade no trabalho E cada vez se repetiam mais amide aqueles momentos em que lhe era possvel no pensar no que estava a fazer A gadanha ceifava por si Momentos felizes esses E mais felizes ainda aqueles em que, ao aproximar se do no at onde chegavam os regos, o velho limpava a gadanha com a erva hmida, passava a folha de ao na gua fresca do no e enchendo o cantil oferecia o a Levme e dizia lhe, com um momo trocista
- Quer beber um trago do meu kvas?  bom, no ' E efecm amente Levme nunca bebera nada que se parecesse com aquela agua morna onde flutuavam ervas e sabia a ferro oxidado E logo em seguida chegava o momento do agradvel e lento passeio, com a gadanha na mo, durante o qual um homem podia enxugar o suor, respirar a plenos pulmes e relancear a vista pela imensa fila de ceifeiros, oem como pelo campo e pela mata
Quanto mais ceifava, tanto mais frequentes eram os momentos em que Levme esquecia o que estava a fazer, durante os quais j no eram os braos que moviam a gadanha, mas esta que arrastava atrs de si todo aquele corpo consciente de si mesmo e cheio de vida E como por artes de magia, sem pensar no trabalho, este realizava-se com perfeio e rigor, como por si mesmo Esses eram os momentos mais felizes
S se tornava difcil quando era preciso interromper esse movimento inconsciente e tornar a reflectir, quando se devia ceifar nalgum cabeo ou nalgum stio onde ficavam azedeiras por arrancar O velho fazia o sem dificuldade Ao chegar a qualquer desses pontos, mudava de movimento e, ora com o taco ora com a ponta da gadanha, desfazia o montculo em poeira. E ao faz-lo, via tudo  sua volta aqui um talo de azedas que arrancava e comia ou oferecia ao amo, ali um ramo que afastava com a ponta da gadanha, acol um ninho de codormzes de onde a fmea se despedia, voando
Tanto para Levme como para o rapaz que trabalhava atrs dele, estes movimentos eram difceis Ambos, assim que encontravam o movimento adequado, deixavam-se absorver pelo trabalho e sentiam se incapazes de modificar o ritmo enquanto iam olhando o que se lhes deparava diante da vista.
Levme no dava pelas horas Se lhe tivessem perguntado h quanto tempo trabalhava, teria dito que h meia hora apenas, quando, na ver dade, j chegara a hora de jantar Ao atingirem o extremo de um rego, o velho apontou a Levme alguns rapazes e raparigas que vinham ao encontro dos ceifeiros, de pontos diferentes, tanto pelo caminho como pelo meio da alta erva, onde mal se viam, carregando pes e jarros de kvas, cobertos com guardanapos, pesados de mais para as suas mozinhas
- L vm os garotos - disse o velho E fazendo pala com a mo,
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F.
ps-se a observar o Sol  Depois de terem ceifado mais duas franjas, o velho deteve-se
- Bom, patro, vamos jantar - disse ele, resolutamente E assim que atingiram o no, os ceifeiros dmgiram-se para os seus cafets, onde eram aguardados pelas crianas que traziam o jantar Os rnujiques que estavam mais longe reuniram-se junto s carroas e os que estavam mais perto debaixo de uma moita de codessos, que cobriam com montes de feno para ficarem mais frescos Levme sentou se ao p deles, no lhe apetecia ir-se embora
Os trabalhadores j se no sentiam embaraados diante do patro Preparavam-se para comer Alguns lavavam-se, os rapazes tomavam banho no rio, outros preparavam recantos para descansar, desatando os saquitis do po e destapando os jarros de kvas O velho fez migas de po dentro de uma tigela, esmagou-as com as costas da colher, deitou lhes dentro gua do cantil, cortou mais po e salgou-o - depois ps-se a rezar voltado para o oriente
- Patro, quer provar a minha tiurka? - perguntou ele, pondo-se de joelhos diante da tigela
A tiurka estava to boa que Levme desistiu de ir a casa comer Comeu com o velho, e enquanto comia aquele repasto frugal deixou que o velho lhe contasse coisas da sua vida, que muito o interessaram, falando-lhe, por sua vez, de alguns dos seus projectos, que esperava despertassem a curiosidade do bom do mujique Sentia-se mais perto dele do que do irmo e sem querer sorria de afecto por aquele homem Quando o velho se ps de novo em p, voltou a rezar e ali mesmo se deitou na terra,  sombra de uma moita, depois de fazer uma almofada com um pouco de erva Levme fez a mesma coisa Apesar das moscas, moles e pesadas, e dos insectos que lhe faziam ccegas no rosto e no corpo suados, no tardou a adormecer, acordando quando o Sol j ia do outro lado das matas e dava sobre ele O velho, que j se levantara havia um bom bocado, afiava as gadanhas dos rapazes
Levme olhou  sua volta, sem saber onde estava, to grande a mudana operada no campo A enorme rea ceifada brilhava de um brilho especial, novo, com as medas de feno que cheiravam sob os raios oblquos do Sol poente Tudo se lhe afigurava completamente novo, tanto os arbustos, com a erva ceifada em roda, junto ao rio, como este, invisvel ha pouco e agora to brilhante que parecia ao, e os homens que acordavam e comeavam a mover-se, a alta muralha de erva na parte do prado ainda por ceifar, os abutres por cima do espao ceifado Ao recobrar a conscincia, Levme ps se a calcular quanto tinham ceifado e quanto poderiam ceifar ainda
Era muito o trabalho feito para quarenta e dois homens J estava ceifado todo o prado grande, o qual, no tempo da servido, exigia o trabalho de trinta homens durante dois dias Agora, s faltava terminar
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os extremos, pequenas zonas de erva. Mas Levine, que desejava ceifar o mais que pudesse naquele dia, contrariava-o que o Sol se pusesse to cedo. No se sentia nada cansado; s queria continuar a trabalhar enquanto fosse possvel.
- Que achas ? Temos tempo de ceifar a Machkine Vierch ? -. perguntou ao velho.
- Se Deus quiser, ainda que o Sol j no v muito alto. Por que no manda distribuir vodka aos rapazes ?
A hora da merenda, quando os ceifeiros tiveram outro descanso e os fumadores acenderam os cigarros, o velho disse-lhes que, se ceifassem o Machkine Vierch, teriam vodka.
- Pois por que no haveramos de o ceifar ? Vamos, Tito, mos  obra!  noite temos tempo de comer. Avante! - ouviu-se gritar, e os ceifeiros puseram-se em movimento, ainda a mastigar o bocado de po.
- Vamos, gente! - exclamou Tito, e deitando a correr, ps-se  cabea de todos.
- Corre! Corre! - dizia-lhe o velho, que o acompanhava na marcha, sem esforo algum. - Despacha-te ou corto-te.
Jovens e velhos ceifavam qual deles o mais depressa. Mas, apesar da rapidez com que o faziam, no estropiavam a erva, que caa com a mesma regularidade e preciso. A rea por ceifar foi ceifada em cinco  minutos. Estavam os ltimos ceifeiros ainda a terminar a sua tarefa, j os primeiros deitavam os cafets ao ombro e se dirigiam, atravessando o caminho, para Machkine Vierch.
O Sol j se punha por detrs das rvores quando os ceifeiros, fazendo retinir os cantis, penetraram na ribanceira, coberta de rvores, do Machkine Vierch. No centro desta a erva chegava at  cintura dos homens, suave e macia, e no meio dela, disseminadas, havia flores silvestres. Depois de um breve concilibulo em que se discutiu se deviam ceifar a direito ou  largura do prado, Prochor lermiline, tambm ceifeiro de nomeada, homem alto e moreno, ps-se  frente de todos. Ceifou uma franja e voltou atrs. Todos ento se alinharam atrs dele. Ceifaram uma das vertentes da ravina, atravessando o fundo e subindo pela outra vertente at  orla da mata. O Sol punha-se por detrs das rvores; principiava a cair o rocio da noite; s os ceifeiros que trabalhavam no alto do cerro continuavam ao sol; mas em baixo, no barranco, onde principiava a estender-se um vu de neblina, e do outro lado do monte, ceifavam  sombra fresca e hmida. O trabalho estava no apogeu.
A erva, quando a gadanha a cortava, produzia um som manso e caa, amontoando-se em grandes medas, que despediam intenso aroma-Os ceifeiros, apertados na zona em que trabalhavam, to depressa deixavam ouvir o rudo dos cantis e o das gadanhas que davam nas arestas das pedras ao afi-las, como os gritos alegres com que se animavam uns aos outros.
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Levine continuava a ceifar, como at ali, entre o velho e o rapaz O velho, que pusera a jaqueta de pele de cordeiro, continuava alegre' trocista e agd nos seus movimentos. Na mata as foices apanhavam' cortando-os a cada momento, grandes cogumelos enraizados na erva' Ass,m que dava com algum, o velho abaixava-se, apanhava-o e escondia-o debaixo do jaleco, dizendo: "Aqui est mais um presente para a minha
A erva hmida e tenra ce,fava-se facilmente; o que custava era subir e descer as encostas ngremes da ravina. Mas o velho no dava por isso. Movendo a gadanha, dava passadas curtas com os seus ps calados de grandes laftis, e subia devagar a rampa. Embora lhe tremesse todo o corpo e lhe escorregassem as calas por debaixo da camisa no deixava perder nem um p de erva nem uma s vergntea, nem um nico cogumelo, dizendo as suas graas a Levine e aos moos. Levine atras dele, cuidava que se no aguentaria nas pernas, ao trepar, com a gadanha nas unhas, uma encosta to inclinada que seria difcil galg-la mesmo sem ela. Mas no podia de.xar de continuar. Uma fora exterior parecia conduzi-lo.
CAPTULO VI
Quando acabaram de ceifar o Machkine Vierch, os mujiques vestiram os cafets e voltaram alegremente para suas casas. Levine montou a cavalo, e despedindo-se deles com certa tristeza regressou a penates. Quando chegou ao alto do morro, voltou a cabea. No se viam os ceifeiros por causa da nvoa que ia subindo; apenas se ouviam as suas rudes vozes juvenis, as sua"s gargalhadas e o retinir das gadanhas.
Srgio Ivanovitch, que acabara de comer havia pouco, no seu quarto, bebia gua com limo e gelo enquanto folheava os jornais e as revistas que acabavam de chegar no correio. Levine, de cabelos emaranhados e colados  testa pelo suor, os ombros tostados e hmidos, entrou correndo e lanando alegres exclamaes.
- Ceifmos o campo todo! Foi magnfico, extraordinrio! E tu, como passaste tu? - perguntou, completamente esquecido da conversa desagradvel da vspera.
- Meus Deus! Que aspecto o teu! - exclamou Srgio Ivanovitch, que fitava o irmo com desagrado. - Fecha a porta, ao menos. Fecha a porta! - gritou-lhe. - Pelo menos dez moscas j entraram para o quarto.
Srgio Ivanovitch no podia com as moscas. Mal abria as janelas do quarto  noite, e tinha sempre a porta cautelosamente cerrada.
I.B202-1
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- Garanto te que no entrou nem uma E, caso contrrio, caa Ias ia No podes calcular o prazer que me d esse trabalho  Como passaste
o dia?
- Muito bem Mas ser possvel que tenhas estado a ceifar todo este tempo' Calculo que deves ter uma fome canina Kuzma preparou te
o jantar
- No, no tenho fome  Comi com os homens O que vou fazer
 lavar me
- Bom, ento vai, vai Depois irei ter contigo - disse Srgio Iva novitch, agitando a cabea e olhando para o irmo -Anda, vai, vai, no te demores - acrescentou, sorrindo Guardou os livros e disps se a segui Io De sbito sentira se alegre e no queria separar se dele - E onde estiveste enquanto choveu'
- Que chuva' Apenas caram uma gotas de gua Bem, no me demoro, volto j Ento, passaste bem o dia' Magnfico1
Levine foi mudar de roupa Cinco minutos depois reuniram se os irmos na sala de jantar Embora Levine julgasse que no tinha apetite e se tivesse sentado  mesa apenas para no desgostar Kuzma, a comida soube lhe muitssimo bem Srgio Ivanovitch olhava o, sorrindo
- Ha uma carta para ti - disse - Kuzma, deixa ver a carta, se faz favor Esta Ia em baixo Mas tem cuidado, fecha a porta
A carta era de Oblonski Levine leu a em voz alta Vinha datada de Sampetersburgo
Recebi carta da Dolly, que est em lerguchovo, e ela diz que tudo ali lhe cone mal Peo te que a vs visitar e a. ajudes com algum conselho, j que de tudo entendes Gostar muito de te ler A pobrezinha sente se muito s Minha sogra continua ainda no estiangeiro com toda a famlia
- Pois bem - disse Levine -, irei visita Ia Poderamos ir juntos Dolly  to simptica, no  verdade'
- Est longe daqui'
- A umas trinta verstas, o mximo quarenta Mas o caminho  muito bom Iremos com toda a facilidade
- Est bem, com prazer - assentiu Srgio Ivanovitch, sempre sorri dente
O aspecto do irmo mais novo predispunha o irresistivelmente para a jovialidade
- Que apetite o teu' - disse, olhando para Levine, que, muito queimado no rosto e no pescoo, queimado e vermelho do sol, se mcli nava sobre o prato
- Excelente' No calculas como este regime  bom para limpit o crebro Estou disposto a enriquecer a medicina com um novo termo Arbeitskm
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- Ora a est uma cura de que tu no precisas
- No, mas acho que  ptima para combater certas doenas nervosas
-  uma experincia a tentar Pensei ir ao campo ver te ceifar, mas fazia tanto calor que tratei logo de me refugiar  sombra das rvores Estive sentado um bom pedao na mata e depois atravessei o bosque e fui  aldeia, onde encontrei a tua antiga ama Sondei a um pouco para saber o que pensavam de ti os aldees Se bem entendi, no aprovam o teu novo gnero de trabalho "No  tarefa para patres", disse me ela Em geral, acho que o critrio do povo define muito bem o que deve ser a actividade "dos amos", como eles dizem E no admitem que estes saiam fora do marco fixado pelo critrio deles
- Talvez, mas isto d me uma satisfao tal como ainda no expe nmentei outra na minha vida E no tem nada de mal, no  verdade' - disse Levine - Que havemos de fazer, se eles no gostam'
- Pelo que vejo, o teu dia satisfez te completamente
- Completamente Ceifmos o prado todo e travei amizade com um velho muito pitoresco' No podes calcular que rico tipo ele 
- Ests ento contente' Eu tambm Em primeiro lugar resolvi dois problemas de xadrez, um deles muito curioso ataca se com um peo Hei de mostrar te E depois estive a pensar na nossa conversa de ontem
- Qu' Na nossa conversa de ontem' - perguntou Levine, f chando os olhos e de boca aberta, sem se lembrar de que discusso se tratava entregue a mais doce beatitude
- Acho que em parte tens razo A nossa discordncia resulta do facto de tu considerares o interesse pessoal o objectivo das nossas aces enquanto eu opino que todo o homem que ascende a um certo grau de cultura deve ter por objectivo o interesse geral Talvez tenhas razo em preferir uma actividade dirigida para um fim utilitrio A tua natureza  demasiado primesautiere', como dizem os Franceses, precisas de uma actividade apaixonada ou ento nada te agrada
Levine ouvia o irmo sem o compreender e sem querer compreender absolutamente nada do que ele dizia A nica coisa que receava  que este lhe pergutasse algo a que no soubesse responder, revelando-lhe assim que no estava a tomar ateno ao que ele dizia
- No achas que tenho razo, amigo' - disse Srgio, batendo lhe no ombro
- Claro que tens Sim, eu no quero insistir na minha opinio - replicou Levine, com um sorriso infantil e uma expresso culposa "Em que diabo falamos nos'", pensava "O certo  que no fim de contas ambos tnhamos razo Assim  que  Tenho de ir ao escritrio dar as minhas ordens "
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Levine levantou-se e espreguiou-se, sorrindo.
Srgio no queria  separar-se do irmo,  que irradiava  alegria e
frescura.
- Bom - props ele-, vamos dar uma volta; passaremos pelo
escritrio, se queres.
- Ai,  meu  Deus! - exclamou,   de  sbito,  Constantino  Levine.
- Que foi? - inquiriu Srgio, assustado.
- E o brao de Agfia Mikailovna? - disse Constantino, batendo na testa. - Tinha-me esquecido dela.
- Est muito melhor.
- Seja como for, vou l v-la num pulo. Estarei de volta antes de teres tempo de pr o chapu.
E correu escadas abaixo; os taces das botas pareciam uma matraca nos degraus.
CAPTULO VII
Stepane Arkadievitch fora a Sampetersburgo para cumprir uma obrigao to natural e conhecida de todos os funcionrios como incompreensvel para os que o no so, um requisito indispensvel, sem o qual no se pode trabalhar, e que consiste em cada um fazer-se lembrado do ministro. Uma vez cumprido esse dever, como levava consigo todo o dinheiro que havia em casa, passava o tempo alegre e agradavelmente, assistindo s corridas e visitando os veraneantes. Entretanto Dolly, com os filhos, mudava-se para a aldeia na inteno de restringir quanto possvel as despesas. Foi para lerguchovo, a quinta que recebera em dote, e  qual pertencia a mata que tinham vendido na Primavera. Ficava a umas cinquenta verstas de Pekrovskoie, a aldeia de Levine.
A velha casa estava em runas havia muito e ainda fora o prncipe quem reparara e ampliara o pavilho. H uns vinte anos, era Dolly criana, esse pavilho fora espaoso e cmodo, embora, como todos os pavilhes, construdo de esguelha em relao  avenida principal e voltado para o sul. Mas agora era velho e estava meio em runas. Quando na Primavera Oblonski viera  aldeia para vender a mata, Dolly pedira-lhe que inspeccionasse a casa e a mandasse reparar. Stepane Arkadievitch, como todos os maridos que se sentem culpados, preocupava-se muito com as comodidades da esposa. Examinou a casa e mandou consertar o que se lhe afigurou necessrio. Em seu parecer havia que forrar de cretone todos os mveis, pr cortinas, limpar o jardim, construir urna pontezinha ao p do tanque e plantar flores. Mas esqueceu-se de muitas
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outras coisas imprescindveis, falta que veio a constitur para Daria Alexandrovna mativo de tormento.
Apesar de todos os esforos que fazia para ser bom marido e bom pai, Oblonski nunca conseguia lembrar-se de que tinha mulher e filhos. As suas inclinaes eram de um homem solteiro e a elas se atinha. Quando regressou a Moscovo, comunicou, orgulhoso,  mulher que tudo ficara resolvido, que a casa parecia um brinquinho e que a aconselhava a ir at l. A Stepane Arkadievitch era-lhe de grande vantagem, sob todos os aspectos, a partida da esposa: saudvel para as crianas, fariam menos despesas e ele estaria mais livre. Daria Alexandrovna considerava, alis, indispensvel esta vilegiatura na aldeia: a sade dos filhos assim o exigia, especialmente a da menina mais nova, convalescente da escarlatina, e, alm disso, saindo de Moscovo ver-se-ia livre das pequenas humilhaes provocadas pelas dvidas aos seus fornecedores, o sapateiro, o homem da lenha e o da peixaria, cujas contas a afligiam. Ademais, tinha esperana de atrair ali sua irm Kitty, que devia regressar do estrangeiro em meados do Vero, pois lhe tinham sido prescritos banhos frios. Kitty escrevera-lhe das termas dizendo-lhe que nada lhe seria mais grato do que passar o Vero com ela em lerguchovo, to cheio de recordaes de infncia para ambas.
Ao princpio, a vida na aldeia foi muito penosa para Dolly. Vivera ali criana e guardava consigo a ideia de que o campo era um refgio para todos os desgostos da cidade e que, embora a vida l no fosse bonita (isso pouco lhe importava), era cmoda e econmica: havia de tudo, tudo era barato e a dois passos, e as crianas sentiam-se felizes. Mas agora, que viera como dona de casa, verificava ser tudo muito diferente do que pensara.
No dia seguinte ao da sua chegada, choveu torrencialmente, repassando os telhados, e a gua caiu no corredor e no quarto das crianas, vendo-se obrigada a mudar as camas para o salo. No havia cozinheira para a criadagem; das nove vacas no estbulo, segundo,a vaqueira, umas estavam para ter crias, outras criavam a sua primeira vitela, outras j eram velhas, alm de que difceis de ordenhar. Nem para as crianas havia leite e manteiga suficientes. Ovos faltavam. No se podia comprar frangos; via-se obrigada a assar galos velhos, de carne escura e cheia de nervos. No conseguia arranjar mulheres para esfregarem os soalhos, pois todas andavam na apanha da batata. Sair de carro, era-lhe impossvel, porque um dos cavalos encabritava-se e arrebentava os varais. To--pouco podia tomar banho. Toda a margem do rio estava espezinhada pelo gado, e alis muito a descoberto. Nem sequer podiam passear, visto a cerca do jardim, mal cuidada, deixar a entrada livre ao gado e haver na manada um touro bravo que mugia e provavelmente marrava. Os armrios para a roupa eram poucos e os que existiam no fechavam bem. Bastava passar junto deles para as portas se abrirem. Faltavam panelas
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e caarolas; no lavadouro no havia caldeiros e nem sequer havia tbua
de engomar.
Em vez de encontrar descanso e tranquilidade na aldeia, Daria Alexandrovna principiou por uma crise de desespero. Aquelas pequenas contrariedades assumiam a seus olhos propores de catstrofe; incapaz de as remediar, apesar de tudo fazer para isso, via a situao irremedivel e dificilmente conseguia reter as lgrimas para que a no vissem chorar. O encarregado da propriedade era um ex-sargento de cavalaria que principiara por consagrar os cios da sua reforma s funes mais modestas de guarda-porto. Entusiasmado com o seu bom aspecto e as suas atitudes deferentes, Stepane Arkadievitch promovera-o, todavia, a encarregado. As dificuldades de Daria Alexandrovna deixavam-no indiferente. "Que quer, minha senhora", dizia no seu modo mais respeitoso, "com to m gente no se pode fazer nada!" E nada fazia!
A situao parecia insolvel. Mas em casa dos Oblonski, como em todas as famlias, existia uma personagem insignificante e no entanto importantssima e muito til: Matriona Filimonovna. A boa da mulher sossegava a patroa dizendo-lhe que tudo "se arrumaria" (a expresso era bem sua e Matvei apropriara-se dela) e agia sem precipitar-se nem alterar-se.
Imediatamente se relacionou com a mulher do encarregado e nesse mesmo dia tomava ch no jardim com ela e o marido, debaixo das accias, tratando com eles de todos os assuntos. Em breve, e debaixo das accias tambm, se organizava o clube de Matriona Filimonovna, constitudo pela mulher do encarregado, o tarosta e o escriturrio da casa. Pouco a pouco todas as dificuldades da vida comearam a solucionar-se, e no fim de uma semana, com efeito, tudo estava "arrumado". O telhado reparou-se, arranjou-se uma cozinheira, comadre do starosta, compraram-se galinhas, as vacas principiaram a dar leite, a cerca do jardim foi arranjada com traves de madeira, puseram-se fechos nos armrios, que j se no abriam por si, e a tbua de engomar, forrada com o pano de um velho uniforme militar, assentou-se no brao de uma poltrona e numa cmoda, e no tardou que em casa cheirasse a ferros quentes.
- Como v - disse Matriona Filimonovna, apontando para a tbua de engomar - no havia motivo para to grandes aflies!
Arranjaram tambm um banheiro de palha. Lili principiou a tomar os seus banhos e, embora apenas em parte, realizaram-se, de facto, os desejos de Daria Alexandrovna, que queria levar uma vida, seno tranquila, pelo menos cmoda e ao gosto rural. Na verdade, Daria Alexandrovna nunca tinha sossego com os seus seis filhos: um adoecia, o outro corria o mesmo risco, este queria isto ou aquilo, aqueloutro dava indcios de mau carcter, etc. L de longe em longe vinham perodos de tranquilidade. No entanto essas preocupaes e dificuldades eram a nica felicidade possvel de Daria Alexandrovna. Sem isso, ficaria sozinha
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com os seus pensamentos sobre o marido, pois j lhe no tinha amor. Mas, por outro lado, apesar do penoso que era o receio em que vivia de que as crianas adoecessem, do que sofria com as doenas delas e da mgoa de verificar as suas ms inclinaes, tudo isso era largamente compensado pelas alegrias que as crianas lhe davam.  certo que essas alegrias eram to minsculas e invisveis, como o ouro no meio da areia, e Dolly diante de si s via um areal. De quando em quando l vinham, porm, minutos bons, e ento s via a alegria, o ouro.
Agora, na solido da aldeia, cada vez atentava mais nessas alegrias. Muitas vezes, olhando para os filhos, fazia os maiores esforos para se convencer de que se enganava e de que, como me, era parcial para com eles; mas, ainda que assim fosse, no podia deixar de crer que eram soberbos todos os seis, e cada um com o seu feitio, realmente excepcionais. E sentia-se feliz e orgulhva-se deles.
CAPTULO VIII
Em fins de Maio, quando j tudo estava mais ou menos remediado, Daria Alexandrovna recebeu a resposta do marido s queixas que lhe fizera sobre o estado em que encontrara a casa. Oblonski pedia-lhe perdo por no ter pensado em tudo e prometia-lhe ir  aldeia na primeira oportunidade. Mas essa oportunidade no chegou e Dolly viveu s at princpios de Junho,
Um domingo, durante um jejum que precede So Pedro, Daria Alexandrovna levou consigo  missa todos os seus filhos, para que comungassem.
Nas suas conversas ntimas e filosficas com a me, com a irm e com as amigas, Dolly surpreendia toda a gente. Viam nela uma livre--pensadora. Tinha uma religio prpria, que a fazia acreditar firmemente na metempsicose, preocupando-se pouco com os dogmas da Igreja. Mas na vida familiar - no s para exemplo, mas com toda a sua alma - cumpria os mandamentos da Igreja e o facto de os filhos terem passado o ano sem comungar preocupava-a muito. Com o pleno apoio e a aprovao de Matriona Filimonovna, resolveu que comungassem naquele Vero.
A preparao dos vestidos durou alguns dias. Cosera, transformara e lavara as roupinhas das crianas, desfizera as bainhas, pregara botes, arranjara os cintos. O vestido da Tnia, de que se encarregou a inglesa, deu muitos desgostos a Daria Alexandrovna. A inglesa enganou-se nas medidas, fez as cavas grandes de mais e estragou o vestido. Tinha os ombros to estreitos, que fazia pena olhar para Tnia. Mas Matriona
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Filimonovna resolveu pr-lhe uns bocados, para o alargar, escondendo -os debaixo da gola Assim se arranjaram as coisas, mas houve zanga com a inglesa No domingo, pela manh, tudo estava pronto, e um pouco antes das nove - para apanhar o proco da alde^ logo depois da missa - as crianas, todas enfeitadas e radiantes de alegria, esperavam a me diante do carro parado em frente do alpendre da casa
Graas  influncia de Matriona Fihmonovna, tinham atrelado o Burel, o cavalo do encarregado, em vez do impetuoso Voron Daria Alexandrovna, que pusera nesse dia cuidados especiais no seu trajar, apareceu vestida de mussehna branca
Vestira-se e penteara-se com esmero e interesse Antigamente fazia o para si mesma, para estar bonita e agradar, depois,  medida que os anos passavam, arranjava-se com menos prazer, vendo que perdia a beleza, mas agora arranjara-se de novo com gosto e emoo No o fizera por si nem pela sua prpria graa, mas para no estragar o conjunto das encantadoras crianas Depois de se mirar uma vez mais ao espelho, pareceu satisfeita consigo mesma Estava muito bonita, no tanto como desejava quando ia aos bailes, mas o bastante para o fim que se propusera
Na igreja no havia mais ningum alm dos mujiques, da criadagem e das mulheres Mas Dana Alexandrovna via ou julgava ver a admirao que despertavam tanto ela como os filhos As crianas no s estavam encantadoras nos seus bonitos vestidos, mas tambm simpticas, to sossegadas se mostravam fi certo que Aliocha no se comportava com a correco devida a cada passo voltava a cabea para admirar o seu casaquinho que queria ver pelas costas Mas que gracioso estava1 Tnia, sria como uma pessoa adulta, vigiava os irmozinhos mais novos Quanto  Ldi, a mais pequenina, era adorvel na ingnua admirao com que olhava para tudo No pde deixar de provocar o riso quando, depois de receber a comunho, disse ao padre Please, some more1.
No regresso, as crianas sentiam que acontecera qualquer coisa de solene e permaneciam muito quietas
O mesmo aconteceu em casa, mas, ao pequeno almoo, Gricha comeou a assobiar, e, coisa pior ainda, desobedeceu  inglesa, que lhe deu como castigo no comer doce Daria Alexandrovna no teria consentido que o castigassem num dia daqueles, se tivesse estado-presente ao pequeno almoo, mas era preciso corroborar as ordens da inglesa e manter o castigo Este incidente veio nublar um tanto a alegria geral
Gricha chorava, dizendo que tambm Nikolienka assobiara e no fora castigada, que, se chorava, no era por ter ficado sem doce, isso para ele era o mesmo, mas porque tinham sido injustos para com ele Uma cena muito triste Dana Alexandrovna decidiu pedir  inglesa que
Mais um bocadinho  faz favor
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perdoasse a Gricha, e foi busc-la Mas, ao passar pela sala, uma cena lhe encheu o corao de alegria, e as lgrimas vieram lhe aos olhos, perdoando por si mesma ao delinquente
Gricha estava sentado no parapeito da janela e a seu lado Tnia tinha um prato na mo A pretexto de fazer um jantarzinho para as bonecas, esta pedira  inglesa que a deixasse levar a rao de doce para o quarto dos bnnquedas Mas, em vez de assim fazer, levara a ao irmo A chorar ainda por causa da injustia do castigo, Gricha comia o doce, enquanto repetia entre soluos "Come tu tambm Comamos juntos " Comovida, de princpio, graas  pena que lhe despertava a situao do irmo, depois merc da conscincia da boa aco que praticava, Tnia, tambm com as lgrimas nos olhos, nem por isso deixava de comer o seu quinho
Ao verem a me, as crianas assustaram se, mas logo sossegaram assim que olharam para ela e desataram a rir Tinham a boca lambuzada de doce e procuravam limpar com as mos os lbios risonhos, pois riam atravs das lagrimas
- Deus do Cu, Tnia, o teu'vestido branco' Gricha, ento' - exclamou a me, procurando salvar os vestidos novos, enquanto sorria, de lagrimas nos olhos tambm Despiram-lhes os trajos novos, enfiaram bibes s meninas e roupas velhas aos rapazes Dana Alexandrovna mandou ento atrelar o carro (de novo, com grandes desgosto do encarregado meteram aos varais o cavalo Butei) para irem apanhar cogumelos e banharem se no rio Grande alando de entusiasmo acolheu a notcia, que no mais cessou ate ao momento da partida
Apanharam uma cesta de cogumelos, e at Lili encontrou um Antigamente era Miss Hull quem os encontrava para ela apanhar depois, mas desta vez foi ela sozinha quem se desembaraou, e houve gritaria geral "A Lili encontrou um cogumelo1" Depois foram para o rio Deixaram os cavalos  sombra dos lamos e dirigiram se  casita dos banhos Terncio, o cocheiro, atou os cavalos a urna rvore, deixando que eles caassem as moscas do rabo  sua vontade, e, estendendo se a sombra, ps se a fumar tranquilamente o seu cachimbo, enquanto ouvia os gritos joviais que as crianas soltavam na casita do banho Embora fosse muito penoso vigiar as crianas, evitando que elas fizessem travessuras, e difcil distinguir, naquela coleco de pegas, sapatos, cales, o que pertencia a cada uma, desatando e abotoando para depois tornar a atar e a abotoar todos aqueles laos, fitas e colchetes, Dana Alexandrovna, que sempre gostara de banhos frios e os considerava muito saudveis para as crianas, apreciava aqueles mergulhos em famlia Mergulhar na gua aqueles querubins, v-los resfolegar, salpicarem se uns aos outros, admirar lhes os grandes olhos risonhos ou assustados, ouvir-lhes os gritos, medrosos agora, logo alegres, acariciar, ao vesti los, aqueles pzmhos rechonchudos, que grande satisfao para ela1
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Estavam os meninos quase vestidos quando um bando de camponeses endommgados, que vinha de apanhar eufrbio e anglica, passou diante da casa dos banhos e parou, no sem que homens e mulheres se mostrassem um pouco tmidos Matriona Fdimonovna chamou uma das camponesas para que pusesse a secar uma toalha e uma camisa que tinham cado  gua, e Daria Alexandrovna ps-se a falar com aquela gente As mulheres principiaram por esconder o riso sem compreenderem l muito bem o que ela lhes perguntava, mas pouco a pouco tornaram-se mais afoitas, conquistando o corao da me, enlevadas que estavam diante das crianas
- Que linda1  branca como o acar1 - disse uma delas, mirando Tnia, extasiada - Mas  magrinha - acrescentou, abanando a cabea
- fi que esteve doente
- E este, este tambm tomou banho' - perguntou outra, apon tando para o mais novinho
- Ah, no, s tem trs meses - respondeu, cheia de orgulho, Dana Alexandrovna
- Realmente'
- E tu, tens filhos tambm'
- Tive quatro, restam me dois, um menino e uma menina A menina j a desmamei
- Que idade tem ela'
- Vai nos dois anos
- Por que a amamentaste tanto tempo'
-  costume nosso, tm de passar trs Quaresmas
Daria Alexandrovna, que gostava da conversa, fez-lhes mais algumas perguntas. o parto tinha sido difcil' Que doenas tinham tido as crianas' Onde vivia o marido' Vinha a casa muitas vezes'
No lhe apetecia separar-se daquelas mulheres, to agradvel lhe era a conversa com elas, pois tinham afinal os mesmos interesses O que acima de tudo a envaidecia, porm, era a admirao que nelas causavam os seus filhos to bonitos
Umas das mulheres mais novas devorava com os olhos a inglesa, a ltima a vestir-se, que ia enfiando saia sobre saia Quando a viu enfiar a terceira, no pde conter uma exclamao
- Olhem1 Nunca mais acaba de vestir saias1 E todas elas romperam a rir
T
CAPTULO IX
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Rodeada das crianas que ainda tinham as cabeas molhadas depois <Jo banho, Dana Alexandrovna, com um leno atado no cabelo, apro-xirnava-se j de casa quando o cocheiro exclamou
- Vem ali um senhor. Parece-me que  o patro de Pokrovskoie Efectivamente Dolly reconheceu a figura de Levine, to sua conhecida, de palet cinzento e chapu da mesma cor Via-o sempre com grande prazer, mas naquela altura era maior ainda a satisfao que sentia, por se lhe poder apresentar rodeada do que constitua a sua maior glria e ningum melhor  do  que  ele  para  compreender  semelhante  triunfo Ao v-la, Levine julgou se diante de um dos quadros com que costumava sonhar, sempre que pensava na felicidade conjugal
- Dana Alexandrovna, a senhora parece uma galinha rodeada dos seus pintainhos
- Que grande satisfao tenho em v Io - disse lhe ela, esten dendo lhe a mo
- Est satisfeita em ver me, mas no me mandou dizer que estava aqui Foi o Stiva que mo disse
- O Stiva' - inquiriu Dolly muito surpreendida
- Sim, escreveu me a dizer que estava na aldeia e que eu talvez lhe pudesse ser til
Sentiu se perturbado ao pronunciar estas palavras e, calando se, continuou a caminhar ao lado do carro, arrancando folhas das tlias, que mordiscava nervosamente Viera-lhe ao esprito que Dana Alexan drovna acharia penoso que um estranho lhe oferecesse o auxlio que ela deveria encontrar no marido Na verdade, Dolly no se agradou daquela ideia de Stiva, de remeter para terceiros encargos que s a ele diziam respeito Imediatamente percebeu que Levine a compreendia Este tacto, esta delicadeza, eis o que ela antes de mais nada apreciava nele
- Como  natural, Stiva queria dar me a entender que a minha visita lhe seria agradvel Como v, estou encantado De resto, calculo que uma dona de casa, habituada ao conforto das grandes cidades, se sinta aqui um poucochmho deslocada Se lhe puder ser til em alguma coisa, disponha de mim, peo lhe
- Oh, no' - replicou Dolly - Realmente, ao princpio, tive as rainhas dificuldades, mas agora tudo caminha s mil maravilhas graas 1 minha velha criada - acrescentou, apontando Matriona Filimonovna, Sue, percebendo que falavam dela, sorriu para Levine, cheia de contentamento Conhecia-o, sabia que era um bom partido para "a menina" e touito desejava que as coisas se arranjassem
-- Suba para o carro - disse lhe ela - Ns apertamo nos um pouco
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- Muito obrigado, prefiro acompanha Ias a p Meninos, quem quer vir comigo para ver quem chega primeiro que os cavalos'
As crianas conheciam muito mal Levine, no se lembravam de quando o teriam visto, mas no se mostravam nem tmidas nem receosas com ele, sentimentos to vulgares nas crianas diante dos adultos que se fingem  vontade com elas, sentimentos que em geral tantos castigos e reprimendas lhes custam A hipocrisia  capaz de iludir o mais mte hgente dos homens, mas a criana de mais limitada inteligncia logo a descobre e por ela sente repulsa, por mais hbil que seja a simulao Quaisquer que fossem os defeitos de Levine, era incapaz de fingir errt circunstncia alguma, e por isso mesmo as crianas desde logo lhe mostraram aquela simpatia que leram no rosto da me Os dois mais velhos aceitaram o convite, saltaram do carro e correram ao lado dele com a mesma naturalidade com que o teriam feito com a criada, com Miss Hull ou com a me Lili tambm quis ir, a me entregou a a Levine, e este, encavalitando a aos ombros, ps se a correr com ela
- No tenha medo, no tenha medo, Daria Alexandrovna No a deixarei cair, fique descansada - dizia ele, sorrindo jovialmente
Ao ver como ele era destro, prudente e ponderado nos seus movi mentos, Dolly sentiu se desde logo tranquilizada e respondeu lhe cora um sorriso de confiana
A familiaridade prpria da aldeia, a presena das crianas, a compa nhia daquela mulher por quem ele sentia verdadeira afeio e que, de resto, gostava de o ver assim alegre, coisa que tantas vezes lhe acontecia, tudo concorria para despertar nele uma jovialidade quase infantil En quanto corria com os pequenos, ia lhes ensinando certos princpios de ginstica, fazia rir Miss Hull com o seu mascavado ingls e contava a Dana Alexandrovna o que fazia na aldeia Depois de jantar, Dana Alexandrovna, que ficara sozinha com Levine na varanda, principiou a falar de Kitty
- Sabe que a Kitty vem passar o Vero comigo'
- Sim' - replicou Levine, corando, e imediatamente mudou de conversa, dizendo - Ento mando lhe as vacas' Se teima em falar em dinheiro, aceito cinco rublos por ms, se no acha muito caro
- No, muito obrigada  J nos remedimos
- Ento, vou ver as suas vacas e, se me d licena, darei instrues sobre a maneira como devem alimenta Ias Tudo depende do que se lhes da a comer
Para desviar a conversa, Levine explicou a Daria Alexandrovna a sua teoria pecuria, segundo a qual a vaca no era uma mquina de transformar a forragem em leite, etc
E falava para no ouvir falar de Kitty de quem tanto desejaria ouvir falar  que receava pr fim a uma tranquilidade com tanto esforo conseguida
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- Sim, sim, mas algum tem de cuidar de tudo isso E quem' - observou Daria Alexandrovna com angstia
Matnona Filimonovna resolvera todos aqueles problemas e Dolly nao desejava mexer em nada Alm disso no acreditava nos conhecimentos de Levine sobre economia rural As consideraes dele a respeito das vacas, dizendo que elas no eram maquinas produtoras de leite, pareceram lhe estranhas Era de opinio que tais ideiais s podiam criar dificuldades Via tudo isso de maneira muito mais simples era preciso, segundo lhe explicara Matnona Filimonovna, dar feno  Piestrucha e  Btalopachaia, dar lhes mais agua a beber e evitar que o cozinheiro roubasse a lavagem da cozinha para a vaca que a lavadeira criava Era claro como agua Em compensao as consideraes sobre se o feno devia ser desta ou daquela espcie, pareciam lhe duvidosas e pouco claras Dolly apenas queria falar da irm
CAPITULO X
- Kitty diz me numa carta que s quer solido e paz - principiou Dolly, depois de um silncio
- Est melhor de sade' - perguntou Levine, perturbado
- Graas a Deus, restabeleceu se por completo Nunca acreditei que estivesse doente dos pulmes
- Ah, da me isso muita satisfao - disse Levine, e Dolly viu qualquer coisa de comovedor na expresso dele ao pronunciar aquelas palavras, de olhos fitos nela
- Diga me, Constantino Dimitnevitch, por que est zangado com a Kitty' - perguntou Daria Alexandrovna, sorrindo, bondosa, embora com uma ligeira ironia
- Eu' No estou zangado
- Est, sim Por que no foi nem a minha casa nem a casa dos meus pais quando esteve em Moscovo'
- Dana Alexandrovna, surpreende me que, sendo to boa pessoa, no tenha compreendido - disse Levine, e corou at  raiz dos cabelos - Como  que no tem pena de num, sabendo'
- Sabendo o qu'
- Que me declarei a Kitty e que ela me no quis - disse Levine, e toda a ternura que havia momentos sentia por Kitty se desvaneceu perante a lembrana da injria recebida
- Por que  que supe que eu o sabia'
- Porque todos sabem
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- Est enganado; ignorava-o, embora desconfiasse disso.
- Pois agora fica sabendo.
- Calculava que se tivesse passado alguma coisa, cuja recordao atormentava Kitty, mas ela pedira-me que no a interrogasse a esse respeito. Ora, se ela me no confiou nada a mim, pode estar certo de que a mais ningum o disse. Mas que houve, realmente, entre vs?
- J lhe disse tudo.
- E quando se deu isso?
- Quando da minha ltima visita a seus pais.
- Sabe o que lhe vou dizer ? - volveu-lhe Dolly. - Tenho muita, muita pena dela.  s no seu amor-prprio que voc sofre.
- Talvez - disse ele-, mas... Dolly interrompeu-o.
- Mas ela, sim, ela faz-me muita pena. Agora compreendo tudo.
- Perdoe-me, mas tenho de me ir, Daria Alexandrovna - exclamou Levine, erguendo-se. -Adeus.
- No se v, espere - disse Daria Alexandrovna, segurando-lhe a mo. - Sente-se. Fique mais um pouco.
- Peco-lhe, no falemos mais nisso - suplicou Levine, sentando-se, e no seu corao principiava a renascer a esperana que supunha morta para sempre.
- Se eu no tivesse afeio por si - disse Dolly, e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas-, se o no conhecesse como conheo. .
O sentimento que supunha morto, cada vez se apoderava mais do corao de Levine.
- Sim, agora percebi tudo - continuou Daria Alexandrovna. - No pode compreender. Vocs, homens, podem escolher livremente, e por isso sabem sempre com clareza a quem amam. Mas uma mulher, obrigada a esperar, com o pudor a que o sexo a obriga, v os homens sempre de longe e a todos toma por ouro de lei. Nestas circunstncias, creia, muitas vezes pode experimentar um sentimento que no sabe explicar.
- Sim, desde que o corao no fale...
- Mesmo que o corao fale. Ora veja bem: Vocs, homens, quando se interessam por uma rapariga, frequentam-lhe a-casa,.convivem com ela, observam-na e esperam at poderem verificar se h nela aquilo que lhes agrada, e s quando bem cientes de tudo se lhe declaram...
- No  exactamente assim.
- Seja como for, vocs declaram-se quando o amor j amadureceu ou quando a balana se inclina para uma das duas pessoas entre as quais tm de escolher. E  rapariga nada se lhe pergunta. Querem que escolha, mas ela no pode, e apenas tem que responder "sim" ou "no".
"Isto significa a escolha entre Vronski e a minha pessoa", pensou Levine. E o que renascia na sua alma pareceu morrer de novo, atormentando-lhe penosamente o corao.	-.
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- Daria Alexandrovna - disse-, assim se escolhem os vestidos ou qualquer outra coisa, mas no o amor. A escolha est feita, tanto melhor... Estas coisas no se recomeam.
- Oh, que amor-prprio, que orgulho! - exclamou Daria Alexandrovna, como se esse baixo sentimento nada valesse ao p desse outro que s as mulheres conhecem. - Quando se declarou a Kitty, achava-se ela precisamente numa dessas situaes em que no podia responder. Havia nela uma dvida. No sabia qual preferir entre os dois; entre voc e Vronski. A ele, via-o todos os dias, enquanto que a si, raramente. Claro que se ela fosse mais velha... Eu, por exemplo, no teria hesitado. Essa criatura foi-me sempre antiptica.
Levine lembrou-se da resposta de Kitty: " impossvel... Perdoe-me."
- Daria Alexandrovna - disse secamente -, aprecio muito a confiana que em mim deposita, mas creio que est em erro. Com razo ou sem ela, este orgulho que tanto parece detestar faz que me seja impossvel pensar em Catarina Alexandrovna... completamente impossvel, compreende?
- Apenas lhe quero dizer mais uma coisa: lembre-se de que lhe falo de uma irm a quem quero tanto como a meus prprios filhos. No pretendo dizer-lhe que ela goste de si, que o ame. Apenas lhe posso garantir que a negativa de ento nada significa.
- No sei! - disse Levine, erguendo-se de chofre. - Ah, se soubesse o mal que me est a fazer!  como se tivesse perdido um filho e me viessem dizer: "Aqui tem como ele seria, como ele poderia ter sido. Mas est morto, morto!"
- Que pessoa estranha que ! - disse Daria Alexandrovna, considerando com melanclica ironia a exaltao de Levine. - Sim, agora cada vez compreendo tudo melhor - prosseguiu, pensativa.- Diga-me: no vir visitar-nos quando a Kitty vier?
- No. Claro est que no evitarei Catarina Alexandrovna, mas farei o possvel para lhe poupar o desgosto da minha presena.
- Com franqueza, voc  uma criatura original - repetiu Daria Alexandrovna, fixando enternecida o rosto de Levine. - Pois bem, faa de conta que no falmos em coisa alguma. Que queres, Tnia ? - perguntou em francs  menina que acabava de entrar.
- Onde est a minha bola, mezinha?
- Estou a falar-te em francs, quero que me respondas da mesma maneira.
A criana queria faz-lo, mas esquecera-se como se dizia "bola" nessa lngua. A me ajudando-a, e sempre em francs, explicou-lhe onde tinha de ir busc-la. Este incidente agravou a m disposio de Levine.
Agora tudo lhe parecia menos agradvel em casa de Daria Alexandrovna que momentos antes, at mesmo as prprias crianas.
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"Para qu falar em francs com os filhos'", pensou "Isto  pouco natural,  falso, e as crianas percebem no Ensina Ias a falar francs  priva Ias dos hbitos de sinceridade", prosseguiu nas suas reflexes, sem saber que Dana Alexandrovna muitas vezes pensara o mesmo, embora chegasse  concluso de que assim teria de educar os filhos, mesmo  custa da quebra da sinceridade deles
- Mas no se v j embora, fique mais um bocadinho Levine ficou para o ch, mas a fugaz alegria desvanecera se, sentia, mesmo, um certo mal estar
Findo o ch, Levine veio at ao vestbulo dizer que engatassem os cavalos e quando voltou  sala foi encontrar Daria Alexandrovna muito perturbada, o rosto descomposto e os olhos cheios de lgrimas Qualquer coisa acontecera que deitara a perder a felicidade e o orgulho que aquele dia proporcionara a Dolly Gricha e Tnia tinham brigado por causa da bola Ao ouvi los gritar, Dana Alexandrovna correu para eles e deparou se lhe um lamentvel espectculo Tnia puxava os cabelos de Gricha e este, com o rosto contrado pela ira dava socos na irm, a torto e a direito Dir se ia que qualquer coisa se quebrava no corao de Dolly Foi como se as trevas baixassem sobre a sua vida compreendeu que os filhos, de quem estava to orgulhosa, no s eram crianas como todas as outras, mas at mas, mal educados e de tendncias brutais, cruis e grosseiras
Dolly no podia pensar nem falar de outra coisa e quase no sabia como contar a Levine a sua desdita
Levme compreendeu que Dolly sofria e procurou consola Ia, dl zendo lhe que aquilo no queria dizer nada, que todas as crianas bri gavam umas com as outras Mas, ao diz Io, pensava "No, eu no ensinaria atitudes fingidas nem falaria francs com os meus filhos, os meus filhos no sero assim O que  preciso  no os estragar, no os corromper Ento so encantadores No h dvida, os meus filhos no sero assim "
Levine despediu se e partiu sem que Dolly o detivesse
CAPTULO XI
Em meados de Julho apresentou se em casa de Levine o starosta da aldeia do irmo, que ficava a umas vinte verstas de Pokrovskoie para lhe falar na ceifa e nos demais assuntos O principal rendimento da propriedade do irmo era extrado dos prados nas imediaes do rio Nos anos anteriores esses prados arrendavam se aos mujiques  razo de vinte
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rublos a desiatma Mas quando Levine tomou conta da administrao da quinta, examinou os prados e, assentando em que valiam mais, fixou o preo  razo de vinte e cinco a desiatma Os mujiques no pagaram esse preo e, como Levine suspeitava, trataram de desencorajar outros arrendatrios Ento Levine apresentou se em pessoa e determinou que se fizesse a ceifa com jornaleiros contratados, que cobrariam a jornada e parte do que ceifassem Embora a gente do lugar se opusesse com toda a energia a esta soluo, as coisas caminharam bem e nes=e ano tinha se tirado desses prados quase o dobro da produo anterior Nos dois anos imediatos continuou a oposio dos mujiques, mas a ceifa foi levada a cabo do mesmo modo No presente ano os aldees haviam arrendado todos os prados, propondo os seus servios por um tero da colheita O staiosta vinha comunicar a Levine que a ceifa estava pronta e que ele, receoso de que chovesse chamara o encarregado, procedendo  diviso na sua presena, tendo separado j as onze medas que pertenciam aos patres Pelas respostas vagas  pergunta que lhe fez sobre a quantidade de feno que havia no prado grande, pela pressa que o starosta ps na repartio da ceifa sem ter recebido ordens para isso, bem como pelo tom geral da sua conversa, Levine percebeu que as coisas no eram claras e resolveu verificar pessoalmente o que se passava
Chegou  aldeia  hora de jantar, e depois de deixar o cavalo em casa de um velho amigo, o marido da ama do irmo, entrou no colmeal para obter informaes sobre a partilha da ceifa Parmemtch, um bom velho de lngua fcil, acolheu o com alegria, mostrando lhe a sua casa, contou lhe coisas acerca das abelhas e do enxameamento daquela ano, embora no respondesse s perguntas de Levine sobre a ceifa seno muito vagamente e de m vontade Esta atitude embaraosa confirmou Levine nas suas suspeitas Foi ao prado e examinou as medas No podia haver em cada uma delas cinquenta carradas de feno, e, para desmascarar os camponeses, ordenou que trouxessem os carros que haviam transpor tado o feno, e que levassem para o palheiro todo o feno de uma das medis Mediram se trinta e dois carros apenas Apesar das afirmaes do slatosta de que o feno estava muito inchado, que nos carros esta'\a acamado, e dos juramentos que fazia, dizendo que tudo se obrara como Deus manda, Levine manteve se na sua, sustentando que haviam repartido o feno sem que ele tivesse dado essa ordem e que no o aceitaria seno a razo de cinquenta carradas por meda Depois de grandes disputas, concordaram em que os mujiques ficariam com aquelas onze medas, de cinquenta carros cada uma, e que se separasse de novo a parte dos patres Estas quezlias e a repartio do feno prolongaram se at meia tarde Quando tudo estava repartido, Levine, confiando o que faltava fazer  vigilncia do encarregado, sentou se num monte de feno e con templou, encantado, o campo onde o trabalho dos camponeses estava em
franco
apogeu
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Diante dele, no cotovelo que o rio ali fazia, mais para alm <3O lodaal, avanava uma garrida fila de mulheres, cujas alegres vozes subiam no ar, e o feno esparso erguia-se rapidamente, formando cinzentos montes ondulantes por cima do restolho verde-claro. Atrs delas vinham homens com forquilhas e os montes de feno iam-se tranfor-mando em cheias e altas pilhas.  esquerda, pelo prado j limpo, ouvia-se o rudo dos carros, onde, uns atrs dos outros, desapareciam esses montes, agora pesadas cargas de oloroso feno a transbordar para cima da garupa dos cavalos.
- Temos de o recolher enquanto faz bom tempo. Vamos ter um lindo feno! - disse o velho, sentando-se junto de Levine. - Nem parece feno, parece ch. Os moos recolhem-no como os pssaros quando se lhes atira gro! - acrescentou apontando para os montes que cresciam. - Do jantar para c j levaram pelo menos metade.  o ltimo ? - gritou a um rapaz que ia de p num dos carros que passavam diante deles, as pontas das hastes do cnhamo baloiando.
-  o ltimo, paizinho - respondeu o rapaz, detendo o cavalo. E depois de trocar um sorriso com uma mulher rosada, muito risonha tambm, sentada na traseira do carro, tocou o cavalo.
- Quem  este?  teu filho? - perguntou Levine.
- O mais novo - respondeu o velho com um sorriso brando.
- Que belo rapaz!
- No -mau!
- J est casado?
- Sim, senhor. Faz dois anos na vspera de So Filipe.
- Tem filhos?
- Filhos! Levou um ano sem dar-se conta de nada, e at trovamos dele - replicou o velho. - Que belo feno! Realmente, parece ch! - repetiu, procurando mudar de conversa.
Levine examinou atentamente Ivan Parmenov e a mulher, que no longe dali carregavam o carro. De p na carroa, Ivan recebia, acamava, arrumava enormes braadas de feno, que ela, bonita e jovem, lhe atirava, ora em braadas, ora na ponta da forquilha. Trabalhavam sem esforo, geis e alegres. Era difcil apanhar o feno com a forquilha. A mulher afastava-o primeiro, depois metia-lhe a alfaia e, com um movimento rpido e vigoroso, carregava-lhe com todo o peso do corpo; em seguida, erguia-se e mostrando o forte peito abaulado por debaixo da blusa branca com uma cinta vermelha, levantava a forquilha com as duas mos e jogava a carga para a carroa. Ivan, sem dvida no desejo de a poupar, apanhava, os braos ligeiramente afastados, o feno que ela lhe atirava e espalhava-o pelo carro. Depois de juntar o feno mido com o auxlio de um ancinho, a mooila sacudiu as palhas que lhe tinham entrado para o pescoo, a jeitou o leno vermelho que lhe escorregava para a testa branca, no tisnada pelo sol, e meteu-se debaixo do carro a atar a carga.
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Ivan mostrou-lhe como devia amarrar a espia e a um dito da mulher desatou a rir s gargalhadas. No rosto de ambos pintava-se um amor intenso e juvenil', ali mesmo avivado.
CAPTULO XII
Amarraram a carga, Ivan saltou do carro e, pegando pela arreata do cavalo, slido animal, dirigiu-se para a estrada, onde alinhou atrs dos outros. Depois de atirar o ancinho para dentro do carro, a mulher dirigiu-se, em passo decidido e agitando os braos, para junto das camponesas reunidas no caminho. Atrs dos carros seguiam as mulheres com os ancinhos ao ombro, radiantes nos seus vestidos garridos, falando alto e alegremente. Uma das mulheres, de voz tosca e bravia, entoou uma cano que cinquenta outras vozes, graves e agudas, acompanharam na altura do coro.
Quando se aproximaram as cantadeiras, Levine, deitado em cima da meda, julgou ver cair sobre ele uma alegre nuvem carregada de troves. As medas, os carros, os prados, os campos distantes, tudo se lhe afigurou embalado ao ritmo dessa cano louca, acompanhada de assobios e de gritos estridentes. Essa alegria s, essa bela alegria de viver causou-lhe inveja, pois ele nada podia fazer e tinha de limitar-se a continuar ali deitado, contemplando e escutando. Quando os camponeses desapareceram no horizonte e deixou de ouvi-los, tomou-o um sentimento de tristeza motivado pela solido em que vivia, o cio fsico em que estava e a posio hostil que tinha para com o mundo.
Alguns dos camponeses que haviam discutido com ele por causa do feno, tanto os com quem fora injusto como os que tinham procurado engan-lo, cumprimentavam-no, alegres. Sem dvida no sentiam nem podiam sentir rancor algum, nem to-pouco arrependimento, pois no se lembravam sequer do que acontecera. Tudo se afundara no mar alegre do trabalho em comum. Deus d o dia e tambm as foras; o dia e as foras so consagrados ao trabalho, e  essa toda a recompensa. Para quem  o trabalho? Quais os seus frutos? Eis reflexes secundrias e insignificantes.
Muitas vezes Levine admirava aquela vida e sentia inveja da gente que a levava, mas naquela dia, depois de ter visto como Ivan tratava a mulher, pela primeira vez se dava conta de que dependia dele prprio mudar a sua penosa vida individual, artificial e ociosa, por essa outra v'da pura de trabalho alegre e comum. O velho que estivera com ele j se fora, todos os camponeses se dispersaram. Os que viviam perto tinham
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ido para casa e os que moravam longe reuniam se para cear e pernoitar no campo Levme, em quem ningum reparava, continuava na meda, olhando, escutando e pensando Os camponeses que ficaram no campo levaram acordados quase toda aquela curta noite estival Ao princpio durante a ceia, ouviram se risos e conversas alegres, depois cantou se O largo dia de trabalho s deixara alegria naquela gente Pouco antes do amanhecer ficaram em silncio Apenas se ouviam os rudos nocturnos o incessante coaxar das rs nos charcos e o resfolgar dos cavalos nos prados cobertos da neblina, que principiava a erguer se Levme, que dormitara, levantou se e depois de mirar as estrelas com preendeu que a noite acabara
"Ento que vou eu fazer'", disse de si para consigo, procurando pr a claro tudo o que pensara e sentira durante aquela curta noite O que pensara e sentira dividia se em trs ramos distintos Um era a renncia  sua vida anterior,  instruo que recebera, de que no precisava para nada Essa renncia agradava lhe, fcil e simples como era A segunda dizia respeito  vida que desejava levar agora Com preendia a simplicidade, a pureza e a legitimidade daquela vida e estava convencido de achar nela a satisfao, a paz e a dignidade cuja falta lhe era to dolorosa A terceira girava em torno de como passaria da vida anterior  nova ''ida Eis o que se lhe no representava com clareza "Ter uma mulher Ter trabalho e necessidade de o fazer Deixaria Pokrovskoie' Compraria terras' Inscrever se ia na comunidade' Casar--se ia com uma alde' Como faz Io'", perguntava se a si mesmo, sem atinar com a resposta "No preguei olho toda a noite e no posso ver as coisas com nitidez Depois v las-ei melhor Mas uma coisa  certa esta noite decidi da minha sorte Todas as minhas iluses anteriores sobre a vida de famlia so absurdas Isto  muito mais simples e muito melhor "
"Que beleza'", pensou, olhando para uma estranha concha, como que de ncar, formada pelas brancas nuvens algodoadas que se detinham no znite, por cima da sua cabea "Que belo  tudo nesta magnfica noite' Quando se teria formado esta concha' H momentos olhei para o cu e no havia nada na abbada celeste a no ser as duas faixas brancas Foi assim que, imperceptivelmente, mudou o meu conceito da vida" Levme saiu do prado, direito  aldeia, pela estrada real Estava a levantar se um ventinho e tudo tomara um aspecto cinzento e lgubre Sobrevmha esse momento sombrio que antecede, geralmente, o nascer do Sol, a vitoria definitiva da luz sobre as trevas
Encolhido por causa do frio, Levme caminhava, rpido, de olhos no cho "Quem ' Quem vir l'", pensou, ao ouvir umas campainhas E ergueu a cabea A uns quarenta passos de distncia vinha ao encontro dele, pela mesma estrada real, uma carruagem tirada por quatro cavalos Os que iam nos varais comprimiam se contra estes, mas o
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hbil cocheiro, sentado de lado na boleia, guiava de tal sorte que as rodas deslizavam pe'o solo liso
A um canto da carruagem dormitava uma velhinha e ao p da janela uma jovem, que sem dvida acabava de acordar, apanhava com ambas as mos as fitas da touca de dormir Serena e pensativa - percebia se lhe unia ^ ida interior complicada e intensa, muito diferente das preocupaes dele, Levme-, contemplava a aurora para alm dele No momento em que aquela imagem ia desaparecer, dois olhos lmpidos se detiveram nele Reconhecera o, e uma alegre surpresa transpareceu no rosto da jovem
Levme no podia enganar se Eram uns olhos sem par no mundo S uma criatura  face da terra era capaz de resumir para ele toda a luz e todo o sentido da vida Era ela1 Era Kitty1 Compreendeu vinha para lerguchovo, directamente da estao do caminho de ferro E, de sbito, todas as resolues que acabava de tomar, a agitao daquela noite de insnia, tudo se desvaneceu A ideia de casar com uma camponesa causou lhe horror Ah, naquela carruagem que se afastava rapidamente, ia a resposta  pergunta que havia algum tempo se lhe formulara com tanta insistncia para que fora criado e posto neste mundo '
Kitty no voltou a olha Io Deixou de se ouvir o rudo das molas da carruagem, apenas lhe chegava aos ouvidos  retinir das campainhas Pelo ladrar dos ces, podia depreender se que o carro atravessava a aldeia E ele ali ficara, s, no meio dos campos desertos, estranho a tudo, seguindo, a passos largos, pela estrada abandonada
Ergueu os olhos para o cu  espera de voltar a ver a linda concha que lhe parecera simbolizar os sonhos daquela noite Desaparecera Transformara se misteriosamente num vasto tapete de nuvens de algodo que atapetava j mais de metade do firmamento Ao seu olhar interrogativo, o cu, que ia ficando azul, respondia com um altivo silncio
"No", dizia para si mesmo Levme, "por mais bela que seja esta vida simples e laboriosa, no nasci para isto S a ela quero "
CAPTULO XIII
A no ser as pessoas mais chegadas a Alexei Alexandrovitch, ningum sabia que aquele homem, de to frio parecer, e to razovel, escondia uma debilidade contraditria no caracter no podia ver nem ouvir o choro de uma criana ou de uma mulher Diante das lagrimas perdia o domnio de si mesmo e a faculdade de raciocinar O chefe da sua repartio e o seu secretrio sabiam no e pediam s solicitantes que no chorassem se no queriam deitar a perder as suas pretenses
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"Isso aborrece o e no querer ouvi Ias", diziam E, com efeito, o desequilbrio moral que produziam em Alexei Alexandrovitch as Ia grimas transformava se numa brusca irritao "No posso fazer nada Faam favor de se ir embora'", costumava gritar
Quando Ana lhe revelou a sua ligao com Vronski, no regresso das corridas, e, cobrindo o rosto com as mos, se pusera a chorar, Alexei Alexandrovitch, apesar da ira que sentia, notou que o invadia a emoo que as lagrimas sempre produziam nele Receoso de traduzir os seus sentimentos de forma pouco compatvel com a situao, imps se a si mesmo como que a anulao completa de todas as suas manifestaes vitais Imvel, de olhar fixo, o rosto assumiu lhe essa expresso de rigidez cadavrica que tanto impressionou Ana
Teve de fazer um grande esforo sobre si mesmo para ajudar a mulher a apear se do carro, para lhe dizer as poucas palavras de habitual cortesia, pronunciando palavras que em nada o comprometiam disse lhe que no dia seguinte lhe comunicaria a sua resoluo
A brutal confisso de Ana, confirmando as piores suspeitas de Alexei Alexandrovitch, ferira o em pleno corao, e a piedade puramente fsica que nele provocaram as lgrimas da infeliz ainda mais agravara o seu mal estar No entanto, quando se viu s dentro do carro, com uma satisfao em que havia o seu qu de surpresa, sentiu a mesma sensao de alvio do homem a quem acabam de arrancar o dente que o fazia sofrer h muito o choque  terrvel, o doente tem a impresso de que lhe arrancaram da maxila uma coisa imensa, maior ainda do que a sua prpria cabea, mas ao mesmo tempo, sem acreditar muito na felicidade, verifica o desaparecimento dessa coisa abominvel que por tanto tempo lhe envenenara a existncia Pode viver de novo, de novo pode pensar e interessar se por outras coisas que no sejam propriamente o seu sofrimento Eis o que se passava com Alexei Alexandrovitch depois de um golpe tremendo, inesperado, mais nenhuma dor sentia se agora capaz de pensar noutras coisas que no apenas na mulher
" uma mulher perdida, sem corao, sem honra, sem religio' Sempre assim pensei e apenas por piedade para com ela procurava iludir-me a mim prprio", dizia de si para consigo, crendo sinceramente ter tido essa perspiccia Recordava vrios pormenores do passado, que ele julgara inocentes e lhe pareciam agora provas seguras da corrupo de Ana "Cometi um erro quando liguei a minha vida  dela, mas o meu erro nada teve de culpvel, por conseguinte no tenho que sentir me infeliz A culpa  dela, mas o que a ela diz respeito no tem nada a ver comigo, no existe mais para mim "
Pouco lhe importava agora o que ia ser dela e do filho, em relao ao qual se operava nos seus sentimentos igual modificao1 S uma coisa o preocupava sacudir da maneira mais correcta, a mais conveniente e> por conseguinte, a mais justa, a lama que a queda daquela lhe atirara
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para cima, e isso sem que a sua vida, toda feita de dignidade e de desinteresse, de maneira alguma fosse perturbada
"Porque uma mulher desprezvel cometeu uma falta, hei de eu sentir me infeliz? No Mas preciso de encontrar a melhor sada possvel para a penosa situao em que o seu desatino me lanou E essa sada jjei de encontra Ia Nem sou o primeiro, nem serei o ltimo", dizia de si para consigo, cada vez mais sucumbido E sem falar j dos casos histricos, a principiar no da bela Helena e Menelau, vivo na memria de todos, utna serie de casos de mfidelidades de mulhere da alta sociedade, bem conhecidas do seu tempo, acorreram  imaginao de Alexei Alexan-jrovitch "Danalov, Poltavski o prncipe Kanbanov, o conde Paskudme, Dram Sim, o Dram tambun , um homem to lionesto e activo Semionov, Tchagume Sigomne Admitamos que lhes caiu em cima um ridculo dos mais nscios Mas eu, por mim, sempre considerei estes casos pura infelicidade, sempre senti compaixo por esses homens" Nada mais falso nunca Alexei Alexandrovitch pensara em ter piedade de semelhantes infortnios e quanto mais mandos enganados havia, mais ele se estimava a si prprio
"Pois bem, o que a outros atingiu, atinge me agora a mim  O que importa  saber fazer frente  situao "
E passou a recordar pormenores da maneira como esses homens se haviam comportado
"Danalov bateu se em duelo   "
A ideia do duelo muitas vezes preocupara Alexei Alexandrovitch na mocidade, precisamente por ser um homem fraco No podia pensar sem horror numa pistola apontada para ele, e nunca em sua vida se servira de qualquer arma Este horror instintivo inspirara lhe muitos pensamentos que faria no dia em que se lhe impusesse a obrigao de arriscar a vida' Depois, quando a sua posio se firmou em bases slidas, nunca mais pensou em semelhante coisa Mas agora o seu temperamento pusilnime \oltara  superfcie certo de que nunca se apresentaria no campo da honra, a fora do hbito constrangia o a examinar em todos os seus aspectos a eventualidade de um duelo
"Que pena no estarmos em Inglaterra' Com costumes to brbaros como os nossos, no ha dvida de que muita gente aprovaria um duelo (E entre essa gente figurava a maior parte daqueles cuja opinio ele prezava ) Mas para que serviria isso' Suponhamos que eu o provocava (Neste ponto imaginava com toda a veemncia a noite que passaria Mn seguida  provocao e a pistola apontada para ele, pelo estremeci mento que sentiu, compreendeu que nunca se decidiria a tomar seme lhante atitude ) Suponhamos que eu o provocava, que aprendia a atirar, que me encontrava diante dele, que puxava o gatilho (fechou os olhos), 1a? o matava (sacudiu a cabea, para arredar essa ideia absurda) Que necessidade tenho eu de matar um homem para saber que comportamento
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hei-de ter para com uma mulher culpada e para com o seu filho' QUe diabo, era absurdo' E se, eventualidade muito mais verosmil, o fendo ou o morto fosse eu' Eu, que nada tenho a censurar-me, eu  que viria a ser a vtima' Pois no seria ainda mais estpido' Alis, provocando o agirei, realmente, como um homem de honra' No estarei de antemo ciente de que os meus amigos mterviro, que no deixaro expor a \ida de um homem til  Rssia' Sena afinal assumir uma atitude de mata-sete, seria pretender ganhar uma falsa glria No Isto no  srio Era enganar os outros e enganar-me a mim mesmo O duelo  inadmissvel e ningum est  espera de me ver bater em duelo O meu nico objectivo deve ser manter intacta a minha reputao, impedir que a minha carreira sofra de qualquer modo "
Mais do que nunca, a carreira de Alexei Alexandrovitch assumia a seus prprios olhos uma importncia considervel Posto de lado o duelo, restava o divrcio, soluo adoptada a maior parte das vezes, em idnticas circunstncias, pela gente da sua classe Mas por mais que procurasse recordar os casos numerosos que conhecia, nenhum deles parecia responder ao objectivo que se propunha Efectivamente, de maneira geral o mando acabava sempre por ceder ou vender a mulher, e posto ela no tivesse direito a um segundo casamento, nem por isso a culpada deixai ia de contrair com um pseudomarido uma pseudo-umo arbitrariamente legalizada Quanto ao divrcio legal, aquele que teria por sano o castigo da infiel, Alexei Alexandrovitch sentia no poder r correr a ele As condies complexas da sua existncia no lhe consentiam utilizar as provas brutais que a lei exigia, o teor da sua vida requintada interdizia-lhe, de resto, servir se delas, sob pena de se desclassificar junto da opinio pblica ainda mais do que a prpria culpada Um processo escandaloso seria o gudio dos seus inimigos aproveitariam essa circunstncia para o caluniar, para abalarem a alta situao oficial de que desfrutava Em concluso, tal como a primeira soluo tambm esta o impedia de alcanar o seu objectivo sair daquela crise o menos atingido possvel Alias, o recurso ao divrcio lanaria definitivamente a mulher nos braos de Vronski Ora, apesar da altiva indiferena que Alexei Alexandrovitch julgava sentir por Ana, no fundo do seu corao ardia um sentimento muito vivo o horror de tudo que pudesse concorrer para aproxim-la do amante e tirar partido da sua falta Este pensa mento quase lhe arrancou um grito de dor, ergueu-se da almofada do carro, mudou de lugar, e, de semblante cada vez mais carregado, envolveu longamente as pernas ossudas na esponjosa manta de \iagem Assim que serenou, retomou as suas meditaes
"Talvez pudesse seguir o exemplo de Kanbonov, d Paskudme, desse bonacheiro do Dram, contentando-me com uma simples separao " Mas imediatamente percebeu que essa medida oferecia os mesmos mcon v ementes de um divrcio formal e da mesma maneira acabava por lanar a
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mulher nos braos de Vronski "No,  impossvel", resolveu, alterando a voz, e de novo se ps a repuxar a manta de viagem "O que importa  que eu no sofra e que eles no sejam felizes"
Ao mesmo tempo que o libertara dos tormentos do cime, a confisso de Ana fizera-lhe nascer no fundo do corao um sentimento que ele no ousava confidenciar a si prprio, isto , o desejo de a ver expiar no sofrimento o atentado contra o seu repouso e a sua honra Mais uma vez Alexei Alexandrovitch pesou o pr e o contra das trs solues que acabava de encarar Depois de as ter rejeitado definitivamente, persuadiu se de que a nica forma de sair daquele beco sem sada seria, escondendo do mundo a sua desgraa, conservar a mulher e empregar todos os recursos imgmveis para que a ligao acabasse e - coisa que nem a si prprio confessava - para que a culpada expiasse a sua falta "Devo declarar-lhe que depois de ter estudado todas as solues possveis para a penosa situao em que nos encontramos por sua causa, acho o statu quo aparente prefervel para os dois e consinto em conserv-la junto de mim com a condio expressa de que dar por findas todas as suas relaes com o amante "
Tomada que foi esta resoluo, Alexei Alexandrovitch lembrou-se de um argumento que a sancionaria no seu esprito "Deste modo e s deste modo ajo de acordo com os preceitos da nossa religio" no repudio a mulher adltera, dou lhe a oportunidade de se emendar e at mesmo, por mais penoso que isso seja paia mim, consagro uma parte do meu tempo, das minhas energias,  reabilitao "
Alexei Alexandrovitch sabia perfeitamente que no poderia ter qualquer influncia sobre a mulher, que tudo o que tentasse nesse sentido seria ilusrio nem um s instante, no decurso desses dolorosos momentos, pensara procurar apoio na religio, mas assim que julgou ver esta de acordo com a determinao que acabava de tomar, esta sano tornou se para ele num lenitivo Sentiu se aliviado, pensando que ningum o poderia acusar de, numa crise to grave da sua vida, ter agido contrariamente  doutnna da religio cuja bandeira sempre trouxera erguida bem alto no meio da indiferena geral E acabou mesmo de dizer de si para consigo que, em concluso, as suas relaes com Ara continuariam pouco mais ou menos o que tinham sido durante os ltimos meses Evidentemente que no podia ter estima por aquela mulher viciosa, adltera, mas sofrer por causa dela, transtornar a sua vida' Ah, isso mais devagar' "Deixemos que o tempo aja", concluiu ele, "o tempo tudo resolve, um dia vir talvez em que as nossas relaes voltaro a ser o que foram no passado, em que a vida retomar o seu curso normal Que ela seja desgraada, eu no "
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CAPTULO XIV
Ao chegar a Sampetersburgo, a deciso de Alexei Alexandrovitch estava de tal modo tomada que j compusera mentalmente a carta pela qual a comunicava  mulher Ao entrar em casa, relanceou um golpe de vista aos papis que lhe tinham trazido do Ministrio e ordenou que os levassem ao seu gabinete
- Desatrelem e no estou para ningum - disse ele, em resposta a uma pergunta do guarda-porto, sublinhando a ltima palavra quase com regozijo, sinal evidente de uma melhor disposio de esprito
Chegado que foi ao escritrio, por duas vezes percorreu a dependncia de lado a lado, acabando por deter se, finalmente, diante da grande secretria, sobre a qual o criado de quarto acabava de acender seis velas Fez estalar os dedos, sentou se, pegou numa pena e papel e depois, a cabea inclinada, um cotovelo sobre a mesa, ps se a escrever, aps um momento de reflexo No se dirigia directamente a Ana, escre vendo em francs, e empregando o pronome vous, que nessa lngua no resulta to frio como na lngua russa
Quando me despedi de si exprimi-lhe o intento de lhe comunicar a minha resoluo relativamente ao assunto da nossa entrevista Depois de maduramente reflectir, eis me que venho cumpnt essa piomessa Aqui tem a minha deciso seja qual for a sua conduta, no me teconheo com o iieito de lomper vnculos que um poder mais alto consagrou A famlia no pode estar  merc de um capricho, de um acto aibitrrio, ou seja, do cume praticado por um dos cnjuges A nossa vida deve, pois, continuar como antes, isto tanto no seu interesse como no meu e no do seu filho Estou absolutamente convencido de que se h-de arrependei de ter cometido o acto que me obriga a esctever-lhe, que me ajudar a extirpar pela raiz a causa do nosso desacordo e a esquecei o passado Caso contrrio, no lhe ser difcil imaginar o que a espera, a st e ao seu filho Conto expor-lhe tudo isto em pormenor quando nos voltarmos a. ver em breve Como o Vero est no fim, peco-lhe que volte a Sampetersburgo quanto antes, tera f eira o mais tardar Dei as ordens necessrias paia o seu regresso Rogo lhe que tome em considerao que atnbuo importncia especial ao cumprimento deste pedjdo
A  KARENINE
P  S -Junto a esta catta o dinheiro de que poder piecisar neste momento
Releu a carta e ficou satisfeito A ideia de lhe mandar dinheiro pareceu lhe especialmente feliz, nem uma palavra dura, nem uma censura,
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mas nada de fraquezas tambm O essencial fora conseguido Oferecera-lhe uma ponte de ouro para voltar atrs Dobrou a carta, passou sobre o vinco uma grande faca de papel de marfim macio, meteu-a dentro do sobrescrito como o dinheiro, e tocou a campainha, abandonando se  sensao de bem estar que sempre sentia depois de utilizar os seus ordenados objectos de escritrio
- Entreguem esta carta ao correio para que ele a leve amanh a Ana Arkadievna
- As ordens de Vossa Excelncia   Devo trazer o ch para aqui'
-  melhor
Alexei Alexandrovitch, brincando com a faca de papel, aproximou--se da poltrona junto  qual estava uma mesinha com um candeeiro e um livro  francs  acerca  de inscries  antigas,  sua  leitura  de momento O retrato de Ana, obra notvel de um pintor clebre, pendia da parede, numa moldura oval, por cima da referida poltrona Alexei Alevandrovitch relanceou lhe um olhar   Dois olhos impenetrveis devolveram-lho com essa irnica insolncia que tanto o magoara na noite da famosa explicao Tudo nesse belo retrato se lhe afigurou uma odiosa provocao, desde a renda que emoldurava a cabea e os cabelos negras at  admirvel mo branca, de anelar carregado de anis Depois de o olhar por alguns instantes, estremeceu dos ps A cabea e os lbios deixaram escapar lhe um "brr" de desagrado Voltou-se, deixou se cair na poltrona e abriu o livro, tentou ler, mas no conseguiu encontrar na leitura o vivo interesse que at aquela data lhe inspirara essa obra  Olhava para as pginas, mas pensava noutra coisa O que o preocupava j no era a mulher, mas uma grande complicao que ultimamente surgira num assunto importante que de momento constitua o principal interesse da sua carreira  Mais do que nunca se sentia senhor da questo e acabava mesmo de ter a esse respeito uma ideia de gnio - esconder isso, para qu' - que lhe permitiria resolver todas as dificuldades, humilhar os seus inimigos, transpor um novo degrau da sua carreira, prestar um assinalado servio ao pas Assim que o criado que trouxera o ch deitou a sala, Alexei Ale-xandrovitch levantou se e de novo se instalou  sua secretria   Pegou na pasta onde guardava os papis dos assuntos correntes, apanhou um lpis e com um imperceptvel sorriso de satisfao deixou se absorver na leitura de documentos relativos  dificuldade que o preocupava  Eis como ela se apresentava Como todo o funcionrio de mrito, Alexei Ale-xandrovitch possua um trao caracterstico   esse trao, que concorrera tanto para a sua ascenso com ambio constante, a probidade, a linha e o domnio de si prprio, traduzia se no desprezo absoluto da papelada oficial   Tratava, por assim dizer, corpo a corpo o expediente oficial e despachava o, rpida e economicamente, suprimindo tudo o que fosse intil Ora, na clebre comisso de 2 de Junho, fora exposto o problema da irrigao dos campos da provncia de Zaraisk  Este assunto pertencia
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ao ministrio de Karenine e constitua uni exemplo frisante dos gastos estreis de papelada intil. Alexei Alexandrovitch sabia que era assim. O caso da irrigao dos campos da provncia de Zaraisk fora iniciado pelo antecessor de Alexei Alexandrovitch. Com efeito, nisso se tinham gasto e se estavam a gastar fundos completamente estreis, visto que, naturalmente, tudo acabaria em nada. Alexei Alexandrovitch, ao ocupar aquele cargo, imediatamente o compreendeu e quis pr mos  obra. Mas de princpio, quando ainda se sentia pouco seguro, sabia que isso ia afectar demasiados interesses e que no era razovel; depois, absorvido por outros assuntos, esquecera-se daquele que, como tantos outros, caminhava pela aco da inrcia.  (Muita gente vivia  custa desse caso e especialmente uma famlia muito espiritual e amante de msica - onde todas as mulheres tocavam instrumentos de cordas. Alexei Alexandrovitch conhecia essa famlia e era padrinho de casamento das filhas mais velhas.) Entretanto como uma administrao rival levantara a lebre, Karenine mostrou-se muito indignado: casos daqueles arrastavam-se em todos os ministrios, sem que ningum se lembrasse de meter neles o nariz. Entre colegas, semelhante procedimento era prova de pouca delicadeza. Visto que lhe tinham atirado uma luva, ele ousadamente a levantara, pedindo a nomeao de uma comisso extraordinria para rever os trabalhos da comisso de irrigao da provncia de Zaraisk. E acto contnuo pagara na mesma moeda a esses senhores, apoiando, com a mxima energia, junto da referida comisso, uma moo tendente a controlar a actividade da comisso encarregada de estudar a forma de organizar os povos de outras raas. Ao que parecia, essa gente encontrava-se em situao lamentvel, e ele reclamava a nomeao imediata de uma comisso no menos extraordinria. Seguiu-se da uma altercao em vrios ministrios. O representante do ministrio hostil a Alexei Alexandrovitch objectou que a situao desses povos era excelente: a medida projectada s lhes poderia ser prejudicial e se alguma coisa no corria bem, devia atribuir-se  negligncia com que o ministrio de Alexei Alexandrovitch fazia cumprir as leis. As coisas tinham ficado por ali. Mas Karenine contava actualmente: 1." Exigir a expedio de uma comisso que inquirisse no prprio local;
2 No caso de a situao dos povos de outras raas se apresentar como a descreviam os documentos oficiais de que a comisso dispunha, encarregar uma comisso idnea capaz de investigar as causas desse triste estado de coisas, dos seguintes pontos de vista: a) poltico; b) administrativo; r) econmico; d) etnogrfico; e) material; /) religioso; 3. Exigir do ministrio adversrio o fornecimento do seguinte: a) dados exactos sobre as medidas que tomara no decurso dos ltimos dez anos para fazer frente s ms condies de que se queixavam agora os povos de outras raas; b) esclarecimentos sobre o facto de terem agido em contradio absoluta com o artigo 18." e a nota ao artigo 36. do
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tomo 123 das le.s fundamentais do Imprio, como o demonstravam entre os documentos submetidos  comisso, dois impressos com os n." 17 015 e 1"398, datados, respectivamente, de 5 de Dezembro de 1863 e de 7 de Junho de 1864.
Enquanto Alexei Alexandrovitch expunha as suas ideias por escrito no seu rosto estampava-e um intenso rubor. Assim que encheu com a sua esmerada caligrafia uma pgina inteira, levantou-se, tocou a campainha e mandou uma nota ao chefe de gabinete a pedir-lhe alguns esclarecimentos suplementares. Percorreu a sala e ao passar diante do retrato no pode evitar um novo relance de olhos, no sem um momo de desprezo Voltou a mergulhar, por fim, na leitura do livro das inscries antigas que de novo lhe despertou interesse, e s 11 horas foi deitar-se. Uma vez na cama, voltou a recordar a lamentvel conduta da mulher e j no viu o caso sob um aspecto to lgubre como anteriormente.
CAPTULO XV
Ana opusera-se obstinadamente aos argumentos de Vronski; no entanto, no fundo da sua alma, tambm ela sentia como ele a falsidade da sua situao e no desejava outra coisa seno acabar com ela. Por isso, quando, agitadssima, lhe escapara a confisso fatal, sentira um certo alvio. Ao ficar s, para si mesma ia dizendo que, graas a Deus, os equvocos tinham acabado: no haveria mais necessidade de enganar e de mentir da para o futuro. Via nisso uma compensao do mal que essa confisso causara ao marido, a ela prpria. No entanto, quando nessa noite se encontrou com Vronski no tratou de o prevenir do sucedido para que a situao ficasse realmente clara.
Na manh do dia seguinte, mal acordou, as palavras que dissera ao marido vieram-lhe  memria e a brutalidade do facto pareceu-lhe to monstruosa que no podia conceber como tivera coragem de pronunciar semelhantes palavras. Agora era impossvel faz-las desaparecer. Que iria resultar dali ? Alexei Alexandrovitch abalara sem lhe dizer o que pensava fazer.
"Estive com Vronski e calei-me. No momento em que ele ia partir, quis contar-lhe tudo, mas calei-me, pois ir-lhe-ia parecer estranho que eu no lhe tivesse explicado logo de princpio. Por que  que, querendo eu falar, me mantive calada sobre o assunto?"
Como resposta a esta pergunta, um rubor ardente lhe cobriu o rosto. Compreendeu que fora a vergonha que a impedira. E aquela situao, que na vspera,  noite, lhe parecera esclarecida, afigurou-se-lhe mais
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mextrincvel do que nunca Pela primeira vez lhe ocorreu ao esprito a ideia da desonra, e, ao pensar no que o marido poderia fazer, assaltaram na as ideias mais terrveis Pensava ver chegar o administrador para expulsa Ia de casa e a sua desonra tornada pblica Perguntava a si mesma para onde iria, quando a expulsassem Mas no achava resposta
Ao pensar em Vronski, imaginou que ele j lhe no queria, que pnn cipiara a cansar se dela, que no podia oferecer se lhe, e por isso sentiu hostilidade para com ele Afigurava se lhe que as palavras que dissera ao marido, e que incessantemente repetia em imaginao, as dissera a toda a gente, e que toda a gente as ouvira No se atrevia a olhar nos olhos as pessoas que \ iviam  sua roda No tinha coragem de chamar a criada e muito menos para descer ao andar inferior e encontra se com o filho e com a preceptora deste
A criada, que havia j algum tempo escutava atrs da porta, penetrou no quarto sem que Ana a tivesse chamado Esta fitou a nos olhos com uma expresso interrogativa e, assustada, corou A rapariga desculpou se, dizendo que julgara que ela a tivesse chamado Trazia lhe um vestido e um bilhete Era de Betsy
No se esquea \_csciena ela\ que Lisa Mcikalov e a baio nesa Stoltz se encontram dentio de f ouo em minha casa com os seus admiradores, Kaluiski e o velho Stiemov, para jogatem uma pai tida de croquct Peo lhe, venha, quanto mais no se-ja paia i et a pai tida, paia estudai os costumes daqui Vale a pena
Ana leu o bilhete e suspirou profundamente
- No preciso de nada - disse ela a Anuchka, que arrumava os frascos do toucador - Podes ir Vou vestir me e logo descerei No preciso de nada, de nada
Anuchka saiu, mas Ana no se vestiu De cabea baixa e os braos cados ao longo do corpo, estremecia, esboa\a um gesto, queria falar, mas voltava a cair na mesma apatia "Deus meu' Deus meu1", repetia ela, maquinalmente, sem atribuir o menor sentido a essa exclamao Claro que acreditava firmemente na verdade da religio em que fora educada, mas no pensava em pedir lhe auxlio, como no pensava pr curar refgio junto de Alexei Alexandrovitch Pois no sabia ela de antemo que esta religio lhe impunha antes de mais nada a renncia ao que representava para ela a nica razo da vida' A tortura moral em que cara, via se agora agravada de um sentimento novo, que ela, com verdadeiro pavor, compreendia apoderar se lhe da conscincia sentia em duplicado, como s vezes os olhos fatigados vem duas imagens, e por momentos no sabia nem o que receava nem o que desejava receava o passado ou o futuro' Que desejava realmente'
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"Oh, que estou eu a fazer'", exclamou, sentindo, de repente, uma dor muito viva nas fontes S ento compreendeu que agarrava os cabelos com ambas as mos e os repuxava dos dois lados da cabea Saltou para fora da cama e ps se a caminhar pelo quarto
- O caf est na mesa e Mademoiselle espera pela senhora com o menino Senocha - disse Anuchka, que de novo entrara no quarto
- Senocha' Que fez Senocha' - perguntou Ana animando se de repente e recordando se pela primeira \ ez naquela manh da existncia do filho
- Qualquer tolice, acho eu - respondeu Anuchka, sorrindo
- Tolices'
- Parece que tirou um pssego da despensa e que o comeu s escondidas
A lembrana do filho fez com que Ana pudesse reagir contra a situao desesperada em que se encontrava Lembrou se do papel, em parte sincero, ainda que muito exagerado, de me consagrada a seu filho, papel que adoptara nos ltimqs anos, e notou com alegria que apesar de tudo lhe restava um ponto de apoio independente do marido e de Vronski Fosse qual fosse a situao que lhe quisessem impor, nunca abandonaria o filho Podia o marido expulsa Ia de casa, cobri Ia de lama, Vronski podia afastar se dela e tornar  sua vida independente (coisa em que no voltou a pensar sem um novo acesso de amargor), mas o filho e que no sacrificaria Tinha, portanto, um fim na existncia Era preciso agir, agir a todo o custo, salvaguardar a sua posio relativamente ao filho, fugir com ele antes que lho tirassem Sun, sim, era preciso partir com ele, partir o mais depressa possvel, e para isso serenar, libertar se daquela angstia que a torturava E a ideia de uma aco em que o filho intervinha, da partida com ele, para onde quer que fosse, j lhe dava uma certa paz
Vestiu se  pressa, desceu as escadas e entrou, em passo firme, no salo onde, como de costume, a aguardavam para tomar o pequeno almoo Senocha e a preceptora De p, junto de um tren, Senocha, todo vestidinho de branco, corcovado e de cabea baixa, concentrado, arranjava umas flores Nesses momentos, muito frequentes nele, parecia se com o pai Assim que viu Ana, soltou um dos seus gritos agudos
- Ah, mezinha' - calou se, indeciso, hesitava entre correr para a me e atirar fora as flores ou acabar de fazer a raminho, para lho oferecer
A preceptora estava carrancuda Depois dos cumprimentos do estilo, encetou o relato, longo e circunstanciado, da travessura de Srgio Ana no a ouvia, para si mesma perguntava se se deveria tambm levar consigo aquela mulher "No, deixa Ia ei aqui, irei s com o meu filho "
- Sim, realmente, no est certo - disse ela, por fim, e colocando a mo em cima do ombro de Senocha pousou nele um olhar ansioso, que, ao mesmo tempo que perturbou o pequeno, o tranquilizou - Deixe o
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comigo - disse  preceptora espantada, e, sempre com o brao da criana seguro, sentou se  mesa onde estava servido o caf
- Mezinha, eu eu eu - balbuciava Senocha, procurando ler no rosto da me o que o esperava por causa da histria do pssego
- Senocha - disse Ana, assim que a preceptora se retirou-, no  bonito, mas tu no voltas a faz Io, pois no' Gostas de mim'
Sentiu que as lagrimas lhe subiam aos olhos "Pois poderei no querer lhe'", pensava ela, perscrutando o olhar feliz e comovido da criana "Ser possvel que ele se alie ao pai para me castigar' Ser possvel que no tenha piedade de mim'" As lgrimas corriam lhe pela face, para esconde Ias, ergueu se bruscamente e quase a correr refugiou se no terrao
Depois das chuvas tempestuosas dos ltimos dias, viera um tempo luminoso, embora frio, apesar do Sol, cujos raios se filtravam atravs da folhagem O ar fresco agravou o mal estar de Ana, teve um arrepio
- Vai ter com Manette - disse ela para Senocha, que fora atras dela, e ps se a caminhar pela esteira de palha que cobria o terrao "Ser possvel que no me perdoem' Que no compreendam que no podia ter sido de outra maneira'", perguntou se a si mesma
Deteve se, ficou a contemplar por momentos as copas das arvores, cuja folhagem, ainda hmida, brilhava ao sol, e de sbito compreendeu que no lhe perdoariam, que o mundo inteiro seria impiedoso para com ela como aquele cu e aquela verdura E de novo se sentiu tomada de dvidas, se viu no mesmo desdobramento interior "Bom, deixemo nos disto, no vale a pena pensar  preciso fugir Mas para onde' Quando' Com quem' Para Moscovo, no comboio da noite Levarei o Senocha e a Anuchka e apenas o indispensvel para a viagem Mas antes de mais nada tenho de escrever aos dois
E, precipitando se para os seus aposentos, sentou se  secretaria para escrever ao mando
Depois do qtie se passou, no posso continuar a vivet consigo Vou me embota e levo o meu jilho comigo Como no conheo a lei, no sei com quem ele dei-e ficai, mas lei/o o comigo, poique no posso viver sem ele Seja geneioso, deixe o comigo
At ali escrevera rapidamente e num tom natural, mas este apelo a uma generosidade que ela sabia no existir no corao de Alexei Alexandrovitch e a necessidade de fechar a carta com alguma" palavras comovedoras detiveram na
"No posso falar da minha falta e do meu arrependimento, porque " De novo se deteve, pois no encontrava palavras para expnrqir o seu pensamento "No >, disse de si para consigo "Isto no pode ser" E, rasgando a carta, escreveu outra, de que exclua qualquer apelo  generosidade do mando
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A segunda carta devia ser para Vronski "Confessei tudo a meu mando", principiava ela, mas por minto tempo permaneceu sem saber como continuar era to brutal, to pouco feminino'
"De resto, que lhe posso eu dizer >" Uma vez mais corou de vergonha e lembrando-se, com certo azedume, da placidez de Vronski, rasgou  bilhete em mil pedaos "Mais vale calar me", resolveu, fechando a pasta Subiu a escada para anunciar  preceptora e  criadagem que partiria nessa mesma noite para Moscovo, e sem mais delongas principiou a arranjar as suas coisas para a viagem
CAPTULO XVI
Os criados, o porteiro e at os jardineiros tinham invadido a casa, as cmodas e os armrios escancararam as suas portas, pelo cho, havia jornais espalhados, por duas vezes tinham ido comprar cordas Duas malas, maletas, um volume de mantas, enchiam o vestbulo A carruagem e dois cocheiros aguardavam defronte do alpendre De p diante do seu toucador, Ana, um pouco apaziguada pela febre dos preparativos, arrumava o saco de viagem, quando Anuchka lhe chamou a ateno para uma caleche que se aproximava Atravs da janela pde ver o correio de Alexei Alexandrovitch que puxava a campainha da porta principal
- Vai ver de que se trata - disse ela, e cruzando os braos sobre os joelhos, sentou se, resignada, numa poltrona
Um criado trouxe um grande embrulho com o endereo escrito pelo punho de Alexei Alexandrovitch
- O correio tem ordem para esperar pela resposta - disse ele
- Est bem - redarguiu ela, e, assim que o criado se retirou, trmula, rasgou o sobrescrito, de onde caiu um mao de notas Finalmente encontrou a carta e ps se a l Ia pelo remate
Dei as ordens necessrias para o seu regresso Rogo lhe que tome em considerao que atribuo importncia especial ao cumpri mento deste pedido
Depois voltou ao princpio, e leu a carta de ponta a ponta Ento ps se a tremer, sentiu se esmagada por uma desgraa terrvel, imprevista
Nessa mesma manh lamentara a sua confisso e teria desejado Pder recuperar as palavras que dissera, e eis que uma carta as consi derava como no pronunciadas, lhe dava o que ela desejara, e essas Poucas linhas pareciam ir muito alm das suas mais negras previses
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"Ele tem razo!", murmurou. "Pois como no havia ele de ter razo
ele que  crist e magnnimo? Oh, como  desprezvel e vil um homem
assim! E pensar que ningum o compreende e s eu o compreendo, que
me no sei exprimir. Elogiam-lhe a piedade, a probidade, a inteligncia
mas no vem o que eu vi; todos ignoram que durante oito anos asfixiou
tudo o que em mim palpita, sem nunca se ter apercebido de que eu sou
uma criatura viva e que tinha necessidade de amor; ignoram que me feria
a cada momento, que com isso mais satisfeito ficava consigo mesmo. No
procurei eu, com todas as minhas foras, dar uma finalidade  minha
existncia? No fiz eu o possvel para am-lo? E quando vi que no
conseguia, no transferi todo esse amor para o meu filho? Mas chegou
uma altura em que compreendi que no podia continuar a iludir-me, que
era de carne e osso. Tenho culpa que Deus assim me haja feito? Se preciso
de amar e viver?... E agora? Se ele me matasse, se matasse o outro, podia
compreender, perdoar. Mas no, ele... Como no adivinhei eu o que ele
iria fazer? Uma natureza da sua baixa ndole no poderia agir de outra
maneira. Defenderia os seus direitos, e eu, desgraada, perder-me-ia mais
ainda. "No lhe ser difcil imaginar o que a espera, a si e ao seu filho."
Evidentemente que ameaa tirar-me o meu filho, as suas absurdas leis
autorizam-no a isso, com certeza. Mas eu no estou a ver porque me diz
isto? No acredita no amor que sinto pelo meu filho, despreza-o, corno
sempre o fez, este meu sentimento; mas sabe que no poderei abandonar a
criana, que no o poderei fazer, que sem o meu filho no poder haver
vida para mim, nem mesmo com o homem a quem amo. Se o fizesse, e o
abandonasse, procederia como a mulher mais vil e mais desonesta. Ele
sabe isso e sabe que eu nunca teria foras de agir desse modo...
"A nossa vida deve, pois, continuar como antes", diz ele. "Mas esta vida foi sempre um tormento e nos ltimos tempos ainda pior. Que ser ento agora ? Ele sabe-o, sabe que eu no me posso arrepender de respirar, de amar; ele sabe que, de tudo o que exige, s mentira e falsidade pode resultar, mas quer a todo o transe prolongar a minha tortura.
"Conheo-o, sei que nada na mentira como um peixe na gua... Pois bem, no, no lhe darei essa alegria; romperei este tecido de hipocrisia em que ele me quer envolver. Acontea o que acontecer, tudo ser prefervel a enganar e mentir!...
"Mas, como?... Meu Deus! Meu Deus! Ter existido alguma vez mulher to desgraada como eu?"
- Pois bem, acabarei com tudo isto! - exclamou, levantando-se de chofre e contendo as lgrimas.
Aproximou-se da secretria para escrever outra carta. Mas no fundo da sua alma pressentira que no teria foras para acabar, nem para sair da situao passada, por mais falsa e desonrosa que ela fosse.
Sentou-se  mesa. Em lugar de escrever, porm, apoiou os braǰs e, pousando neles a cabea, principou a chorar. Chorava como as crianas*
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e os soluos agitavam-lhe o peito. Chorava porque a iluso que tivera de que as coisas estariam agora claras rura para sempre. Sabia de antemo que tudo continuaria como antes e at muito pior. Dava-se conta de que a posio que ocupava na sociedade, que naquela mesma manh se lhe afigurara to desprezvel, lhe era preciosa e que no teria foras para troc-la pela de uma mulher que abandonou o marido e o filho. Por mais esforos que fizesse, no podia ser mais forte do que o era na realidade. Nunca seria livre para amar, vivera sempre como uma mulher culpada, sob a ameaa de se descobrir de um momento para o outro que enganava o marido, que mantinha relaes amorosas com um homem estranho e independente, de cuja vida lhe no era dado compartilhar. Sabia que assim teria de ser, mas ao mesmo tempo isso apresentava-se-lhe como uma coisa to terrvel que no podia imaginar sequer de que maneira acabaria. E Ana chorava, chorava desabaladamente, como costuma chorar a criana que foi castigada.
Ao ouvir os passos do criado, estremeceu; escondendo o rosto, fingiu escrever.
- O correio espera a resposta - anunciou o criado.
- A resposta? Bom, que espere. J chamarei - disse Ana.
"Que hei-de dizer-lhe?", pensou. "Que hei-de decidir sozinha? Que hei-de eu querer ? Que preferiria eu ?" De novo sentiu que um desdobramento se operava na sua alma. Assustada, agarrou-se ao primeiro pretexto de actividade que se lhe apresentava, capaz de apartar dela semelhantes ideias. "Preciso de me encontrar com Alexei (assim chamava mentalmente a Vronski); s ele pode decidir o que devo fazer. Irei a casa da Betsy, talvez l o encontre", disse de si para consigo, esquecida por completo de que na vspera, quando dissera a Vronski que no iria a casa da princesa Tverskaia, ele lhe respondera que, nesse caso, tambm no iria.
Escreveu ao marido:
Recebi a sua carta.
A.
E chamando o criado entregou-lhe a carta.
- No partimos-disse a Anuchka, que acabava de entrar no quarto.
- Definitivamente ?
- No; no desfaam as malas at amanh, e o carro que espere. Vou a casa da princesa.
- Que vestido leva?
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CAPTULO XVII
O grupo que se reunia em casa da princesa Tverskaia para jogar uma partida de ctoquet, partida para que Ana estava convidada, com preendia duas senhoras e os respectivos admiradores Essas senhoras eram as principais representantes de um novo crculo selecto de Sampeters burgo, que se denominava,  imitao no se sabia de qu, Ls sept meneilles du munde1 Pertencia, com efeito,  alta sociedade, mas a um sector da alta sociedade hostil queles de que Ana fazia parte Alm disso, o admirador de Lisa Merkalov, o velho Stremov, um dos homens mais influentes de Sampetersburgo, era inimigo declarado de Alexei Alexandrovitch Por todas estas razes, Ana julgava de seu dever declinar o convite de Betsy, recusa a que esta fazia aluso no seu bilhete Mas, tendo mudado de resoluo, na esperana de encontrar Vronski, foi a primeira a chegar a casa da princesa
No momento em que entrava no vestbulo, chegava tambm o criado de Vronski, com as suas suas muito penteadas, dir-se-ia um fidalgo Deteve se  porta, e, descobnndo-se, deixou passar Ana, que o reconheceu Lembrou-se ento de que Vronski lhe dissera na vspera que no iria  reunio Naturalmente mandava um recado, desculpando-se
Enquanto despia o casaco no vestbulo, Ana ouviu o criado dizer, pronunciando os rr como um camareiro real
- Para a princesa, da parte do conde
Ana desejou perguntar-lhe onde se encontrava o amo Apetecia-lhe voltar a casa para lhe escrever, pedindo lhe que a viesse visitar ou at mesmo ir ela prpria  residncia dele Mas no podia fazer nenhuma dessas trs coisas, j se ouvia a campainha que anunciava a sua chegada e o criado estava j de p junto da porta aberta, aguardando que Ana penetrasse no interior da casa
- A princesa est no jardim, vou imediatamente avis-la No querer Vossa Excelncia dirigir-se ali' - disse outro criado, na sala imediata
Acometia-a a mesma sensao indefinida de insegurana que sentira em casa, era ainda muito pior, porque nada podia fazer e ainda por cima no podia falar a Vronski Via se obrigada a ficar ahj. no meio daquela sociedade estranha e to contrria ao estado de alma que expe rimentava Mas sabia que levava um vestido que lhe ficava bem e que no estava sozinha rodeava a esse ambiente de ociosidade sumptuosa que lhe era habitual e sentia-se mais aliviada do que em casa Ali, a menos, no tinha que discorrer sobre o que devia fazer Tudo se faz'1
As sete maravilhas do mundo
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por si mesmo Ao ver Betsy, que vinha ao seu encontro, vestida de branco, surpreendeu se com a sua elegncia e sorriu, como sempre Acompanhavam a princesa, Tuchkevitch e uma senhora sua parenta, que passava o Vero em casa da clebre titular, com grande alegria dos pais provincianos Ana tinha com certeza qualquer coisa de especial, pois Betsy imediatamente deu por isso
- Dormi mal - respondeu lhe Ana, cravando os olhos no criado que vinha ao seu encontro, e, segundo imaginou, com o bilhete de Vronski.
- Ainda bem que veio - disse Betsy - Estou cansada e queria tomar uma chvena de ch antes que eles cheguem Podia ir com Macha - disse ela, voltando se para Tuchkevitch - experimentar o croquet ground ' Ah onde cortaram a relva Entretanto ns daremos dois dedos de cavaco enquanto tomamos uma xcara de ch, we'll have a cosy chat2, no  verdade' - disse, dirigindo se a Ana, sorrindo, e apertou lhe a mo com que segurava a sombrinha
- Pois com certeza, e tanto mais que no me poderei demorar muito, tenho de ir, sem falta, visitar a velha Vrede H mais de um sculo que lhe ando a prometer - replicou Ana, para quem a mentira, to alheia ao seu carcter, passara a ser no s simples e natural, em sociedade, mas at um prazer No teria sabido explicar porque dissera uma coisa em que no pensava sequer momentos antes Era apenas porque, como Vronski no ia a casa da princesa, precisava ficar livre e tentar v-lo de qualquer maneira To pouco lhe teria sido possvel explicar por que se lembrara da velha dama de honor, a quem dizia que precisava de visitar, e no de qualquer outra pessoa No entanto, as coisas viciam a demonstrar que de todas as desculpas de que poderia ter lanado mo aquela fora a melhor
- No a deixarei ir por nada deste mundo - disse Betsy, fitando atentamente a amiga - Pode crer que me sentina ofendida se no fosse sua amiga Parece que receia que a minha companhia a comprometa'1 Faa favor de nos servir o ch no salozmho - disse ao criado, semi-cerrando as plpebras, como sempre quando falava aos criados
Pegando no bilhete que o criado lhe apresentava, leu o
- Alexei fez nos a partida - disse em francs - Manda me dizer que no pode vir - acrescentou num tom natural e to simples como se nunca lhe tivesse passado pela cabea que Vronski representava para Ana alguma coisa mais do que um parceiro do noquet Ana sabia que Betsy estava a par de tudo, mas, ao ouvi-la falar assim de Vronski, convenceu se momentaneamente de que ela ignorava as suas relaes com ele
- Ah' - exclamou Ana, em tom indiferente, como se aquilo pouco lhe interessasse, e continuou a sorrir -Como pode uma pessoas comprometer-se na sua companhia'
Campo de troquei Falaremos das coisas de casa
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Para Ana como para qualquer outra mulher, esta maneira de esconder um segredo, brincando com as palavras, tinha grande atractivo Fazia o menos por necessidade do que pelo prazer de dissimular
- No quero ser mais papista do que o papa - disse ela - Stremov e Lisa Merkalova so a flor e a nata da alta sociedade Alm disso so recebidos em todo o lado e eu - Ana sublinhou o eu - nunca fui nem intolerante nem severa Francamente no tenho tempo para isso - Talvez no queira encontrar-se com Stremov' Que ele terce armas com Alexei Alexandrovitch l nas suas comisses, isso no nos diz respeito a ns O certo  que em sociedade  o homem mais amvel que eu conheo e um jogador de croquet apaixonado Vai ver, apesar da sua ridcula situao de velho admirador de Lisa, ver como se sabe sair bem  muito ^i  ' tico Conhece a Safo Stolz'  o que se pode dizer a ltima palavra em elegncia
Enquanto Betsy falava de tudo isto, Ana compreendia, pelo seu olhar jovial e inteligente, que ela adivinhava em parte a situao e procurava encontra-lhe uma sada Estavam as duas numa salmha
- Tenho de mandar uma palavra ao Alexei - disse Betsy, sentando-
-se  mesa, escreveu umas linhas e ps a carta num sobrescrito - Digo-lhe que venha jantar Uma das minhas convidadas no tem par Veja l se no  argumento convincente Perdoe me que a deixe um momento Peco-lhe para fechar a carta e envi-la - acrescentou da porta - Tenho de ir dar umas ordens
Sem hesitar um momento, Ana sentou-se  mesa e, sem ler o bilhete de Betsy, acrescentou-lhe estas linhas "Preciso ver-te Estarei a s seis" Fechou a carta e, quando Betsy voltou a aparecer, pegou nela e entregou-a ao criado diante de Ana
Efectivamente, as duas amigas tiveram um cosy chat enquanto tomavam o ch, que lhes serviam numa mesinha pequena, nos aposentos de Betsy, salmha fresca e ntima A conversa girou em torno das pessoas que aguardavam, muito especialmente de Lisa Merkalova
-  muito agradvel e tem sido sempre muito simptica para mim-comentou Ana
- Faz bem em gostar dela  doida por si Ontem, depois das corridas, aproximou se de mim, desesperada por no ter podido falar lhe Disse me que voc era uma verdadeira herona de rornance e que, se ela fosse homem, muitas loucuras praticaria por sua causa Stremov respondeu-
-Ihe que, mesmo sendo mulher, j no eram poucas as que praticava
- Mas diga-me - atalhou Ana, depois de um breve silncio e num tom que sugeria perfeitamente no se tratar de uma pergunta v, mas de algo importante - Nunca consegui perceb-lo Diga-me que espcie de relaes h entre Lisa e o prncipe Kalujski, esse a quem chama Michka' Raramente os encontro Que h entre eles'
Betsy olhou atentamente para Ana com os olhos risonhos.
T
-  um novo estilo Todos o adoptaram. Atiraram com as convenincias para trs das costas Mas h maneiras e maneiras
- Sim, mas que relaes existem entre ela e o prncipe Kalujski' Betsy, pouco risonha por natureza, desatou a rir
- Est a entrar em casa da princesa Miagkaia' Isso  uma pergunta de menina travessa - e Betsy, apesar dos esforos que fazia, no pde conter-se e desatou a rir um riso contagioso, prprio das pessoas que costumam rir pouco -Teremos de lhes perguntar a eles prprios - acrescentou, atravs das lgrimas
- Ria  sua vontade - disse Ana, contagiada, a pesar seu, pelo (iso da amiga - Mas a verdade  que nunca pude perceber Qual  o papel do marido'
- Do mando' Mas o marido de Lisa est sempre pronto a servi Ia E quanto ao mais, ningum d por coisa alguma Voc j sabe que na boa sociedade no se fala, nem sequer se pensa em certos pormenores da toette de cada um Com estas coisas, d se o mesmo
- Vai  festa dos Rolandaki - perguntou Ana, para mudar de conversa
- No fao teno - replicou Betsy, e, sem olhar para a amiga, ps se a encher de aromtico ch as chvenas transparentes, oferecendo uma a Ana Depois colocou um agarro na boquilha de prata a acendeu-o - Como v - disse ela, com a chvena na mo e num tom que se tornara srio-, encontro-me numa situao privilegiada Mas compreendo a a si e compreendo Lisa Ela  uma dessas naturezas ingnuas, infantis, que ignoram o bem e o mal Pelo menos assim era quando rapangumha, e, como percebem que esta ingenuidade lhe ficava bem, fingem no compreender Seja como for, convm-lhe Que quer' Podem considerar se as mesmas coisas de pontos de vista muito diferentes uns tomam nas ao trgico e fazem delas um tormento, outros encaram nas com mais simplicidade e at com alegria Voc parece que se inclina a ver as coisas demasiado ao trgico
- Muito gostaria eu de conhecer os outros to bem como me conheo a mim - disse Ana, numa expresso sria e concentrada - Sou melhor ou sou pior do que os demais' Creio que sou pior
-  muito simplesmente uma criana - disse Betsy - L vm eles
CAPTULO XVIII
Ouviram-se passos, depois uma voz de homem, em seguida uma voz de mulher e finalmente uma gargalhada, aps o que as visitas esperadas surgiram Safo Stolz e um rapaz chamado Vaska, radiante e cheio de
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sade Via-se que estava bem alimentado a carne meia crua, trufas e vinho de Borgonha Vaska cumprimentou as senhoras e mirou-as, mas apenas pelo espao de um segundo. Imediatamente acompanhou Safo ao salo, onde ficou junto dela como que amarrado, fitando-a continuamente como se quisesse devora Ia com os olhos brilhantes Safo Stolz era loira, de olhos pretos Entrou com passinhos resolutos, nos seus sapatos de taco alto, e apertou com fora, como se fosse um homem, as mos das senhoras presentes
Nunca antes se encontrara Ana com esta nova celebridade e surpreendeu se diante da sua beleza, do atrevimento dos seus modos e do exagero da sua maneira de vestir Com os prprios cabelos e os postios, suavemente dourados, Safo arranjara um penteado de tal sorte monu mental que a cabea se lhe podia comparar, pelo volume, ao busto bem modelado e muito decotado Caminhava com tal mpeto que cada um dos seus movimentos lhe desenhava debaixo do vestido a forma dos joelhos e das pernas. Sem querer, cada um se achava a perguntar a si mesmo onde principiava e onde acabava realmente essa mola artificial e movedia, esse pequeno corpo esbelto, to descoberto por cima e por diante, e to escondido por detrs.
Betsy tratou logo de a apresentar a Ana
- Calcule que por pouco no atropelvamos dois soldados - principiou Safo, fazendo caretas e sorrindo, enquanto arranjava, por detrs, a cauda do vestido, que se lhe repuxava toda para um lado - Vim com o Vaska Ah' Mas ento no se conhecem' - E Safo apresentou o rapaz, tratando o pelo seu sobrenome Corou, e depois ps-se a rir sonoramente, por se ter enganado, ao trat-lo pelo seu nome ntimo diante de uma desconhecida Vaska tornou a cumprimentar Ana, mas, sem nada lhe dizer, voltou se para Safo, sorrindo-
- Perdeu a aposta Chegmos primeiro Deixe ver o que me deve Safo desatou a rir mais alegremente ainda
- Agora, no - replicou
- No faz mal. Receb-lo ei depois
- Est bem, est bem Ah, meu Deus' - exclamou em seguida, dirigindo-se  dona da casa - Estou boa J me esquecia Trouxe lhe um convidado Aqui o tem
A pessoa de quem Safo se esquecera acontecia ser de tal importncia que, apesar de muito novo, as senhoras se levantaram para o cumprimentar Era o novo admirador de Safo, que,  semelhana de Vaska, no lhe perdia o rasto
Da a pouco chegavam o prncipe Kalujski e Lisa Merkalova, na companhia de Stremov. Lisa era morena, a pender para magra, de tipo oriental, o ar indolente e lindos olhos, que toda a gente considerava enigmticos O seu vestido escuro, que Ana notou e logo apreciou,
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convinha admiravelmente ao seu gnero de beleza   A brusquido de Safo, opunha Lisa -vontade cheio de abandono.
Para esta foram as preferncias de Ana Assim que a viu, achou que Betsy se enganara, criticando os seus ares de criana inocente Por mais mimada que Lisa fosse, a sua mata inconscincia desarmava Os seus modos no eram melhores que os de Safo ela prpria trazia atrs de si, enfeitiados, dois adoradores, que a devoravam com os olhos um novo e outro velho Haveria nela qualquer coisa de superior ao seu meio, dir-se-ia um diamante no meio de pedaos de vidro A cintilao de pedra preciosa que lhe resplandecia nos belos olhos verdadeiramente enigmticos, afundados em grandes olheiras, surpreendia pela sinceridade Quem encontrasse esse olhar julgaria ler na alma de Lisa Conhec-la era am-la Ao ver Ana, o rosto iluminou-se-lhe de um sorriso de alegria
- Oh, que prazer em v Ia - disse, aproximando-se - Ontem, nas corridas, quis ir cumprimenta Ia, mas j se tinha ido embora Desejava tanto v-la, ontem, precisamente No  verdade que foi terrvel' - acrescentou, fitando Ana com esses olhos que pareciam descobrir lhe toda a alma
- Realmente, nunca imaginei que as corridas pudessem provocar tanta emoo - replicou Ana, corando
Naquele momento os convidados puseram se de p para se dirigirem ao jardim
- Eu no vou - disse Lisa, sorrindo e sentando-se junto de Ana - No vai tambm, pois no' Que satisfao se pode ter num tal jogo'
- Eu gosto - disse Ana
- Que  que faz para se no aborrecer' Basta olha Ia para nos sentirmos alegres V-se que vive, em compensao, eu aborreo-me
- Aborrece se' Como assim, se pertence  roda mais alegre de Sampetersburgo' - disse Ana
-  possvel que os que no pertencem  nossa roda ainda se aborream mais Mas ns, e eu em especial, no nos divertimos, aborre-cemo-nos terrivelmente.
Safo, acendendo um cigarro, saiu para o jardim, arrastando consigo os dois jovens Betsy e Stremov ficaram a tomar ch
- Que maada' - exckmou Betsy - A Safo disse-me que se divertiram ontem muito em sua casa
- No me diga, foi aborrecidssimo1 - comentou Lisa Merka lova -Depois das corridas, fomos todos para minha casa, e sempre a mesma gente, sempre a mesma O mesmo, sempre Passmos a noite estendidos nos divs Chama se isto estarmos divertidos' Que faz para se no aborrecer' - continuou, dirigindo-se a Ana - Basta olh-la para compreendermos que pode ser feliz ou desgraada, mas que se no aborrece Diga me, que  que faz'
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- No fao nada - contestou Ana, corando, perante a insistncia da pergunta
-  a melhor maneira - interveio Stremov
Stremov era um homem dos seus cinquenta anos, grisalho, ainda novo, feio, mas de uma fealdade original Lisa Merkalova era sobrinha da mulher dele e Stremov passava o tempo junto dela Ao encontrar se com Ana Karemna, a mulher de Karemne, seu inimigo no ministrio, como homem mundano e inteligente, procurou mostrar se especialmente amvel para com ela
- Nada fazer  o melhor remdio para no nos aborrecermos - continuou, sorrindo, subtilmente - Ha muito que lhes digo Para uma pessoa se no aborrecer, basta estar convencida de que se no aborrecer fi como quando uma pessoa sofre de insnias, que no deve pr se a pensar que no pode dormir  isso, precisamente, que acaba de dizer Ana Arkadievna
- Muito teria gostado que assim fosse, porque no s  muito engenhoso, mas a verdade pura - replicou Ana, sorrindo
- Mas, diga me, por que  to difcil uma pessoa adormecer como no sentir tdio'
- Tanto para uma coisa como para a outra  preciso ter trabalhado antes
- E para que hei de eu trabalhar se ningum precisa do meu servio' E isso de fingir que trabalho, no  para mim
-  incorrigvel - disse Stremov, sem olhar para ela e voltando se de novo para Ana
Como raramente encontrava Ana, nada mais lhe sabia dizer que banalidades Agora falava lhe do seu regresso a Sampetersburgo, per guntando lhe para quando seria, e contava lhe do apreo que tinha por ela a condessa Ldia Ivanovna, num tom em que se evidenciava o desejo de ser agradvel e de mostrar se respeitoso
Truchkevitch apareceu para dizer que tardavam os jogadores de croquet Ana quis retirar se Lisa procurou det Ia e Stremov secundou a
- Vai sentir um contraste muito grande entre a sociedade que aqui esta e a da velha Vrede - disse ele -Alm disso s lhe ir servir de motivo de maledicncia, enquanto aqui apenas inspira os melhores sentimentos, precisamente o contrrio da murmurao
Ana deteve se pensativa e indecisa As palavras lisonjeiras daquele homem inteligente, a simpatia infantil que Lisa lhe testemunhava, aquele meio mundano onde ela se sentia respirar mais livremente, deixaram na por instantes indecisa no poderia adiar para mais tarde o momento terrvel da explicao' Mas lembrou se do que a esperaria em casa se no tomasse j uma deciso, e recordou esse momento terrvel em que se encontrara a arrepelar os prprios cabelos Ento decidiu se Fez as suas despedidas e partiu
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CAPTULO XIX
Apesar da vida mundana que levava e do seu aparente estouvamento, Vronski tinha horror  desordem Quando aluno do Corpo de Pajens, muito novo, portanto, encontrando-se um dia sem dinheiro, algum lhe recusara um emprstimo Desde ento jurara nunca mais voltar a sofrer semelhante humilhao Eis por que, cinco ou seis vezes por ano, fazia balano aos seus fundos era o que ele chamava feure Ia lessne '
No dia seguinte ao das corridas, Vronski acordou tarde e, sem tomar banho nem se barbear, vestiu um dlman branco ps em cura da mesa os dinheiros, as contas e as cartas, e mos  obra Petntski sabia que nessas alturas Vronski estava sempre de mau humor Ao acordar, vendo o sentado  mesa, vestiu se em silncio e saiu sem lhe dizer nada
Todo aquele que tem uma vida complicada julga ver nessa compli cao uma fatalidade que s a ele atinge Vronski assim pensava e orgulhava se, no sem razo, de ter evitado escolhos onde outros teriam esbarrado com eles No entanto, julgava chegado o momento de escla tecer a sua situao
Em primeiro lugar a questo financeira Numa folha de papel de carta, alinhou, na sua fina caligrafia, os algarismos que mostravam a situao das suas dvidas O total atingia dezassete mil rublos, sem contar as centenas, que ele eliminava para maior clareza Por outro lado, o seu activo, quer no bolso, quer no banco, apenas atingia mil e oitocentos rublos, sem contar com qualquer receita at final do ano seguinte Ento procedeu a uma classificao das dvidas, dividindo as em trs categorias Em primeiro lugar as dividas urgentes, que excediam os quatro mil rublos, mil e quinhentos dos quais gastos com o cavalo e dois mil e quinhentos para pagar a um grego que os ganhara de Venevski, jovem camarada seu, de quem fora fiador, durante uma partida de jogo Vronski, que nessa altura tinha dinheiro, quisera imediatamente satisfazer a dvida de honra, mas lachvme e Venevski entenderam que a eles com petia liquidarem na e que se encarregariam disso De qualquer forma, no caso de uma reclamao, Vronski devia encontrar se em condies de lanar essa importncia  cara do maroto que a extorquira Depois vinham as dvidas da sua cavalaria de corridas cerca de oito mil rublos, ao fornecedor de feno e de aveia, ao treinador ao correeiro, etc Dois mil rublos de amortizao bastariam de momento Quanto  terceira cate gona de credores (restaurante, alfaiates e sapateiros), esses podiam esperar Em suma, precisava imediatamente de seis mil rublos e apenas dispunha de mil e oitocentos Para um homem com cem mil rublos de
Fazer a barreia
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rendimento, soma que lhe atribuam, tais dvidas eram de somenos importncia, mas a verdade  que no dispunha de nada que se parecesse com esse rendimento A grande fortuna deixada pelo pai, e que correspondia a um rendimento de duzentos mil rublos anuais, era propriedade indivisa dos irmos Quando o irmo mais velho, cheio de dvidas, se casou com a princesa Vria Tchirkova, filha de um dezembrista, sem bens de fortuna, Alexei cedeu-lhe todos os rendimentos que lhe cabiam da herana paterna, reservando para si, unicamente, vinte e cinco mil rublos por ano Vronski dissera ento a este seu irmo que esse dinheiro lhe chegaria enquanto se no casasse, o que provavelmente nunca viria a acontecer O irmo, que comandava um regimento que exigia grandes despesas de representao, e que acabava de casar se, no pde dispensar aquela ddiva A me, que dispunha de capital prprio, dava a Alexei, por ano, vinte mil rublos, que ele gastava com o seu soldo Mas ultimamente, desgostosa com ele por causa dos seus amores e por ter sado de MOCOVO, deixara de enviar lhe dinheiro Em consequncia disso, Vronski, habituado a gastar quarenta e cinco mil rublos anuais, no tendo recebido naquele ano seno vinte e cinco, encontrava se numa situao difcil Para sair dela, no podia pedir dinheiro  me A ltima carta que dela recebera, ainda na vspera, irritara o muito Nela lhe dava a entender estar disposta a contribuir para o seu xito na alta sociedade e na carreira das armas, mas no para que ele levasse uma vida que escandalizava toda a gente de bem Esta espcie de suborno feria o no mais fundo da alma e ainda ajudou a esfriar mais os seus sentimentos para com a me E depois no lhe ficava bem voltar atrs na atitude generosa que tivera para com o irmo, embora verificasse agora que  sua ligao com Ana Karemna podia vir a tornar necessrio esse rendimento e que o seu acto de generosidade fora um tanto insensato Apesar de solteiro, podia vir a precisar daqueles cem mil rublos de rendimento Contudo, no podia modificar a. resoluo que tomara Bastava recordar se da mulher do irmo, a simptica e meiga Vria, sempre pronta a lembrar-
-Ihe, reconhecida, a generosidade que ele tivera, para compreender que no tinha o direito de a privar desse rendimento Sena o mesmo que bater numa mulher, roubar ou mentir Havia uma nica soluo, e Vronski por ela se decidiu sem vacilar pedir dez mil rublos a um usurrio, coisa que no lhe seria nada difcil, reduzir as suas despesas gerais e vender os cavalos de corrida Tomada esta deciso, escreveu imediatamente a Ro-landaki, que por vrias vezes lhe quisera comprar os cavalos Depois, mandou chamar o ingls e procurar um usurrio, destinando o dinheiro que lhe restava para outras contas Tendo posto ponto final em todos estes assuntos, escreveu  me, em tom frio e seco Em seguida, tirando da carteira trs cartas de Ana, queimou-as, depois de as reler E ficou-
-se pensativo a recordar a conversa que com ela tivera na vspera
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CAPTULO XX
A vida de Vronski podia dizer-se uma vida feliz, porque obedecia a um cdigo de leis que determinava, categoricamente, o que podia e no podia fazer Esse cdigo abrangia um nmero reduzido de condies, embora muito definidas, e Vronski, que nunca saa dessa rea, no tinha dvidas quanto  forma de proceder O cdigo prescrevia-lhe, por exemplo, que devia pagar uma dvida de jogo a um grego, consentindo, porm, que deixasse de pagar a conta do alfaiate, impedia o de mentir aos homens, mas autonzava-o a mentir s mulheres, determinava que a ningum enganasse excepto aos mandos, admitia a ofensa, mas no o perdo das injrias, etc Tais princpios, embora extravagantes, nem por isso deixavam de ter o carcter de uma certeza absoluta, e, por menos que a eles obedecesse, Vronski achava-se no direito de manter a cabea bem erguida Nos ltimos tempos, porm, em virtude da sua ligao com Ana, reconhecia certas lacunas nesse cdigo e no encontrava nele soluo para certos pontos espinhosos que o embaraavam e complicaes que adivinhava prestes a carem-lhe em cima
At ento as suas relaes com Ana e o marido pareciam-lhe claras e simples L estavam nitidamente definidas no cdigo por que se regia
Ana era uma mulher decente, que se lhe-entregara por amor, merecia lhe todo o respeito, tanto ou mais que uma esposa legtima Professava por ela a mais alta estima a que uma mulher pode aspirar, e mais facilmente deixaria que lhe cortassem uma das mos a ofende Ia por uma simples palavra que fosse, ou a mnima insdia Todos podiam saber ou suspeitar dos seus amores, mas ningum deveria ousar falar-lhe deles, pois, de contrrio, Vronski estava disposto a fazer calar o atrevido, obngando-o a respeitar a honra ausente da mulher que a perdera
As relaes com o marido de Ana ainda eram mais definidas Desde o momento em que Ana se enamorara dele, entendia que era o nico a ter direitos sobre ela, o mando era um ser suprfluo que o incomodava Indubitavelmente a posio deste no era brilhante, mas que fazer ? Karemne s tinha o direito de lhe exigir satisfaes no campo da honra e Vronski estava disposto a dar-lhas em qualquer altura
Eis, porm, que uma circunstncia nova lhe fizera nascer no esprito dvidas que ele, apavorado, se sentia incapaz de dissipar Na vspera Ana anunciara lhe que estava grvida esperava que ele tomasse uma resoluo qualquer, ora, a verdade  que os princpios que governavam a sua existncia no lhe diziam de que natureza devia ser essa resoluo No primeiro momento sentira que devia exigir que ela abandonasse o mando, mas aps reflexo, e conquanto no ousasse confess-lo claramente a si prprio, semelhante rompimento no se lhe afigurou desejvel
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"Leva Ia a abandonar o mando, era como leva Ia a unir se a mim Estarei eu preparado para isso' No, pois no tenho dinheiro, e, na hiptese de o poder vir a arranjar, teria de contar com as obrigaes do meu posto Mas visto que lhe falei em tais termos, preciso de estar preparado para todas as eventualidades, e de tratar, portanto, de con seguir dinheiro e apresentar a minha exonerao "
A ideia de deixar o exrcito levou o a encarar um aspecto da sua vida moral que, por mais secreto que fosse, nem por isso era menos importante
Apesar de tudo, a ambio, nica paixo da sua infncia e da sua mocidade, lutava ainda contra o seu amor por Ana Os seus primeiros passos na carreira militar tinham sido to felizes como a sua estreia na vida social, mas havia dois anos cometera um grande erro desejando mostrar a sua independncia e o seu valor, recusara um posto que lhe tinham oferecido Esse gesto assumiu foros de demasiada altivez, e desde ento haviam no esquecido Nos primeiros tempos, tomou as coisas como homem inteligente que era, procedendo como se no estivesse ressentido e outra coisa no desejasse que divertir se em paz Mas por alturas da viagem a Moscovo essa boa disposio abandonou o, percebeu que a sua re"utao de homem original, que no atribua grande importncia a carreira, entrara no ocaso e que no poucas pessoas viam nele apenas um excelente rapaz sem futuro As suas relaes com Ana Karenma, que tantos comentrios tinham provocado, atraam sobre ele as atenes gerais, conferindo lhe novo brilho e aquietando por algum tempo o verme da ambio Um companheiro de infncia, que pertencia ao seu prprio meio,  mesma sociedade, ao mesmo regimento e  mesma promoo, Ser pukovskoi, que com ele rivalizara no colgio, na ginastica, nas travessuras e nas iluses, acabava de regressai da sia Central, no posto de general (de uma s vez saltara dois escales na promoo) e agraciado com uma condecorao raramente concedida a um homem da sua idade Todos saudavam o raiar do novo astro, esperando v-lo nomeado para um posto de primeiro plano Ao p desse amigo de infncia, Vronski, por mais livre e brilhante que fosse, amante de uma mulher adorvel, nem por isso fazia menos triste figura, ele, pobre capitozmho, a quem permitiam ser independente  vontade
"Claro", dizia de si para consigo, "eu no tenho inveja de Ser pukovskoi, mas a ascenso dele prova que vale a pena dar tempo ao tempo e que a carreira de um homem como eu pode-f azer se rapidamente H trs anos ele tinha o mesmo posto que eu Se peo para passar a reserva, queimo as minhas pontes Nada perco continuando ao servio Ela prpria me disse que no queria alterar a situao E eu, que por ela sou amado, no posso invejar Serpukovskoi"
Ergueu se e ps-se a passear de um lado para o outro, retorcendo os bigodes Nos seus olhos havia uma cintilao intensa, experimentava essa placidez de esprito, esse perfeito contentamento que se sucedia
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sempre nele  ordenao das contas Mais uma vez tudo entrava nos eixos Barbeou se, tomou um banho frio, vestiu se e ia sair quando esbarrou com Petntski
CAPTULO XXI
- Vinha buscar te - disse Petriski - A tua barreia hoje durou muito tempo Acabaste finalmente'
- Acabei - respondeu Vronski com um sorriso nos olhos e retor cendo, com precaues infinitas a guia do bigode, como se receasse que um movimento mais brusco alterasse o belo aprumo em que pusera
as suas coisas
- Depois desse trabalho, apareces sempre como se acabasses de sair de um banho-disse Petntski -Venho de casa de Gntsko (assim se chamava o comandante) Esto  tua espera
Vronski, sem responder, mirava o camarada, pensando noutra coisa
-  em casa dele a msica que se est a ouvir' - perguntou, apurando o ouvido para um pot pourrt de polcas e de valsas que os metais da banda regimental faziam chegar at ali - Que festa  esta?
- Chegou Serpukovskoi
- Ah1 - exclamou Vronski - No sabia
Os olhos risonhos brilharam lhe mais ainda
Uma vez que decidira que era feliz com o seu amor, a que sacrificara a sua ambio - ao menos assim o dava a entender -, Vronski j no podia invejar Serpukovskoi nem mostrar se sentido pelo facto de ele no ter vindo bater lhe  porta antes de mais nada O comandante, que se chamava Demine, ocupava uma vasta casa de uns proprietrios rurais A reunio realizava se na grande varanda do rs do cho A primeira coisa que chamou a ateno de Vronski ao entrar no ptio foram os cantores, que envergavam as fardas de Vero, em volta de um barril de vodka, e a jovial figura sadia do comandante rodeada de oficiais No primeiro degrau da varanda, dava ordens em voz alta, dominando a filarmnica, que tocava uma polca de Offenbach, e acenava a uns soldados um pouco a parte Um grupo de recrutas, um sargento de cava lana e vrios oficiais acercaram se da varanda ao mesmo tempo que Vronski O comandante tornou a aproximar se da mesa e, reaparecendo na varanda, com uma taa de champanhe na mo, pronunciou um brinde
- A sade do nosso antigo camarada e valoroso general, o conde Serpukovskoi' Hurr'
Atras do comandante apareceu Serpukovskoi, que sorria tambm, de taa na mo
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- Ests cada vez mais novo, Bondaienko - disse este ao sargento de cavalaria que estava diante dele, homem espadado, de rosto vermelho e que servia no exrcito como reincorporado
Havia trs anos que Vronski no via Serpukovskoi Estava mais homem Deixara crescer as suas, mas continuava esbelto como antes, chamando a ateno no tanto pelo porte e beleza da estatura como pela finura e arrogncia do rosto Vronski observara nele uma mudana essa expresso radiosa e serena que adquire a fisionomia dos que triunfam e esto certos de que todos reconhecem o seu triunfo Vronski conhecia essa expresso e foi a primeira coisa que notou em Serpukovskoi Ao descer a escada, este deu com os olhos em Vronski Um alegre sorriso lhe iluminou o rosto Ergueu a cabea e levantou a taa, saudando Vronski e dando-lhe a entender com esse gesto que tinha de se aproximar primeiro do sargento de cavalaria, o qual, esticado, preparava j os lbios para beber
- J chegaste' - exclamou o comandante do regimento - O la-chvme disse que estavas mal disposto
Serpukovskoi beijou os frescos e hmidos lbios do galhardo sargento, limpou a boca com o leno e aproximou se de Vronski
- Muito prazer tenho em ver-te1 - disse, apertando-lhe a mo e afastando-se com ele
- Trata dele'-gritou o comandante para lachvme, e desceu as escadas direito aos soldados
- Por que no foste ontem s corridas' Esperava ver-te l - disse Vronski, examinando Serpukovskoi
- Fui, mas cheguei tarde Perdoa me - acrescentou, e, dirigindo-se ao comandante - Faa o favor de mandar distribuir isto da minha parte
Puxou da carteira, precipitadamente, e, no sem corar, tirou dela trs notas de cem rublos
- Vronski, queres comer ou beber alguma coisa f - perguntou - lachvme' Traz qualquer coisa de comer ao conde Toma,' bebe isto'
A festa em casa do coronel prolongou-se por muito tempo Beberam muito Levaram Serpukovskoi em triunfo E depois fizeram o mesmo ao comandante do regimento Em seguida, diante dos cantores, o prprio coronel danou com Petntski Finalmente, Demme, um tanto cansado sentou se num banco do ptio e ps-se a demonstrar a lachvme a supe nondade da Rssia sobre a Prssia, principalmente no ataque da cava lana, e durante um momento a algazarra apaziguou se Serpukovskoi foi dentro, ao lavatrio, para lavar as mos, e encontrou se ali com Vronski, que estava a lavar se tambm Tinha despido o dlman e, metendo debaixo da torneira o pescoo rosado, coberto de plos, friccionava o, tazendo o mesmo  cabea Quando acabou, Vronski sentou-se junto de Serpukovskoi Sentaram se ali mesmo, num pequeno div e entabularam uma conversa que a ambos interessava
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- Estou a par da tua vida atravs da minha mulher - disse Serpukovskoi - Muito me alegra que a tenhas visto amide
-  muito amiga de Vria, as duas nicas mulheres de Sampe-tersburgo com quem me agrada conviver - replicou Vronski, sorrindo, ao prever o caminho que a conversa ia levar, coisa que lhe era agradvel
- As nicas' - interrompeu Serpukovskoi com um sorriso
- Tambm eu soube de ti, mas no apenas pela tua mulher - disse Vronski com uma expresso sria, como que desviando a aluso - D--nie muita satisfao o teu triunfo, embora me no surpreenda em absoluto Ainda esperava mais
Serpukovskoi sorriu Sem dvida que aquela opinio o lisonjeava e no achava necessrio escond-la.
- Em compensao, eu esperava menos, sinceramente o confesso Mas estou contente, muito contente Sou ambicioso,  uma fraqueza minha que tenho de reconhecer
- Talvez o no fizesses, caso no fosses bem sucedido - observou Vronski
- No creio - replicou Serpukovskoi, que de novo sorriu - No quero dizer que no valesse a pena viver sem ambio, mas seria aborrecido Talvez me engane, mas parece-me que tenho capacidade para a profisso que escolhi e que em minhas mos o mando, seja ele qual for, estar melhor do que nas mos de muitos outros - disse Serpukovs-koi, com radiosa conscincia do seu triunfo - Eis por que quanto mais me aproximar do meu objectivo, mais satisfeito me sinto
- Talvez seja \erdade para ti, mas no  verdade para todos Tambm eu pensava assim, mas cheguei  concluso de que no valia a pena viver apenas para isso - replicou Vronski
- Ora a est' - exclamou, soltando uma gargalhada, Serpu-kovskoi -J te disse que me falaram de ti, estou ao corrente de que recusaste aceitar um posto Nessa altura dei-te a minha aprovao Mas tudo se deve fazer de certa maneira Creio que o facto em si est certo, mas no agiste como devias
- O que est feito est feito J sabes que nunca me arrependo do que fao E alm disso sinto-me muito bem como estou
- Sentes-te bem por algum tempo Mas isso no te satisfar No digo que o teu irmo no seja um bom tipo, como o nosso anfitrio Ests a ouvi Io? - perguntou ele, apurando o ouvido para uma exploso de burras' - Diverte se, mas a ti, em compensao, isso no te satisfaz
- No digo que me satisfaa
- Alm de que no se trata apenas disso Homens como tu so precisos
- Quem precisa  deles'
-- Quem' A sociedade, a Rssia A Rssia precisa de gente, precisa " um partido De outro modo tudo ir por gua abaixo
'8202-1
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- Por exemplo, como o partido de Bertimev contra os comunistas
russos?
- No - replicou Serpukovskoi, franzindo o sobrolho, de mau cenho, por terem podido atribuir-lhe uma tolice dessas - Tout ca est une blague1 Disso sempre existiu e sempre existir Mas os intrigantes em qualquer altura tero de inventar algum partido perigoso e daninho Isso  velho Precisa-se de um partido de gente independente como tu e eu
- Para qu' - e Vronski citou o nome de algumas pessoas no Poder - Por acaso no so pessoas independentes'
- No, no so, porque no tm nem tiveram desde o bero urna posio independente," porque no estiveram, como ns, perto do sol quando nascemos Podem ser subornados com dinheiro e com hsonjas E para se manterem tm de inventar uma ideia poltica qualquer Sustentam um pensamento em que no acreditam e que  prejudicial, e tudo isto no passa da maneira de terem casa de graa e bons emolumentos Cela n'est ps plus malm que ca2 quando se lhe pode ver o jogo Partindo do princpio de que sou pior ou mais estpido do que eles, coisa em que alis no acredito, eu, tal qual como tu, gozo da vantagem de ser mais difcil de comprar E agora mais do que nunca so precisas pessoas deste quilate
Vronski ouvia atentamente, mas interessava-o menos o sentido das palavras do amigo do que a sua maneira de focar o assunto Enquanto ele prprio, Vronslu, se deixava arrastar plos pequeninos interesses do seu esquadro, o amigo pensava j em travar luta com os senhores do mo mento e criara simpatias nas altas esferas Que fora ele no viria a adquirir graas  sua inteligncia, ao seu poder de assimilao, graas, sobretudo,  sua facilidade de palavra, to rara no meio a que pertencia' E conquanto isso o envergonhasse, o certo  que sentia inveja dele
- Seja como for, a mim falta-me uma coisa importante para isso a ambio do poder - replicou Vronski -J a tive, mas passou me
- Perdoa-me, mas isso no  verdade - exclamou Serpukovskoi, sorrindo
- , '      Sobretudo agora, para te ser absolutamente sincero -
acrescentou Vronski
- Agora talvez, mas esse agora no durar sempre
- Pode ser - anuiu Vronski
- Dizes talvez-continuou Serpukovskoi, como que adivinhando-lhe o pensamento -E eu digo que  certo Por isso te queria falar Procedeste como devias Compreendo Mas no deves perseverar Apenas te peo que me ds carte blanche3 No quero proteger-te E por que
1  Tudo isso e uma tarsa
2 Isso no e to tolo como parece 5 Carta branca
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l
no' Tu protegeste-me muitas vezes1 Espero que a nossa amizade esteja acima dessas coisas Sim - disse, com doura quase feminina, e sorrindo - D-me farte blanche, abandona o regimento e eu te saberei levar sem dares por isso
- Capacita-te  de  que no preciso de nada - disse Vronski - Apenas desejo que as coisas continuem tal como esto Serpukovskoi levantou-se e colocou-se diante dele
- Desejas que as coisas continuem como esto Compreendo o que isso significa Mas escuta me temos a mesma idade e talvez tenhas conhecido mais mulheres do que eu - o sorriso e o gesto de Serpukovs-koi davam a entender que Vronski nada devia recear, que teria o cuidado de abordar delicadamente e com discrio o ponto doloroso -Mas sou casado, e cr me que, conhecendo um homem a sua prpria mulher, escreveu algum, a mulher a quem ama, conhece melhor as mulheres que se tivesse possudo muitssimas
- Vamos j1 - gritou Vronski ao oficial que assomara  porta do lavatrio para dizer-lhes que o comandante os estava a chamar
Vronski queria ouvir Serpukovskoi para ficar ciente de tudo o que ele pensava
- Esta  a minha opinio As mulheres so o principal obstculo  actividade do homem  difcil amar uma mulher e fazer qualquer coisa ao mesmo tempo S h um remdio para amar sem dificuldades nem entraves o casamento Como te hei de eu explicar isto' - continuou Serpukovskoi procurando uma dessas comparaes em que era mestre - Espera' Espera'  como quando se leva um jardeait'; s poders fazer qualquer coisa com as mos, se o tiveres amarrado s costas Assim acontece com o casamento Foi o que eu verifiquei ao casar me Imediatamente senti as mos livres Mas arrastar esse fardeau sem nos casarmos  conservar to atadas as mos que nada podemos fazer Olha para Mazankov, para Krupov Foram as mulheres que lhes deitaram a perder a carteira
- Sim, mas que espcie de mulheres' - objectou Vronski, recordando a francesa e a actriz a quem esses dois homens tinham confiado o destino
- Quanto mais elevada a posio da mulher tanto maior a dificuldade ento no se trata de carregarmos um fardo, trata-se de o arrancarmos a algum
- Nunca amaste - disse Vronski em voz baixa, o olhar fixo diante dele e o pensamento em Ana
- Talvez Mas lembra te do que acabo de te dizer E lembra te ainda disto as mulheres so todas materialistas, mais do que os homens
Carga  fardo peso
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Ns  consideramos  o   amor   como  algo  imenso,  voamos,   elas  esto sempre terre  terre '
- Vamos j, vamos j- disse Vronski para o criado que entrava Este, porm, no vinha chama Io, mas entregar-lhe uma carta.
- Trouxe a o criado da princesa Tverskaia Vronski abriu o sobrescrito e corou
- Estou com dores de cabea, vou para casa - disse a Serpukovskoi
- Ento adeus  Ds-me carte blanche?
- Depois falaremos  Tornarei a ver-te em Sampetersburgo.
CAPTULO XXII

J passava das cinco horas Para chegar a tempo, e sobretudo para no ir com os seus cavalos, que eram conhecidos, Vronski saltou para o trem de aluguer de lachvme e deu ordem ao cocheiro para se despachar Era um carro velho, de quatro lugares Vronski sentou se a um canto pousou os ps no assento dianteiro e entregou se  meditao
Eis como os seus negcios estavam em ordem Serpukovskoi tra tava-o como amigo, via nele um homem necessrio, dava-lhe essa certeza O sentimento que tinha de tudo isto, de algum modo confuso, e ainda mais a expectativa deliciosa da entrevista que o aguardava, faziam-no encarar a vida por um prisma to agradvel que um sorriso lhe aflorou aos lbios Cruzou as pernas, tacteou o artelho, ainda magoado pela queda da vspera, voltou a afundar se na almofada do carro e respirou a plenos pulmes
"Que bom viver'", disse de si para consigo Nunca estivera to enamorado de si mesmo, nunca como agora se desvanecera a tal ponto consigo prprio, a ligeira dor que sentia na perna dava-lhe tanto prazer como o breve jogo dos msculos peitorais Aquele claro e fresco dia de Agosto, to nefasto para Ana, estimulava Vronski no mais alto grau o ar puro refrescava lhe o rosto quente pelas ablues e a bn lhantina do bigode exalava um perfume particularmente agradvel A leveza do ar e a doce luz da tarde davam s coisas que divisava atravs da portinhola do trem um aspecto alegre, fresco e pujante, assaz parecido com o seu prprio estado de esprito Os telhados que o sol -poente doirava, as arestas vivas das paredes e das empenas, as rpidas silhuetas dos carros e dos pees, a verdura imvel das rvores e dos
Pensando nas coisas praticas
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arbustos, os campos, com as suas leiras de batatais, tudo, mesmo as sombras oblquas que caam das casas, das rvores e at das plantas, tudo parecia uma paisagem acabada de pintar e coberta de verniz
- Mais depressa mais depressa1 - gritou ao cocheiro, deitando a cabea fora da portinhola para lhe meter na mo uma nota de trs rublos A mo do homem tacteou no ar junto  lanterna, e a carruagem delizou mais rpida pelo pavimento macio
"De nada preciso, de nada, a no ser desta felicidade", pensava Vronski, fixando o boto de osso da campainha, entre as duas portinholas, com Ana diante dos olhos tal como a vira da ltima vez "E quanto mais o tempo passa mais dela gosto Ali est o jardim da casa estival de Vrede Onde estar ela' Que significa isto' Por que me marcaria ela uma entrevista aqui e numa carta de Betsy'" Era a primeira vez que a si prprio fazia a pergunta, mas tarde de mais j no tinha tempo de pensar no caso Mandou parar o trem antes de chegar  avenida, abriu a portinhola ainda com o carro em andamento e meteu pela lea que conduzia  residncia No viu ningum, mas, ao relancear os olhos para a direita, para o parque, descobriu Ana Embora rebuada numa mantilha negra, reconheceu a pelo andar, pela queda dos ombros, pelo afloramento da nuca E sentiu se percorrido como por uma corrente elctrica o andar tornou se-lhe mais elstico, a respirao mais larga, os lbios tremeram-lhe de jbilo
Assim que chegou junto dela, Ana apertou-lhe a mo nervosamente
- No ests zangado comigo por te ter pedido que viesses' Precisava de falar te sem falta
A prega severa dos lbios de Ana por sob a mantilha alterou de sbito a disposio de Vronski
- Zangado' Mas como vieste para aqui' Onde vais'
- Isso no importa - replicou Ana, travando-lhe do brao - Vem, preciso de te falar
Vronski compreendeu que algo sucedera e que a entrevista no ia ser alegre Na presena de Ana, quebrava se-lhe a vontade prpria, e por isso mesmo sentiu apoderar se dele a agitao da amante, embora sem saber qual fosse a sua causa
- Que aconteceu' Que aconteceu' - perguntou, apertando com a mo o cotovelo de Ana e procurando ler-lhe no rosto
Ana cobrou nimo, deu uns passos em silncio e logo se deteve
- Ontem no te disse - principiou, respirando precipitada e dificilmente --que quando voltei para casa com Alexei Alexandrovitch lhe contei tudo     Declarei lhe que no posso continuar a ser mulher dele e que     confessei-lhe tudo
Vronski ouvia-a, involuntariamente inclinado para ela, como se desejasse suavizar-lhe com esse movimento do corpo o que havia de penoso
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na situao Mas quando Ana pronunciou estas palavras, ergueu se repen unamente O rosto adquiriu lhe uma expresso altiva e severa
- Sim, sim,  melhor, mil vezes melhor Compreendo como deve ter sido doloroso para ti - articulou
Ana ouvia lhe as palavras, lia lhe os pensamentos na expresso No adivinhava que o que se exprimia no rosto de Vronski era o primeiro pensamento que lhe atravessara a mente a iminncia do duelo Ana, que nunca pensara nessa emergncia, atribuiu outra explicao a essa mo mentnea gravidade de Vronski
Ao receber a carta do mando, compreendeu, no fundo da sua alma, que tudo ia continuar como at a, que lhe faltariam as foras para desprezar a posio que desfrutava, abandonando o filho e unindo se ao amante A manh em casa da princesa Tverskaia ainda mais a radicara nessa convico No entanto, a entrevista com Vronski tinha para ela importncia capital Ana contava que esta entrevista modificasse a situao e a salvasse Se ao ouvir esta notcia Vronski decidido e apai xonado, sem vacilar um momento, lhe tivesse dito "Abandonemos tudo e fujamos juntos", Ana teria deixado o filho e teria abalado com ele Mas a notcia no causou em Vronski a impresso que ela esperava Dir-se ia ter se apenas sentido de algum modo ofendido
- No me foi ainda assim muito doloroso Aconteceu da maneira mais natural - replicou Ana, irritada -Olha -acrescentou, extraindo da manga a carta do marido
- Compreendo, compreendo - interveio Vronski, que pegou na carta, sem tentar l Ia, procurando sossegar Ana - S desejava uma coisa, s pedia uma coisa que esta situao acabasse para consagrar a minha vida  tua felicidade
- Por que me dizes isso' Posso porventura duvidar' Se duvidasse
- Quem vem ali' - perguntou Vronski, de sbito, apontando dois homens que caminhavam ao encontro deles - Podem conhecer nos - acrescentou, arrastando Ana, apressadamente, atrs de si, para um passeio lateral
- fime indiferente - respondeu ela, os lbios contraram se lhe e Vronski julgou ver lhe os olhos, por debaixo da mantilha, fitarem no com estranha expresso de clera
- Estou a dizer te que no se trata disso nem tenho dvidas a esse respeito Mas aqui tens o que ele me diz L
Ana voltou a parar
De novo, como no primeiro momento, ao receber a notcia de que Ana rompera com o marido, Vronski, lendo a carta, entregou se involuntariamente  espontnea impresso que sentira a respeito do esposo ultrajado Agora, com a carta nas mos, ia imaginando, pau grado seu, o desafio que sem dvida teria lugar naquele mesmo dia ou
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no dia seguinte em sua prpria casa E visionava o duelo tambm Com aquela mesma expresso fria e altiva que no momento se lhe pintava no rosto, dispararia para o ar, aguardando a bala do marido ultrajado E logo lhe veio  lembrana o que lhe dissera Serpukovskoi e o que ele prprio pensara nessa mesma manh era melhor no estar preso Sabia, porm, no lhe ser dado comunicar a Ana esse pensamento Depois de ler a carta, Vronski fitou Ana e nos seus olhos a deciso era frouxa Ela compreendeu que ele de ha muito pensava nessas coisas e que lhe no revelaria o fundo do seu pensamento E deu se conta de que estava perdida a ltima esperana No era o que ela esperava
- J vs como esse homem  - disse em voz trmula -Ele
- Perdoa me - interrompeu Vronski- m<o ,'o me desagrada a resoluo que tomou Por amor de Deus deixa me acabar de falar - acrescentou, lanando lhe um olhar em que lhe pedia tempo para se explicar - No me desagrada a sua resoluo, porque ao contrrio do que ele julga, as coisas no podem ficar assim
- Por qu3 - perguntou ela, reprimindo as lgrimas e natural mente sem atribuir a menor importncia ao que ele pudesse dizer lhe Pressentia que o seu destino estava traado
Vronski queria dizer que depois do duelo, iminente na sua opinio, aquilo no podia continuar assim mas disse outra coisa
- Isto no pode continuar assim Espero que o abandones desta vez Espero - Vronski corou, perturbado - que me permitas que eu pense na organizao da nossa vida Amanh -prosseguiu ele
Mas Ana no o deixou concluir
- E o meu filho-1 - exclamou -Bem vs o que ele me diz na carta Teria de o abandonar, e no posso nem quero faz Io
- Mas, por amor de Deus, preferes continuar esta vida humilhante'
- Para quem  ela humilhante'
- Para todos, mas especialmente para ti
- Humilhante1 No digas isso, essa palavra no tem significado para mim - murmurou, em voz trmula Ana no queria que ele lhe mentisse, nada mais lhe restava seno esse amor, e estava sedenta de o amar - Quero que compreendas que desde o momento em que comecei a amar te, tudo na vida se transformou para mim A meus olhos nada mais existe alm do teu amor Se puder contar com ele, sinto me elevada e to firme que nada me poder humilhar Orgulho me da minha situao Orgulho-me, porque
Ana no chegou a dizer por que se sentia orgulhosa Lagrimas de vergonha e de desespero embargaram lhe a voz Calou se e rompeu em soluos
Vronski tambm teve a sensao de que alguma coisa lhe apertava a garganta, lhe formigava no nariz, e pela primeira vez na vida esteve a ponto de chorar No podia dizer concretamente que coisa o comovera
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tanto Tinha pena de Ana e percebia no poder ajud-la, ao mesmo tempo que reconhecia ser a causa da sua desgraa e ter-lhe feito muito mal
- No ser possvel conseguir o divrcio' - perguntou em voz dbil. Ana, sem responder, moveu a cabea
- No poders levar o teu filho contigo, deixando o teu marido'
- Talvez, mas tudo depende dele Agora tenho de recolher-me ao lar - replicou secamente O pensamento de que tudo continuaria como antes no a tinha enganado.
- Tera-feira irei a Sampetersburgo e tudo ficar decidido
- Pois sim - replicou Ana-, mas no falemos mais nisso O carro de Ana aproximava-se   Mandara-o embora com a recomendao de vir recolh-la junto  cancela do jardim de Vrede. Ana despediu-se de Vronski e dingiu-se para casa.
CAPTULO XXIII
Segunda-feira a comisso de 2 de Junho celebrava a sua habitual reunio Alexei Alexandrovitch penetrou na sala das sesses, saudou os membros da comisso e o seu presidente, como de costume, e ocupou o seu lugar, colocando a mo sobre os documentos preparados diante dele Entre estes encontravam se as informaes de que necessitava e o resumo da declarao que se propunha fazer Por outro lado, aquelas informaes no lhe faziam falta Recordava-se de tudo e no lhe parecia necessrio repetir o que tinha a dizer Sabia que, chegado que fosse o momento, e quando se encontrasse perante o adversrio - o qual debalde aparentaria expresso de indiferena -, o discurso lhe viria aos lbios melhor que se o tivesse preparado Dava-se conta de que a sntese desse discurso era to grandiosa, que cada palavra nele teria o seu significado E no entanto, enquanto ouvia a informao habitual, Karenme parecia inocente e inofensivo Ningum pensaria, ao ver as suas brancas mos de veias tmidas, que to suavemente palpavam, com os grossos dedos, as margens do papel branco na sua frente, e a cabea inclinada para o lado, com uma expresso de cansao, que imediatamente lhe iriam sair da boca palavras que desencadeariam uma tempestade tremenda, obrigando os membros a gritar e a interromperem se uns aos outros e o presidente a exigir ordem Assim que acabaram de ler a informao, Alexei Alexandrovitch, com a sua voz suave e fina, anunciou que ia pronunciar algumas palavras relativas ao problema dos povos de outras raas Todos concentraram nple a sua ateno Karenme tossiu e sem olhar para o adversrio, cravando os olhos, como costumava fazer sempre que falava em pblico, na pn-
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meira pessoa que se sentava diante dele - um velhinho sossegado e pequenino, que nunca exprimia na comisso opinies prprias -, principiou a expor as suas ideias Quando chegou  lei fundamental e orgnica, o adversrio ergueu-se de um salto e objectou Stremov, membro da comisso, e fendo tambm no seu amor prprio, tratou de justificar-se
. A sesso agitou se, mas Alexei Alexandrovitch acabou por triunfar, sendo aceite a sua proposta Nomearam se trs novas comisses e no dia
; seguinte, em determinado meio petersburgus, no se falava noutra coisa seno nessa sesso O xito de Alexei Alexandrovitch ainda fora maior do que ele prprio esperava
Na manh seguinte, tera feira, Karenine, ao acordar, recordou-se, satisfeito, da sua vitria do dia anterior e no pde deixar de sorrir, embora quisesse afectar indiferena quando o chefe da repartio, para o lisonjear, lhe falou dos comentrios que at ele tinham chegado acerca do que acontecera na comisso
Entretido com o chefe da repartio, Alexei Alexandrovitch esqueceu-se de que era tera feira, o dia fixado para o regresso de Ana Arkadievna, e muito desagradvelmente surpreendido ficou quando o criado lhe anunciou a chegada da mulher
Ana chegara a Sampetersburgo de manh muito cedo Ao receberem o seu telegrama, tinham lhe mandado a carruagem e Alexei Alexandro-vitch, portanto, devia estar a par do seu regresso No entanto, no fora recebe Ia Disseram-lhe que estava ocupado com o chefe da repartio Ana deu ordem para que o avisassem, entrou nos seus aposentos e ps se a arranjar as suas coisas,  espera que ele viesse cumprimenta Ia Uma hora decorreu, porm, sem que Karenine aparecesse Ana veio  sala de jantar a pretexto de dar umas ordens, e adrede falou em voz alta na esperana de que o marido ali estivesse Este, porm, no apareceu, embora Ana o tivesse ouvido aproximar se da porta do escritrio, acompanhado do chefe da repartio Sabia que Karenine tinha de sair dentro de pouco para a sua vida e queria falar lhe antes para concertarem as suas futuras relaes
Atravessou a sala e cheia de deciso dirigiu se ao escritrio do marido Quando entrou, Alexei Alexandrovitch, fardado, sem dvida pronto para sair, estava sentado diante de uma mesinha, sobre que apoiava os cotovelos, olhando em frente com tristeza Ana viu o antes que ele a visse e logo percebeu que era nela que pensava Dando pela mulher, Karenine quis levantar se, mas no o fez e imediatamente o rosto se lhe incendiou, coisa que Ana nunca vira at ento Por fim, erguendo se de repente, foi ao encontro dela, olhando a no nos olhos mas um pouco mais acima, na testa e no cabelo Aproximando se, pegou-lhe na mo e pediu-lhe que se sentasse
- Estou muito satisfeito por teres vindo - disse, sentando-se ao
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lado dela, como se quisesse dizer lhe alguma coisa Pertubou-se, porm, vrias vezes tentou falar, mas sempre se vm obrigado a calar-se
Embora Ana se tivesse preparado para esta entrevista, estudando a maneira de depreciar e culpar o mando, no sabia que dizer-lhe, agora, e tinha pena dele Aquele silncio durou bastante
- O Senocha, como est' - perguntou Karemne, e sem esperar resposta acrescentou -Hoje no janto em casa, e agora tenho de sair
- Queria ir para Moscovo - disse Ana.
- No, fizeste muito melhor vindo para aqui - replicou Karemne, e de novo se calou
Ana, ao ver que o marido no tinha nimo para falar, resolveu
faz-lo ela
- Alexei Alexandrovitch - disse lhe, f itando-o e sem desviar os olhos, sob o olhar do marido, fixo nos cabelos dela -, sou uma mulher culpada, uma m mulher, mas continuo a ser a mesma, a mesma que te disse ser, e vim para te explicar que no posso mudar
- Nada te perguntei - replicou Karemne, olhando a, de sbito, directamente nos olhos, com firmeza e dio -J o supunha -Sob o influxo da clera recuperara plenamente, ao que parecia, o domnio das suas faculdades - Mas, como j te disse e escrevi - continuou numa voz agreste -, e volto a repeti-lo agora, no preciso de o saber Nem todas as mulheres so to amveis como tu para se darem pressa a comunicarem aos maridos notcia to agradvel - Karemne acentuou a palavra "agradvel" - Ignoro o at ao momento em que a sociedade o ignorar e enquanto o meu nome no estiver desonrado E por isso te advirto de que as nossas relaes devem continuar a ser as mesmas de sempre Apenas no caso de te comprometeres me verei obrigado a tomar medidas que salvaguardem a minha honra
- No entanto o nosso convvio no pode ser o mesmo - objectou Ana timidamente, olhando o assustada
Ao ouvir de novo aqueles gestos tranquilos e aquela voz infantil, penetrante e irnica, a repugnncia que o marido lhe inspirava desvaneceu a piedade que sentira por ele e s experimentou medo Desejava, contudo, esclarecer a sua situao antes de mais nada
- No posso continuar a ser tua mulher, visto que eu - prma piou
Alexei Alexandrovitch ps-se a rir com um riso malvolo e frio
- O gnero de vida que escolheste reflecte-se at na tua maneira de compreender as coisas Mas eu respeito de mais o passado e desprezo o suficiente o presente para que as minhas palavras se prestem  inter pretao que tu lhes ds
Ana suspirou e baixou a cabea
- Alm disso, no compreendo como possuindo tu tanta desen voltura - continuou Karemne, exaltando se -, que s capaz de prevenir
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o teu mando da tua prpria infidelidade e nada veres de censurvel na tua conduta, no compreendo que uma mulher assim possa ter escrpulos no que respeita ao cumprimento dos seus deveres de esposa
- Alexei Aiexandrovitch, que exiges tu de mim'
- Desejo nunca me encontrar aqui com esse homem e que te conduzas de tal sorte que nem o mundo nem os criados possam criticar-te Desejo que deixes de ver esse homem Acho que no peo muito  E em compensao desfrutars dos direitos de esposa honrada, sem teres de cumprir os teus deveres   tudo quanto tenho a dizer te E agora adeus No janto em casa
Karemne levantou-se, dirigindo-se  porta Ana levantou-se tambm Alexei Alexandrovitch, inclinando-se em silncio, deixou-a passar
CAPTULO XXIV
A noite que Levine passara deitado na meda ao ar livre no pde dixar de ter consequncias para ele os trabalhos da propriedade, que at ento dirigira, cansaram-no e perderam todo o interesse Apesar da magnfica colheita, nunca se tinham dado, ou, pelo menos assim se lhe afigurava, tantos conflitos com os camponeses como naquele ano, e a causa de tudo isso tornava se-lhe agora compreensvel A satisfao que sentia nas fainas do campo, a aproximao que se dera, por esse facto, entre ele e os camponeses, a inveja que tinha da vida destes, e o desejo de a adoptar - naquela noite isso no era j s um sonho, mas uma resoluo-, sobre cujos pormenores meditara, tudo isso fizera mudar as suas ideias quanto  maneira de dirigir a herdade J no podia encontrar nisso o interesse de outrora nem deixar de ver o que havia de desagradvel na sua atitude para com os trabalhadores, a base de tudo A manada de vacas seleccionadas, como a Pava, a terra lavrada e adubada, os novos campos bem divididos e rodeados de canios noventa desiatmas de terra cobertas de estrume bem preparado, as semeadoras mecnicas, etc, tudo teria sido esplndido se fosse ele prprio a faz Io ou de acordo com amigos que partilhassem das suas ideias Mas agora via clarameme (a obra que preparava sobre economia rural, cujo elemento principal era o trabalhador, ajudava o a compreender isso) que aquela maneira de conduzir a administrao da herdade se reduzia a uma luta feroz e tenaz entre ele e os trabalhadores Havia, pelo seu lado, um desejo permanente de tudo transformar de acordo com o sistema que considerava melhor, enquanto que, pelo outro lado, os trabalhadores pendiam a conservar as coisas na sua ordem natural Levine observava
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que nessa luta, conduzida com o mximo esforo, pela sua parte, e sem esforo visvel sequer, pela outra, a nica coisa que se conseguia era que o explorao no desse resultado e se deitassem a perder de maneira completamente inti1 mquinas magnficas e animais e terras excelentes O mais grave  que no s se perdia estnlmente a energia empregada, mas tambm que Levme n~o podia deixar de experimentar, agora, que a maneira de dirigir a quinta lhe aparecera clara diante dos olhos, que o objectivo das suas actividades era indigno Realmente, em que consistia a luta-1 Zelava por cada copeque seu (no podia proceder de outra maneira, pois, assim que afrouxasse o seu zelo, faltar lhe-ia dinheiro para pagar aos trabalhadores) enquanto os jornaleiros apenas defendiam a possibilidade de trabalhar tranquila e agradavelmente, isto , como estavam acostumados O interesse de Levme consistia em que os homens trabalhassem o mais que pudessem e alm disso que se no distrassem, evitando assim deteriorarem as semeadoras, as grades, as debulhadoras, que pensassem no que faziam Em compensao, os camponeses s queriam trabalhar da maneira mais fcil e agradvel e sobretudo sem preocupaes, distraidamente, ao acaso Nesse Vero, Levme a cada passo pudera verificar que assim era Mandava segar o trevo para feno, escolhendo as piores desiatmas, aquelas onde havia mistura de ervas com cizncia, e no serviam para sementes Mas os camponeses guardavam ao mesmo tempo as desiatmas melhores, destinadas para o tngo, e justificavam se alegando que fora o administrador quem mandara, consolando Levme com dizer lhe que o feno seria magnfico Levme sabia que eles procediam assim por lhes ser mais fcil amanhar essas desiatmas Quando mandava uma maquina para enfardar o feno, logo a avariavam, pois os camponeses aborreciam se de estar sentados diante dela enquanto na sua retaguarda as ps da mquina se agitavam E diziam lhe "No se preocupe As mulheres se encarregaro disso num instante " Os arados de pouco serviam, porque os c imponeses no se lembravam de fazer descer a relha e deste modo os cavalos cansavam se e estropeavam as terras Mas diziam a Levme que se no preocupasse Deixavam ir os cavalos para as se menteiras de trigo, porque nenhum dos camponeses queria ser guarda noc turno e embora tivessem ordem de o no fazer, organizavam turnos de vela Vnia, de uma vez, depois de trabalhar um dia inteiro, adormeceu Arrependido da sua falta, disse "O patro manda " Levaram as trs melhores vitelas a pastar no campo de trevo passado  gadanha, sem dar-lhes antes gua a beber, e os animais adoeceram Mas no acreditaram que as vitelas tivessem inchado por causa do trevo e a ttulo de consolao contavam que um proprietrio vizinho perdera em trs dias cento e doze cabeas de gado Tudo isto no acontecia porque quisessem mal a Levme ou  sua propriedade - sabia que os camponeses o estimavam e o consi deravam como um senhor de hbitos simples (na boca deles o maior dos elogios) -, mas apenas porque queriam trabalhar alegremente e sem
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preocupaes, e os interesses do patro lhes eram estranhos e incompreensveis, fatalmente contrrios aos seus prprios, os melhores para eles Havia tempo j que Levme se sentia descontente sobre a maneira como dirigia a herdade Via que o barco metia agua, mas no descobria nem procurava descobrir por onde, porventura enganando se de propsito (Nada lhe quedaria, se isto lhe falhasse ) Agora, porm, no podia continuar a iludir-se A herdade no s deixara de ter interesse para ele, como lhe repugnava e tornava se lhe impossvel cuidar dela
A isto viera juntar se, a trinta verstas dali, a presena de Kitty Tcherbatskaia, a quem amava e no podia ver   Dana Alexandrovna Oblonskaia convidara o a visita Ia quando ele estivera em casa dela Era a maneira de o estimular a pedir a mo da irm, a qual, agora, segundo lhe dera a entender, o aceitaria   Ao tornar a ver Kitty, Levme compreendeu que no deixara de lhe querer  Mas no podia ir a casa dos Oblonski, sabendo que ela Ia estava O facto de ele se lhe ter declarado e ela o ter repelido levantava entre ambos um obstculo intransponvel "No posso pedir lhe que seja minha mulher apenas porque no pde casar com o homem a quem amava", dizia Levme com os seus botes Esta ideia fazia o arrefecer nos seus sentimentos e sentir como que hostilidade contra Kitty "No terei nimo para falar com ela sem deixar de lhe fazer sentir a minha censura, nem poderei olhar para ela sem ira, e ento ela odiar me  ainda mais, como  natural E por outro lado, como poderei eu visita Ia, depois do que me disse Daria Alexandrovna' Poderei eu, porventura, esconder que sei o que ela me contou' Como hei-de eu apresentar me numa atitude magnnima, perdoando lhe, concedendo-lhe indulgncia' O meu papel diante dela  o do homem que perdoa e que se digna conceder lhe o seu amor     Para que me disse Daria Alexandrovna o que me disse' Teria podido encontrar me com Kitty por acaso e ento tudo teria acontecido de maneira natural Mas agora  impossvel, impossvel'"
Dana Alexandrovna mandou uma carta a Levme a pedir lhe um selim de montar para Kitty "Disseram-me que tem um selim de montar Espero que mo venha trazer pessoalmente", escrevia ela
Aquilo pareceu lhe insuportvel Como podia uma mulher educada e inteligente ser capaz de humilhar assim uma irm' Levme redigiu dez bilhetinhos, rasgou os a todos e mandou-lhe o selim sem uma palavra de resposta No lhe podia dizer que ia porque lhe era impossvel faz Io, e escrever a dizer que no ia, alegando qualquer impedimento, ou que ia partir, ainda lhe parecia pior Depois de enviar o selim sem uma palavra, persuadido de que procedera incorrectamente, no dia seguinte, depondo os trabalhos da fazenda, para ele to ingratos agora, nas mos do administrador, dmgiu-se a casa do seu amigo Sviajski Vivia este numa provncia distante, onde havia ptimos pntanos cheios de narcejas Escrevera-lhe pouco tempo antes a pedir-lhe cumprimento da
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promessa que lhe fizera de o visitar As narcejas dos pntanos da provncia de Surovsk havia muito que tentavam Levine, mas fora sempre adiando essa viagem, ocupado nas tarefas agrcolas Agora, porm, com satisfao se afastava da vizinhana dos Tcherbatski e sobretudo das tarefas do campo, encantado por poder entregar se  caa, a qual, em todos os seus momentos de pesar, sempre lhe servira de melhor consolo
CAPTULO XXV
No havia caminho de ferro nem mala posta para a provncia de Surovsk Eis por que Levine fez a viagem com os seus prprios cavalos, em carro descoberto
A meio do caminho deteve-se para dar-lhes rao em casa de um lavrador rico Um velho, calvo e louo, de grandes barbas ruivas, gn salho nas tmporas, abriu lhe o porto, afastando se para o deixar passar Depois de indicar ao cocheiro um local, debaixo do telheiro, no amplo ptio limpo e bem arrumado, onde se viam alguns arados sem serventia, o velho pediu a Levine que entrasse em sua casa Uma rapariga, de galochas, lavava o soalho  entrada da porta Assustou se e soltou um grito ao ver entrar, correndo, o co de Levine, que o acompanhava Mas logo desatou a rir, pois o co era inofensivo Depois de apontar a Levine, erguendo o brao, de manga arregaada, a porta da habitao, escondeu de novo o seu belo rosto, mchnando-se para continuar a esfregar
- Quer o samovar' - perguntou
- Sim, traze o, por favor
A habitao era espaosa, tinha uma estufa holandesa e um tabique dividia a em duas Debaixo dos cones havia uma mesa com arabescos pintados, um banco e duas cadeiras Junto  porta, um aparador com loua As portadas das janelas estavam fechadas, as moscas eram poucas e tudo estava to limpo que Levine, com receio de que Laska, que se banhara nos charcos pelo caminho, sujasse o Cho, lhe apontou um lugar ao canto, junto  porta Depois de examinar a quadra, Levine veio at ao ptio atrs da casa A formosa rapariga, de galochas, agitando no ar os baldes vazios que levava dependurados numa vara, passou por ele correndo direita ao poo
- Depressa' - gritou-lhe alegremente o velho, e dirigiu-se a Levine - Ento' Vai a casa de Nicolau Ivanovitch Sviajski' Ele tambm s vezes passa por aqui - principiou a dizer, desejoso de falar, encostando--se ao corrimo da escadinha
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J o velho em metade da histria das suas relaes com Sviajski, quando rangeram as portas e um grupo de trabalhadores penetrou no ptio, trazendo consigo arados e grades Os cavalos que os puxavam eram grandes e bem tratados Naturalmente aqueles homens eram casados dois deles, rapazes, vestiam camisas de algodo e bon de pala, os outros dois, um velho e um novo, jornaleiros, vestiam camisas de pano grosseiro
Afastando-se da escada, o velho aproximou se dos cavalos e principiou a desatrel los
- Que araram vocs' - perguntou Levine
- O campo das batatas Fiodor, no deixes fugir o potro Amarra-o ao poste Atrelaremos outro cavalo
- Paizmho, trouxeram a relha do arado que eu pedi' - perguntou um dos rapazes, forte e alto, provavelmente filho do ancio
- Est no tren - respondeu este, enrolando as rdeas que tinha tirado aos cavalos e atirando-as ao cho -Arranja isto enquanto os outros jantam
A linda rapariga voltou a entrar em casa com os baldes cheios de gua, que lhe faziam vergar os ombros E, de sbito, vindas s Deus sabe de onde, apareceram vrias mulheres, novas e bonitas, de certa idade, velhas e feias, com filhos e sem eles
O samovar principiou a ferver, os jornaleiros e os homens da famlia, uma vez desatrelados os cavalos, foram jantar Levine retirou as suas provises do carro e convidou o velho a tomar ch com ele
- Eu j tomei, mas para o acompanhar tomo outra vez - disse o ancio, aceitando o convite com evidente regozijo
Enquanto tomavam ch, Levine inteirou se de toda a histria da propriedade do velho Dez anos antes este arrendara a um proprietrio cento e vinte desiatmas de terra e havia um ano que lhas comprara, arrendando mais trezentas ao proprietrio vizinho Uma parte pequena das terras, a pior, arrendava-a, e era ele prprio, com a famlia e dois jornaleiros, quem arroteava quarenta desiatmas Levine compreendeu que o velho se queixava por convenincia,, mas que. na verdade, a sua quinta prosperava Se as coisas lhe caminhassem mal no teria comprado a terra a cento e cinco rublos, no teria casado os trs filhos e um sobrinho, nem teria reconstrudo trs vezes a casa (que por trs vezes ardera), e cada vez melhor Apesar das suas lamentaes, via se que o velho se sentia orgulhoso, no sem fundamento, do seu bem estar, dos filhos, do sobrinho, das noras, dos cavalos, das vacas, e sobretudo da prosperidade de tudo aquilo Pela conversa, Levine verificou que o ancio no era inimigo das inovaes, que semeava muita batata que j dera flor, quando a sua s agora  que principiava a florir O velho lavrara os terrenos da batata com o arado, como ele dizia, que lhe emprestara o proprietrio da terra Tambm semeava trigo O pequeno pormenor que mais impressionou Levine foi o facto de o velho aproveitar
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como rao para as cavalarias o centeio respigado no final Levme tentara mais de uma vez recolh-lo, ao ver como se desperdiava essa magnfica forragem, mas nunca o conseguira Em compensao, o velho conseguira o e no se cansava de a elogiar
- Em alguma coisa as mulheres tm de se ocupar Fazem os montinhos  beira da estrada e a carroa recolhe-os
- Entre proprietrios tudo corre mal com os trabalhadores - disse Levme, oferecendo-lhe ch
- Muito obrigado - replicou o velho, aceitando o copo, mas recusando mais acar, pois lhe chegava o torro meio mordiscado que mostrava a Levme - No nos podemos entender com os jornaleiros  uma verdadeira runa Veja, por exemplo, o senhor Sviajski Ns bem sabemos que tem muito boa terra, terra primorosa, mas nunca pode fazer boas colheitas Falta lhe quem vigie'
- No trabalhas tambm como jornaleiro'
- Trabalho, mas sou aldeo Somos ns que fazemos tudo Quando o jornaleiro  mau, mandamo-lo embora e arranjamo-nos com gente da casa
- Paizmho, Fmognen precisa de alcatro - disse, entrando na sala, a rapariga das galochas
-  como lhe digo, cavalheiro - rematou o ancio, erguendo se, e, depois de se persignar lentamente, agradeceu a Levme e saiu
Quando Levme penetrou na isb dos trabalhadores para chamar o cocheiro, viu todos os homens da famlia sentados  mesa As mulheres, de p, sorriam O rapaz vigoroso, filho do velho, com a boca cheia de kacha, contava algo de muito divertido e todos riam, a rapariga das galochas, essa na com particular alegria, ao mesmo tempo que deitava stchi numa tigela
Era provvel que o agradvel rosto da rapariga das galochas concorresse muito para a sensao de bem estar que produzira em Levme aquela famlia, mas esta impresso fora to forte que no podia esquece--Ia. Durante todo o caminho, enquanto se dirigia s propriedades de Sviajski, recordou a casa dos camponeses, como se a impresso que experimentara exigisse um interesse especial
CAPTULO XXVI
Sviajski era marechal da nobreza na sua provncia Tinha mais cinco anos do que Levme e estava casado havia tempo j Em sua casa vivia uma cunhada, jovem, com quem Levme muito simpatizava, no igno
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rando que Sviajski e a mulher desejavam cas-lo com ela Sabia-o de certeza, como geralmente sabem estas coisas os rapazes a quem do o nome de pretendentes, embora nunca tivesse ousado diz-lo a ningum J3 tambm sabia que, embora desejasse contrair matrimnio e estivesse seguro de que aquela rapariga to atraente seria ptima esposa, em todos os sentidos, to poucas probabilidades tinha de casar com ela, jnesmo que no estivesse enamorado de Kitty Tcherbatskaia, como de subir ao cu E esta sensao azedava-lhe o prazer que esperava da sua estada em casa de Sviajski
Ao receber carta deste convidando-o para caar, Levme lembrou-se logo de tudo isso, mas, ainda assim, pensou que essas intenes do amigo eram um vago desejo sem fundamento e decidiu-se a aceitar o convite Alis, no fundo da sua alma desejava pr se  prova com ver de perto outra vez essa rapariga A vida familiar dos Sviajski era muito agradvel, e o amigo, o membro mais activo dos zemstvo que Levme conhecera, no deixava de ser sempre interessante para ele
Sviajski pertencia a uma categoria de indivduos que Levme no conseguia perceber Embora professando opinies definitivas, conquanto pouco pessoais, nem por isso semelhantes pessoas levam um gnero de vida menos recta, se bem que no deixe de contrastar singularmente com os seus pontos de vista Sviajski dizia-se ultraliberal Desprezava a nobreza, entendia que a maioria dos nobres era partidria da servido e que s por cobardia o no confessava Achava que a Rssia era um pas perdido, no gnero da Turquia, e o seu governo to mau que nem mesmo se dignava criticar-lhe os actos a srio Ao mesmo tempo, porm, era funcionrio do Estado e marechal da nobreza modelar, usando sempre em viagem o gorro de pala, bordado a vermelho, com o respectivo emblema Opinava que s era possvel viver-se no estrangeiro, para onde ia sempre que tinha ocasio, mas ao mesmo tempo dirigia na Rssia uma propriedade muito completa e aperfeioada, inteirando se com muito fervor de tudo o que acontecia no pas Achava que os camponeses russos, quanto a inteligncia, se encontravam num grau intermdio entre o homem e o macaco, e no entanto nas eleies do zemstvo apertava a mo aos mujiques, ouvindo as suas opinies com mais prazer do que qual quer outra pessoa No acreditava nem em Deus nem no Diabo, mas preocupava se muito com a questo da melhoria da situao do clero e da reduo das parquias,  excepo da reduo da sua, claro est
No que dizia respeito ao problema feminista, estava do lado dos mais radicais defensores da liberdade absoluta da mulher e especialmente do seu direito ao trabalho, mas vivia de tal sorte com a esposa que todos admiravam aquele matrimnio sem filhos de vida to feliz Organizara P"a ela uma forma de vida em. que nada tinha que fazer a sua nica preocupao, partilhada pelo mando, era passar o tempo o melhor possvel
I-B202-
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Se Levme no possusse a qualidade de considerar as pessoas pelo seu lado melhor, o caracter de Sviajski no lhe ofereceria nem difi culdades nem problemas Teria dito para consigo mesmo " um nscio ou um canalha", e tudo estaria certo Mas no podia chamar lhe nscio, porque Sviajski, no s era de facto inteligente, mas instrudo e usava da sua cultura com extraordinria naturalidade No havia matria que desconhecesse, embora apenas mostrasse os seus conhecimentos quando obrigado Com muito menos razo ainda se lhe podia chamar canalha, visto ser realmente um homem honrado, bom e inteligente, que levava a cabo um trabalho apreciado por todos e com toda a certeza nunca fazia nem podia fazer mal conscientemente
Levme procurava compreende Io sem o conseguir, considerando-o um enigma, tanto a ele como  vida que levava Como eram amigos permitia se sond-lo numa tentativa para chegar  prpria base do seu conceito da vida Mas debalde
Sempre que Levme procurava ir um pouco mais alm das salas de recepo da inteligncia de Sviajskt notava que este se perturbava e que no seu olhar transparecia um receio quase imperceptvel, como se temesse que ele o compreendesse Ento opunha lhe uma resistncia jovial e bondosa
Naquele momento, desenganado como estava nas suas actividades de proprietrio, Levme sentiu um prazer especial em visitar Sviajski Alis, aquele feliz casal de pombmhos, satisfeito consigo e com o seu ninho confortvel, produzia lhe uma sensao agradvel Descontente coma sua prpria existncia, ser lhe ia muito til descobrir o segredo de Sviajski, esse segredo que dava  vida dele uma claridade, um jbilo e um sentido de que Levme precisava tanto Alm disso, sabia que em casa de Sviajski teria ocasio de encontrar os proprietrios da vizinhana e grande era o interesse que tinha em conversar com eles e ouvir o que diziam sobre economia rural, colheitas, contratas com jornaleiros, etc No ignorava que essas conversas aos olhos do mundo eram vulgares, naquela altura, porm, afiguravam se lhe muito importantes "Talvez", pensava, "tudo isto no tivesse importncia alguma no tempo da servido ou ainda hoje em Inglaterra Tanto num como no outro caso as coisas esto arrumadas, mas aqui, no nosso pas, onde tudo est desarrumado e apenas agora principia a organizar-se, saber como se proceder a essa arrumao, eis o nico problema importante"
A caada foi muito pior do que Levme esperava O pntano estava seco e j no havia narcejas Depois de um dia inteiro por montes e vales, apenas conseguira apanhar trs peas de caa, em compensao trouxe, como sempre, um grande apetite, muito boa disposio e aquele estado de excitao de esprito que nele despertava o exerccio fsico Durante a caada, quando parecia no pensar em coisa alguma, lembrava se do velho rodeado da famlia, e essa lembrana no s se lhe afigurava
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r
chamar lhe a ateno para qualquer coisa, mas tambm convid-lo a resolver algum caso com isso relacionado
 noite, quando tomava ch na companhia de dois proprietrios que tinham ido visitar Sviajski por causa de uma tutela, travou se a interessante conversa que ele aguardava
Levme, que ficara  mesa junto da dona da casa, teve de manter conversa com ela e a irm, que se lhe sentava diante A dona da casa era uma senhora de cara redonda, loira e baixinha, muito risonha e com umas covinhas na face Levme procurava averiguar atravs dela a soluo do importante problema que para ele era o marido, mas sentia-se tolhido nas suas ideias, embaraado Isto era devido ao facto de a cunhada de Sviajski, que se encontrava na sua frente, ter um vestido muito especial, dir se-ia escolhido por causa dele, com um decote em forma de trapzio, aberto sobre o branco seio Aquele decote triangular, apesar da brancura do colo, ou precisamente por isso, privava Levme da liberdade de pensamento Imaginava, equivocando-se provavelmente, que aquele decote era em sua honra, e, por isso mesmo, no se considerando com direito a olhar para ele, tudo fazia para o evitar Contudo, sentia se culpado, quanto mais no fosse pelo facto de aquele decote existir Parecia ludibriar algum que lhe exigia uma explicao de qualquer coisa, e como lhe era impossvel faz Io, corava a cada momento, mostrando se embaraado e inquieto Esta sua inquietao comunicava se tambm  bela cunhada A dona da casa, contudo, parecia no dar por coisa alguma e de pr psito obrigava o a tomar parte na conversao
- Diz o senhor - prosseguiu a conversa interrompida - que a meu mando no interessa nada que seja russo Pelo contrrio, embora se sinta contente no estrangeiro, nunca o est tanto como aqui Aqui est no seu meio Tem muito que fazer e interessa se por tudo Ainda no esteve na nossa escola'
- J a vi     No  aquela casinha coberta de hera'
- Exactamente  obra da Nstia - disse a dona da casa, indicando a irm
-  a senhora quem ensina nessa escola' - perguntou Levme, procurando no ver o decote, mas sentindo que, olhasse para onde olhasse naquela direco, o teria diante de si
- Sim, ensinei e ensino nessa escola, mas tambm temos uma Mestra ptima E organizamos aulas de ginstica
- Muito obrigado, no quero mais ch - disse Levme E perce bendo embora que cometia uma incorreco, incapaz de continuar naquela conversa, levantou se
- Estava a ouvir uma conversa muito interessante - acrescentou, aproximando se do outro extremo da mesa, onde se sentava o dono "a casa com os dois proprietrios
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Com os cotovelos na tnesa, junto  qual se sentava de esguelha, Sviajski, numa das mos a chvena, apanhava com a outra a barba, que repassava at  altura do nariz, como se fosse cheir-la, deixando-a fugir de novo. Seus brilhantes olhos negros fitavam um dos proprietrios de bigodes grisalhos que falava, exaltado, queixando-se dos camponeses, e parecia divertir-se com o que ele dizia. Levine percebeu imediatamente que Sviajski, com uma s palavra, reduziria a p os argumentos do interlocutor, mas que a sua posio oficial o obrigava a manter um certo decoro,  preferindo  deleitar-se  em  silncio  com  aquelas  lamentaes, O proprietrio dos bigodes grisalhos era sem dvida partidrio acrrima da servido. Nunca sara da sua aldeia e tinha a paixo da economia rural. Levine percebeu isso mesmo pela sua maneira de vestir - envergava um velho redingote  moda antiga, que poucas vezes tirara do corpo -, plos seus olhos inteligentes, que grossas sobrancelhas sombreavam, pela sua linguagem bem russa, pelo tom imperativo, fruto evidente de uma longa experincia, plos gestos autoritrios das grandes mos, belas e tostadas, pela antiga aliana no dedo anelar.
CAPTULO XXVII
l
- Se no tivesse pena de abandonar o que est principiado... tanto esforo como o que eu tenho despendido... deixaria tudo, vendia tudo e abalava como o Nicolau Ivanovitch... ia ouvir a Bela Helena - disse o proprietrio, com um agradvel sorriso que lhe iluminou o rosto velho e inteligente.
- Mas como a no imita - objectou Nicolau Ivanovitch -  que
lhe faz conta.
- Faz-me conta, porque vivo em casa minha. No tenho de comprar nem de alugar seja o que for. Alm disso, ainda continuamos a ter esperana de que os camponeses acabem por ganhar juzo. Se o senhor visse a maneira como bebem, a libertinagem a que se entregam!... Repartiram tudo e repartiram de tal sorte que no lhes resta um cavalo, no tm uma vaca. Esto a morrer de fome, mas, mesmo assim, experimente meter um deles a jornaleiro: acabar por lhe dar cabo de tudo e ainda por cima apresentar queixa perante o juiz de paz.
- Queixe-se o senhor tambm perante o juiz - disse Sviajski.
- Queixar-me, eu? Por nada desta vida. Acabamos sempre pot arrepender-nos de apresentar qualquer queixa. Por exemplo, os operrios da fbrica pediram dinheiro adiantado e depois foram-se embora. Qu fez o juiz? Absolveu-os. Os nicos que levam as coisas com rectido so
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o velho tribunal da comarca e o bailio. Este ajusta contas  moda antiga. Se assim no fosse, no tnhamos remdio seno deixar as nossas coisas e abalarmos para o cabo do mundo.
Estava claro que o proprietrio queria irritar Sviajski, mas este no s no se irritava como at se divertia.
- Pois ns, aqui o Levine, este senhor e eu administramos as nossas propriedades sem essas medidas - disse, sorrindo, e apontando para o outro proprietrio.
- Sim, mas pergunte ao Miguel Petrovitch que faz ele para governar o barco. Ser isso, pergunto eu, uma administrao racional ? - exclamou o velho, muito orgulhoso do emprego da palavra "racional".
- Graas a Deus, c por mim no tenho de matar a cabea .- acorreu Miguel Petrovitch. - O que me preocupa  ter dinheiro, dinheiro suficiente para as contribuies do Outono. L vm os camponeses ter comigo: "Paizinho, ajude-me!" E como so mujiques vizinhos e me fazem pena, adianto-lhes o primeiro tero da contribuio, embora sem me esquecer de os prevenir: "Lembrem-se, rapazes, de que os ajudei, e ajudem-me quando eu precisar de vocs, quer para semear a aveia, quer para recolher o feno e ceif-lo." E desconto-lhes um tanto nos impostos. Entre eles tambm h alguns desgraados.
Levine, que de h muito conhecia aqueles mtodos patriarcais, trocou um olhar com Sviajski e interrompeu Miguel Petrovitch, dirigindo-se ao proprietrio dos bigodes grisalhos.
- Como acha que devem dirigir-se agora as propriedades? - perguntou-lhe.
- Como o Miguel Petrovitch, a meias ou arrendando-as aos camponeses. Tudo isto  possvel, mas assim se acaba com a riqueza comum do pas. No tempo da servido, uma terra que rendia nove vezes a semente, agora, a meias, no d mais do que trs. A emancipao arruinou a Rssia.
Sviajski fitou Levine. Os olhos sorriam-lhe e at lhe dirigiu um ligeiro aceno irnico, mas para Levine as palavras do proprietrio no eram motivo de riso; compreendia-as melhor do que compreendia Sviajski. Muita coisa que o proprietrio veio a dizer depois, com que demonstrava a runa da Rssia por causa da emancipao, pareceu-lhe outrossim de grande justia. Era para ele coisa nova e indiscutvel. Evidentemente o proprietrio exprimia ideias prprias - o que no era vulgar - e no ideias de um crebro ocioso, desejoso de encontrar uma ocupao, inspiradas nas condies da sua prpria vida, toda ela passada na solido da aldeia e estudada em todos os seus aspectos.
- O caso  que todo o progresso se consegue pela fora e apenas pela fora - continuava, num desejo evidente de mostrar que no era homem inculto. - Vejam as reformas de Pedro, o Grande, de Catarina e de Alexandre. Vejam a histria europeia: quanto mais reformas tanto
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mais progresso na vida rural At as batatas foram introduzidas  fora no nosso pas To-pouco se lavrou sempre com o arado Deve ter sido introduzido, provavelmente, na Idade Mdia e naturalmente  fora tambm Na nossa poca, durante o perodo da servido, ns, os pr pnetrios, introduzimos inovaes nas nossas terras secadoras, batedoras, joeiradoras e outras mquinas Tudo isso o conseguimos impor graas  nossa autoridade, e os camponeses, que de princpio no queriam, imitaram nos depois Mas agora, acabando com a servido, tiraram nos a autoridade, e as nossas propriedades, que tinham chegado a um nvel bastante alto, caram num estado primitivo e selvagem  esta a minha
opinio
- Mas por qu' Se a explorao  racional, pode dirigir a sua propriedade recorrendo aos jornaleiros - disse Sviajski
- No h autoridade  A quem poderei eu recorrer para dirigir a
herdade'
"Aqui surge a fora do operrio, o elemento principal da explorao
agrcola", pensou Levine
- Aos jornaleiros'
- Os jornaleiros no querem trabalhar bem nem com as boas mquinas O nosso trabalhador s sabe uma coisa  beber como um cevado, e, quando bbedo, estropiar tudo o que se lhe confia D gua de mais aos cavalos, rebenta os bons arreios, substitui as rodas com aros de ferro por outras, bebe o dinheiro da diferena e mete uma cunha na engre nagem principal da debulhadora mecnica para arrebentar com ela Repugna lhe tudo o que se no faa segundo as suas ideias  E por causa disso desceu o nvel da economia domstica  Abandonam se as terras, cobrem se de ciznia ou repartem se plos camponeses, e as que produziam um milho de alqueires, agora apenas produzem uma centena de milhar A riqueza geral diminuiu Se se tivesse feito o mesmo, mas com tino Se se queria dar a emancipao aos servos, ao menos que se procedesse com cautela
E ps se a expor o seu plano pessoal, que, a acreditar nele, tinha pelo menos a vantagem de afastar todos estes inconvenientes
Isso no interessava a Levme Quando o velho acabou de falar, volveu s suas primeiras consideraes, que comunicara a Sviajski, procurando obriga Io a expor os seus pontos de vista
-  indiscutvel que o nvel da nossa economia rural est a baixar e que, dadas as nossas relaes com os camponeses, ser impossvel explorar as propriedades - afirmou
- Eu no sou dessa opinio - replicou Sviajski, desta vez a srio - Apenas vejo que no sabemos administrar as nossas terras e que, pelo contrario, o nvel da economia rural durante o perodo da servido no era alto, mas extremamente baixo No temos boas mquinas nerfl
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bons animais de lavoura, nem uma direco verdadeira e nem sequer sabemos fazer clculos Pergunte a um proprietrio o que lhe convm e o que lhe no convm e no saber responder lhe
- A contabilidade italiana-interveio o proprietrio ironicamente-, j uma pessoa pode contar  vontade Se lhe derem cabo de tudo, no tirar da nenhum benefcio
- Por que esta o senhor sempre a falar em dar cabo de tudo' A uma debulhadora que no vale nada, a uma prensa russa, isso, sim, podero dar cabo delas, mas no a minha mquina a vapor Um cavah coque russo que nome tm os cavalos dessa raa que precisam de ser puxados pela cabea' Podem estropia los Mas se o senhor arranjar bons peicherons, ou pelo menos desses que cavalgam bem no os estro piaro E assim tudo o mais Devemos elevar o nvel da vida rural
- Assim tivssemos com qu, Nicolau Ivanovitch Para si, est certo, mas eu, que tenho um filho a educar na Universidade e outros j no colgio No tenho com que comprar percherons
-  para isso que servem os bancos
- Para que me vendam o resto que tenho em hasta pblica' No, muito obrigado
- No estou de acordo com a necessidade e a possibilidade de se elevar o nvel da economia rural - disse Levine - Eu prprio me ocupo disso, disponho de meios e no entanto nada consigo No sei para que servem os bancos Pelo menos eu, em tudo em que gastei dinheiro, tive perdas nos animais e nas mquinas
- Isso  certo - afirmou, rindo, com satisfao, o proprietrio dos bigodes grisalhos
- E no se deu s comigo - continuou Levine - Posso citar o nome de outros proprietrios que exploram as suas terras de maneira racionai, todos, com raras excepes, tm prejuzo Diga nos as suas terras do-lhe lucros' - perguntou a Sviajski
E logo lhe observou nos olhos essa rpida expresso de medo que nele notava sempre que tentava ir um pouco mais alm das salas de recepo da inteligncia de Sviajski
Alis, a pergunta no era muito leal da parte de Levine Durante o ch, momentos antes, a dona da casa dissera lhe terem trazido de Moscovo, naquele Estio, um contabilista alemo que por quinhentos rublos procedera ao balano das contas da herdade Apuraram trs mil e tal rublos de prejuzo No se lembrava com preciso, mas, segundo pare c'a, o alemo contara o prejuzo at ao mais nfimo quarto de copeque
O proprietrio sorriu ao ouvir falar dos lucros de Sviajski No havia duvida de que sabia os lucros que o seu vizinho podia ter, ma fechai da nobreza que era
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- Talvez no tenha benefcios - replicou Sviajski-, mas isso apenas quer dizer que sou mau proprietrio ou que inverto o capital para aumentar a renda.
- Ah! A renda! - exclamou Levine, horrorizado. - Pode ser que exista renda na Europa, ali a terra  melhorada  fora de trabalho, mas a nossa vai piorando quanto mais trabalhamos nela. Quer dizer, esgotamo-la e por conseguinte no h renda.
- Como  que no h renda ?  a lei.
- Estamos fora da lei: a renda no nos aclara nada, mas pelo contrrio, confunde tudo. Diga-me, como pode o estudo da renda...?
- Querem leite coalhado? Macha, manda servir-nos leite coalhado ou framboesas - disse Sviajski, dirigindo-se  mulher. - Este ano continua a haver framboesas, embora a estao j v muito adiantada.
E Sviajski levantou-se, afastando-se, na melhor disposio de esprito, como se estivesse convencido de que a conversa termiara, quando o certo era que Levine apenas parecia ter principiado.
Ao ver-se sem interlocutor, Levine prosseguiu a conversa com o proprietrio, procurando demonstrar-lhe que todas as dificuldades provinham de que os russos no queriam conhecer as peculiaridades e os costumes do trabalhador. Mas o proprietrio, como todas as pessoas habituadas a reflectir ao canto da lareira, no aceitava facilmente a maneira de pensar dos outros e atinha-se apaixonadamente  sua. Teimava em que o campons russo era um cevado, gostava da porcaria e para arranc-lo a isso havia necessidade de autoridade e,  falta de autoridade, de cacete. Infelizmente ao cabo de mil anos tinham-se posto a brincar ao liberalismo, substituindo esses meios, mais que provados por Deus sabe que advogados, por decises que reconheciam  canalha mal-cheirosa o direito a tantos pratos de boa sopa, a tantos ps cbicos de ar.
- Mas vejamos - disse Levine, procurando obrig-lo a no se afastar da questo. - No ser realmente possvel estabelecer entre os trabalhadores e ns relaes que permitam um trabalho verdadeiramente produtivo ?
- No, com o povo russo,  intil pensar nisso. J no h autoridade- replicou o adversrio.
- De resto, que novas condies de trabalho se podiam descobrir? - interveio Sviajski, que, depois de ter ingerido um pires de leite coalhado e acendido um cigarro, voltara a tomar parte na conversa.- Todas as maneiras possveis de tratar com o operrio j foram determinadas e estudadas. Esse legado dos tempos brbaros, a comuna agrria de cauo solidria, decompe-se por si mesma. A escravido foi aniquilada, resta o trabalho livre e as suas formas esto definidas e regulamentadas. Temos de aceit-las assim. H pees, jornaleiro., colonos, e no se pode sair daqui.
- Mas a prpria Europa est descontente com essas formas.
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- Est descontente e procura outras novas. Provavelmente acabar por encontr-las.
-  disso que eu falo - interveio Levine. - Por que as no procuramos ns pela nossa parte?
- Porque seria o mesmo que tentarmos inventar um novo processo para construir caminhos de ferro.  coisa que j est inventada e instalada.
- Mas se no nos convierem, se forem absurdos... -disse Levine. E outra vez notou a expresso de temor nos olhos de Sviajski.
- Sim, pis no  verdade? A Europa procura o que ns j encontrmos! Tudo isso esta certo, mas sabe o que se fez na Europa * respeito da organizao operria-?
- No, no sei l muito bem.
- Esse problema preocupa agora os melhores crebros da Europa. Por um lado, h a escola de Schulze-Delitzsch, por outro a de Lassalle, a mais avanada de todas e que produziu j uma literatura considervel... A associao de Mulhouse, a tem j qualquer coisa de positivo.
- Tenho uma ideia muito vaga.
-  o que o senhor diz, mas deve conhec-la to bem como eu. Naturalmente no sou professor de Sociologia, mas esse problema interessava-me e, se lhe interessa, deve estud-lo tambm.
- Pois bem, e a que concluso chegaram ?
- Perdo...
Os proprietrios levantaram-se. Sviajski interrompeu Levine uma vez mais por causa do desagradvel costume deste, que queria penetrar mais para alm das salas de recepo da sua inteligncia. E saiu para acompanhar os convidados.
CAPTULO XXVIII
Levine passou um sero aborrecidssimo na companhia das senhoras. Preocupado com a ideia de que a crise de desnimo por que passava era consequncia do estado geral das suas coisas, no deixava de ruminar o problema que lhe interessava. "Sim", dizia para si mesmo, "precisamos de encontrar, custe o que custar, um modus vvendi que permita aos camponeses trabalharem nas nossas terras com a mesma boa vontade com que trabalhavam em casa do lavrador onde tomei ch. No se trata de uma utopia, mas de um simples problema que ns temos o direito e o dever de solucionar."
Despedindo-se das senhoras, prometeu-lhes que ficaria ainda todo o dia seguinte para, juntos, irem a cavalo ver o desabamento que se dera
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numa mata do Estado E antes de retirar-se, entrou no escritrio do dono da casa para recolher uns livros sobre questes operrias que este lhe oferecera O escritrio era uma dependncia enorme, com muitos armrios de livros e duas mesas, uma grande, de escritrio, no centro da sala, e outra, redonda, sobre a qual havia jornais e revistas em todos os idiomas, dispostos em forma de estrela,  volta do candeeiro Junto da mesa--secretria via-se um arquivo, com rtulos dourados nas gavetas, indicando as diferentes espcies de documentos que continham
Sviajski pegou nos livros e sentou-se numa cadeira de baloio
- Que est a ver' - perguntou a Levine, o qual, detendo se junto da mesa redonda, mirava as revistas -Ah, sim, h um artigo muito interessante nessa revista' - acrescentou, referindo-se  que Levine tinha na mo - Chego  concluso - prosseguiu com jovial entusiasmo - de que o principal culpado da partilha da Polnia no foi Frederico Concluo
E Sviajski, com a sua peculiar clareza, resumiu, sucintamente, aquelas novas e interessantes descobertas de grande importncia. Embora naquele momento nada lhe interessasse mais do que a questo da economia rural, Levine, ouvindo-o, perguntava-se a si mesmo "Que h dentro dele' Por que lhe interessa a diviso da Polnia'" Quando Sviajski acabou de falar, Levine perguntou-lhe, involuntariamente
- E depois'
Mas no havia mais nada "depois"1 A nica coisa interessante era
a "concluso"
Sviajski no explicou, nem julgou necessrio faz Io, por que lhe
interessava aquilo
-  certo - disse Levine, depois de um suspiro - que gostei de ouvir aquele proprietrio zangado  inteligente e diz muitas verdades
- Ora1  um esclavagista vergonhoso, como todos, de resto- volveu-lhe Sviajski
- De quem voc  marechal de nobreza
- Sim, mas dinjo-os numa direco muito diferente daquela que eles querem - tornou Sviajski, desatando a rir
- O que eu gostaria de saber era o seguinte-argumentou Levine - Tem razo ao dizer que a nossa economia nacional no progride e que a nica coisa que prospera so as propriedades dos usurrios, como a daquek outro to calado, ou ento as dos que aplicam uma economia mais primitiva Mas de quem  a culpa'
- Claro est que de ns mesmos Alm disso no  verdade que no progride A propriedade de Vaciltchikov, por exemplo, prospera
- A fbrica.
- Mas, de toda a maneira, no percebo que  que o surpreende O povo est num nvel material e moral to baixo que decerto se opor
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a aceitar aquilo de que necessita Na Europa, a propriedade racionai faz progressos, porque o povo est educado Por conseguinte, o que temos a fazer  educar o povo, e pronto
- Mas como educar o povo'
- Para o conseguir so precisas trs coisas: escolas, escolas e escolas
- Mas acaba de dizer que o povo se encontra num baixo nvel de desenvolvimento moral para que lhe ho-de servir as escolas'
- Faz-me lembrar aquela anedota do doente- "Deviam dar lhe um purgante " - "J lho demos e est pior " - "Ento ponham lhe sanguessugas " - "J lhas pusemos e ficou pior " - "Ento rezem " - "Tambm rezmos e continua mal" Eis o que ns fazemos Falo-lhe de economia poltica e voc diz-me que  pior Refiro-me ao socialismo, e responde me, pior Recomendo a instruo, e declara-me, pior ainda
- Para que servem as escolas'
- Acordaro no povo necessidades novas
- Nunca pude entender isso - replicou Levine, exaltando-se - Como ho de as escolas ajudar o povo a melhorar a sua situao material ' Diz voc que as escolas e a instruo despertam no povo necessidades novas Tanto pior, porque no ter maneira de as satisfazer Jamais compreendi em que podero melhorar a situao material dos camponeses a soma, a subtraco e o catecismo Antes de ontem encontrei uma mulher com uma criana de peito nos braos e perguntei lhe de onde vinha "Levei a criana, que est com tosse convulsa, a casa da curandeira " - "E que faz essa mulher para curar a tosse convulsa '" - "Pe a criana no poleiro das galinhas e diz uma lenga-lenga "
- Como v, voc mesmo o est a dizer Para que no levem as crianas  curandeira,  preciso - disse Sviajski, sorrindo alegremente
- Oh' No' - exclamou Levine, irritado - Essa cura da criana  como a cura do povo nas escolas O povo  pobre e inculto, vemo-lo com tanta clareza como a mulher v a tosse convulsa que faz chorar a criana Mas  to incompreensvel que as escolas possam ajudar o povo na sua incultura e na sua misria como a curar a tosse convulsa no poleiro da capoeira H que dar remdio  causa da misria do povo
- Nisso, ao menos, voc est de acordo com Spencer, um autor de que no entanto no gosta Tambm ele sustenta que a cultura pode ser o resultado de um aumento de bem estar, de banhos mais frequentes, como ele diz, mas nunca de saber ler e contar
- Pois bem, d me muita satisfao, ou antes, lamento muito coincidir com Spencer H muito que penso assim As escolas no ajudam em nada, e apenas sero teis quando existir uma economia que permita ao povo ser mais rico e ter mais tempo livre
- No entanto, agora, em toda a Europa, o ensino  obrigatrio
- Est de acordo nisso com Spencer' - perguntou Levine
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Mas nos olhos de Sviajsh apareceu a tal expresso de medo e disse,
sorrindo
- Tem muita graa isso da tosse convulsa1 Ser possvel que se
tenha passado consigo'
Levine compreendeu que no conseguia achar a relao entre a. vida e as ideias daquele homem Via se que lhe era indiferente a con cluso a que levariam os seus raciocnios, apenas precisava do processo de pensar E ficava contrariado quando este o conduzia a um beco sem sada Era a nica coisa de que no gostava e procurava evita Io, mudando de conversa, falando de assuntos mais alegres e agradveis
Todas as impresses do dia, a comear pelas do lavrador que vivia a meio caminho da propriedade de Sviajski, o qual lhe servia de base a todas as suas ideias e sensaes, agitaram profundamente Levine Aquele amvel Sviajski, que sustentava opinies apenas para uso externo e que sem dvida tinha outros fundamentos para a vida, secretos para Levine, pertencendo  legio dos que dirigiam a opinio pblica de acordo com as ideias que lhe eram alheias, aquele proprietrio zangado que tinha razo nas suas reflexes extradas da vida, mas era injusto na irritao que mostrava para uma classe, a melhor da Rssia, o desconten tamento em que estava das suas prprias actividades e a vaga esperana de achar remdio para isso, tudo se fundia num sentimento de inquietao interior e de expectativa num prximo desenlace
S no quarto que lhe fora destinado, estendido no colcho de molas, que ao mais pequeno movimento lhe fazia saltar, inesperadamente, os braos e as pernas, Levine conservou se acordado por muito tempo Nenhuma conversa com Sviajski, embora este dissesse coisas acertadas, lhe interessava a ele, Levine Mas as ideias do velho proprietrio, essas, sim, valia a pena pensar nelas1 Involuntariamente Levine recordava as palavras dele e mentalmente coTigia as respostas que lhe dera
"Devia ter lhe dito   O senhor afirma que a nossa explorao agr cola vai mal, porque o campons odeia os aperfeioamentos e porque estes devem introduzir se  fora Teria o senhor razo se as coisas no cami nhassem de todo sem esses aperfeioamentos, mas a economia agrcola prospera ali onde o campons obra segundo o costume, como, por exem pio, na casa do velho que vive a meio caminho da propriedade de Sviajski O seu descontentamento, tal qual como o meu sobre o estado das nossas terras, demonstra que os culpados somos ns e no os trabalhadores H muito j que operamos  maneira europeia sem nos preocuparmos com a qualidade da mo de obra  Tentemos reconhecer a fora operria, no como uma fora ideal de trabalhadores, mas por aquilo que ela , o mujique russo, com todos os seus instintos, e organizemos a explorao das terras tendo-o a ele em mente Imagine, devia eu ter-lhe dito, que o senhor administrava a sua propriedade como o velho lavrador que achara a maneira de interessar no xito do trabalho o campons e o equilbrio
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de aperfeioamento que ele admite Ento, sem esgotar a terra, o senhor obteria duas ou trs vezes mais do que at aqui Divida as suas terras em duas partes, entregue metade aos camponeses, conseguir mais e eles tambm Para o conseguir ter de diminuir o nvel da explorao agrcola e interessar os trabalhadores no resultado A maneira de o fazer  questo de pormenor Mas no h dvida de que  possvel"
Estes pensamentos agitaram Levine de forma extraordinria Passou parte da noite sem dormir, pensando na maneira pormenorizada de pr em prtica as suas ideias No tinha teno de voltar para casa no dia seguinte Mas agora decidiu se a faz Io logo pela manh muito cedo Alis, a cunhada de Sviajski, com o seu vestido decotado, despertava nele um sentimento anlogo ao da vergonha e do arrependimento de quem fizera qualquer coisa mal feita E sobretudo devia regressar sem delongas, para ter tempo de propor aos camponeses um novo projecto antes da sementeira de Outono, e semear j de acordo com as novas condies Decidira mudar completamente a sua maneira de explorar a terra
CAPTULO XXIX
A execuo do plano de Levine apresentava muitas dificuldades mas, lutando com todas as foras, conseguiu, no precisamente o que desejava, mas ao menos, sem se enganar a si mesmo, acreditar que a sua obra merecia que cuidasse dela Um dos principais obstculos que se lhe deparavam era o facto de a explorao estar em andamento e ser possvel interrompe Ia para principar de novo Havia que reparar a mquina mesmo em andamento Quando comunicou os seus planos ao administrador, na prpria tarde em que chegou, este, com evidente satisfao, mostrou se de acordo com a parte do discurso de Levine em que se demonstrava que tudo o que se fizera at ali era absurdo e desvantajoso Afirmou mesmo que havia muito que o dizia e ningum fizera caso dele Quanto ao oferecimento que Levine lhe fez para que ele tomasse parte, como conscio, ao lado dos demais trabalhadores, na economia da propriedade, limitou se a mostrar uma expresso desanimada e no deu resposta definida Disse imediatamente que era necessrio recolher no dia seguinte a restante palha de centeio, e Levine compreendeu que o momento no era azado para trocar impresses sobre o assunto
Ao falar do mesmo caso com os camponeses e ao propor lhes o arren damento da terra sob novas condies, Levine encontrou o mesmo obstculo essencial to ocupados estavam nas tarefas do dia que no tinham tempo para pensar nas vantagens ou nas desvantagens do empreendimento
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O ingnuo Ivan, o vaqueiro, pareceu compreender muito bem a proposta de Levme (de participar ele e a famlia nos lucros da vacaria) e interessou-se plenamente por ela Mas quando Levme lhe exibiu, as vantagens futuras tornou-se inquieto e desculpou-se de no poder ouvi-lo at ao fim Pretextou imediatamente uma tarefa que no admitia delongas, agarrava numa forquilha e deitava feno s vacas, dava-lhes gua ou recolhia o estrume Outra dificuldade consistia na invencvel desconfiana dos camponeses, que no compreendiam que o proprietrio pudesse pensar noutra coisa que no fosse arrancar-lhes da pele o mais que pudesse Estavam firmemente convencidos de que o verdadeiro objectivo deste - dissesse o que dissesse - consistiria sempre no que deixaria de lhes dizer Eles prprios, ao explicarem se, falavam muito, mas sem dizerem jamais em que consistia o seu autntico objectivo Demais (Levme dava se conta de que o proprietrio bilioso tinha razo) os camponeses impunham como primeira condio indispensvel que os no obrigassem a aceitar novos mtodos nem a utilizar mquinas novas na explorao das terras Estavam de acordo em que o arado moderno trabalhava melhor, mas descobriram mil razes para justificar que o no podiam empregar E ainda que Levme compreendesse que devia descer ao nvel da economia rural, custava-lhe renunciar aos aperfeioamentos cujas vantagens eram notrias Apesar de tudo, no Outono as coisas puseram se em andamento, ou pelo menos assim se lhe afigurou
A princpio Levme pensou arrendar toda a herdade, tal como estava, aos camponeses, aos jornaleiros e ao administrador, sob as novas condies de companheirismo Mas no tardou a convencer-se de que era impossvel e decidiu dividi-la em partes O curral, o pomar, a horta, os prados e os campos, divididos em vrias parcelas, deviam formar grupos isolados O ingnuo Ivan, o vaqueiro, que, como Levme pensava, compreendera muito bem o que ele queria, escolheu um grupo composto, na sua maior parte, por parentes seus e chamou a si as tarefas do curral do gado O campo distante, abandonado havia oito anos, foi escolhido pelo inteligente carpinteiro Fiodor Rezunov e por seis famlias de camponeses, nas novas condies de cooperao O aldeo Churaiev arrendou, em iguais condies, todas as hortas O resto continuava ainda como antes Mas aquelas trs partes representavam o princpio da nova ordem, ocupavam no por completo Certo  que o estbulo no caminhava melhor do que at a e que Ivan se opunha tenazmente a que o alojamento das vacas fosse aquecido e a que se fizesse manteiga do leite de vaca Dizia que as vacas, como o fno, necessitavam menos rao e que a manteiga de nata azeda se conservava melhor Exigia o salrio tal qual como antes, sem perceber que o dinheiro que recebia era um adiantamento  conta de futuros lucros
 verdade que o grupo de Fiodor Rezunov no lavrou a terra com o arado, como estava estabelecido, justificando-se com o facto de ter
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pouco tempo E tambm  certo que, embora os camponeses desse grupo tivessem concordado em explorar a terra sob novas condies, no a consideravam comum, mas como que a meias, e que mais de uma vez, tanto os camponeses do grupo como o prprio Rezunov, tinham dito a Levme "Se quisesse cobrar um tanto pela terra, ficaria o patro mais tranquilo e nos sentir nos-amos mais livres " E no havia dvida de que iam adiando, sob pretextos diferentes, a construo aprazada de uma granja e de um estbulo E o Inverno chegou Churaiev quisera sublocar, parce-ladamente, aos mujiques, as hortas que tinha arrendado Com certeza entendera mal, de propsito, as condies em que se lhe havia arrendado a terra E finalmente era verdade tambm que, conversando com os camponeses e explicando-lhes as vantagens da empresa, Levme observava amide que estes mais no faziam do que ouvir-lhe o som da voz, firmemente resolvidos a mo se deixarem enganar com o que ele dissesse Notava isso especialmente ao falar com Rezunov, o mais inteligente dos mujiques, e ao descobrir-lhe nos olhos aquela expreso em que se via claramente rir se de Levme e estar certo de que se algum viesse a ser enganado, no seria ele, com certeza
Apesar de tudo, Levme pensava que a herdade progredia e que, regularizando as contas com grande exactido e insistindo nos seus propsitos, acabaria por demonstrar, no futuro, as vantagens daquele sistema e que as coisas ento caminhariam por si prprias
Estas ocupaes, juntamente com a gerncia das terras da propne dade nas suas mos, e a actividade que consagrava ao livro que estava a preparar, absorveram-no a tal ponto durante todo o Vero que quase no foi  caa Em fins de Agosto soube, pelo criado que veio devolver--Ihe o selim de montar, que os Oblonski tinham partido para Moscovo Estava, alis, persuadido de que, pelo facto de no ter respondido ao bilhete de Dana Alexandrovna - coisa que no recordava sem corar de vergonha - queimara as pontes e no mais podia voltar a casa dos Oblonski Procedera da mesma maneira com os Viajski, de cuja casa abalara sem se despedir To-pouco pensava voltar a v-los E isso agora era lhe indiferente A tarefa de organizar a sua herdade de acordo com as novas condies absorvia-o como ainda nada o absorvera na vida Leu os livros que lhe tinha dado Sviajski Pediu outros, que no possua, e estudou obras de economia poltica e de sociologia que tratavam do mesmo tema Mas, como afinal esperava, nada encontrou relacionado com a tarefa que empreendera Nos livros de economia poltica de Mill, por exemplo, o primeiro autor que Levme estudou apaixonadamente, na esperana de achar a soluo dos problemas que o preocupavam, encontrou leis extradas da situao econmica agrcola europeia, mas no pde compreender como essas leis inaplicveis na Rssia eram consideradas leis gerais O mesmo lhe aconteceu com os livros de sociologia ou tratavam de belas fantasias irrealizveis que j o tinham seduzido quando
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estudante, ou ento de arranjos do estado de coisas em que se encontrava a Europa e com que nada tinha a ver a questo agrria russa. Segundo a economia poltica, as condies sob as quais se havia desenvolvido e se desenvolvia a riqueza europeia eram a essncia de leis gerais e indiscutveis. A escola socialista afirmava que o desenvolvimento de acordo com essas leis conduziria  runa. E nem uns nem outros apresentavam soluo nem sequer uma pista do que devia fazer Levine, os camponeses russos e os proletrios, com os seus milhes de braos e de desiatinas de terra, para que dessem o mximo rendimento e proporcionassem o bem-estar comum.
Tanto leu que decidiu fazer no Outono uma viagem ao estrangeiro, a fim de estudar in loco o problema que o apaixonava. Agora sabia o que queria conhecer. "A Rssia", pensava ele, "possui excelentes terras e ptimos trabalhadores; no entanto, acontece que raramente terras e trabalhadores rendam realmente muito, como sucede renderem, por exemplo, na casa da lavoura do velho que eu conheci. A maior parte das vezes; quando o capital  empregado  europeia, o rendimento  medocre, porque os operrios no querem trabalhar e s trabalham realmente bem  maneira deles.  um fenmeno constante e que tem as suas razes no prprio esprito do nosso povo. Este povo, cuja vocao seria colonizar espaos imensos, conservou-se sempre, conscientemente, fiel aos seus processos prprios, de modo algum to maus como geralmente os consideram." Eis o que pretendia demonstrar teoricamente no seu livro e praticamente na sua propriedade.
CAPTULO XXX
Em fins de Setembro, a gente de Rezunov trouxe, por fim, a madeira destinada  construo dos estbulos. Por outro lado vendeu a reserva de manteiga e partilhou os lucros. A prtica dava, portanto, bons resultados, pelo menos era essa a concluso de Levine. Quanto  teoria, nada mais lhe restava do que obter no estrangeiro provas irrefutveis para concluir uma obra destinada, assim o supunha, a estabelecer as bases de uma nova cincia exacta sobre as runas da velha economia poltica. Para partir aguardava apenas a venda do trigo; mas nessa Altura chuvas torrenciais vieram bloque-lo em casa. Uma parte da colheita do trigo e toda a colheita das batatas no puderam ser recolhidas; todos os trabalhos, at mesmo a venda do trigo, foram supensos; as cheias arrastaram consigo dois moinhos; as estradas tornaram-se impraticveis, e o tempo cada vez pior.
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No dia 30 de Setembro, pela manh apareceu o sol, e Levine, esperanado na melhoria do tempo, comeou a preparar definitivamente a sua viagem. Ordenou que entregassem o trigo, mandou o administrador a casa do comprador e saiu a percorrer a propriedade, para dar as ltimas instrues antes da partida.
J de noite, quando tudo estava arrumado, encharcado pela gua que caa a jorros sobre a sua capa de couro, entrando-lhe pelo pescoo e pelo cano das botas, muito animado e bem disposto, regressou a casa. O tempo ainda piorou mais para a noite: o granizo aoitava o cavalo ensopado, que trotava de lado e sacudia a cabea e as orelhas. Levine, contudo, sentia-se bem debaixo do capuz e olhava alegremente  sua roda, ora os arroios turvos que corriam plos caminhos, ora as gotas de chuva que pendiam dos ramos secos, ora as manchas brancas dos granizo no fundido nas tbuas da ponte, ora as carnudas folhas dos olmos, ainda verdes, formando como que uma capa espessa nos troncos desnudos. Apesar do aspecto sombrio da Natureza, Levine sentia-se particularmente animado. O cavaco com os camponeses no povoado longnquo dizia-lhe que estes se iam habituando  nova ordem das coisas. O velho guarda, em cuja casa Levine penetrara para secar a roupa, aprovou o seu plano e at se ofereceu para seu conscio na compra de animais de trabalho.
"S  preciso caminhar com firmeza para o meu objectivo e hei-de consegui-lo", pensava Levine. "Vale a pena o esforo. No  meu interesse pessoal, trata-se do bem comum. A economia agrcola e, sobretudo, a situao do povo devem mudar por completo. Em vez de misria haver riqueza e bem-estar geral; em vez de hostilidade, unio e interesse comum. Numa palavra: ser uma revoluo sem sangue, mas uma revoluo magna, uma revoluo que, irradiando do nosso distrito, se espalhar pela provncia, por toda a Rssia, pelo mundo inteiro. Uma ideia justa no pode ser estril. Por um objectivo to grandioso valem a pena todos os esforos. Ora, que o autor desta revoluo seja este pateta do Constantino Levine, habituado a ir ao baile de gravata preta e a quem a princesa Tcherbatskaia negou a mo, isso no tem importncia absolutamente nenhuma. Estou convencido de que Franklin, quando se dava a examinar-se a si prprio, tambm no confiava em si e no se julgava melhor do que eu me julgo. Isso no significa nada. E tambm ele tinha, com certeza, uma Agfia Mikailovna a quem confiava os seus segredos."
Ainda escabichava esta e outras ideias quando chegou a casa, j noite fechada.
O administrador fora a casa do comprador do trigo e trazia-lhe uma prestao do dinheiro. Em nenhuma outra parte se havia recolhido  trigo e podiam dar-se por muito felizes, visto no terem por fora seno cento e sessenta medas.
LB202-21
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Depois de jantar, Levine sentou-se, como de costume, na sua poltrona a ler um livro; mas enquanto lia continuava a pensar no objectivo da sua viagem. Via agora com especial clareza a importncia do seu empreendimento, no esprito iam-se-lhe formando frases inteiras que exprimiam perfeitamente a essncia do seu pensamento. "Tenho de tomar nota disso", pensava. "Servir de breve introduo, essa introduo que sempre me parecera desnecessria." Levantou-se e aproximou-se da secretria. Laska, estendida a seus ps, levantou-se tambm, estirando--se como que a perguntar-lhe onde devia ir. Mas no teve tempo de tomar nota daquelas ideias, pois chegavam os capatazes que vinham receber ordens e Levine teve de os atender.
Depois de dar as suas ordens para o trabalho do dia seguinte e de receber todos os mujiques que o queriam consultar, Levine meteu-se no escritrio disposto a trabalhar. Laska aninhou-se debaixo da mesa e Agfia Mikailovna sentou-se no lugar do costume a fazer meia.
Depois de escrever algum tempo, Levine viu Kitty de repente diante de si, com extraordinria clareza, bem como a cena em que ela o repelira e a da ltima vez que a vira. Levantou-se e principiou a andar de um
lado para o outro.
- Faz mal em aborrecer-se assim - disse-lhe Agfia Mikailovna. - Para que est sempre metido em casa? Devia ir a umas guas, j que est resolvido a fazer uma viagem.
- Vou depois de amanh, Agfia Mikailovna, mas antes tenho de acabar uns assuntos entre mos.
- Que assuntos? Parece-lhe pouco o que fez plos camponeses? Bem me dizem que o meu amo vir a receber uma recompensa do czar. Para que h-de preocupar-se tanto com eles?
- No me preocupo com eles,  comigo mesmo que me procupo.
Agfia Mikailovna conhecia em pormenor todos os planos de Levine. Este expunha-lhe frequentemente, e com mincia, as suas ideias e muitas vezes discutia com ela, quando no estava de acordo com o que ele dizia. Mas desta vez a velha criada interpretava as palavras do amo  sua
maneira.
- J sabe que uma coisa com que deve preocupar-se acima de tudo  com a sua alma - disse, suspirando. - Ai tem Parten Denisovitch, que era analfabeto, mas que teve uma morte que assim Deus nos desse uma igual a todos - acrescentou, referindo-se a um criado que falecera recentemente. - Confessaram-no e deram-lhe a extrema-uno.
- No me refiro a isso - replicou Levine -; digo que o fao para meu prprio proveito. S tenho a ganhar quando os camponeses trabalham melhor.
- Faa o que fizer, o preguioso continuar a ser preguioso. Se
tiver conscincia, trabalhar, se no tiver conscincia,  tudo intil.
- Mas j lhe ouvi dizer que o Ivan cuida agora melhor do ""*"
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- S lhe digo uma coisa - replicou Agfia Mikailovna, no por acaso naturalmente^ mas em conscincia de algo em que pensara -: o que tem a fazer  casar-se.
O facto de Agfia Mikailovna ter aludido precisamente quilo em que ele estava a pensar nesse momento desgostou e enfadou Levine. Franzindo o sobrolho, sem lhe responder, ps-se de novo a trabalhar, repetindo para si mesmo o que pensava sobre a importncia daquela obra. Apenas de quando em quando ficava a ouvir, no silncio, o rudo das agulhas da criada e, lembrando-se do que no queria lembrar-se, de novo franziu as sobrancelhas.
As nove ouviu-se um guizalhar e o surdo rodar de uma carruagem pela argila.
- Olhe, temos visitas! Ora, a est a maneira de se no aborrecer - disse Agfia Mikailovna, levantando-se e dirigindo-se  porta.
Mas Levine adiantara-se-lhe. Como o seu trabalho no avanava naquele momento, agradava-lhe a chegada de uma visita, qualquer que fosse.
CAPTULO XXXI
A meio das escadas, Levine ouviu no vestbulo uma tossezinha conhecida, mas o rudo dos seus prprios passos impediu-o de ouvir distintamente e julgou ter-se enganado. Depois viu a silhueta alta e ossuda que lhe era to familiar, e achou que j no podia enganar-se. No entanto, continuava na esperana de que fosse equvoco e de que aquele homem alto que despia a pelica enquanto tossia no era seu irmo Nicolau.
Levine estimava muito o irmo, mas conviver com ele era sempre um tormento. E eis que Nicolau chegava precisamente no momento em que, transtornado pelo afluxo das recordaes e a insidiosa observao da velha criada, no conseguia encontrar equilbrio moral. Em vez da alegre cavaqueira com uma visita cheia de sade, alheia s suas prprias preocupaes e capaz de o distrair, previa agora um penoso colquio com um irmo que, conhecendo-o a fundo, o iria obrigar a confessar os seus sonhos mais ntimos, coisa que ele receava acima de tudo.
Irritado consigo prprio graas a este mau pensamento, Levine correu ao vestbulo. Quando pde ver o irmo de perto, a sensao de desencanto pessoal desvaneceu-se logo para dar lugar a uma grande piedade. Por impressionante que fosse outrora o aspecto do irmo, to magro e doentio, emagrecera ainda mais e parecia completamente exausto. Dir-se-ia um esqueleto, s pele e osso.
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T
Ele ali estava, de p, no vestbulo, sacudindo o alto pescoo delgado, para tirar o cachecol, e sorrindo de maneira estranha ao mesmo tempo humilde e resignado Ao ver aquele sorriso quieto e submisso, Levme sentiu que os soluos lhe subiam  garganta
- Pois aqui me tens, finalmente - disse Nicolau, em voz surda, sem afastar um s momento os olhos do rosto do irmo - H muito que tinha inteno de vir, mas a sade  que me no permitia Agora estou muito melhor - concluiu, enquanto enxugava as barbas com as
grandes e magras mos
- Ainda bem, ainda bem' - respondeu Levme Entretanto maior ainda foi o terror que sentiu quando, ao beijar o irmo, notou, pelo toque dos lbios  como ele estava ressequido e vai de perto o brilho estranho dos seus grandes olhos
Semanas antes Constantino Levme escrevera a Nicolau a dizer lhe que vendera um pequeno lote das terras que ainda permaneciam indivisas e que podia entregar lhe a parte que lhe correspondia uns dois mil rublos Nicolau respondeu lhe que iria receber pessoalmente aquela impor tncia e passar uma temporada em casa, tocar terra, para recobrar foras, como os heris, em ordem a uma actividade futura   Apesar de mais corcovado e de uma assombrosa magreza, incrvel para a sua estatura, os seus movimentos eram, como de costume, rpidos e impulsivos Levme
levou o at ao escritrio
Nicolau mudou de roupa com especial cuidado, coisa que antes
no costumava fazer, penteou os raros cabelos crespos e, sorrindo, subiu
para o andar superior
O seu estado de esprito era alegre e afectuoso como outrora na infncia, pensava Levme At falou de Srgio Ivanovitch sem rancor Quando deparou com Agfia Mikailovna, chalaceou com ela e per guntou lhe plos antigos criados A notcia da morte de Perfen Deni sovitch impressionou o desagradvelmente No rosto pintou se lhe como que temor, mas logo se dominou
- J era velho - observou, e mudou de assunto -Ficarei aqui alguns meses e depois irei contigo a Moscovo Sabes que o Miagkoi me prometeu uma colocao' Penso aceita Ia Estou disposto a organizar a minha vida de maneira completamente distinta Separei me daquela mulher
- De Mana Nikolaievna' Mas por qu'
- Oh, era m mulher' Deu me uma srie de desgostos
No disse, porm, que espcie de desgostos  No podia dizer que
a deixara porque ela fazia um ch muito fraco e sobretudo porque
cuidava dele como se fosse um doente
- Alm disso quero mudar de vida por completo   Naturalmente,
como todos os demais, cometi muitas loucuras, mas o dinheiro no tem
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grande importncia  Contanto que tenha sade     Graas a Deus  agora ando melhor	6
Levme ouvia o,  procura de qualquer coisa que dizer, mas nada lhe ocorria Compreendendo talvez isso mesmo, Nicolau ps se a fazer lhe perguntas sobre as suas coisas e Levme, satisfeito por poder falar de si, pois no necessitava fingir, exps ao irmo os seus planos sua actividade
e a
Nicolau ouvia o, embora fosse evidente que aquilo lhe no inferes sava To afins eram aqueles homens que o mnimo movimento ou o simples tom da voz diziam mais um ao outro do que tudo quanto pudessem pronunciar
Estavam a pensar os dois na mesma coisa A doena e a morte iminente de Nicolau sobrepujavam tudo o mais Mas nem um nem outro se atreviam a falar nisso e por isso tudo quanto diziam, sem falarem na nica coisa que os interessava, era falso Nunca, como naquele dia, Levme sentiu maior satisfao com a chegada da noite e a necessidade de dormir A conscincia que tinha da sua falta de naturalidade e o sentimento de arrependimento que da lhe vinha ainda agravava mais a falta dessa naturalidade Vontade de chorar a morte prxima do irmo, eis o que ele sentia e em vez disso via se obrigado a ouvi Io e a manter uma conversa sobre como ele iria viver
Como a casa era hmida e apenas numa das salas havia uma estufa acesa, Levme levou o irmo para o seu quarto e arranjou lhe uma cama atrs de um biombo
Nicolau deitou se Quer a dormir, quer acordado, agitava se como um doente, tossia e, quando no podia expectorar, resmungava qualquer coisa De onde em onde, ao suspirar, exclamava "Ai, meu Deus1" E quando um ataque de tosse o oprimia, dizia irritado "Que diabo'" Levme esteve acordado muito tempo a ouvi Io Tudo em que pensava se resumia num s pensamento a morte A morte inevitvel, fim de todas as coisas, surgia lhe pela primeira vez com uma fora invencvel E a morte, ali, no seu irmo querido, que se queixava, no meio dos sonhos, e, por mdi ferena e hbito, invocava ora Deus ora o Diabo, no estava to longe como antes lhe parecia Estava nele prprio, sentia se Se no hoje, amanh, ou, ento, dentro de trinta anos No seria porventura o mesmo' E quanto a saber o que era essa morte inevitvel, no s o ignorava e no sabia o que fosse, como nem sequer se atrevia a con jectui Io "Trabalho, procuro fazer alguma coisa, mas esqueo que tudo acaba, que existe a morte"
Levme, sentado na cama, no escuro, corcovado, abraava os prprios joelhos e, de respirao suspensa, to tensas as suas ideias, meditava Mas Juanto mais forava o pensamento, tanto mais claro lhe parecia que era assim mesmo Na realidade, esquecera se de considerar um pequeno pormenor da vida que a morte chegava e tudo acabaria, que no valia a
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pena empreender coisa alguma e que contra isso nada podia fazer-se Era terrvel, mas assim mesmo   "Porm ainda estou vivo   Que devo fazer agora' Que devo fazer'", dizia com os seus botes, desesperado Acendeu uma vela e levantou-se, cauteloso. Aproximou-se do espelho e mirou os cabelos e o rosto  Sim, nas tmporas ) havia cabelos brancos  Abriu a boca Os molares principiavam a cariar Desnudou os musculosos braos Tinha muita fora Sim, mas tambm Nikolenka, respirando ali a seu lado com o que lhe restava de pulmes, tivera um corpo sadio E, de repente, lembrou-se de que, quando crianas, se deitavam juntos a dormir e esperavam que Fiodor Bogdanovitch sasse do quarto para jogarem os travesseiros um ao outro E riam, riam desenfreadamente, a tal ponto que nem sequer o medo que dele tinham os levava a reprimir aquela conscincia da alegria de viver que transbordava e crescia como a espuma     "E agora ele ali est deitado, com o pobre peito vazio e despedaado    , e eu aqui a perguntar a mim prprio para que vivo e qual ser o meu destino"
- Ench' Ench1 Que diabo1 Que ests a fazer a' Por que no dormes' - exclamou o irmo
- No sei  Estou com insnias
- Pois eu dormi muito bem, agora no transpiro nada Olha, toca aqui na minha camisa, no  verdade que no estou suado'
Levine apalpou-lhe a camisa, dirigiu-se para o outro lado do biombo e apagou a vela, esteve, contudo, ainda muito tempo sem poder conciliar o sono Mal acabava de esclarecer um pouco o problema de como devia viver-se, logo se lhe apresentava outro, e esse insolvel o da morte "Est  morte, morrer na Primavera Como hei-de eu ajud-lo' Que posso dizer--Ihe' Que sei eu de tudo isto' At me esquecera mesmo de que existia a morte"
CAPTULO XXXII
Todo o excesso de humildade provoca, na maior parte das pessoas, uma reaco violenta ento as suas exigncias, 45 suas susceptibilidades tornam-se insuportveis Levine, que o sabia por experincia, estava desconfiado de que a mansido de Nicolau seria de pouca dura Logo na manh do dia seguinte, com efeito, principiou a irritar-se com as mnimas coisas e a ferir Constantino no que ele tinha de mais sensvel Levine sentia-se culpado, mas no via remdio para isso Dava-se conta de que, se ambos no tivessem fingido, se houvessem falado sinceramente, isto , dizendo o que pensavam e sentiam, teriam olhado nos olhos um do outro e ele, Levine, ter-se-ia limitado a dizer "Vais morrer' Vais morrer'", e Nicolau respondido: "Bem sei, mas tenho medo, muito
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medo, muito medo'" E nada mais teriam dito por terem falado de corao aberto Como esta sinceridade, porm, no era possvel, Constan-tmo procurava falar  toa Esta tctica, em que vira tantos outros serem mestres, a ele no lhe ficava bem Eis por que o seu embarao se tornava evidente e o irmo, que o adivinhava, a cada momento lho fazia sentir No terceiro dia, Nicolau pediu a Levine que lhe expusesse o seu plano, e no s o criticou como fingiu confundi-lo com o comunismo
- Pegaste em ideias alheias para as desfigurares e aplica Ias onde elas no so aplicveis
- Estou a dizer-te que isto nada tem que ver com o comunismo Os comunistas negam o direito da propriedade, negam a legitimidade do capital e a faculdade de transmitir os bens por herana, enquanto eu no nego esse estmulo essencial (Desde que se apaixonara pelas cincias sociais, detestava empregar palavras cientficas, mas ao ocupar se daquele problema, recorria involuntariamente, e cada vez com mais frequncia, aos termos estrangeiros ) Apenas quero regularizar o trabalho
- Quer dizer, pegaste numa ideia alheia, retirando-lhe tudo o que constitua a sua fora, e agora pretendes que se trata de qualquer coisa nova - objectou Nicolau, enfadado e repuxando convulsivamente o colarinho, como se a gravata o incomodasse
- A minha ideia no tem nada que ver
- Essas doutrinas - prosseguiu Nicolau, com um sorriso irnico e um olhar onde cintilava a clera - tm pelo menos um encanto, o encanto a que eu chamarei geomtrico, como se dissssemos, o encanto da clareza e da lgica Talvez sejam uma utopia, mas suponhamos que podamos fazer tbua rasa de todo o passado no h propriedade nem famlia, e de acordo com isso vamos organizar o trabalho Tu, porm, no ofereces nada
- Para que confundes as coisas' Nunca fui comunista
- Eu fui e acho que a ideia  prematura, mas razovel e tem futuro Aconteceu o mesmo com o cristianismo nos primeiros sculos
- Pois eu creio simplesmente que  preciso considerar a mo-de -obra do ponto de vista da Natureza, e estud-lo, conhecer-lhe as caractersticas e.
- Tudo isso  completamente intil Essa fora encontra por si mesma,  medida que se expande, uma determinada maneira de desenvolver as suas actividades Em toda a parte tem havido sempre escravos e depois mtayers' Ns tambm temos parceiros, jornaleiros e entre ns existe o arrendamento Que procuras tu'
Levine, ao ouvir estas palavras, exaltou-se, pois, no fundo da sua alma, receava ser verdade que procurasse o equilbrio entre o comunismo e o sistema vigente, coisa que no era fcil
Rendeiros
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- Procuro a maneira de trabalhar com proveito para mim e para o trabalhador. Quero organizar... -exclamou, elevando a voz.
- No queres organizar nada. Simplesmente, como o tens feito toda a vida, pretendes ser original e demonstrar que no exploras os mujiques, sem mais nem menos, mas em nome de uma ideia.
- Bom, visto que vs as coisas assim, deixemos este assunto - respondeu Levine, sentindo que lhe principiava a tremer o msculo da face esquerda e o no podia reprimir.
- No tens nem nunca tiveste opinies pessoais e apenas precisas de satisfazer o teu amor-prprio.
- Bom,  est bem, mas deixa-me em paz.
- Pois sim. H muito que o devia ter feito. Vai para o diabo!
Lamento ter vindo.
Por mais esforos que Levine fizesse depois para acalmar o irmo, Nicolau nada quis ouvir, dizendo que era melhor separarem-se. Constan-tino compreendeu que o irmo estava farto da vida.
Nicolau preparava-se j para partir quando Levine lhe entrou de novo no quarto e lhe pediu, de um modo pouco natural, que lhe perdoasse, se o ofendera em alguma coisa.
- Ah! Que magnanimidade! - exclamou Nicolau, sorrindo. - Se queres ter razo, posso conceder-te esse prazer. Tens razo, mas de qualquer maneira, vou-me embora.
Momentos antes da partida, Nicolau beijou o irmo e disse-lhe, fitando-o, de sbito, com uma estranha seriedade:
- Seja como for, Kstia, no te lembres de mim com rancor! - e a
voz tremeu-lhe.
Foram estas as nicas palavras que pronunciou com sinceridade. Levine compreendeu que ele, com essas palavras, queria dizer o seguinte: "Como vs, estou mal e talvez no nos tornemos a ver." E as lgrimas irromperam dos olhos de Levine. Voltou a beijar o irmo, mas no soube que dizer nem pde dizer coisa alguma.
Trs dias depois da partida de Nicolau, Levine embarcou para o estrangeiro. No comboio encontrou-se com Tcherbatski, primo de Kitty, que se mostrou muito admirado com o seu aspecto sombrio.
- Que tens tu? - perguntou-lhe.
- Nada. Neste mundo h poucas coisas alegres.
- Poucas coisas alegres? Vem comigo para Paris em vez de ires para Mhlaausen. Vais ver como se passa l bem o tempo.
- No, para mim acabou tudo. Chegou o hora de morrer.
- Realmente!? - exclamou Tcherbatski, rindo. - Pois para mini s agora  que principia.
- Tambm eu pensava assim h pouco, mas agora sei que morrerei em breve.
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Levine dizia sinceramente o que pensava naqueles ltimos tempos. Via em tudo a morte ou a prxima chegada dela. Mas a obra em que se metera cada vez o preocupava mais. De qualquer maneira, era preciso viver enquanto a morte no chegava. Tudo para ele estava envolto nas trevas, mas, precisamente graas a essas trevas, dava-se conta de que o nico fio condutor capaz de o guiar era a empresa em que se metera E Levme agarrava-se a ela com todas as foras.
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QUARTA PARTE
CAPTULO I
Os Karenine, marido e mulher, continuavam a viver na mesma casa e a ver-se todos os dias, mas completamente alheios um ao outro. Alexei Alexandrovitch imps-se a si prprio como norma ver diariamente a mulher, para evitar que os criados desconfiassem do que se passava, mas procurava no jantar em casa. Vronski nunca os visitava; Ana via-o fora de casa e Alexei Alexandrovitch sabia-o.
A situao era penosa para os trs e ningum a teria suportado um s dia sem a esperana de que mudaria afinal, que era uma dificuldade passageira e amarga que no ia durar sempre. Karenine estava convencido de que aquele caso acabaria como acaba tudo, que todos esqueceriam essa bela paixo e que o seu nome ficaria sem mcula. Ana, de quem a situao dependia e para quem ela era mais penosa do que para ningum, suportava-a; no s porque esperava, mas por estar mesmo firmemente convencida de no tardar muito um desenlace. No sabia como ia dar-se esse desenlace, mas tinha a certeza de que seria para breve. Em meados do Inverno, Vronski passou uma semana muito enfadonha. Apresentaram-no a um prncipe estrangeiro que chegara a Sam-petersburgo e a quem devia mostrar todas as coisas interessantes da cidade. Escolheram-no a ele porque Vronski tinha boa presena, possua a arte de comportar-se com respeito e dignidade e estava habituado a tratar com pessoas de estirpe. Mas aquela misso foi para ele aborrecidssima. O prncipe no queria deixar de ver na Rssia, com interesse, nenhuma daquelas coisas a respeito das quais o poderiam interrogar de regresso  ptria. Alm de que desejava aproveitar o mais possvel todos os divertimentos russos. Vronski tinha de o orientar nos dois aspectos. Pela manh saam a visitar as curiosidades e  noite tomavam parte nos divertimentos locais.-O prncipe desfrutava de uma sade extraordinria, incluso entre os prncipe. Graas  ginstica e muitos cuidados corporais, chegara a ter tanta fora que, apesar dos excessos a que se entregava, parecia to fresco que lembrava um grande pepino holands muito brilhante. Farto de viajar, era de opinio que uma das vantagens das modernas comunicaes estava em poder uma pessoa aproveitar todas as diverses tpicas. Estivera em Espanha, onde fizera serenatas e conhecera uma espanhola que tocava guitarra. Na Sua, matara uma camura. Em
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Inglaterra, de gabinardo vermelho, montara a cavalo, saltara barreiras e numa aposta matara duzentos faises. Na Turquia, visitara um harm; na ndia montara elefantes, e agora, na Rssia, queria saborear todos os prazeres tpicos.
A Vronski, espcie de mestre-de-cerimnias do prncipe, dava-lhe muito trabalho organizar todas as diverses que diferentes pessoas lhe ofereciam. Houve passeios a cavalo, blini, caadas aos ursos, troikas, ciganas e banquetes, nos quais, de acordo com o costume russo, se quebrava toda a loua. O prncipe adaptou-se ao ambiente russo com extraordinria facilidade, partia bandejas, sentava as ciganas nos joelhos e parecia perguntar se no havia mais que fazer e se naquilo se resumia o esprito eslavo. Realmente, de todos os prazeres russos aquele que mais agradou ao prncipe foram as artistas francesas: uma bailarina e o champanhe de rtulo branco. Vronski estava habituado a conviver com prncipes, mas a verdade  que, ou porque ultimamente mudara muito ou por ter conhecido este prncipe demasiado de perto, aquela semana foi-lhe par-cularmente penosa. Durante toda ela experimentou um sentimento semelhante ao de um homem que acompanha um louco perigoso e teme ao mesmo tempo o louco e perder a razo no convvio com ele. Constantemente sentia a necessidade de no afrouxar um segundo que fosse o tom severo de respeito protocolar, para no se ver ofendido. O prncipe tratava de alto at as prprias pessoas que, com grande surpresa do seu guia, se punham de rastos para lhe proporcionar "prazeres nacionais". As coisas que dizia acerca da mulher russa, que se dignara estudar, levaram mais de uma vez o jovem oficial a corar de indignao. No entanto o que mais o irritava era encontrar naquela criatura como que um reflexo de si prprio, e esse espelho no lhe era nada lisonjeiro. A imagem que tinha diante dos olhos era a de um homem saudvel, muito asseado, muito tolo e muito convencido de si mesmo. Nada mais. Certo  que era um fidalgo, coisa que Vronski no podia negar. Mostrava-se lhano e no adulava os superiores, era natural e simples no trato com os iguais e altivamente benvolo para com os inferiores. Vronski tambm assim era e considerava isso um mrito, mas como, relativamente ao prncipe, lhe era inferior, indignava-o o tratamento depreciativamente bondoso que ele lhe dispensava.
"Estpido animal!  impossvel que eu tambm seja assim!", pensava Vronski. Por isso mesmo, quando, no stimo dia, se despediu dele na altura de o prncipe sair para Moscovo, ao ouvi-lo exprimir-lhe os seus agradecimentos muito feliz se sentiu por se ver livre, tanto da indesejvel situao, como do desagradvel espelho. Separaram-se numa estao, no regresso de uma caada ao urso, em que a valentia russa pudera exibir-se 1 noite inteira.
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CAPTULO II
Ao voltar a casa, Vronski encontrou um bilhete de Ana Dizia-lhe
Estou doente e smto-me muito infeliz No posso sair, mas tambm no posso viver sem ver-te Vem esta noite s sete Alexei Alexandrovitch na ao Conselho, onde jtcar at s dez
Vronski pensou um momento no que havia de estranho em Ana o convidar para sua casa, apesar da proibio do marido, mas decidiu ir Aquele Inverno, Vronski, promovido a coronel, deixara o regimento e vivia s Depois do almoo estendeu se num div Cinco minutos depois a lembrana das cenas grotescas que presenciara nos ltimos dias confundira se com as imagens de Ana e do mujique que desempenha o papel mais importante de batedor na caada ao urso e adormeceu Acordou nas trevas, tremendo de susto, e acendeu precipitadamente a vela "Que foi' Que foi1 Que foi isto de to terrvel que eu sonhei' Ah1 Sim, parece que o mujique da caada, aquele homem pequeno, sujo, de barbas desgre nhadas, fazia qualquer coisa meio inclinado e de sbito ps se a dizer umas palavras estranhas em francs Foi isto que eu sonhei", disse de si para consigo "Mas por que me pareceu isto to medonho'" Lembrou-se de novo do mujique e das palavras incompreensveis que ele dissera em francs e um frmito de pavor lhe percorreu a espinha "Que tolice1", pensou, e olhou para o relgio Eram oito e meia da noite  Chamou o criado, vestiu se apressadamente e precipitou se na escada, esquecido por completo do sonho e apenas preocupado por ir chegar tarde   porta dos Karemnes, olhou para o relgio   Eram nove menos dez   Junto  escada do alpendre estava parado um carro, alto e estreito, tirado por dois cavalos cinzentos Vronski reconheceu a carruagem de Ana   "Devia ir a minha casa", pensou, "e tinha sido melhor  -me desagradvel entrar aqui  Mas  o mesmo, no me posso esconder" E com a desenvoltura adquirida na infncia, de homem que no quer envergonhar se de nada, Vronski apeou-se do tren e aproximou-se da porta  Esta abnu-se e o porteiro, com uma manta de viagem na mo, chamou a carruagem Vronski, por pouco observador que fosse, logo notou, contudo, a surpresa com que o porteiro o olhou Nessa mesma porta tropeou com Alexei Alexandrovitch em carne e osso A luz do gs iluminava-lhe o rosto, exangue e abatido, entre as abas do chapu preto e a gravata branca que brilhava no meio das bandas do casaco de pele de castor  Os olhos imveis e turvos de Karenme cravaram-se no rosto de Vronski Este cumprimentou-o e Alexei Alexandrovitch moveu os lbios, como se mastigasse qualquer coisa,
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descobrm-se e seguiu Vronski viu que, sem voltar a cabea, Karemne subia para o carro e pela portinhola recebia a manta de viagem e o binculo que lhe apresentava o porteiro, desaparecendo depois Vronski entrou na antessala Tinha as sobrancelhas franzidas e os olhos brilhavam-lhe com orgulho e animosidade
"Que situao", pensou "Se se tivesse batido em duelo comigo, defendendo a sua honra, eu teria podido agir, teria podido exprimir os meus sentimentos Mas esta debilidade ou esta infmia coloca-me na situao de um velhaco, coisa que nunca quis nem quero ser" Desde a sua entrevista com Ana perto do jardim da Vrede, mudara de ideias Involuntariamente submetia-se s debdidades de Ana, que se entregava toda a ele, esperando apenas v Io decidir da sua sorte, resignada a tudo de antemo Havia muito tempo j que Vronski deixara de pensar que as suas relaes poderiam terminar como anteriormente supunha Os seus sonhos de ambio, renunciara a eles de novo, e cedia  violncia da paixo que cada vez o arrastava mais para aquela mulher
J na antecmara, Vronski ouviu os passos de Ana que se afastavam Compreendeu que o aguardava, que estivera de ouvido s escuta e que voltava agora ao salo
- No' - exclamou Ana, ao v-lo, e mal soltara esta exclamao, as lgrimas vieram-lhe aos olhos -No1 Se isto continua assim, o que tem de ser ser, e mais depressa do que se espera
- Que aconteceu, querida'
- Que aconteceu' Que estou  tua espera, que h duas horas estou numa tortura Mas no, no me quero zangar contigo Se no vieste mais cedo  porque alguma coisa de muito srio te no permitiu1 No, no ralharei contigo
Ana pousou lhe ambas as mos nos ombros e olhou para ele um longo espao de tempo com um olhar profundo e exaltado, posto que ao mesmo tempo perscrutador Estudava o rosto de Vronski pelo tempo em que estivera sem o ver Em todas as entrevistas confundia a impresso imaginria que dele guardava (incomparavelmente melhor e impossvel para ser verdadeira) com o que ele era na realidade
CAPTULO III
- Encontraste-te com ele' - perguntou, quando se sentaram junto  mesa, debaixo do candeeiro - A tens o castigo por teres chegado tarde
- Sim, mas que aconteceu' No tinha de assistir ao Conselho'
- Esteve l, mas voltou Agora foi-se embora outra vez  o mesmo No fales disso  Onde tens estado' Sempre com o prncipe'
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Ana conhecia todos os pormenores da vida de Vronski Ele quis responder lhe que, como no dormira de noite, fora surpreendido pelo sono em pleno dia, mas, ao ver lhe a expresso agitada e feliz, receou dizer-lhe a verdade Disse ento que se vira obrigado a apresentar um relatrio longo aps a partida do prncipe
- Mas acabou tudo' Foi-se embora'
- Foi, graas a Deus, j no podia mais, podes crer
- Porqu' No  essa a vida que vocs, homens novos, levam habitualmente' - disse Ana, de sobrolho franzido, pegando, sem olhar para Vronski, num crochet que tinha em cima da mesa
- H muito tempo que me deixei dessa vida - replicou Vronski, surpreendido com a mudana que se operara no rosto de Ana e procurando compreender o que isso significava - Confesso-te - continuou, sorrindo, e mostrando os seus belos dentes brancos - que durante esta semana me vi nessa vida como que num espelho e com que desprazer1 Ana tinha o trabalho nas mos, mas no fazia nada, fitando Vronski com os olhos estranhos e brilhantes e uma expresso hostil
- Esta manh esteve aqui a Lisa Ainda vem a minha casa, apesar da condessa Ldia Ivanovna - observou Ana - e falou me na vossa noite de orgia Que horror1
- Pensava exactamente dizer-te Ana interrompeu-o.
- J conhecias essa Thrse'
- Queria dizer-te
- Que odiosos vocs so, os homens' Como podem vocs supor que uma mulher esquea essas coisas' - disse ela, exaltando se cada vez mais e revelando-lhe, assim, a causa da sua irritao - Sobretudo uma mulher que, como eu, da tua vida s pode saber aquilo que tu lhe queiras dizer E como poderei eu saber que me disseste a verdade'
- Ana' Ofendes me' Pois no acreditas em rmm' No te disse j que no h um pensamento que te no confie'
- Sim,   sim - replicou  ela,  procurando  jugular  os  cimes que sentia -Mas   se  soubesses  o  que  eu   sofro      Acredito,   acredito Bom, que estavas a dizer'
Vronski, porm, no pde lembrar se do que estava a dizer Aqueles acessos de cime, que ultimamente acometiam Ana com mais frequncia, horrorizavam no Claro que ainda eram provas de amor, mas nem por isso o assustavam menos e, conquanto ele no lho mostrasse, arrefeciam o amor que sentia por ela Muitas vezes dissera para si mesmo que o amor de Ana constitua para ele a felicidade, e agora, que ela o amava como pode amar uma mulher que tudo sacrificou  sua paixo, sentia-se mais longe da felicidade do que na poca em que abandonara Moscovo para a seguir  que ento uma promessa de felicidade brilhava no meio do seu infortnio, enquanto que, presentemente, os dias de felicidade pef'
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tenciam ao passado Uma grande mudana, tanto fsica como moral, se verificara em Ana Ganhara carnes e, por vezes, como havia momentos, ao falar da actriz, uma expresso de dio lhe alterava a fisionomia Vronski olhava a agora como se olha para uma flor murcha, em que no encontrava j a beleza que o levara a colhe Ia No entanto, se era certo que outrora, por um esforo de vontade, seria capaz de arrancar aquele amor do corao, agora, pensando embora que lhe queria menos, sentia-se como que acorrentado para sempre quela mulher
- Bom, que me querias tu dizer do prncipe' - voltou Ana - Fica descansado, j com com o demnio (assim denominavam entre si ao cime) Que me contavas tu do prncipe' Por que te desagradou ele'
-  insuportvel - retorquiu Vronski, procurando apanhar o fio do pensamento -Nada ganha em ser conhecido de perto S o posso comparar com um desses animais muito ndios que ganham medalhas nas exposies - acrescentou, com uma repugnncia que interessou Ana
- Que ests a dizer' - voltou ela - No entanto  um homem instrudo, que tem viajado muito
- A instruo dessa gente no  igual  nossa Dir-se-ia que no adquiriu instruo seno para ter o direito de a desprezar, como, alis, despreza tudo, salvo os prazeres bestiais
- Mas no gostam vocs todos desses prazeres bestiais' - interrompeu Ana
E Vronski de novo reparou no seu olhar sombrio que evitava encontrar se com o dele
- Porque o ests a defender assim' - perguntou ele,  sorrindo
- Eu no o defendo, -me demasiado indiferente para isso Mas se essa vida te desagradava tanto como dizes, podias bem, acho eu, ter arranjado uma desculpa qualquer Mas no, Sua Excelncia sente prazer em mirar essa tal Thrse vestida de Eva
- L vem outra vez o demnio1 - disse Vronski, pegando, para beijar, a mo que Ana pousara em cima da mesa
- Sim, pode mais do que eu' No calculas o que eu sofri enquanto te esperava' No fundo, no sou ciumenta quando ests a meu lado acredito em ti, mas quando tu levas, no sei onde, s Deus sabe que vida
Voltou se e apoderando se, finalmente, do crochet, ps se a trabalhar, movendo o dedo indicador, que ia deixando cair, uma atrs das outras, as malhas de l branca que brilhavam  luz do candeeiro E a mo fina movia se lhe rpida e nervosa na manga bordada
- Onde encontraste tu Alexei Alexandrovitch' - articulou em seguida a sua voz pouco natural
- Cruzmo nos  porta da rua
- E ele cumprimentou-te, mesmo assim'
Estendeu o rosto, semicerrou os olhos, cruzou os braos e de tal sorte alterou a expresso do rosto que Vronski reconheceu imediata-
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mente Alexei Alexandrovitch. Ele sorriu e Ana soltou uma gargalhada, uma dessas gargalhadas frescas e sonoras, que eram um dos seus encantos.
- Decididamente no o compreendo - disse Vronski. - Se depois da explicao que tiveste com ele este Vero na casa de campo tivesse rompido contigo, se me tivesse desafiada para um duelo, achava natural; mas, assim, no o entendo. Como pode ele suportar uma situao destas ? E no entanto v-se que sofre.
- Ele? - disse Ana com ironia. - Est muito  satisfeito.
- Porque havemos ns de andar atormentados, se as coisas se podiam resolver to facilmente?
- No com ele. Porventura no conheo eu a mentira em que ele est todo mergulhado?... Se houvesse nele algum sentimento, poderia viver como vive comigo? No entende nem sente nada. Viver sob o mesmo tecto com a mulher culpada! Falar com ela, tratando-a por tu!
Involuntariamente Ana tornou a imit-lo: "Tu, ma chre ', tu, Ana."
- No  um ser humano; no  um homem,  um boneco. Ningum mais o sabe, mas eu sei-o. Oh! Se eu estivesse no lugar dele, h muito teria despedaado uma mulher como eu em vez de lhe dizer: "Tu, ma chre, Ana." No  um homem,  um autmato ministerial. No compreendeu que eu sou tua mulher, que ele  um estranho, que est a mais... No falemos, no falemos mais nele!...
- No tens razo, querida-disse Vronski, procurando acalm-la.- Mas  o mesmo, no falemos mais nele. Conta-me que fizeste estes dias. Que tens? Que doena  essa? Que disse o mdico?
Ana olhava-o com uma alegria irnica. Devia ter-se lembrado de outros aspectos ridculos e grotescos do marido e esperava a oportunidade de falar deles.
Mas Vronski prosseguia:
- Calculo que se no trata de uma doena, mas do teu estado.
Quando ser?
O brilho irnico desapareceu dos olhos de Ana, mas veio substitu--lo outro sorriso, indcio de que havia alguma coisa que ele ignorava, e uma tristeza suave.
- Pronto, pronto. Dizias que a nossa situao  atormentadora e que precisamos de a esclarecer. Se soubesses o quanto me  penosa e o que eu daria para poder amar-te livre e abertamente! No sofreria nem te faria sofrer com os meus cimes... E isso acontecer breve, mas no como imaginamos.
E perante a ideia de como isso iria acontecer, Ana sentiu-se to infeliz que as lgrimas lhe subiram aos olhos e no pde continuar. Pousou na mesa uma das mos que brilhava sob a luz do candeeiro, na sua brancura e nos seus anis.
Minha querida.
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- As coisas no acontecero como pensamos. No queria falar-te disso, mas tu mesmo me obrigaste a faz-lo. Breve, muito breve, se resolver tudo, tranquilizar-nos-emos todos e no sofreremos mais.
- No entendo-replicou Vronski.
- Perguntaste-me quando? Dentro de pouco. Mas ser o fim. No me interrompas!-E Ana falou depressa.-Sei-o de certeza. Vou morrer e muito contente me sinto de vos deixar livres aos dois.
As lgrimas brotaram-lhe dos olhos; Vronski inclinou-se sobre a mo dela e ps-se a beij-la, procurando dominar a emoo, que sabia sem fundamento, mas no podia vencer.
- Assim ser melhor - disse Ana, apertando-lhe a mo num movimento engico. -  a nica coisa que nos resta. Vronski dominou-se e levantou a cabea.
- Que tolice! Que disparate ests a dizer!
-  verdade.
- Que  verdade?
- Que vou morrer. Tive um sonho.
- Um sonho ? - repetiu Vronski, e recordou, de sbito, o mujique com quem sonhara.
- Sim, um sonho - disse Ana. - Foi um sonho que tive h muito tempo. Sonhei que entrava correndo no meu quarto de dormir, onde tinha de ir buscar qualquer coisa e informar-me nt> sei de qu; j sabes como so os sonhos - continuou, de olhos muito abertos, horrorizada. - E ali, no meu quarto, a um canto havia...
- Oh! Que tolice! Como podes tu acreditar...? Mas Ana no deixou que ele a interrompesse.  Era importante demais para ela o que estava a dizer.
- Isso que estava a um canto voltou-se e eu pude ver ento que era um mujique pequeno e terrvel, de barba desgrenhada. Quis fugir, mas o mujique inclinou-se sobre um saco e principiou a rebuscar l dentro...
Ana fez o gesto de algum que rebusca o interior de um saco. O horror pintava-se-lhe no rosto, e Vronski, lembrando-se do sonho que tivera, sentiu que esse mesmo horror lhe invadia a alma.
- O mujique remexia no saco e falava muito depressa em francs, fazendo esgares. // jaut battre l fer, l broyer, l ptrier... ' Quis acordar e acordei... mas em sonhos. Principiei a perguntar-lhe o que significava aquilo. E Kornei respondia-me: "Morrer de parto, morrer de parto, mezinha..."
- Que tolices.1 Que tolices! - repetiu Vronski, mas dava-se conta de que o tom da sua voz nada tinha de convincente.
- No falemos mais nisso. Toca a campainha. Vou mandar servir o ch. No, espera, parece-me que...
'   preciso baer o ferro, malh-lo, model-lo.
LB202-22
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"".
vi.
CAPTULO IV
>""
Depois de se cruzar com Vronski  porta de casa, Alexei Alexan-drovitch dirigiu-se  pera italiana, como era sua inteno.
Ali esteve, assistindo a dois actos completos e falou com todas as pessoas que precisava de encontrar. Ao regressar a casa, mirou detidamente o bengaleiro, e, ao ver que no havia nele nenhum capote militar, encaminhou-se, como sempre, para os seus aposentos. Mas, ao contrrio do que era seu costume, no se deitou e continuou a passear pelo escritrio at s 3 horas da madrugada. Atormentava-o a ideia de que a mulher no tivesse respeitado a nica condio que lhe impusera, a de no receber o amante, e a sua ira era grande. Visto que ela no acatara essa ordem, devia castig-la, pr em prtica a ameaa que lhe fizera, pedir o divrcio e retirar-lhe o filho. Isto no era de fcil execuo, mas por nada deste mundo queria deixar de cumprir o que a si prprio prometera. Alis, a condessa Ldia achava que o divrcio era a melhor soluo para uma situao to delicada como aquela e ultimamente estava to simplificado na prtica o processo legal de divrcio que ele esperava poder iludir as dificuldades de forma. Depois, como uma infelicidade nunca vem s, o estatuto dos povos de outras raas e da irrigao dos campos da provncia de Zaraisk tantos desgostos lhe tinha dado que andava num estado de irritao permanente. Como no dormia de noite, a clera ainda era maior durante o dia, e foi em estado de verdadeiro exaspero que na manh seguinte se vestiu precipitadamente e se dirigiu aos aposentos da mulher, mal soube que ela estava levantada. Receava que a energia o abandonasse quando a irritao passasse e dir-se-ia levar segura com ambas as mos a taa da ira, para que ela se lhe no entornasse pelo caminho.
Ana, que julgava conhecer o marido a fundo, ficou perplexa ao v-lo entrar, de face carrancuda, os olhos tactiturnos e os lbios plenos de desprezo. Nunca lhe surpreendera expresso to resoluta. Entrou sem lhe dar os bons-dias e foi direito  secretria, cuja gaveta abriu.
- De que precisas? - perguntou ela.
- Das cartas do seu amante - respondeu Karenine.
.-
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- No es2o a - disse ela, precpitando-se para a gaveta. Mas este movimento f-lo compreender que acertara no alvo, e, repelindo brutalmente a mo que ela estendera, apoderou-se da carteira onde Ana guardava os seus papis importantes. Debalde tentou recuper-la; o marido meteu-a debaixo do brao e de tal modo a apertou com o cotovelo que o ombro se lhe soergueu.
- Sente-se - disse-lhe ele. - Preciso de lhe falar. Ana relanceou-lhe um olhar de surpresa e susto.
- No lhe tinha proibido que rebecesse o seu amante em casa?
- Precisava de lhe falar para...
Ana calou-se, sem saber que inventar.
- Pouco me importam as razes pelas quais uma mulher precisa de falar ao seu amante.
- Eu queria apenas...-continuou ela, corando. Mas a grosseria do marido excitou-a e encheu-a de coragem. - Porventura no se d conta de quanto lhe  fcil ofender-me?
- Pode ofender-se uma pessoa honrada, uma mulher honrada, mas dizer a um ladro que ele  um ladro  apenas uma constatotion d'un fait1.
- Ainda no lhe conhecia esse novo trao de crueldade.
- Parece-lhe cruel que um marido conceda a liberdade  sua mulher, dando-lhe um tecto honrado, com a nica condio de guardar as aparncias ? Chama a isso crueldade ?
-  ainda pior,  uma vilania - gritou Ana, num acesso de indignao; e levantou-se para se retirar.
- No! - gritou Karenine, na sua voz penetrante, que ressoou em tom mais agudo do que de costume.
Agarrando-a por um brao com os seus grossos dedos, com tanta fora que os contornos da pulseira se lhe desenharam na carne, obrigou-a a sentar-se na cadeira.
- Uma vilania? Se quer empregar essa palavra, dir-lhe-ei que vilania  abandonar o marido e o filho pelo amante e continuar a comer o po do marido.
Ana baixou a cabea. No s no disse o que na vspera dissera ao amante, que ele era seu marido e que o marido estava a mais, como nem sequer o pensou. Compreendeu quanto eram justas as palavras de Karenine e limitou-se a responder em voz baixa.
- No pode julgar a minha situao pior do que eu prpria a julgo. Mas por que me diz isso?
A verificao de um lacto.
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- Para que lho digo' - continuou ele, colrico - Para que fique sabendo que a sua recusa a cumprir as condies que lhe impus, de guardar as convenincias, me obriga a tomar medidas que ponham ponto
final a esta situao
- Terminara por si mesma, e no tarda muito, no tarda muito - repetiu ela os olhos rasos de lgrimas, lembrando se da morte que adivinhava prxima, mas que presentemente lhe parecia desejvel
- Mais cedo mesmo do que a senhora e o seu amante imaginam1 Precisa de satisfazer a sua paixo animal
- Alexei Alexandrovitch' Pondo de lado toda a generosidade, acha conveniente bater numa pessoa que j est cada por terra'
- Oh' A senhora s pensa em si O sofrimento do homem que foi seu mando no lhe d cuidado Pouco lhe importa que ele sofra, que a sua vida esteja trans trans tornada
Alexei Alexandrovitch falava to depressa, na sua exaltao, que gaguejou Este gaguejamento pareceu cmico a Ana, que imediatamente se censurou a si prpria ser capaz de reparar em tal momento num pormenor ridculo E pela primeira vez, durante um instante, se colocou no lugar do marido e teve pena dele Mas que podia ela fazer ou dizer' Baixou a cabea e ficou calada Karemne tambm se calou durante um momento, e, ao retomar a palavra, o tom da sua voz j no era to agudo, embora frio ainda Repisava arbitrariamente algumas palavras sem
significado especial
- Vim para te dizer
Ana olhou para ele E lembrando se da expresso que julgara ver lhe no rosto ao ouvi Io pronunciar > a palavra "transtornada"   "No - pensou - Enganei me  este homem, com estes olhos turvos, to cheio de si mesmo  nada pode sentir "
- No posso mudar nada - murmurou ela
- Vim para lhe dizer que amanh parto para Moscovo e no voltarei mais a esta casa O advogado a quem encarregarei de tratar do divrcio comunicar lhe  as resolues que eu tomar Meu filho ir para casa de minha irm - acrescentou, fazendo um esforo para se lembrar do que queria dizer a respeito da criana
- Quer levar me o Senocha para me fazer sofrer - disse Ana, mal olhando para ele - No gosta dele, deixe o comigo
-  verdade, at cheguei a perder o carinho que tinha por meu filho por causa da repulsa que a senhora me causa No entanto, ficarei
com ele Adeus
Quis sair, mas desta vez foi ela quem o deteve
- Alexei Alexandrovitch, deixe me o Senocha - suplicou ela - Nada mais lhe peo Vou ser me, deixe mo'
Alexei Alexandrovitch corou, repeliu o brao que o retinha e saiu sem uma palavra mais
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CAPTULO V
A sala de espera do clebre advogado de Sampetersburgo estava cheia quando Karemne entrou
Havia trs senhoras   uma velha, uma rapariga e a mulher de um comerciante E trs homens  um banqueiro alemo, com um grande anel no dedo, um homem de negcios de grandes barbas e um funcionrio de aspecto rebarbativo, com o seu uniforme e uma condecorao ao peito Deviam esperar h muito tempo   Dois escriturrios trabalhavam sentados diante de duas mesas, cujas soberbas guarnies chamaram ime diatamente a ateno de Alexei Alexandrovitch, grande apreciador daquele gnero de mveis   Um dos funcionrios, sem se levantar e pis cando os olhos, perguntou lhe com gravidade
- Que deseja'
- Falar com o advogado
- Est ocupado - replicou o escriturrio no mesmo tom e, apon tando com a pena as outras pessoas que esperavam, continuou a escrever
- No dispor de um momento para me receber' - perguntou Karemne
- No tem tempo Est ocupado Faa favor de esperar
- Tenha a bondade de lhe entregar o meu carto de visita - disse Alexei Alexandrovitch com dignidade, reconhecendo imprescindvel abandonar o incgnito
O escriturrio pegou no carto de visita e com um gesto de desa provao desapareceu atrs da porta
Alexei Alexandrovitch, em princpio, era partidrio da reforma judiciria, mas criticava certos aspectos da sua aplicao, tanto mais tratando se de uma instituio sancionada pelo poder supremo A sua longa prtica administrativa tornava o indulgente para com o erro considerava o um mal inevitvel, susceptvel de ser remediado em qualquer altura No entanto, sempre criticara as prerrogativas que esta reforma concedia aos advogados e o acolhimento que lhe faziam reforava ainda mais a sua preveno
- Um momento - disse o escriturrio, e, com efeito, passados dois minutos apareceu na ombreira da porta a alta figura de um velho jurista que acabava de consultar o advogado e o prprio advogado em carne e osso
Este era um homem de pequena estatura, forte de constituio, calvo, de barba negra arruada, grandes sobrancelhas claras e a testa abaulada Desde a gravata e o duplo grilho do relgio at aos sapatos de verniz, tudo nele era elegncia, uma elegncia de noivo de provncia A expresso era inteligente, de campons, mas a indumentria vistosa e de mau gosto
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- Faa o favor - disse a Alexei Alexandrovitch. - E afastando-se para o deixar passar, com um ar cavernoso, fechou a porta. - Queira sentar-se - acrescentou, indicando-lhe uma poltrona junto  secretria atulhada de papis. Sentou-se na presidncia, esfregou uma na outra as suas mozinhas de dedos curtos, cobertos de plos, e inclinou a cabea de lado para ouvir. Mas mal se sentara e ganhara aquela posio, logo se levantou com uma vivacidade inesperada para apanhar uma traa que voava por cima da mesa. Depois voltou a ocupar de novo a primitiva
atitude.
- Antes de lhe expor o assunto que aqui me traz - disse Alexei
Alexandrovitch,  que  seguia,  surpreso,  as  evolues  do  advogado-, quero pedir-lhe o mais absoluto segredo.
Um imperceptvel sorriso soergueu os fartos bigodes arruados
do homem de leis.
- Se no soubesse guardar os segredos que me confiam, no seria advogado. No entanto, se precisa de uma garantia particular...
Alexei Alexandrovitch olhou-o e viu que os seus inteligentes olhos cinzentos se riam, como se soubessem tudo.
- Conhece o meu nome de famlia? - continuou Karenine.
- Sim, e tambm as suas teis actividades - e de novo apanhou -outra traa -, como todos os russos - concluiu, inclinando-se.
Alexei Alexandrovitch suspirou, a tomar coragem. Mas, uma vez decidido, prosseguiu, na sua aguda vozinha, sem se intimidar nem embaraar, repisando algumas palavras.
- Tenho a infelicidade - principiou - de ser um marido enganado e desejo cortar legalmente os laos que me prendem a minha mulher, isto , quero divorciar-me. Mas de tal maneira que meu filho no fique
com a me.
Os olhos cinzentos do advogado fizeram um esforo para no rir, mas Alexei Alexandrovitch no pde dar-se  iluso de que brilhavam de uma alegria justificada apenas pela perspectiva de um bom cliente; era o brilho do entusiasmo, do triunfo, esse fogo sinistro que j notara
nos olhos da mulher.
- Queria a minha colaborao para conseguir o divrcio?
- Precisamente, mas devo preveni-lo de que hoje se trata apenas de uma simples consulta. Quero manter-me dentro de certos limites e estou pronto a renunciar ao divrcio se este no puder conciliar-se com as normas que desejo observar.  muito possvel que se no coincidir com as minhas exigncias eu desista da demanda legal.
- Oh!    sempre  assim - replicou  o advogado. - Depende de
Vossa Excelncia.
O advogado baixou os olhos, cravando-os nos ps de Karenine: compreendera que a sua incontida alegria podia ofender o cliente. Depois olhou para uma traa que lhe perpassou voando por diante do
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nariz e estendeu o brao, mas no a apanhou, para no incomodar Alexei Alexandrovitch.
- Embora conhea, nos seus traos gerais, as nossas leis referentes ao assunto - continuou Alexei Alexandrovitch-, gostava de saber as formas em que se realizam na prtica tais processos.
- Deseja Vossa Excelncia, portanto, que eu lhe exponha as vias possveis para realizar os seus propsitos - respondeu o advogado, sem erguer os olhos, adaptando-se, no sem prazer, ao tom do cliente.
Ao ver o gesto de aprovao de Alexei Alexandrovitch, o advogado continuou, lanando de quando em quando um olhar furtivo ao rosto do cliente, onde a emoo estampara placas vermelhas.
- Segundo as nossas leis - disse, com um ligeiro matiz de desaprovao para o cdigo russo - o divrcio  possvel, como Vossa Excelncia sabe, nos seguintes casos... Que esperem! - exclamou, dirigindo-
-se ao escriturrio, que assomara  porta; mas, apesar disso, levantou-se e depois de trocar algumas palavras com o empregado, voltou a sentar-se.- Nos seguintes casos: defeitos fsicos dos cnjuges, ausncia, em lugar desconhecido, durante cinco anos - continuou, dobrando um dos seus curtos dedos penugentos - e adultrio - pronunciou a palavra com visvel prazer. - E temos as seguintes subdivises - prosseguiu, dobrando os grossos dedos, embora os casos e as subdivises, ao que parecia, no pudessem classificar-se juntos: - defeito fsico do marido ou da mulher, adultrio da parte de um dos dois - como j dobrara todos os dedos, desdobrou-os, continuando: - Isto no ponto de vista terico, mas suponho que me deu a honra da sua visita para inteirar-se da aplicao prtica. Por conseguinte, tendo em vista os antecedentes, devo comunicar-
-Ihe que todos os casos de divrcio, excluindo aqueles em que no h defeito fsico nem ausncia em parte incerta, como no caso presente, resumem-se da seguinte maneira...
Alexei Alexandrovitch abanou a cabea, assentindo.
- ...resumem-se, digo, do seguinte modo: adultrio de um dos cnjuges, reconhecendo-se convicta a parte culpada, por acordo mtuo. E, no caso de no estarem de acordo, a apresentao de provas convincentes por uma das partes. Devo acrescentar que este ltimo caso raramente ocorre na prtica - disse o advogado e, olhando de solaio Alexei Alexandrovitch, ficou calado como um armeiro, feita a descrio das vantagens de duas armas distintas, que aguarda a escolha do comprador. Mas como Alexei Alexandrovitch se calava, o advogado prosseguiu:- O mais corrente, simples e sensato, em minha opinio,  pedir o divrcio, apresentando, de comum acordo, provas do adultrio. No me permitiria falar assim com um homem de escassa cultura - disse o advogado-, mas suponho que Vossa Excelncia me compreende. Alexei Alexandrovitch to perturbado estava que no compreendeu logo o que podia haver de sensato em apresentar provas de adultrio
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de mtuo acordo e esse olhar traduzia a sua incompreenso. Mas o advogado veio logo em seu auxlio:
- Suponhamos-que os cnjuges j no podem continuar a viver juntos. Se os dois esto de acordo quanto ao divrcio, os pormenores e as formalidades tornam-se de pouca importncia. Acredite,  o meio mais simples e mais seguro.
Desta vez Alexei Alexandrovitch compreendeu, mas os seus sentimentos religiosos opunham-se a esta soluo.
- Este meio est fora de discusso no meu caso - disse ele. - S  possvel o seguinte: fazer a prova do adultrio por meio das cartas em
meu poder.
Ao ouvir a palavra "cartas", o advogado, apertando os lbios, deixou sair um som agudo, ao mesmo tempo desdenhoso e compassivo.
- Perdoe-me - disse. - Os casos deste gnero resolve-os, como Vossa Excelncia sabe, o nosso alto clero. Os padres arciprestes gostam muito de estudar os mnimos pormenores de tais assuntos - acrescentou com um sorriso em que havia simpatia pelas preferncias dos dignitrios eclesisticos. - Evidentemente que as cartas podem ser de alguma utilidade, mas a prova tem de ser feita com o auxlio de testemunhas. Se me honra com a sua confiana, permita-me que escolha os meios que ho-de empregar-se. Aquele que pretende um resultado tem de comear por aceitar os meios de o conseguir.
- Visto que assim ... - disse Alexei Alexandrovitch, de sbito
muito plido.
Mas o advogado levantou-se e foi  porta responder a uma nova
interpelao do escriturrio.
- Diga a essa senhora que no estamos numa loja de saldos! - gritou, antes de voltar para o seu lugar. De caminho apanhou, com um gesto discreto, uma nova traa. "Deve estar fresco o meu reps quando chegar a Vero", disse de si para consigo de sobrecenho carregado.
- Dizia-me o senhor...
- Comunicar-lhe-ei a minha resoluo por carta - voltou Alexei Alexandrovitch, e pondo-se de p apoiou-se  mesa. Depois de um instante, disse: - As suas palavras autorizam-me, portanto, a considerar possvel o divrcio. Ficar-lhe-ei muito grato se me quiser dar a conhecer
as suas condies.
- Tudo  possvel, se me quiser conceder inteira liberdade de aco - replicou o advogado, iludindo a ltima pergunta. - Quando posso esperar a sua resposta? - inquiriu, dirigindo-se para a porta.
- Dentro de oito dias. Ter ento a bondade de me fazer saber se se encarrega do caso e sob que condies.
- Inteiramente s suas ordens.
O advogado inclinou-se respeitosamente, mas logo que ficou s entregou-se  hilariedade que o agitava. Tamanha era a sua alegria que,
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contra o seu costume, transigiu numa reduo de honorrios a uma senhora que regateava, deixou de caar traas e resolveu substituir no Inverno prximo, o reps por veludo,  semelhana do que fizera o' seu confrade Sigonine.
CAPTULO VI
Alexei Alexandrovitch obteve uma brilhante vitria na sesso celebrada pela comisso do dia 17 de Agosto, mas as consequncias dessa vitria foram desastrosas para ele. Graas  sua firmeza, a nova comisso nomeada para o estudo aprofundado da situao dos povos de outras raas foi constituda e enviada para o local necessrio com uma rapidez extraordinria. Trs meses depois j estava a apresentar o seu relatrio. O estado dessas populaes era ainda encarado de seis pontos de vista diferentes: poltico, administrativo, econmico, etnogrfico, material e religioso. A cada quesito eram dadas respostas bem redigidas, que no permitiam dvidas, visto no serem produto do pensamento humano, sempre sujeito a erros, mas obra de uma infalvel burocracia. Tais respostas assentavam em dados oficiais fornecidos plos governadores e bispos, de acordo co_m as informaes dos chefes de distrito e arcebispos, recolhidos, por sua vez, junto das administraes rurais e curas paroquiais.  Como duvidar, pois,  da  sua exactido?  Todas as perguntas relativas, por exemplo, a questes, tais como: porque costumam ser ms as colheitas?, porque se abstm os habitantes de certas localidades de cumprir as suas obrigaes religiosas?, etc., que ficariam por resolver sem as facilidades da mquina administrativa e por resolver tinham permanecido durante sculos, obtiveram ento uma resposta clara e indiscutvel. E essa resposta coincidia com a opinio de Alexei Alexandrovitch. Mas Stremov, que se sentira ferido na sesso anterior, ao ter conhecimento das  ltimas resolues,  utilizou uma  tctica  com  que Karenine no contava. Arrastando consigo outros membros da comisso, transplantou-se, de repente, para o partido de Karenine e no s apoiou, calorosamente, que se levassem a cabo as medidas preconizadas, mas at apresentou outras que no mesmo sentido ultrapassavam de muito as por ele prprio apresentadas. Essas medidas reforadas pela ideia bsica de Alexei Alexandrovitch foram aceitas, e s ento se descobriu a tctica de Stremov. Ao levar a ideia ao exagero, to estpidas resultaram as medidas tomadas que tanto os polticos como a opinio pblica, quer as senhoras inteligentes quer a imprensa, foram unnimes em exprimir a sua indignao contra eles e contra o seu propugnador, Alexei Alexandrovitch. Ento Stremov afastou-se, asseverando que seguira cegamente o plano de
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Karemne, ao mesmo tempo que se mostrava surpreendido e consternado com o que acontecera No obstante a sua precria sade e as suas mfe licidades domsticas, Alexei Alexandrovitch acusou o toque, mas no desarmou Na comisso deu se uma ciso nas opinies Alguns dos seus membros,  testa dos quais estava Stremov, justificavam o seu erro dizendo que tinham acreditado na comisso que, dirigida por Alexei Alexan-drovitch, apresentara aqueles informes, mas opinavam que estes eram absurdos e que apenas se gastara papel debalde Karemne, com um partido que via o perigo daquele ponto de vista revolucionrio a respeito dos documentos oficiais, continuava a defender os dados apresentados pela comisso encarregada de rever o assunto   Em consequncia disto, nas esferas elevadas e at na alta sociedade verificou se uma grande confuso e, embora todos estivessem interessados no problema, nTigum sabia, realmente, se os povos de outras raas pereciam ou prosperavam Graas a isso, e em parte pelo desprezo que inspirava  conta da infidelidade da mulher, a situao de Karemne chegou a estar pouco segura Nesse momento, porm, adoptou uma resoluo importante Com grande assombro da comisso, comunicou que pedia licena para investigar pessoalmente a questo  Uma vez obtida a respectiva autorizao, empreendeu uma viagem a essas provncias longnquas
A partida de Alexei Alexandrovitch provocou grande tumulto, e tanto mais que, antes da partida, devolveu oficialmente a importncia em dinheiro que lhe consignara o Governo para os doze cavalos de que necessitava para chegar ao local designado
-  um gesto muito nobre-disse Betsy  princesa Miagkaia, referindo-se a essa atitude - Com que inteno se h de consignar dinheiro para cavalos de posta quando todos sabem que h caminhos de
ferro por todos os lados'
A princesa Miagkaia no estava de acordo e a opinio de Betsy
irritou a
- Fala assim porque no lhe faltam milhes  Mas a mina do-me
muita satisfao as viagens de inspeco de meu marido  As ajudas de
custo de deslocao servem para pagar o meu carro e o meu cocheiro
A caminho das longnquas provncias, Alexei Alexandrovitch passou
trs dias em Moscovo
No dia seguinte ao da sua chegada foi visitar o general governador No cruzamento da Rua Gazetnu, onde havia sempre grande aglomerao de carruagens particulares e de aluguer, Alexei Alexandrovitch ouviu o seu nome pronunciado em voz to alta e alegre que no pde deixar de olhar para trs Junto ao passeio estava Stepane Arkadievitch - resplan decente e com um sorriso que punha  mostra a fieira branca dos dentes entre lbios vermelhos -, alegre, jovem, radiante, com um palet curto,  moda, e um chapu, tambm  moda, ladeado, que gritava insistente mente, para que se detivesse o carro de Karemne Estava agarrado 
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portinhola de uma carruagem parada, da qual emergiam uma cabea de mulher com um chapu de veludo e duas cabecmhas infantis e, sorrindo, acenava ao cunhado para que se aproximasse A senhora sorria bondosa mente e tambm lhe fazia sinais com a mo Era Dolly com seus filhos Alexei Alexandrovitch no estava disposto a ver ningum em Moscovo e muito menos ainda o irmo da mulher Descobriu se e quis continuar, mas Stepane Arkadievitch ordenou ao cocheiro de Karemne que parasse e correu para o carro, pelo meio da neve
- No tens vergonha de no nos teres avisado da tua chegada' Chegaste h muito? Ontem estive no Dusseau e vi o nome de Karemne no quadro dos hspedes, mas no me passou pela cabea que fosses tu - disse Oblonski, enfiando a cabea pela portinhola da carruagem - Caso contrario, tinha ido procurar te Que grande satisfao em ver te - prosseguiu, batendo com os ps um no outro para sacudir a neve - E no tens vergonha de no teres avisado da tua chegada' - repetiu
- No tive tempo, estou muito ocupado -replicou Karemne, secamente
- Vamos ter com a Dolly, deseja muito ver-te
Alexei Alexandrovitch ergueu a manta de viagem em que envolvia
as pernas e apeando-se do carro l foi, por cima da neve, at junto de
Daria Alexandrovna
- Que h, Alexei Alexandrovitch' Por que nos evita assim' - perguntou Dolly, sorrindo
- Estou muito ocupado Muito prazer em v Ia - respondeu Karemne, num tom que significava claramente o contrrio -Como tem passado de sade'
- A minha querida Ana como est'
Alexei Alexandrovitch resmoneou qualquer coisa, procurando despedir se Mas Stepane Arkadievitch deteve o
- Aqui tens o que faremos amanh Dolly convida te para jantar Convidaremos tambm Kosmchev e Pestsov, para que possas conhecer a intelectualidade moscovita
- Peco-lhe que venha - disse Dolly - Esperamo-lo s cinco, s seis, se quiser Como est a minha querida Ana' Ha tanto tempo
- Est bem - resmoneou Alexei Alexandrovitch, franzindo o sobrolho - Encantado de a ver - acrescentou, preparando-se para voltar para o seu carro
- Posso contar com a sua presena' - gritou Dolly Karemne murmurou qualquer coisa, que Dolly no percebeu, por causa do rudo das carruagens
- Amanh irei visitar te - gritou lhe Stepane Arkadievitch Karemne acomodou se na almofada do seu carro, afundando-se nela de maneira a que mais ningum o visse nem ele visse a mais ningum
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-  um excntrico' - comentou Stepane Arkadievitch para a mulher E depois de consultar o relgio, esboou um movimento de mo diante do rosto, que traduzia uma carcia para Dolly e para os filhos e afastou se, passeio fora, em passo resoluto
- Sva1 Stiva' - gritou Dolly, corando Oblonski voltou se
- Tenho de comprar casacos para o Gricha e para a Tnia D me
dinheiro
-  o mesmo  Diz lhes que eu irei depois pagar Oblonski desapareceu, cumprimentando, com um aceno de cabea, um conhecido que passava de carruagem
CAPTULO VII
O dia seguinte era domingo   Stepane Arkadievitch dirigiu-se ao Grande Teatro para assistir ao ensaio geral de um ballet e entregou a Macha Tchibissova, uma linda bailarina que acabava de entrar para o corpo de baile graas a uma recomendao sua, o colar que lhe prometera na vspera  Entre bastidores,  meia luz do teatro, conseguiu beijar lhe o lindo rosto, resplandecente ao receber a ddiva Oblonski queria dizer -lhe tambm que, no podendo chegar no princpio do ballet, viria no fim do ltimo acfo para leva Ia consigo a cear  Ao abandonar o teatro, Stepane Arkadievitch dirigiu se, de carruagem, ao mercado Okotni, onde ele prprio escolheu o peixe e os espargos para o jantar  Ao meio dia em ponto j estava no Dusseau, onde tinha de visitar trs pessoas, por fortuna instaladas no mesmo hotel  Devia visitar Levine, que acabava de chegar do estrangeiro, o seu novo chefe, que, recentemente nomeado para esse alto cargo, viera a Moscovo em viagem de inspeco   e o cunhado, Karenme, para o levar sem falta a jantar a sua casa
Stepane Arkadievitch gostava de comer, mas ainda mais de oferecer o seu jantarzmho, selecto tanto nos pitus como nas bebidas e na escolha dos convidados A ementa do jantar daquele dia agradava lhe muitssimo peixe, espargos e a ptce de rsistence1, um simples, porm magnfico rosbife, alm de vinhos variados Isto quanto ao jantar propriamente dito e s bebidas Entre os convidados figurariam Kitty e Levine e, para dissimular esse encontro, uma prima, e o jovem Tcherbatski, a ptce de rststence dos convidados era constituda por Alexei Alexandrovitch e Srgio Ivanovitch este, moscovita e filsofo, aquele petersburgus e
O prato de resistncia
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homem prtico Alm disso estariam presentes tambm o clebre Pestsov, excntrico e "menino bonito" cmquento, historiador, msico, palrador, entusiasta e liberal, que desempenharia o papel de espevitador
A ideia deste festim era tanto mais agradvel para Stepane Arka-dievitch quanto era certo ter acabado de receber a segunda prestao da venda da mata e que Dolly havia algum tempo j que era para ele de uma indulgncia cativante  No entanto, sem que isso alterasse, precisamente, a sua boa disposio, dois pontos negros o apoquentavam  Em primeiro lugar o comportamento do cunhado, que, no se tendo dado ao trabalho de os visitar, lhes fizera na rua um acolhimento nada amistoso Confrontando a frieza de Alexei Alexandrovitch com certas atoardas, a respeito da irm e de Vronski, que lhe tinham chegado aos ouvidos, previa um grave incidente entre marido e mulher   Em segundo lugar a reputao inquietadora do novo director, que, como todos os novos chefes, vinha precedido da fama de homem terrvel, pois diziam que se levantava s seis da manh, trabalhava como um cavalo e exigia que os subordinados fizessem o mesmo Alis, gozava de fama de ser corno que um urso no seu trato com os outros e, segundo diziam, um homem em tudo contrrio s normas do chefe anterior, que eram tambm as de Stepane Arkadievitch  Na vspera, Oblonski apresentara se a despacho, envergando o seu uniforme, e o novo chefe mostrara se muito amvel, falando lhe como se ele fosse um conhecido seu, por virtude do que Stepane Arkadievitch se julgava obrigado a visita Io com carcter no oficial,  paisana  A ideia de que o novo chefe o pudesse receber mal, preocupava o no entanto   Mas Stepane Arkadievitch pressentia, instintivamente, que tudo se "apanharia"   "Todos os seres humanos cometem faltas, para que havemos de discutir e arreharmo nos'", pensava, ao entrar a porta do hotel
- Ol, Vacih' - exclamou, dirigindo se a um criado seu conhecido, enquanto seguia pelo corredor alm, de chapu  banda -Deixaste crescer as suas? Ouve l, o Sr Levine est no quarto 7, no ? Indicas me o caminho, se fazes favor > E depois v se me pode receber o conde Amtchkme (o novo director)
- s suas ordens - respondeu Vacili, muito sorridente - H muito tempo que o no via
- Estive aqui ontem Mas entrei pela outra porta  o sete' De p no meio do quarto, quando Stepane Arkadievitch entrou, Levine media, com um mujique de Tver, uma pele de urso
- Ah, mataste um urso' - exclamou, ao assomar  porta Stepane Arkadievitch -Que bela pea1 Mas, que vejo1  uma fmea1 Bom dia, Archipe
Apertou a mo ao mujique e sentou se numa cadeira, sem tirar o sobretudo nem o chapu
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- Vamos, despe o sobretudo e fica um bocado comigo - disse Levine, pegando lhe no chapu
- No, no tenho tempo   Vim apenas de passagem - replicou Stepane Arkadievitch Desapertou o casaco e da a pouco estava a despi Io, ali ficou uma hora inteira em conversa com Levine, falando de caa e das coisas mais ntimas -Que fizeste tu no estrangeiro' Onde esti veste' - perguntou ele quando o mujique saiu do quarto
- Estive na Alemanha, na Prussia, na Frana e na Inglaterra Mas no nas capitais nem nas cidades industriais Vi muitas coisas novas Estou satisfeitssimo por ter feito esta viagem
- Sim1 J conheo as tuas ideias sobre a organizao operria
- Nada disso na Rssia no pode haver problema operrio A questo importante para a Rssia e, unicamente, a das relaes entre o trabalhador e a terra Tambm existe na Europa, mas ah s se podem fazer remendos, ao passo que aqui
Stepane Arkadievitch ouvia com toda a ateno
- Sim1 Sim1  muito possvel que tenhas razo - disse ele - Gosto de te ver assim to animado caas o urso, trabalhas e divertes-te Tinha me dito o Tcherbatski, que te encontrou, que estavas muito de primido e no fazias outra coisa seno falar na morte
-  verdade que penso muito nela Tudo  vaidade, mais vale morrer Para te falar com franqueza, gosto muito do meu trabalho e das minhas ideias, mas, quando penso que este universo no  mais do que uma camada de bolor na crosta do mais insignificante dos planetas, quando penso que as nossas ideias, as nossas obras, tudo que julgamos fazer de grande, equivale, pouco mais ou menos, a alguns gros de poeira1
- Tudo isso  mais velho do que o mundo, meu caro'
- Sim, mas quando nos o compreendemos a fundo, tudo se nos afigura sem importncia Quando chegamos  concluso de que hoje ou amanh teremos de morrer e que nada ficara, tudo nos parece ninharias As minhas ideias tm valor, realmente, mas, na verdade, mesmo no caso de virem a ser realizadas, importariam tanto como matar esta ursa Assim a nossa vida vai passando, distraindo nos na caa e com o trabalho, para no pensarmos na morte
Stepane Arkadievitch sorria, com expresso subtil e carinhosa, enquanto ouvia Levine
- Naturalmente, mas lembra te que, quando estiveste em minha casa, me censuraste os prazeres da vida No sejas to severo, meu moralista1
- No entanto, na vida o que  bom  - a voz de Levine enta ramelou se lhe - Enfim, no sei, s sei que morreremos breve
--Por que havemos ns de morrer breve'
- Quando se pensa na morte, a vida tem menos encantos, mas  mais pacfica
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- Pelo contrario, no fim  mais divertida ainda Mas j so horas de me ir embora - disse Arkadievitch, le.antandose pela dcima vez - Deixa te estar mais um bocado' - implorou Levine, retendo-o - Quando nos voltaremos a ver? Vou me embora amanh
- Ora esta mas onde tenho eu a cabea' Ia esquecer me do assunto que aqui me trouxe No te dispenso que venhas hoje jantar connosco, a nossa casa Vira jantar tambm o teu irmo e o meu cunhado Karemne
- Qu, ele esta aqui' - perguntou Levine, desejoso de saber de Kitty Sabia que ela passara o princpio do Inverno em casa da irm, esposa de um diplomata Mas resolveu nada perguntar "Esteja ou no, para mim  o mesmo "
- Conto contigo?
- Podes contar
- Ento s cinco e de redmgote
Stepane Arkadievitch le\ antou se e foi visitar o seu novo chefe O pressentimento que tivera era acertado O novo e temvel chefe mostrou se extremamente amvel Stepane Arkadievitch almoou com ele e to entretido estava que s depois das 3 horas foi procurar Alexei Alexandrovitch
CAPTULO VIII
Depois da missa, Alexei Alexandrovitch passara toda a manh no quarto Tinha de fazer duas coisas nesse dia em primeiro lugar, receber e orientar uma delegao de populaes de outras raas que se dirigia a Sampetersburgo e, em segundo lugar, escrever a carta que prometera enviar ao advogado Aquela delegao conquanto criada por iniciativa de Alexei Aexandrovitch apresentava muitas dificuldades e tambm certos riscos Por isso mesmo fora para ele uma grande satisfao encontra Io em Moscovo Aquela pobre gente ingnua que fazia parte da referida delegao no tinha a menor ideia do papel que representava Estavam esses homens ingenuamente convencidos de que a misso que lhes com peba se resumia em exporem as suas necessidades e o estado actual das coisas, pedindo ao Governo o respectivo auxlio No compreendiam que certas declaraes e exigncias suas podiam favorecer o partido inimigo, estragando tudo, por conseguinte Alexei Alexandrovitch esteve muito tempo com eles, redigindo lhes um programa de que no deviam afastar se e depois de os mandar embora escreveu para Sampetersburgo a recomendar que os guiassem ali A condessa Ldia Ivanovna era a sua principal colaboradora Especializada em assuntos deste gnero, ningum
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sabia melhor canalizar e organizar as delegaes Depois Alexei Ale-xandrovitch escreveu ao advogado Sem a menor vacilao, autorizava o a que actuasse a seu talante Na carta que lhe endereou inclua trs bilhetes de Vronski para Ana, encontrados na pasta que tirara 
mulher
Desde que Karenme sara de casa sem teno de l voltar, desde que visitara o advogado, e j havia, portanto, uma pessoa conhecedora da sua resoluo, e sobretudo desde que passara aquele assunto ntimo a matria de expediente, cada vez se habituava mais  resoluo que tomara e mais claramente via a possibilidade de a relizar Acabava de fechar a carta para o advogado quando ouviu a voz sonora de Stepane Arkadievitch, que discutia com o criado de Alexei Alexandrovitch, teimando para que ele o anunciasse ao amo
" o mesmo", pensou Alexei Alexandrovitch "Tanto melhor Agora mesmo lhe vou dar parte da minha atitude a respeito da irm e explicar lhe por que no pocso jantar em casa dele "
- Manda  entrar - disse  em  voz  alta,  recolhendo  os  papis  e
guardando os na pasta
- Como vs, estavas a mentir' Ele esta no quarto1 - gritava Stepane Arkadievitch dirigindo se ao criado, que o no queria deixar passar, e, ds pmdo o sobretudo enquanto avanava, penetrou no aposento -Tenho muita satisfao em encontrar te' Espero que - principiou alegremente
- No posso ir - replicou friamente Alexei Alexandiovitch, de p, sem convidar Oblonski a sentar se
Karenme pensava manter relaes frias com o irmo da mulher de quem ia divorciar se, mas no contava com o mpeto de bondade que transbordava da alma de Stepane Arkadievitch
Oblonski abriu desmesuradamente os seus brilhantes olhos claros
- Porque no podes' Que queres dizer' - disse lhe em francs, perplexo -Prometeste que virias Todos contamos contigo
- No posso ir a sua casa, porque as relaes familiares que existem entre ns vo acabar
- Como' Que aconteceu' Porqu' - perguntou Stepane Arka dievitch, com um sorriso
- Porque requen o divrcio contra minha mulher, sua irm Tive que
Karenme ainda no terminara o seu discurso Stepane Arkadie vitch, porm, procedeu de maneira completamente inesperada para ele soltou uma exclamao e deixou se cair numa poltrona
- Que me dizes, Alexei Alexandrovitch' - exclamou, e no seu rosto surgiu uma expresso de sofrimento
-  assim
- Perdoa me, mas no posso acreditar
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Alexei Alexandrovitch sentou se, sentia que as suas palavras no tinham produzido o efeito que esperava, que ia ver-se obrigado a explicar se e que uma explicao, por categrica que fosse, no modi ficava em nada as suas relaes com Oblonski
- Sim - voltou ele-, encontro-me na penosa necessidade de ter de requerer o divrcio
- Deixa me dizer te uma coisa, Alexei Alexandrovitch Conhecedor que sou, por um lado, da tua recta conscincia, e, pelo outro, das exce lentes qualidades de Ana (peo-te que me desculpes de no poder mudar de opinio a respeito dela), no posso acreditar em tudo isso h a um mal entendido qualquer
- Oh1 Se se tratasse apenas de um mal entendido1
- Peo te compreendo - interrompeu Oblonski -, mas, peo te, no precipites as coisas'
- No as precipitei de maneira alguma - disse, friamente, Alexei Alexandrovitch -Nestes assuntos a ningum podemos pedir conselho Estou firmemente resolvido
-  terrvel - exclamou Oblonski, suspirando -Eu faria uma coisa, Alexei Alexandrovitch Peo te que o faas - disse - Pelo que depreendo, ainda no requereste o divrcio Antes de o fazeres, fala com minha mulher Estima Ana como se fosse sua irm  tua amiga, e alm disso  uma mulher excepcional Por amor de Deus, vai falar com ela Faz me esse favor, peo te
Alexei Alexandrovitch ps se a pensar, Stepane Arkadievitch fitava o com compaixo
- Bom,  ento  fica  combinado - voltou  ele,   depois  de  alguns instantes de silncio -Virs falar com ela'
- No sei, realmente     Acho que as nossas relaes devem mudar
- Por qu' No percebo a razo Permite me pensar que para alm das nossas relaes de famlia me podes conceder uma parte da amizade e da estima sinceras que sempre te testemunhei - disse Oblonski, apertando-lhe a mo - Mesmo que as tuas suspeitas viessem a confirmar-se, nunca me atreveria a julgar qualquer de vs As nossas relaes no tm nada que modificar se por causa do vosso desentendimento Por isso mesmo te peo que converses com minha mulher
- Consideramos de maneira distinta esta questo - replicou, friamente, Alexei Alexandrovitch -Mas no falemos mais disso
- Porque no hs de tu vir a minha casa, quanto mais no seja apenas para jantares connosco' Minha mulher conta contigo Vem, peo-te E sobretudo fala com ela  uma mulher extraordinria Por amor de Deus, peo te de joelhos
- Se tens tanto empenho em que v, irei - respondeu Alexei Alexandrovitch, suspirando
LB202-23
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E, no desejo de mudar de assunto, falou-lhe de uma coisa que a ambos interessava: perguntou-lhe pelo seu novo chefe, esse homem ainda nada velho que fora chamado para desempenhar cargo to importante.
Karenine, que nunca morrera de amores por semelhante criatura, no podia calar um certo sentimento de inveja, muito natural num funcionrio que tivera um fracasso na carreira diante de outro que nela estava ascendendo.
- Ento, estiveste com ele ? - perguntou com ironia venenosa.
- Pois claro! Foi ontem  repartio. Parece muito a par dos assuntos e  muito activo.
- Activo,  possvel, mas em que emprega ele as suas actividades ? A criar qualquer coisa nova ou a modificar o que os outros criaram? A desgraa do nosso pas  esta burocracia da papelada, de que ele  digno ornamento.
- Desconheo as suas ideias, mas parece-me bom rapaz. Acabo
de estar com ele, almomos juntos e eu ensinei-lhe a fazer essa bebida
que tu conheces, vinho com laranjas.  muito refrescante. Que estranho
que ele a no conhecesse! No h dvida de que  um belo rapaz.
Oblonski consultou o relgio.
- Ca breca! J passa das quatro e ainda tenho de visitar o Dolguchine!... Est combinado, vens jantar, no  assim? Davas-nos um grande desgosto, a minha mulher e a mim, se recusasses.
Alexei Alexandrovitch acompanhou o cunhado at  porta, num estado de esprito muito diferente daquele com que o acolhera.
- Visto que prometi, irei - respondeu ele, sem o menor entusiasmo.
- Acredita que te agradeo e espero que no te arrependers - disse Oblonski, sorrindo.
Enquanto se aproximava da porta, ia vestindo o sobretudo e a um dos braos apanhou a cabea do criado, coisa que o fez soltar uma gargalhada.
- As cinco e sem cerimnia, fazes favor - gritou uma vez mais, voltando  porta.
CAPITULO IX
J passava das cinco e j tinham chegado alguns dos convidados quando apareceu o dono da casa. Entrou acompanhado de Srgio Ivanovitch Kosnichev e de Pestsov, com quem se encontrara naquele momento junto  porta. Como dissera Oblonski, eram os dois principais representantes da intelectualidade moscovita. Ambos eram pessoas rs-
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peitadas, tanto pelo carcter como pela inteligncia. Apreciavam-se mutuamente, mas professavam ideias contrrias em quase tudo. Nunca estavam de acordo e no por pertencerem a tendncias diferentes, antes, precisamente, por serem do mesmo campo (os inimigos consideravam-nos iguais), embora, dentro desse mesmo campo, cada um deles tivesse o seu prprio matiz. E como no h nada mais difcil do que entenderem-se duas pessoas quando tm ideias distintas em questes abstractas, no s nunca estavam de acordo, como desde h muito se tinham habituado a rir um do outro, sem se zangarem por causa do erro irremedivel em que cada um deles considerava o outro incurso. Entravam os dois em casa a falar do tempo quando Stepane Arkadievitch os encontrou. No salo j estavam o prncipe Alexandre Dimitrievtch, o jovem Tcherbatski, Turovtsine, Kitty e Karenine.
Stepane Arkadievitch percebeu logo que as coisas estavam a caminhar mal sem ele. Daria Alexandrovna, que envergava o seu elegante vestido de seda cinzenta, sem dvida preocupada com os filhos, que deviam jantar sozinhos, no quarto, e porque o marido se demorava, no soubera pr os convidados  vontade. Todos se entreolhavam sem saberem muito bem o que ali estavam a fazer e pouco mais faziam do que trocar entre si, de quando em quando, alguns monosslabos. O excelente Turovtsine no escondia o seu embarard c ~ :s .iro queixoso com que acolheu Oblonski parecia dizer claramente: "Ento, cavalheiro, onde me meteste tu? Em matria de boa companhia prefiro beber e frequentar o Chteau ds f/eteres." O velho prncipe, sentado, sem dizer palavra, olhava Karenine de soslaio, com os seus brilhantes olhos trocistas, e Stepane Arkadievitch compreendeu que j lhe viera ao esprito um epigramazinho para designar esse homem de Estado, ali, como em toda a parte, uma espcie de prato de resistncia. Kitty tinha os olhos fixos na porta e procurava ganhar coragem para no corar na altura em que visse entrar Levine. O jovem Tcherbatski, que se tinham esquecido de apresentar a Karenine, procurava mostrar-se distante. O prprio Karenine, fiel ao costume pe-tersburgus, envergava fraque e gravata branca, como era da praxe na Capital em jantares a que assistissem senhoras. Pela sua expresso, Stepane Arkadievitch compreendeu que to-s viera ali para cumprir a promessa que fizera e que o fazia como quem cumpre um dever penoso. Era ele o principal responsvel da frieza que ali reinava e se apoderara de todos os presentes at ao momento em que Stepane Arkadievitch aparecera.
Ao entrar no salo, Oblonski desculpou-se, explicando que o demorara certo prncipe, espcie de testa de ferro de todos os seus atrasos e de todas as suas faltas. Rapidamente fez as apresentaes necessrias e pondo em contacto Karenine com Srgio Kosnichev deu princpio a uma animada conversa sobre a russificao da Polnia, conversa essa em que interveio igualmente Pestsov. Dando umas palmadinhas no ombro
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de Turovtsine, disse qualquer coisa graciosa e instalou-o junto da mulher e do prncipe. Depois disse a Kitty que estava muito bonita, e apresentou Tcherbatski a Karenine. Em pouco tempo to bem amassou aquela massa que o salo ganhou vida e as vozes ressoavam alegres. Apenas faltava Levine. Mas a sua demora veio a propsito, pois Stepane Arkadievitch, ao entrar na sala de jantar, verificou, horrorizado, que o vinho do Porto e o Geres que tinham trazido eram de Depret, e no de Leve, e depois de dar ordens ao cocheiro para ir imediatamente a esta ltima casa buscar os vinhos, voltou ao salo.
Ao sair da sala de jantar encontrou Levine.
- Chego tarde?
- Ser possvel que no chegues tarde alguma vez? - volveu-lhe
Oblonski, travando-o pelo brao.
- Tens muitos convidados? Quem so? - perguntou Levine, corando involuntariamente, enquanto sacudia com a luva a neve do gorro
de peles.
- So todos da famlia. A Kitty tambm aqui est. Anda, vou
apresentar-te ao Karenine.
Apesar do seu liberalismo, Stepane Arkadievitch sabia que a maior parte das pessoas se sentia muito honrada em conhecer Karenine e por isso reservava esse prazer para os seus melhores amigos. Mas naquele momento Levine no estava em condies de tirar partido de todo o prazer que esse conhecimento podia proporcionar. No tornara a ver Kitty desde a noite memorvel em que se encontrara com Vronski, no falando do rpido instante em que se cruzara com ela no meio da estrada real. No fundo da sua alma sabia que a veria naquela noite. Mas, combatendo a liberdade dos seus pensamentos, procurava convencer-se que o ignorava. Agora, ao ouvir dizer que Kitty estava presente, sentira, de sbito, tal alegria e ao mesmo tempo tal receio que perdeu o nimo e foi incapaz de pronunciar o que tinha pensado dizer.
"Como irei eu encontr-la?", pensava. "Ser ainda a menina de outrora ou aquela que eu entrevi nessa manh de Estio atravs da portinhola do carro? E se fosse verdade o que disse Daria Alexandrovna? Por que no h-de ser verdade?"
- Peo-te que me apresentes a Karenine - disse, por fim, no sem
dificuldade.
E ao entrar no salo, num passo foradamente resoluto, viu Kitty. No era a menina de outrora nem to-pouco a que vira  portinhola do carro, mas outra, por completo.
Parecia receosa, tmida, envergonhada, e no entanto mais encantadora do que nunca. Viu Levine assim que este entrou no salo. Esperava-o. Sentiu uma grande alegria e de tal modo a perturbou o contentamento que sentiu que houve um momento, precisamente na altura em
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que Levine se aproximava da dona da casa e a olhava a ela de novo, que tanto ela como ele e Dolly, que tudo estava a observar, julgaram que no poderia conter-se e romperia a chorar. Corou, empalideceu, voltou a corar e permaneceu imvel, com um ligeiro tremor nos lbios, enquanto aguardava que Levine se aproximasse. Este chegou, e depois de inclinar--se, estendeu-lhe a mo em silncio. Se no fosse o ligeiro tremor dos lbios de Kitty e aquela nvoa que lhe cobria os olhos, imprimindo-lhe mais brilho, o seu sorriso teria sido quase sereno quando disse:
- H tanto tempo j que nos no vamos! - E com desesperada deciso a sua mo fria apertou a dele.
- A Kitty no me viu, mas eu vi-a! - replicou Levine, com um sorriso radiante de felicidade. - Vi-a quando vinha da estao, em lerguchovo.
- Quando? - perguntou ela, surpreendida.
- Ia para Erguchovo - disse Levine, reparando que a alegria o sufocava. "Como pude eu associar a ideia de qualquer coisa que no fosse inocente com esta criatura adorvel? Sim: deve ser verdade o que me disse Daria Alexandrovna", pensou.
Stepane Arkadievitch puxou Levine pelo brao e levou-o at junto de Karenine.
- Permitam-me que os apresente - e disse o nome de cada um.
- Tenho muito prazer em tornar a v-lo - articulou Karenine, friamente, apertando a mo de Levine.
- J se conheciam ? - perguntou Stepane Arkadievitch, assombrado.
- Passmos juntos trs horas no comboio - respondeu Levine, sorrindo -, mas samos dali to desconhecidos como de um baile de mscaras, eu, pelo menos.
- Que me dizes! Faam o favor de passar para a sala de jantar - convidou Stepane Arkadievitch, apontando a porta da sala contgua.
Os homens deram entrada na sala de jantar e aproximaram-se da mesa dos aperitivos, na qual havia seis espcies de vodka, outras tantas de queijo, com e sem facas de prata, caviar, arenques, conservas de todos os gneros e pratinhos com fatias de po branco. Enquanto os cavalheiros permaneciam de p junto a essas diversas espcies^ de vodka aromtica e dos variados aperitivos, a conversa sobre a russificao da Polnia teve um compasso de espera.
Srgio Ivanovitch, que como ningum sabia pr fim inesperado a uma discusso, por mais sria e elevada que fosse, vertendo-lhe dentro um pouco de sal tico e alterando o estado de esprito dos interlocutores, tambm desta vez o conseguiu.
Alexei Alexandrovitch demonstrava que a russificao da Polnia apenas podia obter-se graas a princpios superiores que a administrao russa devia introduzir ali.
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Pestsov sustentava que um pas s pode assimilar outro se for mais povoado
Kosmchev admitia uma e outra coisa, mas com limitaes Ao sarem do salo, para rematar a conversa, disse, sorridente:
- Por conseguinte, existe uma maneira de russificar os povos de outras raas- conseguir o maior nmero possvel de filhos. Meu irmo e eu portamo-nos pior do que ningum nesse aspecto Em compensao, os senhores, homens casados, e sobretudo voc, Stepane Arkadievitch, procedem como verdadeiros patriotas Quantos filhos tem' - perguntou, dingindo-se, com um afvel sorriso, ao dono da casa e apresentando-lhe e seu minsculo copo.
Todos desataram a rir E Oblonski mais alegremente do que ningum
- Sim, esse  o melhor remdio - disse, mastigando o queijo e vertendo vodka, de uma qualidade especial, no copo que aquele lhe estendia
Com efeito, a discusso desvaneceu se com aquele gracejo
- No  nada mau este queijo Quer um bocadinho? - perguntou o dono da casa -Ser possvel que te tenhas dedicado outra vez  ginstica' - acrescentou, dirigindo-se a Levine e apalpando-lhe os msculos com a mo esquerda.
Levine sorriu, flectiu o brao sobre os dedos de Stepane Arkadie-vitch, avolumou se um corpo duro, como que de ao, redondo como um queijo, por debaixo da fina casimira do redingote.
-Que bceps'-concluiu ele -S um autntico Sanso
- Para caar ursos  preciso, suponho, ser dotado de uma fora excepcional' - inquiriu Alexei Alexandrovltch, enquanto espalhava um bocado de queijo numa fatia de po e, ao faz-lo, esfarelava o miolo fino como uma teia de aranha Tinha ele uma ideia muito vaga do que fosse caar.
Levine sorriu.
- De maneira nenhuma - disse -Uma criana pode matar um urso -E deu lugar s senhoras que se aproximavam da mesa dos aperitivos
- Disseram-me que tinha abatido um urso - interveio Kitty, procurando, debalde, espetar um cogumelo recalcitrante; o garfo escorregava, Kitty impacientava-se, afastava para trs as rendas da manga do vestido, descobrindo um pouco o bonito brao -H, realmente, ursos na sua propriedade' - acrescentou, voltando para ele um rosto sorridente
Aparentemente no havia nada de extraordinrio no que Kitty dissera, no entanto que inexplicvel significado tinha para ele cada som e cada movimento dos seus lbios, dos seus olhos, das suas mos' O que isso no dizia1 Havia neles um pedido de perdo, confiana em Levine, uma carcia meiga e tmida tal como uma esperana e uma promessa
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de amor, coisas em que ele, Levine, no podia deixar de querer e que o inundavam de felicidade
- Oh, no' - replicou ele, rindo - Fomos caar na provncia de Tver, e no regresso dessa excurso encontrei me na carruagem com seu cunhado, isto , com o cunhado do seu cunhado O encontro foi cmico - E contou, de maneira alegre e divertida, que, depois de uma noite inteira sem dormir, entrara, precipitadamente, com uma pelica de pele de cordeiro, no compartimento de Karemne
- O revisor, ao contrrio do que diz o ditado, quis expulsar-me, ao ver a minha pelica Mas ento pus me a falar num estilo altissonante E o senhor tambm - acrescentou Levine, dirigido > se a Alexei Alexan-drovitch, cujo nome esquecera-, tambm o sen.or me quis expulsar, julgando me pelo trajo Mas depois veio em minha defesa, coisa que muito lhe agradeo.
- Em geral os direitos dos viajantes aos respectivos assentos so raramente muito pouco determinados - respondeu Karemne, que limpava a ponta dos dedos.
- Sim, notei a sua hesitao a meu respeito - observou Levine, sorrindo com bondade - e dei-me pressa em travar uma conversa culta, para fazer esquecer o efeito da minha pele de cordeiro
Srgio Ivanovitch, que continuava a falar com a dona da casa e que ia ouvindo o irmo, olhou o de soslaio "Que ters tu hoje' Ests com ar de triunfador", pensou Ignorava que Levine sentia terem-lhe crescido as asas, sabia que Kitty ouvia o que ele estava a dizer e isso agradava-lhe E s isso lhe interessava, no s naquela sala, mas no mundo inteiro, para Levine s existia Levine, que, perante si prprio, alcanara uma im portncia e um significado transcedentes, s existiam ele e ela Sentia se em tal altura que tinha vertigens L em baixo, muito longe, estavam todos esses homens bondosos e simpticos como Karemne, Oblonski e os demais
Quando se sentaram  mesa, Stepane Arkadievitch fingiu no reparar em Levine e Kitty, depois, lembrando-se subitamente deles, colocou os um ao lado do outro, nos dois nicos lugares vagos
- Se achas bem, senta-te aqui - disse a Levine.
O jantar era to bem escolhido como a baixela, preocupao muito especial de Oblonski A sopa "Maria Louise" estava soberba, as minsculas empadas, que se desfaziam na boca, eram irrepreensveis Matvei e mais dois criados de gravata branca, serviam  mesa, discretos, silenciosos e hbeis Do ponto de vista material, o jantar foi um xito, e no o foi menos de outro ponto de vista A conversa, quer geral, quer parcial, no cessava, esteve to animada que os cavalheiros se levantaram da mesa, continuando a palestrar fora dela
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CAPTULO X
Pestsov, que gostava de tratar dos assuntos a fundo, estava to pouco de acordo com a concluso de Kosnichev que ele prprio principiava a perceber a inconsequncia da sua prpria opinio.
- Ao falar da densidade da populao - argumentara ele, na altura da sopa, dirigindo se a Karemne - queria dizer que era possvel ter em conta as foras latentes e no apenas os princpios
- Quer-me parecer que o resultado  o mesmo - replicou Alexei Alexandrovitch, sem grande animao -Quanto a mim, um povo no pode ter influncia sobre outro povo a menos que lhe seja superior em civilizao
- Ora a est precisamente o problema - interrompeu Pestsov, sempre vido de falar e que parecia empenhar toda a alma na defesa das suas opinies -Que deve entender se por civilizao superior' Qual , de entre as naes da Europa, aquela que pode considerar-se superior s outras' A inglesa, a francesa ou a alem' Qual destes pases nacionalizara os demais' Verificamos como as provncias renanas se afrancesaram ser isso uma prova da inferioridade dos Alemes' No, h uma outra lei - clamou ele, na sua voz de baixo
- Acho que a balana pender sempre para o lado da verdadeira cultura - observou Karemne, franzindo ligeiramente as sobrancelhas
- Mas quais os ndices da verdadeira cultura'
- Parece me que qualquer pessoa os conhece
- Conhece los-o, realmente' - perguntou Kosmchev com um sorriso malicioso
- Em geral, parte se do princpio assente na instruo clssica, mas temos assistido, neste aspecto, a furiosos debates e o partido que sustenta o ponto de vista contrario apresenta argumentos que no deixam de ser valiosos
- Voc  partidrio da cultura clssica, Srgio Ivanovitch' Quer um pouco de vinho tinto' - interrompeu Stepane Arkadievitch
- No se trata das minhas opinies pessoais - replicou Kosmchev, com a condescendncia que teria tido para com uma criana, o que no o impediu, contudo, de pegar no copo - Apenas pretendo que se apresentem bons argumentos de parte a parte - prosseguiu, voltando se para Karemne -Embora clssico por educao, confesso que os estudos clssicos no me fornecem prova indiscutvel da sua superioridade sobre os demais
- As cincias naturais no se prestam menos a um desenvolvimento pedaggico do esprito humano - aprovou Pestsov - Por exemplo, a astronomia, a botnica e a zoologia, com os seus sistemas de leis gerais
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- A   est   uma   opinio   que   eu   no   partilharia   inteiramente
- objectou Alexei Alexandrovitch - O estudo das lnguas antigas contribui muito para o desenvolvimento da inteligncia Por outro lado, os escritores da Antiguidade exercem uma influncia eminentemente moral, enquanto que, para nossa desgraa, ao estudo das cincias naturais agregam se doutrinas funestas e falsas, que so o flagelo da nossa poca Srgio Ivanovitch ia responder, mas Pestsov interrompeu o, com a sua possante voz, no intuito de demonstrar calorosamente a injustia desse ponto de vista Kosmchev, que parecia ter encontrado um argumento decisivo, deixou o falar sem exibir grande impacincia Quando por fim pde, voltou-se para Karemne e disse, como o seu sorriso subtil
- Confesse, confesse que o pr e o contra dos dois sistemas seria difcil de estabelecer se a influncia moral, dtsons l mot', antmulista, da educao clssica no militasse a seu favor.
- Sem dvida alguma
- Deixaramos o campo mais livre aos dois sistemas, se no considerssemos a educao clssica como uma plula preservativa oferecida aos nossos doentes contra o niilismo Mas estaremos ns bem seguros das virtudes curativas dessas plulas' - concluiu ele, lanando mo de um desses seus boleados ticos, de que tanto gostava
A expresso fez rir a todos e muito especialmente Turovstsme, que h muito aguardava uma sada do gnero
Stepane Arkadievitch no se tinha enganado ao convidar Pestsov para espevitar a conversa Com efeito, quando os debates pareciam encerrados com o dito espirituoso de Kosmchev, este impetuoso palrador f Ia despertar de novo
- Nem sequer podemos dizer que o Governo se props essa cura
- disse ele - Naturalmente apenas obedece a consideraes de ordem geral, no querendo saber das consequncias que podem resultar das medidas que toma Citarei como exemplo a instruo superior das mulheres quando era de esperar que a considerasse funesta, ei Io que abre escolas e universidades para elas
E a conversa enveredou em seguida para o tema da educao feminina
Alexei Alexandrovitch exprimiu o seu ponto de vista, dizendo que, em geral, se confunde a educao feminina com o problema da liberdade da mulher e apenas neste sentido aquela pode considerar se prejudicial
- Pelo contrrio, sou de opinio que esses dois problemas esto indissoluvelmente unidos - contraveio Pestsov - um crculo vicioso A mulher est privada de direitos por insuficincia de instruo, e essa insuficincia resulta da sua falta de direitos No devemos esquecer que
Empreguemos o termo exacto
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a escravido da mulher  qualquer coisa de to arraigado e antigo que por vezes no podemos compreender o abismo que nos separa dela
- Disse direitos' - interrompeu Srgio Ivanovitch, que aguardava que Pestsov se calasse -Direitos a ocupar postos de jurados, vogais, presidentes do tribunal, funcionrios, membros do Parlamento'
- Indubitavelmente
- Admitindo a hiptese de que as mulheres, com raras excepes, pudessem ocupar tais postos, acho que empregou erroneamente a expresso "direitos" Seria mais justo dizer "obrigaes" Todos estaro de acordo em que, ao cumprirmos uma obrigao como a de jurado, vogal ou funcionrio dos telgrafos, sentimos estar a cumprir um dever Por isso parece me mais justo dizer se que as mulheres procuram cumprir deveres e que tm toda a razo E s devemos simpatizar com esse desejo de concorrerem para o trabalho comum do homem
- Isso  muito justo - afirmou Alexei Alexandrovitch - Tudo est em sabermos se elas so capazes de satisfazer esses deveres
- Naturalmente sero muito capazes disso - opinou Stepane Arka dievitch-, desde que a, instruo se desenvolva entre elas Vemos
- E o provrbio' - perguntou o prncipe, que havia algum tempo escutava, olhando com os seus olhmhos brilhantes e maliciosos - Posso citar diante das minhas filhas "A mulher  um ser de cabelos com pridos e "
- Era o que se pensava dos negros antes da emancipao - objectou Pestsov, pouco satisfeito
- O que me parece estranho - voltou Srgio Ivanovitch -  ver as mulheres ambicionarem deveres que os homens no poucas vezes procuram alijar
- Esses deveres - disse Pestsov - so acompanhados de direitos as honras, o poder, o dinheiro, eis o que as mulheres ambicionam
-  como se eu disputasse um lugar de ama e achasse mal que mo no quisessem conceder, quando a verdade  que as mulheres recebem dinheiro para isso - disse o velho prncipe
Turovtsme soltou uma grande gargalhada e Srgio Ivanovitch lamentou no ter sido o autor daquele gracejo At Karemne sorriu
- Sim, mas o homem no pode amamentar enquanto que a mulher pode - disse Pestsov
- Perdo, um ingls, no alto mar, a bordo de um navio, conseguiu amamentar um filho - argumentou o velho prncipe, permitindo se, diante das filhas, uma certa liberdade de linguagem
- Pois bem, que haja tantas mulheres funcionrias como ingleses amas - exclamou Srgio Ivanovitch, muito contente por tambm ter podido dizer um gracejo
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- E as mulheres sem famlia' - perguntou Stepane Arkadievitch que, sustentando o ponto de vista de Pestsov, tivera sempre em vista Tchibissov, a sua bailarina
- Se perscrutarmos a vida dessas - acorreu, inopinadamente, Daria Alexandrovna, no sem azedume, pois adivinhara o que estava no esprito do mando - acabaremos por \enficar que abandonaram uma famlia em que podiam perfeitamente desempenhar os seus deveres de mulheres
- Talvez, mas ns defendemos um princpio, um ideal - ripostou Pestsov, na sua voz tomtruante A mulher reclama o direito  independncia e sofre por se ver incapaz de a obter
- E eu, eu sofro por no ser admitido como ama no asilo de crianas abandonadas - repetiu o velho prncipe, para gudio de Turovtsme, que deixou cair um espargo no molho
CAPTULO XI
S Kitty e Levme no tinham tomado parte na conversa geral No princpio do jantar, quando se falou em influncia de uma nao sobre outra, Levme lembrou se, involuntariamente, das ideias que tinha a tal respeito, mas sentia se incapaz de as pr em ordem e achou mesmo estranho que algum pudesse preocupar se com um problema que outrora,  certo, o apaixonara, mas agora lhe parecia completamente destitudo de interesse Pelo seu lado, Kitty tambm deveria ter se interessado pela discusso acerca dos direitos da mulher, assunto de que tantas vezes se ocupara, quer por causa da sua amiga Vanenka, que vivia em to dura dependncia, quer pensando nela prpria, na hiptese de no vir a casar se Frequentemente discutira com a irm esse mesmo problema Agora, porm, quo pouco lhe interessava isso' Entre Levme e ela estabelecera se uma espcie de sria afinidade que os aproximava cada vez mais, despertando lhes um sentimento de alegre incerteza ante esse mundo deso nhecido em que ambos iam penetrar
Kitty perguntara lhe onde a vira ele nesse Vero e Levme dissera lhe que a encontrara na esTada real, quando voltava do campo, depois da ceifa
- Era de madrugada, muito cedo, e voc naturalmente acabava de acordar Sua me dormia a um canto da carruagem Estava uma manh lindssima Eu ia pensando "Quem vir naquele carro puxado por quatro guizalheiras ~> Pela janela vi a a si l dentro, muito pensativa, com as duas mos fincadas nas fitas da touca - dizia Levme, sorrindo - O que
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eu dana para saber em que pensava naquele momento' Pensava nalguma coisa importante'
"Iria despenteada'", pensou Kitty Mas, ao ver o sorriso entusiasta que na memria de Le\me estavam a despertar aqueles pormenores, compreendeu que, pelo contrario, lhe produzira uma impresso inesquecvel Corou e ps se a rir
- Sinceramente, j me no lembro
- Com que satisfao ri Turovtsme' - comentou Levine, admirando a jovialidade desse bom rapaz, de olhos hmidos e o corpo sacudido pelas gargalhadas que soltava
- J o conhece h muito' - perguntou Kitty
- Quem o no conhece'
- Parece  que  no tem  l  muito  boa  opinio  a  respeito  dele
- D me  a  impresso  de  uma  pessoa um  tanto insignificante
- Engana se E no tardara muito que me d o prazer de o ver mudar de opinio Tambm eu antigamente o apreciei mal, mas garanto-lhe que  um bom rapaz, um corao de ouro
- Como pode conhecer-lhe o corao'
- Somos muito bons amigos, conheo o muito bem No Inverno passado, pouco tempo depois da sua visita - disse ela, com um sorriso contrafeito, mas confiante - , os filhos de Dolly tiveram escarlatina, e um dia em que ele veio saber deles Pode crer - prosseguiu ela, baixando a voz -, teve tanta pena da me que ficou semanas a ajuda Ia a cuidar das crianas doentes Estou a contar a Constantino Dimitrievitch como se portou Turovtsme durante a escarlatina - disse, voltando se para a irm
- Oh, sim, foi extraordinrio1- respondeu Dolly, olKando, com um sorriso afectuoso, o bom do Turovtsme, que estava longe de saber que falavam dele Levine olhou o por sua vez, e pareceu surpreso de no ter sabido aprecia Io at ento
- Perdoe me, perdoe me, nunca mais voltarei a pensar mal de ningum' - exclamou ele, em voz jovial Desta vez era com toda a sinceridade que dizia o que estava a sentir
CAPTULO XII
A discusso acerca da emancipao da mulher tinha o seu lado espinhoso diante de senhoras o da desigualdade dos direitos entre os cnjuges Por vrias vezes, no decurso do jantar, Pestsov abordara a questo, mas Kosmchev e Oblonski sempre tinham habilmente desviado o problema Quando se levantaram da mesa, Pestsov, que se recusara
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a acompanhar as senhoras, reteve junto de si Alexei Alexandrovitch para lhe demonstrar que a razo pnncipal dessa desigualdade se fundamentava, segundo ele, na diferena que estabelecem a lei e a opinio pblica entre a infidelidade da mulher e a do mando
Stepane Arkadievitch ofereceu, precipitadamente, um charuto ao cunhado
- No, no fumo - replicou ele, no tom mais tranquilo que imaginar se pode, e, como para demonstrar que no temia o assunto, disse a Pestsov, com um sorriso glacial -Essa diferena decorre, quer-me parecer, da prpria natureza das coisas
Encaminhava se para o salo quando Turovtsme, animado pelo champanhe e, alias, morto por interromper um silncio que lhe estava pesando h muito, exclamou com o seu bom riso habitual nos lbios vermelhos e hmidos
- J ouviu contar a histria de Priatchmkov' Contaram me hoje que Vcia Priatchmkov se bateu em duelo, em Tver, com Kvitski e o matou Dirigia-se especialmente a Karemne, visto ser ele o convidado de honra Stepane Arkadievitch notava que, assim como quando temos um ferimento todas as pancadas que damos atingem sempre o ponto magoado do nosso corpo, tambm tudo, na conversa travada, ia atingir o ponto fraco de Karemne De novo procurou afastar o cunhado, mas este perguntou curioso
- Por que se bateu Priatchmkov'
- Por causa da mulher Portou se como um valente' Desafiou-o e matou-o
- Ah' - disse Alexei Alexandrovitch, num tom indiferente, e, de sobrancelhas carregadas, entrou no salo
- Deu-me tanta satisfao que tivesse vindo - disse Dolly, que o esperava no salo, com um sorriso medroso - Preciso falar consigo Sentemo-nos aqui
Alexei Alexandrovitch, com aquela expresso de indiferena que lhe davam as sobrancelhas franzidas, sentou-se junto de Dana Ale-xandrovna, afivelando um sorriso fingido
- Queria pedir-lhe desculpa e retirar-me  Parto~amanh Dana Alexandrovna estava firmemente convencida da inocncia de Ana e por isso mesmo sentia-se empalidecer e tremer de clera perante aquela criatura insensvel, friamente decidida a perder a sua querida cunhada e amiga
- Alexei Alexandrovitch - disse ela, apelando para todas as suas energias para olh-lo bem de frente -, perguntei lhe como ia a Ana e no me respondeu como vai ela?
- Suponho que est bem, Dana Alexandrovna - replicou, evitando o olhar dela.
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- Perdoe-me se insisto sem ter o direito de o fazer, mas Ana  para mim como que uma irm. Peco-lhe, diga-me, que h entre ambos? De que a acusa?
Alexei Alexandrovitch, carregando o sobrolho e fechando os olhos quase por completo, inclinou a cabea.
- Suponho que seu marido lhe tenha comunicado as razes por que considero indispensvel alterar as minhas anteriores relaes com Ana Arkadievna - disse, sem olhar Dolly nos olhos e dirigindo a vista, descontente, para Tcherbatski que passava pelo salo.
- No acredito e nunca acreditei nessas coisas! - exclamou Dolly, num gesto enrgico, apertando uma na outra as mos ossudas. Levantou-
-se bruscamente e, tocando na manga de Alexei Alexandrovitch, disse:
- Aqui no estamos sossegados. Venha c, peco-lhe.
A emoo de Dolly comunicara-se a Karenine. Ps-se em p e seguiu-a, submisso, at ao quarto de estudos das crianas. Sentaram-se diante de uma mesa coberta de oleado, todo retalhado a canivete.
- No acredito em nada disso - repetia Dolly, procurando o olhar que evitava o seu.
-  impossvel negar os "factos", Daria Alexandrovna - insistiu ele, sublinhando a ltima palavra.
- Mas que fez ela? Diga l!
- Deixou de cumprir os seus deveres e atraioou o marido. Eis o que ela fez.
- No, no,  impossvel! No, diga-me que est equivocado - exclamou Dolly, fechando os olhos e apertando as fontes.
Alexei Alexandrovitch sorriu friamente, apenas com os lbios; queria deste modo provar a Dolly e a si mesmo ser inabalvel a sua convico. Mas aquela calorosa interveno reabriu-lhe a ferida e foi com certa animosidade que respondeu a Dolly:
-  difcil uma pessoa equivocar-se quando  a prpria mulher que vem declarar ao marido que oito anos de casamento e um filho no contam para nada e que quer recomear a sua vida.
- Ana e o vcio, como  possvel associar estas duas coisas ? Como acreditar?...
- Daria Alexandrovna - disse ele, sentindo que a lngua se lhe desatava. E fitando, finalmente, sem hesitaes, o rosto comovido de Dolly-, eu dava tudo para ainda poder duvidar. A dvida era cruel, mas o presente, mais cruel ainda. Quando duvidava, ainda esperava, apesar de tudo. Agora no me resta esperana alguma e, no entanto, tenho outras dvidas: a tal ponto duvido de tudo que chego a odiar o meu prprio filho e s vezes duvido mesmo que seja meu. Sou muito desgraado!
No era preciso mais. Desde que o olhara nos olhos, Dolly compreendera que ele dizia a verdade; lastimou-o, e a f na inocncia da amiga foi abalada,
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-  horrvel, horrvel... E est realmeme decidido a divorciar-se?
- Tomei esse partido, porque no vejo que possa tomar outro.
- No pode fazer outra coisa, outra coisa?...-murmurava ela, de lgrimas nos olhos. - No, deve haver outra forma.
- O pior ainda numa infelicidade destas - continuou ele, como se adivinhasse o pensamento dela -  no podermos carregar com a nossa cruz como em qualquer outra desgraa, a morte, por exemplo... Temos de agir. -nos impossvel ficar na posio humilhante que nos criaram, no podemos viver os trs.
- Compreendo-o, compreendo-o - respondeu Dolly, baixando a cabea. Calou-se, as suas prprias desventuras domsticas lhe vieram  memria; e, de sbito, erguendo os olhos para Karenine e juntando as mos num gesto splice:-Mas espere. Voc  cristo. Pense nela! Que ser dela se a abandonar?
- Tenho pensado, Daria Alexandrovna - volveu-lhe Karenine; o rosto cobriu-se-lhe de malhas vermelhas e os olhos, enevoados, olharam--na fixamente; a Dolly, partia-se-lhe o corao de pena. -Foi isso mesmo que eu fiz quando ela me comunicou a minha desonra: deixei as coisas como estavam. Dei-lhe a possibilidade de se corrigir, tentei salv-la, e para qu? No cumpriu a mnima das exigncias que lhe impus: ter decoro - acrescentou, exaltando-se. - Pode salvar-se uma pessoa que no quer perecer, mas quando a natureza est to deformada e pervertida que s a prpria perdio se lhe afigura a salvao, que havemos de fazer ?
- Tudo menos o divrcio! - exclamou Daria Alexandrovna.
- A que chama tudo?
-  horrvel! No ser a mulher de ningum! Perder-se-!
- Mas que posso eu fazer ? - perguntou Alexei Alexandrovitch, erguendo os ombros e as sobrancelhas; a lembrana da ltima falta da mulher irritara-o a tal ponto que recuperou a frieza, tal como no comeo da conversa. - Agradeo-lhe muito o seu interesse pela minha desgraa, mas so horas de me ir - disse, levantando-se.
- Espere! No deve fazer a desgraa dela... Espere, vou contar-lhe alguma coisa da minha vida! Casei-me, e meu marido enganava-me. Dominada pelo cime e pela raiva, quis abandonar tudo e eu prpria ia a... Mas voltei a mim. E quem me salvou? A Ana. E continuo a viver. Os filhos crescem, meu marido voltou ao lar, reconheceu a sua falta e cada vez parece melhor. E eu vivo... Perdoei, e o senhor deve perdoar tambm!
Alexei Alexandrovitch escutava-a, mas as palavras dela no lhe faziam impresso alguma. Na sua alma estava novamente desperta toda a ira que sentira no dia em que resolvera pedir o divrcio. Voltou a si e falou com voz sonora e penetrante:
- No posso nem quero perdoar! Considero isso injusto. Fiz tudo
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por essa mulher, e ela tudo rojou pela lama, onde se sente feliz. No sou um mau homem( nunca odiei ningum. Mas a ela odeio-a com todas as foras da minha alma, e nem sequer lhe posso perdoar, porque a odeio por todo o mal que me causou - disse, com um soluo de ira.
- Amai aqueles que vos odeiam... - murmurou Daria Alexan-drovna, envergonhada.
Alexei Alexandrovitch sorriu com desprezo. Havia muito que conhecia essas palavras, mas no podia aplic-las ao seu prprio caso.
- Podemos amar aqueles que nos odeiam, mas no aqueles a quem odiamos. Perdoe-me que a tenha incomodado. Cada qual com o seu desgosto.
E recuperando o inteiro domnio de si mesmo, Alexei Alexandrovitch despediu-se tranquilamente e partiu.
CAPTULO XIII
Quando se levantaram da mesa, Levine quis seguir Kitty at ao salo, mas receou que ela no gostasse ver-se cortejada de forma to visvel. Ficou, pois, no grupo dos homens, tomando parte na conversa geral. E sem olhar para Kitty, sentia-lhe, contudo, os movimentos, via-lhe os olhos e o lugar que ela ocupava no salo.
Cumpria j, sem esforo, a promessa que lhe fizera: pensar sempre bem de todos e a todos estimar. A conversa recaiu sobre a comuna rural, que Pestsov considerava um princpio tpico a que dava o nome de "princpio coral". Levine no estava de acordo, nern com ele nem com o irmo, que reconhecia e negava ao mesmo tempo o valor dessa instituio. Procurou, no entanto, aproximar os seus pontos de vista sem se preocupar de maneira alguma nem com os argumentos deles nem com as suas palavras: o seu nico propsito eta ver todos felizes e contentes. Uma nica pessoa contava para ele neste mundo. Essa pessoa, depois de ter estado no salo, aproximara-se da porta; sentiu um olhar e um sorriso fitos nele e viu-se compelido a voltar-se. Ela l estava na companhia do jovem Tcherbatski, e olhava-o.
- Julgava que iam sentar-se ao piano - disse ele, aproximando-se dela. - A est uma coisa que me falta na aldeia: a msia..
- No, vnhamos apenas busc-lo, e agradeo-lhe que tenha compreendido - volveu-lhe ela, sorrindo, como se o recompensasse com esse sorriso. - Que prazer tem em discutir ? Nunca uma pessoa poder convencer outra.
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-  verdade - assentiu Levine. - A maior parte das vezes discutimos unicamente por no sermos capazes de compreender o que o nosso interlocutor pretende demonstrar.
Levine observava com frequncia nas discusses entre pessoas inteligentes que, depois de grandes esforos, de muitas subtilezas lgicas e de abudantes palavras, os contendores chegavam  concluso que procuravam demonstrar qualquer coisa que desde o princpio sabiam, mas que no queriam reconhecer para no serem vencidos e que o motivo da discusso resultava de terem gostos diferentes. Amide, no meio da discusso, um dos polemistas compreendia o pensamento do outro, e aceitava-o; ento todos os argumentos caam por terra como algo intil. Outras vezes sucedia o contrrio: um dizia do que gostava e inventava argumentos para defend-lo. Se o fizesse bem e com sinceridade o adversrio rendia-se-lhe, abandonando a discusso. Eis o que Levine pretendera dizer.
Kitty franziu a testa, procurando compreender o sentido das palavras dele. E quando Levine principiou a explicar-lhe, compreendeu-o.
- Ah, percebi! - exclamou ela.- preciso primeiro compreender as razes que levam o nosso adversrio a discutir, adivinhar quais so os seus gostos; depois...
Kitty adivinhara e explicara o pensamento que Levine exprimira mal. E este sorriu alegremente: ela apresentava em termos muito mais claros a ideia que ele expusera confusamente. Que diferena entre esta maneira sbria, lacnica, de expor os pensamentos mais complexos e a prolixidade to prezada por Pestsov e pelo irmo dele!
Depois de Tcherbatski se ter afastado, Kitty sentou-se a uma mesa de jogo e ps-se a fazer crculos com giz em cima do pano verde. Levine voltou a expor a famosa discusso das ocupaes femininas. Nesse ponto era da opinio de Dolly e sups real-la aduzindo um novo argumento: sustentava que toda a famlia, rica ou pobre, sempre tem e sempre h-de ter necessidade de quem a auxilie, de criadas, de governantas, quer escolhidas na prpria famlia, quer fora dela.
- No - afirmou Kitty, corando, o que no a impediu de erguer para ele um olhar lmpido e ousado -; no, h casos em que uma rapariga no pode entrar numa famlia sem se expor a certa humilhao, em que ela prpria...
Levine compreendeu a aluso.
- Claro, claro - exclamou ele-; tem toda a razo.
S compreendeu o que Pestsov procurara demonstrar durante o jantar, ao entrever no corao de Kitty o medo de ficar solteira e a humilhao que isso representava. Como lhe queria, sentiu tambm aquele medo e aquela humilhao e imediatamente declarou renunciar s suas teorias.
Houve um silncio. Ela continuava a riscar com o giz; os olhos brilhavam-lhe com muita suavidade. Sob a influncia do seu estado
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de alma, Levine sentia, em todo o seu ser, que a felicidade o inundava cada vez mais fortemente.
-- Oh, meu Deus, enchi a mesa de riscos - exclamou ela, pousando o giz e fazendo meno de se levantar.
"Como poderei eu ficar sem ela?", pensou Levine com terror, e pegou no giz.
- Espere - disse-lhe ele, sentando-se ao p da mesa. - H muito que desejava perguntar-lhe uma coisa.
Levine olhava-a nos olhos carinhosos, mas assustados.
- Ento, pergunte.
- Olhe - disse Levine, e escreveu a giz as iniciais seguintes: Q,v,m,r,n,p,s,s,n,o,e. Aquelas letras queriam dizer: "Quando voc me respondeu: "No pode ser", significava nunca ou ento?"
No havia probabilidade alguma de Kitty poder decifrar esta frase complicada. Levine olhou para ela como se a sua vida dependesse da compreenso daquelas palavras.
Kitty pousou nele os olhos com uma expresso grave; depois, apoiando na mo a testa, que franzira, principiou a decifrar as letras. De vez em quando cilhava para Levine, como a perguntar-lhe com os olhos: " o que eu julgo?"
- Compreendi - disse, por fim, corando.
- Que palavra  esta? - perguntou ek, apontando o n, a letra que indicava "nunca".
- Significa "nunca" - respondeu ela. - Mas no  verdade! Rapidamente Levine apagou o que estava escrito, entregou o giz a Kitty e levantou-se. Ela escreveu: "E,n,p,r,d,o,m."
Dolly sentiu-se plenamente recompensada da mgoa que lhe causara a conversa com Karenine ao ver Kitty junto de Levine. Ela, com o giz na mo, olhando para ele com um sorriso tmido e cheia de felicidade, e ele, diante dela, inclinado sobre a mesa, com os olhos brilhantes, ora cravados no pano verde, ora em Kitty. De sbito, o rosto de Levine resplandeceu. Compreendera. Aquilo significava: "Ento no pude responder de outra maneira."
Olhou-a com uma expresso ao mesmo tempo interrogativa e tmida.
- S ento?
- S - respondeu Kitty com um sorriso.
- E agora...  agora?
- E a... agora?
- Bom, leia o que vou escrever. Dir-lhe-ei o que desejaria, o que desejaria com toda a minha alma!
Kitty escreveu as iniciais seguintes: "Q,v,p,e,e,p,o,q,a." O significado era: "Que voc possa esquecer e perdoar o que aconteceu."
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Levine pegou no giz com os dedos rgidos e trmulos e, partindo-o, logo em seguida escreveu as iniciais da seguinte frase: "No tenho nada que perdoar nem que esquecer e nunca deixaria de a amar."
Kitty fitou-o com um sorriso exttico.
- Compreendi - disse, num sussurro.
Levine sentou-se e escreveu uma frase comprida. Kitty compreendeu-a toda e sem perguntar-lhe se acertara, pegou no giz, por sua vez, e respondeu.
Por muito tempo Levine no conseguiu decifrar o que Kitty escrevera e de quando em quando fitava-a nos olhos. A felicidade tinha-o feito perder o uso das suas faculdades. No havia maneira de encontrar as palavras a que correspondiam as iniciais. Mas, plos encantadores olhos da jovem, que resplandeciam de felicidade, percebeu tudo quanto precisava saber. Escreveu trs letras. Ainda no acabara de o fazer j Kitty as lera, seguindo-lhe o movimento da mo; e foi ela quem terminou a frase e escreveu a resposta: "Sim."
- Esto a brincar de secrtaire? - perguntou o velho prncipe aproximando-se. - Vamo-nos embora j, se no querem chegar tarde ao teatro. Levine levantou-se e acompanhou Kitty at  porta.
Tivera tempo de dizer tudo: Kitty amava-o e diria aos pais que no dia seguinte pela manh Levine lhes iria falar
CAPTULO XIV
Depois de Kitty ter partido, Levine sentiu que a inquietao se apoderava dele; teve medo, como da morte, das catorze horas que o separavam do momento em que a tornaria a ver, em que as suas duas vidas se uniriam para sempre. Para enganar o tempo, sentia a necessidade imperiosa de no estar s, de falar a quem quer que fosse. Infelizmente Stepane Arkadievitch, cuja companhia lhe agradaria mais do que nenhuma outra, deixou-o para ir a uma reunio, isto , ao ballet.
Levine s teve tempo de lhe dizer que era feliz, que o estimava muito e que nunca esqueceria o que fizera por ele. O olhar e o sorriso de Stepane Arkadievitch demonstraram a Levine que compreendera perfeitamente os seus sentimentos.
- J no falas mais em morrer, pois no? - perguntou-lhe, com um aperto de mo enternecido.
- No!-respondeu-lhe este.
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Daria Alexandrovna, ao despedir-se de Levine, felicitara-o tambm, dizendo:
- Como eu estou contente de que se tenha encontrado de novo com a Kitty!  preciso no esquecer os velhos amigos.
Estas palavras, nas quais Levine suspeitou um cumprimento, tiveram o condo de lhe desagradar: a sua felicidade era demasiado sublime para que os pobres mortais lhe pudessem fazer aluses!
Finalmente, para no ficar s, agarrou-se ao irmo.
- Onde vais tu?
- A uma reunio.
- Posso acompanhar-te?
- Porque no? - disse Srgio, sorrindo. - Que tens tu hoje?
- Que tenho eu? A felicidade! - respondeu Levine, abrindo a vidraa da carruagem. - Ds licena? Sufoco. Porque  que nunca te casaste?
- As minhas felicitaes-disse Srgio sempre a sorrir. - , segundo creio, uma encantadora ps...
- Cala-te, cala-te! - exclamou Levine, que, pegando-lhe pela gola lhe cobriu o rosto com a pele. "Uma encantadora pessoa..." Que palavras vulgares, indignas do sentimento que o tomava!
Srgio Ivanovitch desatou a rir, coisa que lhe no acontecia muitas vezes.
- Posso ao menos dizer-te que estou encantado?
- Amanh, mas nem mais uma palavra!... Silncio!...-intimou Levine, fechando-lhe mais uma vez a boca. - Sou muito teu amigo - acrescentou. - Posso assistir  vossa reunio?
- Com certeza.
- De que se falar hoje ? - perguntou Levine, sem deixar de sorrir.
Chegaram  reunio. Levine ouviu o secretrio ler a acta, atrapalhado, ao que parecia, sem entender palavra do que lia. Mas pela sua fisionomia Levine reconheceu que aquele era um homem simptico, agradvel e bondoso. Isto o deduziu ele da maneira como se atrapalhava e confundia na leitura. Depois principiaram os discursos. Discutia-se a votao de certas somas e a instalao de umas canalizaes. Srgio Ivanovitch atacou vivamente dois membros da reunio e falou por muito tempo com ares de triunfo. Outro membro, depois de tomar notas num papel, mostrou-se tmido a princpio, mas em seguida respondeu a Kosnichev com tanto de cortesia como de m inteno. Sviajski, presente tambm, pronunciou algumas palavras nobres e eloquentes. Levine ouvia--as e compreendia claramente que ali no havia nada, nem somas de dinheiro consignadas, nem canalizaes. Ningum se enfadava com isso, todos eram pessoas muito amveis e bondosas, e tudo corria perfeitamente entre eles. No incomodavam ningum e todos se sentiam  vontade. O extraordinrio  que naquele dia Levine tinha a impresso de ver a
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alma das pessoas por pequenos pormenores, at ento imperceptveis, comprovar que todos eram bons. Tambm naquele dia estimavam muito Le-vine. Isso via-se pela maneira corno falavam com ele e como o olhavam, carinhosa e afectuosamente, at mesmo pessoas que o no conheciam.
- Qu, ests contente? - perguntou-lhe Srgio Ivanovitch.
- Muito. No pensei que isto fosse to interessante, to simptico e acolhedor.
Sviajski acercou-se de Levine e convidou-o a tomar ch em sua casa. Levine aceitou, satisfeito, e perguntou-lhe imediatamente como estavam a mulher e a cunhada. Nada subsistia das reservas que outrora tinha contra ele, nem a mnima lembrana; aquele indivduo que ele, antigamente, no conseguia perceber pareceu-lhe o melhor e o mais fino dos homens. E como a cunhada daquele homem estranho se associava sempre no seu esprito  ideia de casamento, afigurou-se-lhe que ningum poderia ouvir melhor a histria da sua felicidade do que essas senhoras.
Sviajski interrogou-o sobre a marcha dos seus negcios, convencido de que se no podia fazer nada de novo na Rssia em matria de economia rural, visto a Europa j ter de h muito adoptado todas as formas econmicas possveis. Desta vez Levine, em vez de se sentir contrariado por essa tese, achou-a muito plausvel e admirou a mansido e a delicadeza com que Sviajski a sustentava. As senhoras mostraram-se particularmente amveis para com ele. Levine julgou perceber que sabiam de tudo, que participavam da sua alegria, mas que evitavam falar do caso por mera discrio. Esteve uma hora com elas, depois duas, trs em seguida, abordando diversos assuntos mais ou menos relacionados com as preocupaes de momento, sem notar que enfadava mortalmente os seus anfitries, mortos de sono. Por fim, Sviajski, sem saber que pensar das estranhas atitudes do amigo, acompanhou-o, bocejando, at ao vestbulo. J passava da l hora.
De regresso ao hotel, Levine sentiu-se assustado com as horas que ainda tinha de passar sozinho, cheio de impacincia. O criado de servio quis retirar-se depois de acender as velas, mas Levine deteve-o: aquela criatura, que ele conhecia apenas de nome, apresentou-se-lhe, de sbito, como uma ptima pessoa, nada estpida, e sobretudo muitssimo bondosa.
- Diz-me, legor, custa muito passar uma noite em claro?
- Que havemos ns de fazer,  a nossa obrigao.  mais sossegado trabalhar em casas particulares, mas aqui ganha-se melhor.
Levine soube que legor tinha famlia, trs filhos e uma filha costureira, que queria casar com o empregado de um correeiro. A propsito, Levine observou que o casamento devia assentar no amor; quando se ama -se sempre feliz, pois a felicidade est em ns prprios. legor, que ouvia atentamente, parecia convencido desta verdade, mas confirmou-a por uma observao inesperada, a saber, que, quando servira bons amos, sempre estivera contente com eles e que o seu patro actual, embora francs, lhe convinha perfeitamente.
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"Que homem to bem formado", pensou Levme
- E tu, legor, quando casaste, gostavas da tua mulher'
- Pois claro' - respondeu o criado Levme verificou que tambm legor se encontrava num estado de esprito exaltado e que se dispunha a revelar-lhe os seus mais ntimos sentimentos
- A minha vida tambm tem sido extraordinria Desde pequeno - comeou ele, de olhos brilhantes, sem dvida contagiado pela excitao de Levme, como quando uma pessoa principia a bocejar por ter visto que os outros tambm bocejam
Nesse momento ouviu se uma campainha legor saiu, e Levme ficou s Quase no jantara em casa dos Oblonski Negara-se a tomar ch e a cear em casa de Sviajski, mas no podia pensar em comida No quarto fazia frio, e no entanto todo ele era calor No dormira na noite anterior, mas era-lhe impossvel pensar em dormir Abriu os vidros da janela e sentou-se em cima da mesa que estava em frente Para alm do telhado coberto de neve via-se a cruz de uma igreja e um pouco mais para o alto o tringulo da constelao do Cocheiro sobrepujada pelo esplendor amarelado da Cabra Aspirando o ar glacial, deixava que os olhos lhe errassem da cruz  estrela, dando livre curso s fantasias da recordao e da imaginao Pouco depois das 3 horas, ouviram se passos no corredor Levme entreabriu a porta Era Miaskme, um ,ogador de clube, seu conhecido, que voltava do jogo Tossia e a sua expresso era taciturna "Pobre desgraado'", pensou Levme E aos olhos afloraram-lhe lgrimas de compaixo e afecto Apeteceu lhe falar com ele, consol-lo, mas, ao lembrar se de que estava em mangas de camisa, mudou de ideia Foi sentar se de novo junto  janela para sentir o ar fresco e contemplar aquela cruz admirvel e silenciosa, cheia de significado para ele, bem como a rs plandecente estrela amarela Depois das seis principiaram a ouvir-se os criados que enceravam o soalho, sinos que tocavam para a missa, e Levme sentiu frio Fechou as vidraas da janela, lavou se, vestiu-se e saiu para a rua
CAPTULO XV
As ruas ainda estavam desertas Levme dirigiu-se a casa dos Tcher-batski A porta principal encontrava-se fechada e todos em casa dormiam Voltou ao hotel, subiu ao quarto e pediu o pequeno almoo O criado de dia, que j no era legor, veio servir-lho Levme quis cavaquear com ele, mas algum o chamou e o criado saiu Levme quis engolir uma gota de caf e levou  boca um pedao de bolo, mas os dentes no sabiam o que fazer dele Cuspiu, enfiou o capote e voltou a sair Passava das nove quando chegou pela segunda vez defronte da residncia dos Tcherbatski
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Havia pouco que as pessoas se tinham levantado em casa, o cozinheiro saa para fazer compras Era preciso deixar passar, pelo menos, mais duas horas
Toda a noite e aquela manh as levara Levme em perfeita inconscincia,  margem das necessidades da vida No comera em todo o dia, estivera duas noites sem dormir, passara algumas horas meio despido, exposto ao ar gelado, e no s se sentia fresco e bem disposto como inteiramente desligado do corpo Movia se sem esforo muscular e tinha a sensao de ser capaz de fazer o que lhe aprouvesse Estava certo de que, sendo preciso, poderia voar ou remover as paredes de uma casa O tempo que o separava da hora almejada passou o a caminhar pelas ruas, consultando o relgio a cada momento e virando a cabea para todos os lados
O que ento viu nunca mais o esqueceria Chamaram lhe sobretudo a ateno uns garotos a caminho da escola, umas pombas azuis escuras de farinha que mo invisvel expunha em certo escaparate Esses bolos, essas pombas e esses garotos pareciam-lhe qualquer coisa de prodigioso Um dos pequenos aproximou se de uma pomba e, sorrindo, olhou para Levme A pomba agitou as asas e esvoaou, brilhando ao sol, no meio da fina poeira de neve que pairava no ar, enquanto do escaparate se derramava um cheiro a po fresco e a mo continuava a colocar os bolos Era tudo to agradvel que Levme se ps a rir e a chorar ao mesmo tempo Depois de ter dado pela segunda vez uma grande volta, entrou no hotel, sentou se, pousou o relgio diante de si e esperou que marcasse meio dia Os vizinhos de quarto discutiam mquinas e tossiam uma tossinha matinal aqueles desgraados no compreendiam que o ponteiro do relgio estava quase no meio dia' Quando, finalmente, atingiram o nmero fatal, Levme precipitou-se para a rua Imediatamente cocheiros de praa o rodearam, joviais, pois, evidentemente, sabiam tudo, disputando entre si a honra de o conduzirem Escolheu um deles e, para que os outros no ficassem agastados, prometeu-lhes que da prxima vez lhes dana servio O cocheiro pareceu lhe um tipo magnfico, com a blusa branca a sair-lhe do cafet e a sobressair lhe no pescoo vermelho e vigoroso O tren era alto e ligeiro, nunca mais voltaria a tomar um tren assim Tambm o cavalo era soberbo e procurava galopar, embora quase sempre no mesmo lugar O cocheiro conhecia a casa dos Tcherbatski e para mostrar uma considerao muito especial para com o cliente fez estacar o cavalo diante da porta principal, de acordo com todas as regras da arte da boleia Gritou "Hoo1" e fez com os braos um movimento circular O guarda-porto tambm devia estar a par de tudo, via se-lhe no olhar sorridente, na maneira como dizia
- Ha muito tempo que no o vamos, Constantino Dimitnevitch
E no s sabia tudo, como transbordava de alegria, procurando esconder a satisfao Ao encontrar os olhos amveis do velho, Levme sentiu algo de novo na sua alegria
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- J esto levantados?
- Com certeza. Tenha a bondade de entrar... Pode deixar isso aqui - acrescentou, sorrindo, quando viu Levine retroceder na inteno de levar o gorro de pele.
- A quem o devo anunciar ? - perguntou o criado.
Este, embora jovem e presumido, criado de novo estilo, afigurou-se-
-Ihe um homem bondoso e simptico, que tambm compreendia tudo.
-  princesa... ao prncipe...  princesinha... -disse Levine.
A primeira pessoa que lhe apareceu foi Mademoiselle Linon: atravessara o salo, de caracis e rosto resplandecente. Mal trocara com ela duas palavras, ouviu-se um frufru de saias junto  porta. Mademoiselle Linon precipitou-se pela outra porta, enquanto Levine se sentia penetrado de um temor radioso. Assim que a velha preceptora desaparecera, ouviram-se no parquete uns passinhos ligeiros. Aproximava-se rapidamente a felicidade, a vida, ele prprio, algo de melhor, o que tanto tempo procurara. No caminhava; uma fora invisvel trazia tudo ao seu encontro.
Levine apenas viu aqueles dois olhos lmpidos e sinceros, que cintilavam com essa mesma alegria que inundava o seu corao. E esses olhos, brilhando cada vez mais perto, quase o cegavam com o seu brilho. Ela pousou-lhe as duas mos nos ombros. Dava-se inteira, trmula e feliz. Apertou-a nos braos e os lbios uniram-se-lhes.
Tambm ela, aps uma noite em claro, o esperava desde a manh. Os pais estavam contentes e completamente de acordo. Espreitara a chegada do noivo, para ser a primeira a anunciar-lhe aquela felicidade; entretanto, envergonhada e confusa, no sabia muito bem como pr em prtica o projecto. Da que, ao ouvir os passos e a voz de Levine, se tivesse escondido atrs da porta  espera que Mademoiselle Linon sasse. Ento, sem pensar um segundo, aproximara-se de Levine e lanara-
-se-lhe nos braos.
- Agora vamos ter com a me - disse ela, pegando-lhe na mo.
Por muito tempo, Levine no foi capaz de abrir a boca, no tanto por recear conturbar com palavras a elevao daquele sentimento como porque de cada vez que o ia fazer notava que em lugar de palavras s tinha lgrimas de felicidade. Pegou na mo de Kitty e beijou-a.
- Ser possvel que seja verdade? - disse, por fim, em voz surda. - No posso acreditar que tu me queiras.
Kitty sorriu ao ouvir aquele tu e ao ver a expresso tmida com que Levine a fitara.
- Acredita! - pronunciou Kitty, com lentido significativa. - Sou to feliz!
E sempre de mos dadas penetraram no salo. A princesa, ao v-lo, perturbou-se e principiou a chorar, mas da a pouco estava a rir. Caminhou ao encontro dos dois num passo to enrgico que surpreendeu
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Levine, e, tomando a cabea dele entre as mos, beijou-o, humedecendo-
-Ihe de lgrimas as faces.
- Assim tudo acabou pelo melhor! Estou contente! Ame-a muito! Estou contente... Kitty!
- As coisas arranjaram-se depressa! - exclamou o velho prncipe, procurando mostrar-se sereno. Levine notou, porm, que ele tinha os olhos hmidos quando se lhe dirigiu. - H muito que o desejava. Sempre o desejei - acrescentou, pegando na mo de Levine e atraindo-o a si. - J ento, quando se meteu na cabea desta desmiolada...
- Paizinho! - exclamou Kitty, tapando-lhe a boca com a mo.
- Bom, bom, calar-me-ei.. Estou muito, muito... Meu Deus, que tolo eu sou!
O prncipe abraou Kitty, beijou-a no rosto, nas mos e beijando-
-Ihe de novo as faces, abenoou-a. E um novo sentimento de afecto para com aquele homem invadiu Levine quando viu com que ternura Kitty lhe beijava longamente a grossa mo musculosa.
CAPTULO XVI
A princesa, numa poltrona, calava e sorria; o prncipe sentara-se junto dela. Kitty continuava ao lado do pai, sempre com a mo dele na sua. Todos se calavam.
A princesa foi a primeira a dar o seu verdadeiro nome s coisas e, pondo de lado os sentimentos, falou de problemas vitais. A todos, no primeiro momento, isso pareceu doloroso.
- Pois bem, agora temos de pensar em casar estas crianas em boa e devida forma e em anunciar o casamento. Para quando a boda? Que te parece, Alexandre?
- Neste assunto, ele  a personagem principal - disse o velho prncipe, apontando para Levine.
- Quando? - perguntou este, corando.-Amanh! Visto que me perguntam, dir-lhes-ei que a bno pode ser hoje e a boda amanh.
- Ora, mon cher, no diga tolices.
- Bom, dentro de uma semana.
- No h dvida de que est doido.
- Mas porqu?
- E o enxoval ? - exclamou a me, a quem a impacincia de Levine fizera sorrir.
"Ser indispensvel enxoval e tudo o mais ?", pensou Levine, horrorizado, "Mas nem o enxoval, nem o noivado, nem o resto podero
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empanar esta felicidade." Olhou para Kitty e verificou que a ideia do enxoval a no perturbara. "Ento  preciso", pensou.
- Eu no sei nada. Apenas expus os meus desejos - replicou, desculpando-se.
- Depois falaremos. De momento, podemos proceder  bno e anunciar o casamento.
A princesa aproximou-se do marido, beijou-o e fez meno de sair; mas este deteve-a, e abraando-a com meiguice, como um jovem enamorado, beijou-a por sua vez uma e mais vezes, sorrindo. Ao que parecia, os velhos pensavam serem eles os noivos. Quando saram, Levine aproximou-se da noiva e pegou-lhe na mo. Dominara-se finalmente e podia falar. Tinha muito que dizer. No entanto, disse coisas de todo em todo diferentes das que pensava dizer.
- Sabia que isto tinha de ser assim - afirmou. - Sem nunca ter ousado esper-lo, no fundo da minha alma estava convencido de que assim seria. Estava escrito no livro do destino.
- E eu - murmurou Kitty-, melhor ento... -Calou-se e depois continuou olhando-o, resoluta, com os seus olhos sinceros. - Mesmo ento, quando me recusei a aceitar a felicidade, era a si que amava. Obedeci a um capricho. Tenho o dever de lho dizer. Poder esquec-lo?
- Talvez tenha sido melhor assim. Tambm tem de me perdoar certas coisas, pois devo confessar-lhe que...
Levine tinha decidido contar-lhe tudo desde o princpio: que no era to puro como ela, nem era crente. Seria penoso dizer-lhe, mas considerava um dever confessar-lho.
- No; agora no. Depois... - disse.
- Bom, ento depois, mas h-de dizer-mo, sem falta. No tenho medo de nada. Deve dizer tudo. Agora tudo est resolvido. Levine completou a frase.
- Est resolvido que me receber tal como eu sou... ? Que no me repelir?  verdade?
- Sim, sim,  verdade.
A conversa foi interrompida por Mademoiselle Linon, que vinha felicitar a discpula predilecta, com um sorriso meigo, embora fingido. Ainda ela no sara da sala, chegaram os criados tambm para felicitar Kitty. Depois vieram os parentes, o que deu princpio a uma confuso que submergiu Levine num estado de bem-aventurana de que no emergiu at ao dia seguinte ao da boda. Sentia-se enfadado e aborrecido, posto que fosse cada vez maior a sua felicidade. Vivia sob a permanente impresso de que lhe exigiam muitas coisas que ele no sabia fazer, embora as realizasse todas, e isso dava-lhe grande satisfao. Tendo pensado que o seu noivado seria diferente de todos, e que afinal se cumpria dentro das circunstncias tradicionais, supunha ver empanada a felicidade que sentia. Contudo, passando exactamente por onde todos os
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demais noivos passavam, a sua felicidade atingia propores extraordinrias.
- Agora - sugeria Mademoiselle Linon -, vamos comer muitos bombons. - E l ia Levine comprar bombons.
- As minhas felicitaes - exclamou Sviajski. - Aconselho-o a comprar as flores no Fomine.
O irmo disse-lhe que pedisse dinheiro emprestado, pois teria de fazer muitas despesas, dar muitos presentes.
- Tenho de dar presentes? - E Levine foi a correr  joalharia Fould.
Tanto na confeitaria como na casa Fomine t na joalharia Fould, Levine teve a impresso de que o esperavam e que se sentiam contentes por compartilhar da felicidade dele, como, alis, todos com quem privava naqueles dias. Era extraordinrio no s como todos o estimavam, mas at mesmo como aqueles que lhe tinham parecido antipticos, frios e indiferentes pareciam entusiasmados com ele. Obedeciam-lhe em tudo, mostravam-se delicados para com os seus sentimentos amorosos e participavam da convico em que ele vivia, de que era o ser mais feliz do mundo, uma vez que tinha por noiva a perfeio personificada. Kitty sentia o mesmo. Quando a condessa Nordston se permitiu insinuar que teria desejado algo melhor para Kitty, esta exaltou-se, demonstrando-lhe, de maneira convincente, no haver no mundo homem melhor do que Levine. A condessa viu-se obrigada a concordar e na presena de Kitty sempre acolhia Levine cem um sorriso de admirao.
A circunstncia mais penosa por que teve de passar naquela altura foi a explicao que prometera a Kitty. Depois de consultar o velho prncipe, com o seu consentimento, confiou a Kitty o dirio onde anotara o que o atormentava. Escrevera-o com o pensamento na futura noiva. Duas coisas o torturavam: o facto de no estar puro e de no crer em Deus. Esta ltima confisso passou por assim dizer inadvertida. Kitty era religiosa, nunca duvidara das verdades da religio, mas a falta de f do noivo deixava-a indiferente. Esse corao, que o amor lhe revelara, continha tudo o que ela precisava. Pouco se lhe dava que Levine considerasse de incrdulo o seu estado de conscincia. Pelo contrrio, a outra confidncia f-la chorar muitas lgrimas.
Levine confiara o dirio a Kitty, aps prolongada luta consigo mesmo. Era de opinio que entre eles no devia haver segredos. Por isso decidiu entregar-lho. No pensou, contudo, no efeito que produziria, pois no podia identificar-se com Kitty. Uma noite, ao chegar a casa dos Tcherbatski preparado para ir ao teatro, entrou nos aposentos de Kitty e viu que ela tinha o lindo rosto lavado em lgrimas, merc da pena irreparvel que essa leitura lhe causara. S ento compreendeu o abismo que havia entre o seu vergonhoso passado e a pureza imaculada da noiva. E sentiu-se horrorizado com o que fizera.
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- Leve-o, leve da esse horrvel dirio! - exclamou Kitty, afastando os cadernos que tinha diante de si, em cima da mesa. - Para que me deu isto? No, no, assim foi melhor - acrescentou, compadecida, ao ver o desespero que se pintara no rosto de Levine. -  horrvel, horrvel!
Levine baixou a cabea e permaneceu calado. Nada podia fazer.
- No me perdoar ? - perguntou, num suspiro.
- Perdoo, j perdoei, mas  horrvel!
No entanto, a felicidade de Levine era to grande que aquele desgosto a no pde afectar e at lhe deu um novo matiz. Kitty perdoara-lhe, mas desde ento considerava-se menos digno dela, ainda a reverenciava mais e apreciava como nunca a ventura imerecida que lhe era dada.
CAPTULO XVII
Ao voltar para o seu quarto solitrio, Alexei Alexandrovitch recordou, involuntariamente, as conversas daquela noite. As palavras de Dolly incitando-o a perdoar tinham-no apenas enfurecido. Aplicar ou no ao seu caso as normas religiosas era um problema rduo, de que se no podia falar de nimp leve, e havia j algum tempo que Karenine o resolvera de modo negativo. De tudo o que se dissera em casa de Oblonski as palavras que maior impresso lhe tinham produzido foram as do bondoso e nscio Turovstsine: "Portou-se como um valente. Desafiou-o e matou-o." Naturalmente era a opinio de todos, embora a no manifestassem por cortesia.
"Por outro lado, o assunto est resolvido. No h mais nada a acrescentar-lhe", disse Alexei Alexandrovitch. Meditando na sua futura viagem e no problema que ia estudar, subiu para os seus aposentos, perguntando pelo criado ao guarda-porto que o acompanhava. Dizendo--Ihe este que acabava de sair, Karenine pediu que lhe servissem ch, sentou-se  mesa e principiou a estudar no guia dos caminhos de ferro o itinerrio da viagem.
- Vieram dois telegramas - disse o criado, que entretanto penetrara no aposento. - Queira perdoar-me, Excelncia, por eu ter sado.
Alexei Alexandrovitch pegou nos telegramas e abriu-os. O primeiro anunciava-lhe que Stremov fora nomeado para um cargo cobiado por Karenine. Atirou fora o telegrama, corou, levantou-se e ps-se a percorrer o quarto de um lado para o outro. "Quos vult perere Jpiter dementai prius" ', disse entre dentes, e os quos eram as pessoas que tinham con-
qucles que Jpiter quer perder enlouquece-os primeiro.
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corrido para semelhante nomeao. No lhe doa o facto de lhe no terem confiado esse cargo, de o terem deixado  margem; estranhava, porm, e afigurava-se-lhe incompreensvel, que no dessem conta de que esse charlato do Stremov era a criatura menos apta para o desempenhar. Pois no compreendiam que com aquela nomeao se prejudicavam, e prejudicavam, inclusive, o seu prprio prestge?
"Deve ser qualquer coisa no mesmo estilo", disse de si para consigo, enquanto abria o segundo telegrama. Era da mulher. A primeira coisa que lhe saltou  vista foi o nome "Ana", escrito a lpis azul.
Estou  morte. Rogo-lhe, suplico-lhe que venha. Morrerei mais tranquila com o seu perdo.
Leu Karenine. Sorriu desdenhosamente e atirou fora o telegrama. No primeiro momento, persuadiu-se de que se tratava de uma astcia, de um ludbrio.
"No se deter de nenhuma mentira. Deve estar para dar  luz. Talvez seja isso. Qual o seu propsito? Que eu reconhea a criana, comprometendo-me e impedindo assim o divrcio. Mas est ali escrito: "Estou  morte..." Tornou a ler o telegrama. E desta vez impressionou-o o sentido concreto do seu contedo. "E se fosse verdade?", disse de" si para consigo. "Se fosse verdade que num momento de sofrimento, ante a morte prxima, se arrependesse sinceramente, e eu, pensando ser uma fraude, me negasse a ir? No s seria crueldade que todos me censurariam, mas resultaria mesmo em estupidez da minha parte."
- Pedro, uma carruagem. Vou a Sampetersbugo - disse para o criado. Decidira ir a Sarnpetersburgo ver a mulher. Se se tratasse de um ludbrio, voltaria sem falar com ela. Se realmente estivesse doente, se estivesse  morte e desejasse v-lo antes de morrer, perdoar-lhe-ia. Caso chegasse tarde de mais, pelo menos cumpriria os seus ltimos deveres para com ela.
Durante todo o caminho no pensou noutra coisa seno no que ia fazer. Cansado e com a sensao de pouco asseio, depois de uma noite inteira no comboio, Karenine seguia de carro, no meip da nvoa matinal de Sarnpetersburgo, ao longo da deserta Perspectiva Nevski, os olhos fitos na sua frente, sem pensar no que o esperava. Impossvel pensar nisso. Ao imaginar o que iria acontecer, no podia arredar do esprito a ideia de que a morte decidiria da dificuldade em que se encontrava. Atentava nos padeiros, nas lojas fechadas, nos cocheiros estremunhados, nos porteiros que varriam os passeios, e olhava para tudo isso, procurando afogar no seu foro ntimo a imagem do que talvez fosse acontecer, do que no quereria desejar e apesar de tudo desejava. Chegou  porta de casa. Um trem de aluguer e outro particular, cujo cocheiro dormitava, estavam junto  escada do alpendre.
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Ainda na rua, Alexei Alexandrovitch, num grande esforo sobre si mesmo, arrancou do escaninho mais recndito do crebro uma deciso que podia formular-se deste modo: "Se ela me enganou, manterei uma calma desdenhosa e voltar-lhe-ei as costas; se falou verdade, respeitarei as conversaes."
A porta abriu-se antes de Karenine ter tocado. O porteiro, Petrov, a quem chamavam Kaptitonitch, oferecia um aspecto estranho, sem gravata, com um velho redingote pelas costas e de pantufas nos ps.
- A senhora como est ?
- Deu ontem  luz, felizmente.
Alexei Alexandrovitch deteve-se e empalideceu. Naquele momento compreendeu at que ponto desejara a morte de Ana.
- E de sade?
Kornei, com o seu avental das limpezas, descia as escadas a correr.
- Muito mal - respondeu Kornei. - Ontem houve conferncias de mdicos, e o senhor doutor est no quarto.
- Tirem as malas do carro - ordenou Alexei Alexandrovitch.
E experimentando certo alvio ao ouvir aquela notcia, visto que a esperana da morte subsistia, penetrou no vestbulo.
No bengaleiro havia um capote militar. Ao v-lo, Karenine perguntou:
- Quem est a~ui c n rara?
- O mdico, a parteira e o conde Vronski.
Alexei Alexandrovitch penetrou no interior da casa.
No salo no havia ningum. Ao ouvir os passos de Karenine, a parteira, com uma touca de fitas lilases, saiu do toucador.
Aproximou-se de Alexei Alexandrovitch e com a familiaridade que d a eminncia da morte, arrastou-o consigo, travando-o pelo brao.
- Graas a Deus que chegou. No faz outra coisa seno pronunciar o seu nome - disse ela.
- Tragam j o gelo - ordenou o mdico, de dentro do quarto, em voz autoritria.
Karenine penetrou no toucador de Ana. Ao p da mesa, sentado de lado numa cadeira baixa, estava Vronski, que chorava com o rosto oculto nas mos. Ao ouvir a voz do mdico, afastou as mos do rosto e levantou-se de chofre. Vendo, porm, o marido de Ana, to perturbado ficou que voltou a sentar-se, enterrando a cabea entre os ombros, como se quisesse desaparecer. Num esforo sobre si mesmo, contudo, ps-se de novo em p e disse:
- Est  morte. Os mdicos dizem que no h esperana. Tem-me inteiramente  sua disposio, consinta, porm, que permanea aqui... Pode fazer de mim o que quiser, eu...
Ao ver as lgrimas de Vronski, Karenine sentiu-se tolhido pela perturbao que sempre lhe produzia o sofrimento dos outros. Voltando
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o rosto, e sem acabar de ouvir o que ele dizia, dirigiu-se precipitadamente para a porta. Do quarto de dormir vinha a voz de Ana. Era alegre, animada, e com inflexes muito definidas. Alexei Alexandrovitch entrou e aproximou-se do leito. Ana, deitada, tinha o rosto voltado para ele; as faces ardiam, os olhos brilhavam e as suas pequenas mos brancas, emergindo dos punhos da camisa de noite, brincavam com a franja da colcha, retorcendo-a. No s parecia fresca e de perfeita sade, mas na mais feliz disposio de esprito. Falava depressa, em voz sonora e em inflexes muito precisas e cheias de sentimento.
- Porque o Alexei (Alexei Alexandrovitch, claro; que estranho e terrvel  o destino, no  verdade? Ambos Alexei!) no mo negaria. Eu esqueceria tudo e ele perdoava-me... Mas porque no vem?  bom, nem sequer sabe que  bom. Ai, meu Deus! Que pena! D-me gua! Que pressa! Oh! Ser ele mau para minha filha? Sim, ento levem-na a casa de uma ama. Acho melhor. H-de custar-lhe v-la quando chegar. Levem-na!
- Ana Arkadievna, j chegou, est aqui - disse a parteira, procurando chamar a ateno de Ana para o marido.
- Oh! Que absurdo! - continuou Ana, sem ver Karenine. - Tragam-me aqui a menina. Sim, tragam-na. 'Ele ainda no veio. Dizem que ele no me perdoa porque o no conhecem. Ningum o conhecia. S eu, e era-me penoso.  preciso conhecer-lhe os olhos. Seriocha tambm os tem assim, e por isso o no pode ver. Deram de comer ao Seriocha? Estou convencida de que se esquecem dele. Ele no se teria esquecido. Tm de mudar o Seriocha para outro quarto. E dizer  Mariette que durma aqui.
De sbito, teve uma contraco, calou-se e, com uma visagem de espanto, como se aguardasse que lhe vibrassem um golpe e quisesse defender-se, cobriu o rosto com as mos. Tinha visto o marido.
- No, no! No  dele que tenho medo,  da morte! Tenho pressa, o tempo  pouco, tenhc pouco tempo de vida. Vai-me subir outra vez a febre e j no compreenderei nada. Neste momento entendo tudo e vejo tudo.
O rosto contrado de Alexei Alexandrovitch adoptou uma expresso de sofrimento; quis dizer qualquer coisa, mas foi incapaz. Tremia-lhe o lbio inferior, sempre lutando com a emoo que o tomava. S de quando em quando olhava para a mulher. De cada vez que a fitava, via os olhos de Ana que o olhavam com uma doura e um enternecimento como nunca em sua vida assim os vira.
- Espera, no sabes... Espera, espera - e Ana calou-se, como para concentrar as ideias. - Sim, sim, sim - principiou -, era isso que eu queria dizer. No te surpreenda veres-me. Sou a mesma de antes... mas em mim h outra e tenho medo dela! Essa enamorou-se de um homem, e eu quis odiar-e, mas no pude esquecer a que era antes... Agora
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sou toda inteira, verdadeiramente eu, no a outra. Morro, sei que vou morrer. Perguntem-lhe a ele. Sinto um peso nos braos, nas pernas e nos dedos. Olha que dedos to grandes! Mas tudo isto acabar, no tarda... S preciso de uma coisa: que me perdoes, que me perdoes de todo. Sou terrvel, mas a minha ama dizia-me que uma santa mrtir, como se chamava ela?, foi pior. Irei a Roma, h ali um deserto, e ento no incomodarei ningum. S levarei comigo o Seriocha e a menina... No, no me podes perdoar, sei que isto no se pode perdoar. No, no, vai-te, s bom de mais. - Ana agarrava com uma das suas mos ardentes a mo do marido, enquanto com a outra o repelia.
A perturbao de Alexei Alexandrovitch ia crescendo sempre e a um tal grau chegou que cessou de lutar consigo mesmo. De sbito, percebeu que aquela sensao era um estado de esprito beatfico, que lhe proporcionava uma nova felicidade, felicidade que nunca experimentara antes. No acreditava que a doutrina crist, que toda a vida quisera seguir, lhe ordenava que perdoasse aos inimigos e os amasse; e eis que um estranho sentimento de amor e perdo lhe inundava a alma. Ajoelhado junto da cama, a testa apoiada contra esse brao que escaldava de febre e o queimava atravs da camisa de noite, soluava como uma criana. Ana debruou-se para ele, envolveu no seu brao a cabea calva do marido e ergueu os olhos, num desafio.
-  ele, eu bem sabia! E agora adeus, adeus a todos... L vem outra vez. Por que no se vo embora? Tira-me essas peles de cima!
O mdico voltou a deit-la, suavemente, nos travesseiros, tendo o cuidado de lhe cobrir os braos e os ombros. Ana deixou que a deitassem sem resistncia, o olhar fixo diante de si.
- Lembra-te de uma coisa: s precisava do teu perdo, no peo mais nada... Porque no vem ele? - continuou, voltada para a porta onde estava Vronski - Aproxima-te, aproxima-te! D-lhe a mo.
Vronski aproximou-se do leito e, ao ver Ana, voltou a tapar o rosto com as mos.
- Destapa o rosto e olha para ele!  um santo - disse Ana.- Anda, destapa o rosto, destapa o rosto! - repetia, irritada. - Alexei Alexandrovitch, destapa-lhe o rosto. Quero v-lo.
Karenine retirou as mos de Vronski, afastando-lhas do rosto, terrvel na sua expresso de dor e vergonha.
- D-lhe a mo. Perdoa-lhe.
Karenine estendeu a mo a Vronski, sem poder conter as lgrimas que lhe saltavam dos olhos.
- Graas a Deus! Graas a Deus! - exclamou Ana. - Agora tudo est arranjado. S quero esticar um pouco as pernas. Assim, assim estou muito bem. Que feias so essas flores. No parecem violetas - continuou, apontando para o papel que forrava as paredes do quarto. - Meu
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Deus! Meu Deus! Quando acabar isto/1 Morfina, doutor, morfina. Oh, meu Deus, meu Deus!
O mdico assistente e os demais que a viram disseram que se tratava de uma febre puerperal, em que noventa e nove por cento dos casos so mortais. Ana passou todo o dia com febre, delirando e em estado de inconscincia.  meia-noite perdeu os sentidos e o pulso quase no batia.
Esperava-se a todo o momento que acabasse.
Vronski foi a casa, mas pela manh apareceu para saber do estado de Ana. Alexei Alexandrovitch, que veio ao seu encontro no vestbulo, disse-lhe:
- Fique. Talvez pergunte pelo senhor.
E ele prprio o acompanhou ao quarto da mulher.
Ana principiou a agitar-se de novo, mostrou-se animada, falou depressa e finalmente voltou a ficar inconsciente. No terceiro dia sucedeu o mesmo, mas os mdicos disseram que havia esperanas. Naquele mesmo dia Alexei Alexandrovitch entrou no toucador onde estava Vronski, e depois de fechar a porta sentou-se diante dele.
- Alexei Alexandrovitch - disse Vronski, dando-se conta de que se aproximava o momento da explicao-, no posso falar. De momento no sou capaz de falar nem de compreender. Tenha piedade de mim! Por maior que seja o seu sofrimento, pode crer que o meu ainda  muito mais terrvel!
Fez meno de se levantar, mas Karenine, pegando-lhe pela mo, disse-lhe:
- Peco-lhe que me escute,  necessrio. Tenho de expor-lhe os sentimentos que me tm guiado e ho-de guiar-me, para que se no equivoque a meu respeito. Sabe que resolvi pedir o divrcio e que, outrossim, j principiei a tratar do caso. Confesso-lhe que de princpio vacilei e sofri muito, que me perseguia o desejo de vingar-me do senhor e dela. Ao receber o telegrama, vim com os mesmos sentimentos, e mais: desejei a morte de Ana, mas... -Calou-se, hesitante, sem saber se devia desvendar-lhe o sentimento que o movia - vi-o, porm, e perdoei-lhe. E a felicidade que senti com o facto de o ter feito diz-me qual o meu dever. Perdoei-lhe sem reservas. Quero oferecer a outra face, quero dar a camisa a quem me tira o cafet. S peo a Deus que me no roube a dita de perdoar!
As lgrimas inundaram os olhos de Karenine e o seu olhar claro e sereno surpreendeu Vronski.
-  esta a minha opinio. Pode espezinhar-me na lama, fazer de mim objecto de irriso diante do mundo, mas no abandonarei a Ana e nunca lhe dirigirei a si uma palavra de censura - continuou Karenine. - O meu dever est claramente traado a meus olhos: devo permanecer ao lado dela e assim farei. Se ela quiser v-lo, avis-lo-ei; agora, porm, parece-me melhor que se retire.
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Karenme levantou-se e os soluos interromperam-lhe as ltimas palavras Vronski tambm se levantou e sem erguer o busto, prostrado, olhou para Karenme, de cabea baixa No compreendia os sentimentos de Alexei Alexandrovitch, pressentia, contudo, que eram elevados e mesmo inacessveis para ele.
CAPTULO XVIII
Depois da sua conversa com Karenme, Vronsla veio para o alpendre e deteve-se, procurando, com grande esforo, recordar-se onde estava e para onde devia ir Sentia-se envergonhado, culpado, humilhado e sem possibilidade de fazer desaparecer aquela humilhao Via-se projectado para fora do caminho que at ento seguira to facilmente e com tanto orgulho Todas as regras que tinham servido de base  sua vida e que ele supunha inatacveis revelaram se lhe agora falsas e mentirosas. O mando enganado, essa triste personagem que ele considerava um obstculo acidental, e por vezes cmico,  sua felicidade, acabava de ser elevado por "ela" a uma altura que inspirava respeito Em vez de ridculo mostrava-se simples, grande e generoso Os papis estavam trocados Vronski no podia iludir-se De um lado, a grandeza e a rectido de Karenme, do outro a sua prpria baixeza Aquele marido enganado surgia magnnimo na sua dor, enquanto ele prprio se via pequeno e miservel No entanto, este sentimento de inferioridade em relao a um homem que ele to injustamente desprezara s em muito pequena parte entrava no aca-brunhamento que experimentava O que lhe causava tamanho desespero era a ideia de perder Ana para sempre A paixo que supusera, por momentos, apaziguara se, reanimava se mais violenta do que nunca A doena de Ana dera lhe ocasio de conhece Ia melhor e afigurava se-lhe nunca lhe ter querido tanto E agora que a conhecia e amava realmente, ia perd-la, restando-lhe apenas a mais abjecta e humilhante das recordaes Lembrava, horrorizado, o momento ridculo e odioso em que Alexei Ale-xandrovitch lhe afastara as mos do rosto, destapando-lhe a face que ele cobria Imvel no alpendre, dir-se-ia ter perdido a conscincia dos seus prprios actos
- Quer que chame um trem5 - perguntou-lhe o guarda-porto
- Isso mesmo, um trem
De regresso a. casa, Vronski, esgotado por trs noites de insnia, estendeu se sem se despir em cima de um div Descansava a cabea fatigada nos braos cruzados As reminiscncias, os pensamentos, as impresses mais estranhas sucediam se-lhe no esprito com uma rapidez
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e uma lucidez extraordinrias Ora se via a dar uma poo  doente, com a colher derramando o lquido, ora diante de si descobria as brancas mos da parteira ou ainda atentava em Alexei Alexandrovitch estranhamente ajoelhado no cho junto ao leito
"Dormir' Esquecer'", dizia de si para consigo com a serena resoluo de um homem so, certo de, em caso de fadiga, poder adormecer  vontade E, com efeito, naquele mesmo instante tudo se lhe confundiu no crebro e principiou a afundar-se no precipcio da inconscincia As ondas do mar da vida inconsciente envoh iam lhe a cabea quando de sbito lhe pareceu que uma forte corrente elctrica se lhe descarregava sobre o corpo Estremeceu, e de tal sorte que deu um salto em cima das molas do div e, apoiando-se nas mos, ficou de joelhos, muito assustado Tinha os olhos desmesuradamente abertos, como se no tivesse pensado em dormir Repentinamente desapareceram lhe o peso da cabea e a. flacidez dos msculos
"Pode arrastar-me pela lama " Estas palavras de Alexei Alexan drovitch ressoaram lhe aos ouvidos e viu o diante de si Via o rosto ardente de Ana, com os seus olhos brilhantes, que no o olhavam, a ele, com doura e amor, mas a Alexei Alexandrovitch Viu a sua prpria figura, sem dvida estpida e ridcula, quando Karemne lhe destapou o rosto Esticou de novo as pernas e atirou se para cima do div, na posio anterior, fechando os olhos
"Quero dormir, quero dormir1", repetiu para si mesmo Mas, de olhos fechados, ainda via mais nitidamente o rosto de Ana, tal como era na memorvel tarde das corridas
-  impossvel, isso no voltar mais Ana quer banir me do seu pensamento E eu, em compensao, no posso viver sem ela Como reconciliarmo nos, como reconciliarmo-nos' - disse Vronski em voz alta, repetindo, conscientemente, e por vrias vezes, as mesmas palavras O facto de o fazer evitava que se lhe representassem de novo na imaginao imagens e recordaes que lhe assaltavam o crebro Mas no por muito tempo De novo lhe assaltaram o esprito, com extraordinria rapidez, uns atrs dos outros, os momentos felizes, e com eles a recente humilhao por que passara "Destapa o rosto", dizia a voz de Ana. Ao destapar o rosto dava se conta de que o seu aspecto era ridculo e humilhante
Continuava deitado no div, procurando dormir Mas percebia baldada a esperana de o conseguir, e sem cessar repetia para si mesmo palavras ao acaso, para assim evitar que novas imagens lhe aparecessem Prestou ateno e ouviu as seguintes palavras, pronunciadas num murmrio estranho e enlouquecedor "No a soubeste apreciar nem tirar partido dela No a soubeste apreciar nem tirar partido dela"
"Que  isto' Vou enlouquecer'", perguntou a si prprio "Talvez Por que enlouquecem as pessoas' Por que se suicidam'", dizia e, abrindo
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os olhos, viu, com assombro, junto  cabea, a almofada bordada por Vria, a mulher do irmo Apalpou a borla da almofada, procurando lembrar se de Vria tal como a vira da ltima vez Mas o facto de pensar em alguma coisa alheia ao que o torturava, tornava-se-lhe doloroso "No, devo dormir " Puxou a almofada e encostou nela a cabea, mas foi obn gado a fazer um grande esforo para manter os olhos fechados Levantou--se de um salto e ficou sentado no div "Isto acabou para mim", disse " preciso pensar no que devo fazer Que me resta'" E perpassou-lhe, rpida, por diante dos olhos, a sua vida com Ana
"A ambio' Serpukovski' A sociedade' A Corte'" No conseguiu fixar o pensamento em coisa alguma Tudo aquilo tivera antes significado, mas agora, no Levantou-se, tirou o dlman, desabotoou o cinturo para permitir ao vasto peito respirar mais livremente e ps-se a andar de um lado para o utro " assim que as pessoas enlouquecem", repetiu " assim que se suicidam para no se envergonharem", acrescentou lentamente
Aproximou se da porta e fechou a Em seguida, de olhar fixo e dentes cerrados, dirigiu se  mesa e pegou no revlver Depois de o examinar, armou o e ficou a cismar Dois minutos esteve imvel, a cabea baixa, a expresso concentrada, o revlver na mo "Certamente", disse de si para consigo, como se o curso de um pensamento lgico e prolon gado o tivesse conduzido a uma concluso indiscutvel Na verdade, aquele convicto "certamente" era apenas consequncia da repetio do mesmo crculo de recordaes e imagens por que passara vrias dezenas de vezes no espao de uma hora as mesmas lembranas de uma felicidade perdida para sempre, a mesma ideia de que tudo carecia de finalidade na sua vida futura e a mesma conscincia da humilhao por que passara E tambm a mesma sucesso de imagens e de sentimentos
"Certamente", repetiu ao vir lhe  mente pela terceira vez aquele crculo mgico de recordaes e pensamentos Apoiou o cano do revlver na parte esquerda do peito, contraiu nervosamente a mo, como se apetasse o punho, e premiu o gatilho No ouviu a detonao, mas uma violenta pancada no peito f Io vacilar Procurou amparar-se  borda da mesa, largou o revlver e, cambaleando, sentou se no cho a olhar, surpreendido,  sua roda No reconhecia o quarto, ao ver dali debaixo os ps retorcidos da secretria, o cesto dos papis e a pele de tigre Os passos rpidos e rangentes do criado que atravessava a sala obrigaram no a vir a si Fez um esforo mental e compreendeu que estava no cho Ao ver sangue na pele de tigre e na mo, recordou se de que disparara contra si
"Que estupidez1 Falhei o tiro", murmurou, procurando apanhar o revlver com a mo A arma estava junto de si, mas Vronski apalpava mais adiante Prosseguiu na busca, esticou se para o outro lado e, ,sem foras para conservar se em equilbrio, tombou para o cho, banhado em sangue
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O criado, personagem elegante, que usava suas e costumava queixar--se aos amigos da delicadeza dos nervos, to aterrado se sentiu ao ver o amo que o deixou por terra e saiu  procura de socorros Uma hora depois, Vria, a cunhada de Vronski, chegava, e com o auxlio de trs mdicos, que conseguira juntar, apelando para trs pontos distintos da cidade, conseguiu deitar o ferido, quedando-se a seu lado para o tratar.
CAPTULO XIX
Alexei Alexandrovitch no previra que a mulher dana provas de arrependimento sincero, cue ojteria o seu perdo e se restabeleceria Dois meses aps o seu regresso de Moscovo, este erro evidenciou-se-lhe em toda a sua gravidade Er um erro que se fundamentava menos na falta de clculo do que no descobrimento do seu prprio corao Junto ao leito da mulher agon'zante, pela primeira vez na sua vida se abandonara a esse sentimento de comiserao pelas dores alheias contra que sempre lutara como se Int.' contra uma fraqueza perigosa Os remorsos que sentia por ter desejado a morte de Ana, a piedade que ela lhe inspirava e acima de tudo o prprio sentimento de felicidade que lhe vinha do perdo concedido haviam convertido uma fonte de sofrimento num manancial de alegria tudo o que no seu dio e na sua clera julgava inex-tnncvel, se tornava claro e simples, agora que amava e que perdoava
Perdoara  mulher e apiedava se dela pelo muito que sofria e se arrependia Perdoara a Vronski e igualmente se apiedava dele depois do seu acto de desepero Tinha pena do filho e mais pena do que at ento, pois se acusava a si rnesmo de o ter menosprezado Quanto  recm--nascida, essa mspiravi-lhe mais do que piedade verdadeira ternura Ao ver aquela criana dbil abandonada durante a doena da me, consagrou-se a ela e salvou a da morte, dedicando se lhe sem dar por isso A criada e a ama, que o viam entrar vrias vezes ao dia no quarto das crianas, intimidadas de princpio, acabaram por habituar se a v-lo Ficava, s vezes, meia hora a contemplar o rostozmho vermelho, cor de aafro, gorduchinho e enrugado, da pequenina criatura adormecida, e seguia lhe os movimentos da testa plissada, observando-lhe as mozinhas cheias, que esfregavam o nariz e os olhos Nesses momentos Alexei Alexandrovitch sentia-se tranquilo, em paz consigo mesmo, e no dava pelo que havia de anormal na situao
Mas,  medida que o tempo passava via, com maior nitidez, que, por mais natural que se lhe afigurasse aquele estado de coisas, continuar assim no era possvel Dava se conta de que para alm da bondosa fora
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moral que lhe estimulava a alma, outra fora havia, vulgar, e to forte ou mais forte que lhe guiava a vida e lhe permitiria desfrutar daquela tranquilidade pacfica que tanto desejava Notava que era olhado por todos com surpresa e interrogao, que o no compreendiam e que esperavam dele alguma atitude E acima de tudo notava a inconscincia e a pouca naturalidade das suas relaes com a mulher
Quando se desvaneceu esse enternecimento que a vizinhana da morte facilita, Alexei Alexandrovltch principiou a dar se conta de que Ana tinha medo dele, que se no sentia  vontade na sua presena e que no ousava olha Io nos olhos Era como se quisesse dizer lhe qualquer coisa, sem coragem para isso, e tambm como se pressentisse que as suas relaes no podiam continuar assim e aguardasse da sua parte uma soluo qualquer
Em fins de Fevereiro, a recm nascida, Ana tambm, adoeceu Alexei Alexandrovltch, que fora pela manh ao quarto das crianas, depois de ordenar que chamassem o mdico, seguiu para o Ministrio Concludo que foi o seu trabalho, voltou para casa quando j passava das trs horas Ao penetrar no vestbulo, viu um criado pernalta com uma libr guarnecida de pele de urso, que tinha debaixo do brao uma capa de pele branca
- Quem  que esta a' - perguntou Karemne
- A princesa Isabel Fiodorovna Tverskaia - respondeu o criado, sorrindo, que assim se lhe afigurou
Durante toda aquela penosa quadra, Karemne notara, da parte das suas relaes mundanas, sobretudo femininas, um interesse muito particular, tanto por ele como pela mulher Observara em toda essa gente aquela espcie de alegria mal dissimulada que encontrara nos olhos do advogado e que via agora nos do lacaio. se lhe perguntavam pela sade, dir se ia que os seus interlocutores pareciam encantados, era como se algum fosse casar-se.
A presena da princesa no podia agradar a Alexei Alexandrovltch no s nunca lhe fora afeioado, como lhe vinha trazer desagradveis recordaes Eis por que foi direito ao quarto das crianas Na antecmara, Senocha, deitado em ama da mesa e com os ps sobre a cadeira, dese nhava, tagarelando alegremente Sentada junto dele, a preceptora inglesa, que substitua a francesa, ento  cabeceira de Ana, fazia crochet Assim que viu entrar Karemne, levantou se, fez uma vnia e ps Senocha na cadeira Alexei Alexandrovltch acariciou a cabea do filho, respondeu s perguntas da preceptora acerca do estado da senhora e perguntou qual a opinio do mdico a respeito do baby
- Disse que no era nada de cuidado, Excelncia Mandou dar-lhe uns banhos
- Mas continua a queixar se - observou Alexei Alexandrovltch, ouvindo os vagidos da criana no quarto contguo
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- Acho que a ama no  das melhores - notou, resolutamente, a inglesa
- Porqu' - inquiriu Karemne, detendo se
- Est a suceder o que sucedeu em casa da condessa Pol, Exce lncia Tratavam a criana com remdios, mas o que ela sentia era fome a ama estava sem leite
Alexei Afcxandrovitch pensou um momento e da a pouco entrava no segundo quarto A pequenina chorava, deitada nos braos da ama, a cabea atirada para trs e recusando o seio que ela lhe dava Nem a criada nem a ama conseguiam sossega Ia
- No est melhor' - perguntou Alexei Alexandrovitch
- Est muito agitada - respondeu a criada a meia voz
- Mis s Edward  de opinio que a ama no tem leite
- Tambm acho, Alexei Alexandrovitch
- Porque o no disse'
- A quem o havia de dizer' Ana Arkadievna est doente - respondeu a criada, velha na casa, em tom irritado E esta frase muito simples, de novo se lhe afigurou uma referncia  situao dele
A criana cada vez chorava mais, sufocando, enrouquecendo A criada teve um movimento de impacincia e, tirando a criana dos braos da ama, ps se a passe Ia, baloiando a
-  preciso dizer ao mdico que examine a ama Receosa de perder o seu lugar, esta, mulher de aparncia robusta, e bem vestida, disse qualquer coisa a meia voz A ideia de que lhe faltasse leite levou a a ter um sorriso de desdm, que Karemne interpretou de novo  sua maneira
- Pobre menina' - exclamou a criada, que procurava sossegar a criana
Alexei Alexandrovitch sentou se e ficou por momentos a seguir com a vista os movimentos da criada Quando finalmente essa se afastou, depois de deitar a criana no bero e de lhe ajeitar o travesseiro, levantou--se, aproximou se na ponta dos ps, ficou se a observa Ia, por instantes, sem dizer nada e sempre com o mesmo ar prostrado De sbito, um sorriso lhe perpassou pelo rosto, saindo do quarto muito suavemente
Uma vez na sala de jantar, tocou a campainha e nundou chamar o mdico Pouco contente por ver como a mulher abandonava aquela criana encantadora, no queria ir ao quarto dela, tanto mais que no teria prazer algum em encontrar se com a princesa No entanto, como Ana poderia estranhar que ele alterasse o habito em que estava, recai cando os seus ressentimentos, dirigiu se para o quarto de dormir da mulher Ao aproximar se, como o espesso tapete amortecesse o rudo dos passos, ouviu umas palavras que o impressionaram
- Se ele no se fosse embora, compreenderia a tua negativa e a dele Mas o teu marido deve estar acima disso - dizia Betsy
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- No se trata do meu marido, mas de mim, no me fales mais em semelhante coisa - murmurava Ana em voz comovida.
- Ser possvel que no queiras tornar a ver o homem que quis matar-se por tua causa?
-  precisamente por isso que eu o no quero tornar a ver.
Alexei Alexandrovitch parou perturbadssimo, e pensou mesmo retroceder; reconhecendo, porm, que essa fuga era pouco digna, seguiu avante, tossicando. As vozes calaram-se e ele penetrou no quarto. Ana, com um penteador cinzento, os espessos cabelos pretos cortados rentes, que cresciam em forma de escova, estava sentada num canap. Toda a sua animao desapareceu, como de costume, mal o marido entrou. Baixou a cabea, relanceando um olhar inquieto a Betsy. Esta, vestida ao rigor da moda, tinha um chapu minsculo, que mais parecia um abat-jour, pousado no alto da cabea, e um vestido cor de pombo com riscas diagonais,  frente, no CP pinho e atrs, na saia. Sentada junto de Ana mantinha erguido quanto possvel o busto chato. Acolheu Alexei Alexandrovitch com uma inclinao de cabea e um sorriso irnico.
- Oh! - exclamou ela, como que surpreendida. - Muito prazer em v-lo. No aparece em parte nenhuma. Desde que Ana adoeceu que o no tinha tornado a ver. Mas soube dos cuidados que teve com ela. Que marido extraordinrio!
Disse isto num tom significativo, e afectuoso, como se lhe conferisse uma condecorao pela magnanimidade do seu procedimento para com Ana.
Alexei Alexandrovitch baixou-lhe friamente a cabea e, depois de beijar a mo  mulher, perguntou-lhe como se sentia.
- Acho que estou melhor - disse Ana, evitando-lhe o olhar.
- Ests to corada que parece que tens febre - disse Karenine, repisando a palavra "febre".
- Falmos de mais - observou Betsy. - Compreendo que foi egosmo da minha parte. Vou-me embora j.
Levantou-se;  mas  Ana, corando de repente, reteve-a pela mo.
- No, fica, peo-te. Tenho de te dizer... No, a ti - acrescentou, dirigindo-se a Alexei Alexandrovitch, e um vivo rubor lhe cobriu a testa e o colo. - No quero nem posso ocultar-te nada.
Alexei  Alexandrovitch  fez  estalar  os  dedos e baixou  a  cabea.
- A Betsy disse-me que o conde Vronski queria vir despedir-se antes de partir para Tachkent. - Falava depressa, sem olhar para o marido, desejosa de acabar. - Respondi que o no queria receber.
- Querida, disseste que isso dependeria de Alexei Alexandrovitch- corrigiu Betsy.
- Mas no, no posso receb-lo, e, tambm, isso no serviria para nada... -Ana calou-se repentinamente e olhou para o marido com uma
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expresso interrogativa (ele no olhava para ela).-Numa palavra: no quero.
Alexei Alexandrovitch levantou-se e, aproximando-se dela, fez meno de lhe tomar uma das mos.
Num primeiro impulso, Ana recusou a mo do marido, mo hmida e com grandes veias intumescidas. Porm, num esforo evidente sobre si mesma, apertou-a.
- Agradeo muito a tua confiana; mas...-replicou Karenine, perturbando-se, e compreendo, enfadado, que aquilo que facilmente podia ter dito a ss no lhe era possvel diz-'o diante da princesa Tverskaia. Esta representava para ele a personificao dessa fora vulgar que teria de guiar-lhe a vida aos olhos do mundo, impedindo-o de se entregar ao sentimento de perdo e de amor. Deteve-se, fitando a princesa Tverskaia.
- Ento adeus, querida amiga - disse Betsy, levantando-se. Beijou Ana e saiu. Karenine acornpanhou-a.
- Alexei Alexandrovitch, consider-->-o um homem generoso e sincero - disse Betsy, detendo-se no quarto de toucador e apertando a mo de Karenine de maneira significativa. - Sou uma estranha, mas estimo tanto a Ana e aprecio-o tanto ao senhor que me atrevo a dar-lhe um conselho. Alexei Vronski  a personificao da honra. Vai para Tachkent. Receba-o.
- Agradeo o seu interesse e os seus conselhos, princesa, mas s a minha mulher pertence decidir se pode ou no receber seja quem for.
Karenine pronunciou estas palavras arqueando as sobrancelhas, numa expresso de dignidade, como era seu costume. Imediatamente, porm, pensou que, fossem quais fossem as suas palavras, no estava em situao compatvel com atitudes de grande dignidade. O sorriso contido, irnico e malvolo com que Betsy acolheu a sua frase claramente lho demonstrou.
CAPTULO XX
Alexei Alexandrovitch acompanhou Betsy at ao salo, despediu-se dela e voltou para junto da mulher. Ana estava deitada, mas, ao ouvir os passos do marido, deu-se pressa em retomar a postura anterior e olhou para ele, assustada. Alexei Alexandrovitch notou que ela tinha chorado.
- Agradeo-te muito a confiana que depuseste em mim - disse ele, timidamente. E repetindo, em russo, a resposta que dera em francs a Betsy, sentou-se ao lado de Ana (aquela sua maneira de a tratar por tu quando falava russo tinha o condo de irritar Ana). Sim - continuou, sentando-se junto dela-, estou muito reconhecido pela deciso que to-
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maste. Penso, como tu, que desde que o conde Vronski se vai embora, no h necessidade de o receber. Alis..,
- Mas se eu j o disse, para que havemos de tornar a falar nisso? - interrompeu Ana, com uma irritao que no soube evitar. "De facto no h necessidade", pensou ela, "de um homem que se quis matar querer dizer adeus  mulher a quem ama e que pelo seu lado no pode viver
sem ele!"
Apertou os lbios e baixou os olhos para as grossas mos que o
marido esfregava, lentamente, uma na outra.
- No falemos mais nisso - acrescentou ela, em tom mais sereno.
- Deixei que fosses tu a resolver esse problema com toda a liberdade, e sinto-me feliz por ver...
- Que os meus desejos esto de acordo com os seus - concluiu Ana, agastada de o ouvir falar to pausadamente quando ela sabia de antemo tudo o que havia a dizer.
- Sim - confirmou ele -, e a princesa Tvetskaia faz mal em imiscuir-se, a despropsito, em penosos assuntos de famlia, ela sobretudo
que.,.
- No acredito em coisa alguma do que se diz, e ela estima-me
sinceramente.
Alexei Alexandrovitch suspirou e calou-se. Ana agitava nervosamente o cordo do penteador e olhava-o de vez em quando com esse sentimento de repulsa fsica que no podia deixar de se censurar a si prpria, embora fosse incapaz de o dominar. A presena daquele homem era-lhe odiosa e no pensava noutra coisa seno em ver-se livre dele
o mais depressa possvel.
- Acabo de mandar chamar o mdico - disse, por fim, Alexei
Alexandrovitch.
- Para qu? Sinto-me bem.
- Para a menina que est a chorar muito; parece que a ama tem
pouco leite.
- Por que no consentiste que eu a amamentasse, quando eu pedi tanto que me deixassem experimentar? Apesar de tudo (Karenine percebeu o que ela queria dizer com esse "apesar de tudo")  uma aiana e acabaro por mat-la. - Ana chamou a criada e mandou que lhe trouxessem a menina. - Pedi que ma deixassem criar, no mo consentiram, e agora censuram-me por isso...
- No te censuro nada...
- Sim! Acho que sim, que me censura! Meu Deus, por que no morri eu? - E rompeu em soluos. - Perdoe-me, estou nervosa, sou injusta - continuou ela, procurando dominar-se. - Mas vai-te embora...
"No, isto no pode continuar assim", disse, resolutamente, Karenine, ao sair do quarto da mulher.
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Nunca se lhe apresentara to claramente como naquele momento ser-lhe impossvel manter semelhante situao perante & sociedade, e Ana nunca deixara transparecer com tamanha evidncia a repulsa que ele lhe inspirava. E tambm nunca se lhe revelara to flagrantemente o poder dessa misteriosa fora brutal que, ao arrepio das aspiraes da sua alma, lhe dirigia impetuosamente a vida, exigindo dele uma mudana de atitude em relao  mulher. Tanto a sociedade como a mulher exigiam dele algo que no compreendia bem, mas que lhe despertavam no corao uma revolta que acabaria por destruir o mrito da vitria que tivera sobre si prprio.
Embora de opinio que Ana devia romper com Vronski, estava disposto, se todos achassem impossvel semelhante rompimento, a tolerar as suas relaes, desde que as crianas continuassem junto dele, ao abrigo dos salpicos de lama, e mudana alguma viesse a operar-se na sua prpria existncia.
Esta soluo, por mais abjecta que fosse, seria rrielhor do que um rompimento, o qual, jogando Ana para uma situao vergonhosa e sem sada, acabasse de priv-lo a ele de tudo o que amava. Porm, sentia-se sem foras na luta, sabendo de antemo todos contra ele e prontos a impedirem-no de fazer o que lhe parecia to natural e to sensato, para o obrigarem ao que consideravam um dever.
CAPTULO XXI
 porta do salo, Betsy encontrara-se com Stepane Arkadievitch, que acabava de chegar do Elisseiev, onde tinham recebido ostras frescas.
- Oh, princesa! Que agradvel encontro!-exclamou ele. - Estive em sua casa.
- O encontro no ser longo: vou-me embora - respondeu Betsy, sorrindo, enquanto abotoava uma das luvas,
- Um momento, princesa, antes de calar a luva permita que lhe beije a encantadora mozinha. No h nada de que eu mais goste nas antigas modas do que este costume de beijar a mo s senhoras.
Beijou a mo de Betsy.
- Quando nos tornaremos a ver?
- No o merece muito - respondeu Betsy, sempre a sorrir.
- Oh, mereo, sim! Estou feito o mais srio dos homens: no s trato das minhas coisas pessoais, mas at das dos outros - disse ele, com importncia.
- Realmente? Estou maravilhada - respondeu Betsy, percebendo que se referia a Ana.
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E, voltando para dentro do salo, arrastou Oblonski para um canto
da casa
- Acabara por mata Ia - murmurou ela, convencida-, isto e im
possvel, impossvel1
- Ainda bem que pensa assim - respondeu Stepane Arkadievitch, abanando a cabea numa comiserao cheia de simpatia -Foi por isso
que vim a Moscovo
- Todos falam no caso A situao  intolervel A desgraada esta a consumir se a olhos vistos Ele no compreende que ela pertence ao numero das mulheres cujos sentimentos no podem servir de joguete De duas uma ou a leva daqui para fora procedendo energicamente ou pede o divorcio De contrario esta situao acaba com ela
- Sim sim  verdade - disse Oblonski suspirando - Foi para isso que eu vim ou antes, no, no inteiramente por isso Acabo de ser nomeado camarista e tenho que apresentar os agradecimentos a quem de direito Mas o mais importante  resolver este assunto
- Pois bem, que Deus o ajude - disse Betsy
Oblonski acompanhou a ate a porta, tornou a beijar lhe a mo um pouco acima do canho da luva, ali onde bate o pulso e dizendo lhe uma inconvenincia de tal quilate que Betsy ficou sem saber se deveria ofender se ou sorrir, deixou a e dirigiu se para o quarto da irm
Encontrou a lavada em lagrimas
Apesar do seu estado de esprito jovial, que espalhava alegria por onde passava, Stepane Arkadievitch adoptou, com naturalidade, o tom poeticamente exaltado que convinha aos sentimentos de Ana Perguntou lhe pela sade e como passara essa manh
- Muito mal, muito mal Passei mal a manh, passei mal o dia, e todos os dias tenho passado mal e assim ho de ser tambm os dias que esto para vir - respondeu lhe ela
- Parece me que te entregas demasiado  melancolia  preciso reagires Faz se mister olhar a vida cara a cara Bem sei que custa
muito mas
- Ouvi dizer que as mulheres amam os homens at nos seus vcios - principiou Ana, de repente-, pois eu, pelo contrrio, odeio at na virtude No posso viver com ele Compreende Io  algo que actua sobre mim fisicamente e me faz perder o domnio de mim mesma  me impossvel, completamente impossvel, viver com ele Que hei de eu fazer' Era desgraada e pensava no ser possvel vir a s Io mais do que j era No podia sequer imaginar o que sofro agora Queres crer' Apesar de saber que  um homem bom e virtuoso, odeio o' Odeio o pela sua prpria magnanimidade Nada me resta seno -quis dizer a morte, mas Stepane Arkadievitch no a deixou concluir
- Ests   doente   e  excitada - disse-lhe-,   exageras   muitssimo A situao no  to horrvel como tu dizes
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E Stepane Arkadievitch sortiu Ningum no seu lugar, ao tratar de assunto to desesperado, se teria permitido sorrir (pareceria extemporneo) , mas no seu sorriso, de uma ternura quase feminina, havia tamanha bondade que no podia considerar se ofensivo Pelo contrrio, amenizava, era quase sedativo As suas apaziguadoras palavras e o seu sorriso agiam to suavemente como leo de amndoas doces Ana ime diatamente o sentiu
- No, Strva- disse -Estou perdida, estou perdida, pior ainda Ainda no morri nem posso dizer que tudo tenha terminado Pelo contrario, sinto que ainda no terminou Sou como uma corda tensa que tem de acabar por partir Ainda no cheguei ao fim mas h-de ser terrvel
- No, no, a corda pode ir se distendendo, pouco a pouco No h situao que no tenha uma sada
- Pensei muito  S h uma
Stepane Arkadievitch compreendeu pelo olhar de Ana que a sada a que se referia era a morte, e no consentiu que terminasse a frase
- Nada disso - replicou -D licena Tu no podes considerar a tuo situao como eu Permite me que te diga sinceramente a minha opinio - voltou a sorrir, cauteloso, com o seu sorriso de leo de amndoas doces - Comearei pelo princpio casaste te com um homem vinte anos mais velho do que tu, sem amor e sem conheceres o amor Suponhamos que tenha sido este o teu erro
- Erro  pavoroso' - exclamou  Ana
- Mas, repito, este  um facto consumado Depois tiveste a infe hcidade de te enamorares de outro Foi uma desgraa, mas  tambm um facto consumado Teu marido veio a sabe Io, e perdoou te - Stepane Arkadievitch fazia uma pausa depois de cada frase,  espera que Ana objectasse qualquer coisa, mas ela nada dizia -As coisas esto neste p A questo estriba se agora em saber se podes continuar a viver com teu marido, se  esse o teu desejo e se esse  o desejo dele
- No sei nada, no sei nada
- Mas tu prpria me disseste que o no podias suportar
- No, no o disse Retiro as minhas palavras No sei nem entendo nada
- Sim, mas permite
- Tu no podes compreender Sinto que ca de cabea para baixo at ao fundo de um precipcio e que nada devo fazer para me salvar No posso
- Pouco importa Teremos o cuidado de pr qualquer coisa l no fundo e de te apanharmos no ar Compreendo te, compreendo que no possas decidir-te a exprimir o teu desejo nem os teus sentimentos
- No desejo nada, no desejo nada     Apenas que tudo isto acabe
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- Mas ele v e sabe o que h, julgas que sofre menos do que tu' Atormentas te a ti e a ele Que pode resultar de tudo isto' Em compensao, o divrcio tudo soluciona - concluiu, no sem esforo, Stepane
Arkadievitch
Exprimira a sua ideia fundamental e agora olhava para Ana com
uma expresso significativa
Ana, sem responder, moveu negativamente a cabea de cabelos aparados Mas pela expresso do seu rosto, repentinamente iluminada de beleza antiga, Oblonski compreendeu que, se o no desejava, era apenas por considerar tal soluo uma felicidade inacessvel
- Tenho muita pena de vocs1 Que feliz seria se pudesse dar-lhes remdio - exclamou Stepane Arkadievitch, sorrindo com mais resoluo - No me digas nada, no me digas nada1 Se Deus me permitisse dizer as coisas como as sinto Vou falar com o teu marido
Ana fitou o irmo, com olhos brilhantes e pensativos, e no lhe
disse nada
CAPTULO XXII
Stepane Arkadievitch entrou no escritrio de Karemne naquela atitude um tanto solene com que costumava ocupar a poltrona de presidente das sesses da sua auditoria Alexei Alexandrovitch, de mos atras das costas, passeava de um lado para o outro, pensando nisso mesmo em que Oblonski falara com Ana
- Incomodo te' - perguntou Stepane Arkadievitch, ao ver que o cunhado ficara perturbado, coisa inslita nele
Para disfarar, Karemne puxou de uma cigarreira especial que acabara de comprar, cheirou a e tirou um cigarro
- No Precisas de alguma coisa' - respondeu, sem pressa, Alexei
Alexandrovitch
- Preciso Queria Necessitava de sim, queria f alar te - respondeu Stepane Arkadievitch, surpreendido por se sentir cada vez mais intimidado Aquele sentimento era nele to inesperado, to estranho, que a Oblonski no ocorreu que podia ser a voz da conscincia a dizer lhe que ia cometer qualquer aco m Com um grande esforo, venceu a
timidez que o inibia
- Espero que acredites no carinho que tenho pela minha irm e no respeito e afecto sinceros que te tributo - disse, corando
Alexei Alexandrovitch parou sem responder, mas a sua expresso de vtima resignada impressionou Oblonski
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- Pois bem - continuou ele incapaz de recuperar a serenidade - Eu tinha a inteno de te falar de minha irm e da situao dos dois.
Alexei Alexandrovitch olhou para o cunhado com um sorriso triste e, sem lhe responder, pegou numa carta inacabada que estava em cima da mesa e apresentou lha.
- No penso noutra coisa - disse ele, por fim. -Aqui tens o que eu procurei dizer lhe, pensando que me exprimiria melhor por escrito, pois a minha presena a irrita.
Stepane Arkadievitch considerou com espanto os olhos ternos do cunhado fitos nele, pegou no papel e leu o
Vejo que a- minha presena- lhe  desagradvel; por mats penosa que me seja reconhece Io,  isto que verifico e que no pode ser de outra maneira No a censuro de nada S Deus sabe que durante a sua doena tomei a firme resoluo de esquecer o fossado e de principiar vtda nova No me arrependo, nunca me arrependerei do que ento fiz Mas era a sua salvao, a salvao da sua alma que eu desejava, e verifico que o no consegui Peo lhe que me diga o que lhe poderia restituir a paz e a felicidade Desde j me submeto ao sentimento de justia que porventura guiar a sua deciso
Stepane Arkadievitch voltou a entregar a carta ao cunhado e conti nuou a observa Io cheio de perplexidade, sem saber que dizer Aquele silncio era penoso para os dois Os lbios de Oblonski tremiam
- Aqui tem o que eu queria fazer lhe saber - pronunciou, enfim, Karemne, voltando-se
- Sim sim -balbuciou Stepane Arkadievitch, que sentia um soluo na garganta -Sim - pde, finalmente, dizer-, compreendo
- Que quer ela', eis o que eu gostaria de saber
- Receio que nem ela prpria o saiba Ela no pode ser juiz na questo - disse Oblonski, procurando dominar se - Est arrasada, hte ralmente arrasada pela grandeza da tua alma Se ela ler a tua carta, ser incapaz de responder e no far seno vergar ainda mais a cabea
- Mas ento que hei de eu fazer' Como explicar lhe' Como conhecer-lhe os desejos'
- Se me autorizas a emitir a minha opinio, a ti compete apontares claramente as medidas que achas susceptveis de resolver de vez a situao
- Por conseguinte, entendes que  preciso resolver de vez a situao' - interrompeu Karemne -Mas como' - acrescentou, passando a mo por diante dos olhos, num gesto seu habitual - No vejo sada possvel
- Todas as situaes tm uma sada - disse Oblonski, levantando-se e arumando-se a pouco e pouco - Pensaste outrora no divrcio Se ests convencido de que a felicidade  impossvel entre vocs
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- Pode conceber-se a felicidade de maneiras muito diferentes Admitamos  que  aceito  tudo-  como vamos  ns  sair  desta  situao'
- Queres a minha opinio - disse Stepane Arkadievitch com o mesmo sorriso untuoso que tivera para a irm E esse sorriso era to persuasivo que Karemne, cedendo  fraqueza que o invadia, sentiu-se inteiramente predisposto a acreditar em tudo o que o cunhado lhe dissesse. - Ela nunca dir o que quer Mas no pode desejar seno uma coisa romper os laos que lhe lembram cruis recordaes Na minha opinio,  indispensvel tornar as suas relaes mais claras, o que no pode conseguir-se seno retomando cada um .de vocs a sua respectiva liberdade
- O divrcio1 - interrompeu com repugnncia
- Sim, acho que sim, o divrcio     sim,  isso mesmo, o divrcio
- repetiu Stepane Arkadievitch, corando -A todos os ttulos  o partido mais sensato, quando dois cnjuges se encontram na situao em que vocs se encontram Que se h-de fazer, quando a vida em comum se torna intolervel' E isso so coisas que acontecem muitas vezes Alexei Alexandrovitch soltou um profundo suspiro e tapou os olhos com as mos
- S h uma coisa a ter em considerao querer um dos dois cnjuges, sim ou no, contrair novo matrimnio' Se a resposta  no, o divrcio no oferece dificuldade alguma - continuou Stepane Arka-dievitch cada vez mais  vontade
Alexei Alexandrovitch, a fisionomia conturbada pela emoo, murmurou qualquer coisa entre dentes, mas no respondeu Aquilo que a Stepane Arkadievitch se lhe afigurava to simples j ele o pensara milhares de vezes E no s o no considerava simples, mas comple-tamente impossvel O divrcio, cujos pormenores conhecia j, parecia-lhe impossvel agora, porque o sentimento da sua prpria dignidade e o respeito pela religio no lhe permitiam assumir a responsabilidade de um adultrio fictcio e muito menos ainda tolerar que a sua prpria mulher, a quem perdoara e a quem amava, viesse a ser considerada culpada e vilipendiada O divrcio parecia-lhe impossvel, alm disso, por outros motivos ainda mais importantes
Que seria de seu filho se se divorciasse' Era impossvel deixa Io com a me A me, divorciada, constituiria uma famlia ilegtima, em que a situao do enteado no poderia deixar de ser m Ficar ele com o filho' Seria vingana da sua parte e no desejava vingar se E sobretudo parecia-
-Ihe o divrcio impossvel, pois, consentindo nele, tornar se ia responsvel da perdio de Ana Tinham-lhe calado fundo na alma as palavras que lhe dissera Dana Alexandrovna em Moscovo, quando lhe fizera ver que, pedindo o divrcio, s em si prprio pensava, provocando desse modo a definitiva perdio da mulher Relacionando essas palavras com o facto de ter perdoado e o carinho que sentia pelas crianas, interpretava as agora  sua maneira Se consentisse no divrcio, deixava Ana completa-
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l
mente livre, isto , rompia os ltimos laos que o prendiam  vida - as crianas a quem tanto queria-, acabava com o ltimo apoio com que contava no caminho do bem, empurrando-a para o abismo Uma vez divorciada, Karemne tinha a certeza de que Ana se lanaria nos braos de Vronski, tornando se ilegtimas e culposas as suas relaes, visto que, segundo a lei da Igreja, a mulher no pode ter outro mando enquanto viver o primeiro "Ana juntar-se  com ele, um ou dois anos depois Vronski abondon-la- ou ela passar a ter relaes com outro", pensava Alexei Alexandrovitch "E eu, consentindo nesse divrcio lcito, serei o responsvel da sua perdio " Karemne pensara em tudo isto milhares de vezes e estava convencido de que o problema do divrcio no s no era simples, como afirmara o cunhado, mas mesmo impraticvel Embora no acreditasse nas palavras de Oblonski e tivesse muitas objeces a fazer-lhe, ouvia-o, certo de que nessas palavras se traduzia aquela fora poderosa e trivial que lhe orientava a vida e a que teria de submeter-se
- S resta saber agora as condies em que consentes no divrcio Ela nada quer Nada se atreve a pedir-te e submeter-se-  tua magnanimidade
"Meu Deus1 Meu Deus1 Por que me castigas assim'", suspirou Alexei Alexandrovitch, recordando-se dos pormenores do divrcio em que o mando tomava a responsabilidade, e, num gesto idntico ao de Vronski, tapou o rosto com as mos, tamanha a vergonha que sentia
- Ests perturbado, compreendo o perfeitamente Mas, se pensares bem .
"Oferece a face esquerda a quem te esbofetear a direita e d a camisa a quem te tiver tirado o cafet", pensou Alexei Alexandrovitch
- Sim, sim - exclamou em voz aguda - A vergonha ser minha, ceder-lhe-ei mesmo o meu filho, mas no ser melhor que deixemos isso? De resto, faz o que tu quiseres
E, voltando as costas ao cunhado, de molde a no o ver, sentou se numa cadeira junto  janela Sentia amargura e uma grande vergonha, se bem que ao mesmo tempo o tomassem a alegria e o enternecimento que vinham da conscincia da sua prpria humildade
Stepane Arkadievitch estava comovido  Permanecia calado
- Alexei Alexandrovitch, acredita Ana saber apreciar a tua magnanimidade - disse, por fim -Esta  a vontade divina - acrescentou, e, ao pronunciar estas palavras, percebendo que dissera uma tolice s a muito custo conseguiu reprimir um sorriso
Karemne quis responder-lhe qualquer coisa, as lgrimas, porm, embargaram-lhe a voz
-  uma desgraa fatal e o remdio  aceita Ia Aceito-a como um facto consumado e procurarei ajud-los a ambos - disse Stepane Arka-dievitch
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Quando saiu do escritrio do cunhado, embora se sentisse comovido, tambm experimentava uma certa alegria, a alegria de ter conseguido resolver a situao com pleno xito, persuadido como estava de que Alexei Alexandrovitch nunca voltaria com a palavra atrs. E a uma tal situao vinha associar-se a ideia de que, uma vez tudo aquilo acabado, poderia dizer  mulher e aos amigos ntimos: "Onde est a diferena entre mim e um marechal de campo? Pois bem: enquanto um marechal de campo comanda uma parada sem benefcio para ningum, eu consigo um divrcio com que se beneficiam trs pessoas '. Ou ento, em que  que nos parecemos, um marechal de campo e eu?... Quando... Bom, h-de ocorrer qualquer coisa melhor", concluiu para si mesmo, sorrindo.
CAPITULO XXIII
A ferida de Vronski era perigosa, embora a bala no tivesse atingido o corao. Durante alguns dias esteve entre a vida e a morte. Quando pde falar pela primeira vez, s Vria, a mulher do irmo, se encontrava  sua cabeceira.
- Vria - disse Vronski, fitando-a com uma expresso grave -, a arma disparou-se por casualidade. Peo-te que digas isso mesmo a todos e que no faas comentrios. De outra forma, seria demasiado estpido.
Sem lhe responder, Vria debruou-se para ele e fitou-o com um sorriso de contentamento. Os olhos de Vronski estavam claros, no febris, mas a expresso era grave.
- Louvado seja Deus! - exclamou Vria. - Di-te alguma coisa?
- Aqui, um bocado - e Vronski apontou a arca do peito.
- Ento, vou mudar-te o penso.
Vronski, em silncio, comprimia as fortes mandbulas, enquanto Vria lhe mudava o penso. Quando acabou, Vronski disse-lhe:
- No estou a delirar. Peo-te que procures que se no diga que disparei deliberadamente.
- Ningum diz semelhante coisa. Mas espero que no voltes a disparar sem querer - comentou Vria, interrogativa, com um sorriso.
-  provvel que o no faa, embora tivesse sido melhor...
E Vronski sorriu tristemente.
Apesar destas palavras e do sorriso que as sublinhou, coisa que tanto assustou Vria, logo que a inflamao decresceu e principiou a melhorar, Vronski sentiu que se libertara por completo de uma parte das suas
' Jogo de palavras: em russo, divrcio e parada designam-se com o mesmo termo.
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aflies. Com o acto que praticara, afigurava-se-lhe ter sanado a vergonha e a humilhao por que passara. Agora podia pensar tranquilamente em Alexei Alexandrovitch. Reconhecia-lhe a grandeza de alma e j no se sentia humilhado. Alis, entrou de novo na engrenagem da sua vida anterior. Admitia a possibilidade de fitar as pessoas nos olhos sem pejo e de retomar a sua vida habitual de acordo com os princpios que a regiam. A nica dor que no podia arrancar do corao, apesar da luta que constantemente travava contra esse desesperado sentimento, era a dor de ter perdido Ana para sempre. Resolvera, firmemente, que uma vez que expiara a sua falta perante Karenine, devia renunciar a Ana e no mais se interpor entre a mulher arrependida e o marido. No conseguia, porm, arrancar do corao a mgoa que lhe causava a perda desse amor nem esquecer de todo os momentos felizes passados com Ana, momentos que to pouco apreciara ento e agora o perseguiam com todo o seu sortilgio. Serpukovski conseguiu que lhe oferecessem uma misso em Tach-kent, e Vronski aceitou-a sem vacilar. Mas  medida que se aproximava . a data da partida mais penoso se lhe revelava o sacrifcio que fazia no altar do dever.
A ferida curou-se. Vronski j saa de casa para tratar dos preparativos da jornada.
"V-la ainda uma vez, e depois enterrar-me, morrer!", pensava. Quando foi despedir-se de Betsy disse-lhe isso mesmo.
Com essa embaixada deslocou-se Betsy a casa de Ana e de l voltou com resposta negativa.
"Tanto melhor", murmurou Vronski com os seus botes, ao receber a resposta. "Era uma fraqueza que me teria consumido as ltimas foras." No dia seguinte, pela manh, Betsy foi a casa de Vronski. Comunicou-lhe que recebera, por intermdio de Stepane Arkadievitch, a certeza de que Karenine consentia no divrcio e que, portanto, ele podia encontrar-se com Ana.
Sem se preocupar sequer em conduzir Betsy at  porta, esquecido de todas as resolues que tomara e sem inquirir quando podia visitar Ana e onde estaria o marido, dirigiu-se imediatamente a casa dos Karenine. Subiu a escada correndo, sem ver nada nem ningum, e, em passo rpido, incapaz de o reprimir, penetrou nos aposentos de Ana. No procurou saber se havia ou no algum no quarto e estreitou Ana nos braos, cobrindo-lhe de beijos o rosto, as mos e o colo. Ana tinha estudado a forma de o receber e pensara no que lhe diria; ele, contudo, no lhe deu tempo para nada. A paixo de Vronski apoderou-se dela tambm. Teria querido aquiet-lo e aquietar-se a si prpria, mas j era tarde. O sentimento de Vronski comunicara-se-lhe. De tal modo lhe tremiam os lbios, que por muito tempo no pde dizer nada. - Sim, conquistaste-me, sou tua - pronunciou, finalmente, apertando contra o seio as mos de Vronski.
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- Tinha de ser assim - replicou este. - Enquanto vivermos ter de ser assim. Agora tenho a certeza.
-  verdade - confirmou Ana, empalidecendo cada ve mais e enleando a cabea de Vronski. - No entanto, h qualquer coisa de terrvel em tudo isto, depois do que se passou.
- Tudo passar, tudo passar, e seremos felizes. O nosso amor, se pudesse crescer, cresceria, pois h nele qualquer coisa de terrvel - replicou Vronski, levantando a cabea e mostrando os fortes dentes na boca que sorria.
E Ana no pde deixar de responder com um sorriso, no s palavras de Vronski, mas aos seus olhos enamorados. Pegou-lhe numa das mos e com ela afagou a sua prpria face muito fria e os seus cabelos curtos.
- No te reconheo com esses cabelos cortados. Ests muito melhor. Pareces um garoto. Mas que plida!
- Sim, estou muito fraca - respondeu Ana, sorrindo. E de novo lhe tremeram os lbios.
- Iremos a Itlia. Restabelecer-te-s.
- Ser possvel que possamos viver como marido e mulher, os dois ss, uma famlia ?- perguntou Ana, fitando-o nos olhos, muito prximo dele.
- A nica coisa que me surpreende  que alguma v"z tenha podido ser de outra maneira.
- Stiva disse que ele consente em tudo, mas no posso aceitar a sua. magnanimidade - tornou Ana, olhando-o, pensativa, mais para alm de Vronski. - No quero pedir o divrcio. Agora  o mesmo para mim. S no sei o que ele ir decidir a respeito de Seriocha.
Vronski no compreendeu que Ana, durante aquela entrevista, pudesse pensar no filho e no divrcio. Porventura teria isso alguma importncia ?
- No fales em semelhante coisa, no penses nisso - disse-lhe, pegando-lhe na mo e procurando distra-la. Mas Ana continuou sem olhar para ele.
- Oh! Porque no morri eu? Teria sido melhor! - exclamou ela, e lgrimas silenciosas lhe deslizaram pelo rosto. No entanto, procurou sorrir para no entristecer Vronski.
At ento, Vronski teria julgado impossvel subtrair-se  lisonjeira e perigosa misso de Tachkent. Agora, pelo contrrio, recusou-a sem hesitar. E ao dar-se conta de que a recusa fora mal interpretada nas altas esferas, pediu a exonerao.
Um ms depois, Alexei Alexandrovitch ficava s com o filho, enquanto Ana partia para o estrangeiro na companhia de Vronski, depois de ter renunciado definitivamente ao divrcio.



FIM DO PRIMEIRO VOLUME
